Shikihime

9 VIII - Um sopro do destino


Denhaar

Niccolai adentrou o recinto na frente de Yuna, que a seguia com as mãos unidas diante do corpo num misto de timidez e desconfiança. Logo a segunda viu-se diante de um enorme salão que lhe era familiar, até lembrar-se de que foi nele que aconteceu a reunião a qual ela e a princesa espionaram no dia anterior. Corou levemente.

Elas se aproximaram e Yuna pôde ver diante de si um trono no qual se encontrava o rei, que já havia conhecido de longe no dia anterior, e ao seu lado esquerdo uma mulher já madura e bastante séria, embora muito bonita. Lune postava-se de pé à direita do soberano, como se fosse algum tipo de conselheiro. Quando já mais próximas, Niccolai curvou-se ligeiramente com os punhos unidos e cerrados diante do corpo. Yuna, apesar de não entender o que o gesto significava, achou melhor imitá-la novamente, provavelmente era assim que se dirigiam de forma respeitosa ao rei.

-Majestade... – Lune principiou a falar, descendo os três degraus que nivelavam o trono do soberano acima do resto do salão e aproximou-se de Yuna. – Permita-me agora apresenta-lo devidamente a garota. – E tomando-a pelos ombros, ele a fez se aproximar de Frid sob os olhares confusos e hesitantes dela. – Por favor perdoe-me gostaria de ter tido antes oportunidade de apresenta-la diretamente à vossa majestade, mas não foi possível. – Lune mantinha a cabeça baixa em respeito enquanto falava. Yuna olhava para todos os lados também com a cabeça baixa, não sabia se devia dizer algo, então na dúvida preferiu calar-se. Também evitava olhar diretamente a figura do rei ou de sua esposa, embora em alguns momentos não conseguisse se furtar a lançar um olhar curioso a eles; O rei tinha expressão forte e olhar atento, a observava fixamente, já a rainha estava demasiadamente séria enquanto também a encarava. Yuna nunca se sentira tão desconfortável.

Nesse momento Frid ergueu-se e todos lhe fizeram uma reverência, que Yuna imitou prontamente. Mesmo quando Niccolai e Lune já haviam se erguido, ela estava tão nervosa que manteve-se inclinada ao notar que ele estava se aproximando dela. O soberano por sua vez a mirava num misto de curiosidade e confusão em suas feições enrugadas.

-Deixe-me olhá-la de perto, criança. Meus velhos olhos já não conseguem ver tão bem à distância – Ele disse antes de colocar delicadamente uma mão sobre o ombro da garota, que só então foi se erguendo lentamente, ficando de frente para ele, mas ainda sem saber se devia ou não encará-lo. Frid pôde perceber toda a dúvida e nervosismo nos olhos dela. – Como você é jovem... Deve ter a mesma idade de Niccolai. – E dizendo isso, suspirou levemente. – No dia que a estrela apareceu no céu, Lune me avisou que seguiria a profecia e iria atrás da encarnação da Deusa no mundo oculto. – Tais palavras fizeram Niccolai e Annia arregalaram os olhos. A rainha levantou-se de seu trono e foi até o mais velho.

-Você... sabia que Lune faria isso? – Ela perguntou surpresa.

-Sim. A missão era secreta e por isso nós dois achamos melhor que ninguém além de Niccolai e Heero, que o assistiriam, ficasse sabendo disso. Nem mesmo você, Annia. Mesmo que poucos ainda acreditem nessa profecia, achamos que seria mais prudente manter a presença dela em segredo absoluto. Não quero olhos estrangeiros mais interessados ainda sobre Denhaar, sabe-se lá que tipo de boatos podem ser espalhados.

-Somente nós aqui presentes, Serge, Ehren, e Heero sabem da sua presença aqui, Yuna. A razão de você estar aqui é muito delicada, está ligada a um grande poder, e seria perigoso para a postura pacífica de Denhaar que a atenção dos demais se voltasse para nós, principalmente a Trovithera e agora, Uhr. – Lune explicou.

-Quer dizer que todos vocês acreditam de verdade que eu sou mesmo uma deusa ou qualquer coisa assim? – Pela primeira vez a voz de Yuna foi ouvida no salão, mas o silêncio que sucedeu sua pergunta a fez encolher-se novamente quando o rei a olhou.

-Você não acredita que pode ter algum poder, criança? – Frid perguntou-lhe.

-Pra ser bem sincera, não. – A garota respondeu em voz baixa e com franqueza, embora não encarasse o rei. Não sabia se era certo dizer o que havia dito, mas era o que sentia dentro de si.

-Estão vendo só? Nem ela mesma acredita, talvez tudo isso tenha sido um equívoco. – A rainha sentou-se novamente falando com certa impaciência.

-Minha senhora, lhe asseguro que não é um equívoco, tudo aconteceu exatamente como na profecia, Heero poderá explicar melhor assim que aparecer. – O sacerdote colocou-se imediatamente.

-A propósito, onde estão ele e meus irmãos? – Niccolai fez-se presente, olhando ao redor e dando-se conta de que os três ainda não haviam chegado.

-Heero e Ehren foram atrás de Serge que ainda não tinha aparecido essa manhã. Por sinal eles estão demorando muito... – Lune concluiu sentindo um leve e inexplicável desconforto. De súbito, Yuna arregalou os olhos e pôde ver novamente a mesma imagem que havia presenciando no sonho ao amanhecer, como se fosse um déjà vu, porém muito mais nítido do que da primeira vez. – Yuna? – Lune a chamou ao notar sua expressão estranha, fazendo-a voltar à realidade e olhá-lo. – O que houve?

-Nada, eu... Só estava me lembrando de um sonho que tive hoje. – Ela disse, fazendo Lune se aproximar com ar sério.

-Sonho? Que sonho? – Ele perguntou.

-Um cavaleiro de capa preta e um exército mas... Por que isso é importante? – Yuna perguntou olhando-o confusa.

-Me diga o que você viu nesse sonho. – Ele disse, fazendo-a olhá-lo com certa impaciência.

-Não, chega disso! Foi só um sonho bobo e sem importância, por que levar tão a sério?! — Nesse exato momento, as portas do recinto se abriram e Heero e Ehren entraram rapidamente, chamando a atenção dos presentes.

-Serge sumiu. – Heero falou enquanto entrava, todos o olharam sem entender.

-Como assim sumiu? – O rei perguntou.

-Nós o procuramos em todo o castelo, os guardas disseram que ele saiu durante a madrugada e não voltou. – O príncipe mais velho disse com o semblante sério. Lune arregalou os olhos, a sensação ruim que sentira agora se transformava num péssimo pressentimento e então voltou-se a Yuna fazendo-a encará-lo, havia enorme seriedade em seu olhar.

-Me diga exatamente o que viu no sonho! – Lune ordenou-lhe, parecia preocupado.

-Era um cavaleiro indo lutar sozinho com um exército! – Yuna respondeu confusa.

-Viu o rosto desse cavaleiro? – Frid lhe tocou o ombro, fazendo-a olhá-lo ao ouvi-lo perguntar.

-Não, ele usava uma capa que cobria o rosto. – Lune a soltou e mirou o chão pensativo. Logo lembrou-se da ideia de Serge sobre resgatar a princesa das mãos do exército de Uhr e de tê-lo visto conversando estranhamente com o nada confiável Dankell. Juntou isso às visões de Yuna; primeiro um céu tingido de sangue e uma enorme batalha associados à imagem que Yuna teve de Dankell , depois um cavaleiro solitário indo contra um exército. Agora Serge desapareceu. Era coincidência demais.

-No que está pensando, Lune? – Heero perguntou aproximando-se do sacerdote, conhecia bem aquele semblante no rosto dele.

-Ontem, durante a reunião, Serge parecia bastante indignado e sugeriu que atacássemos o exército de Uhr para resgatar a princesa de Oran. Logo em seguida eu o vi conversando em particular com Dankell, um dos nossos visitantes – Lune falava e então olhou para Yuna – Quando Yuna viu Dankell ontem durante o almoço ela teve a visão de uma grande batalha e disse “o lobo se infiltrou entre os cordeiros”... Agora ela vê um cavaleiro solitário contra um exército e Serge desaparece.

-Espera aí, você acha que esse cavaleiro é o...

-Serge! – Ehren interrompeu a fala de Heero com sua voz grave enquanto cerrava os punhos, fechando os olhos nervosamente. – Eu devia saber que ele tentaria alguma coisa, aquele moleque! — Esbravejava, e o rei, em seu susto, recuou até o trono e sentou-se com dificuldade embora fosse ajudado por Annia, que estava atônita.

-Heero, Ehren, vão até a fronteira e tentem descobrir alguma coisa. Rápido! – Lune ordenou e os dois se foram rapidamente. Yuna observava toda a cena e o clima pesado sem parecer entender bem o que acontecia, mas todo aquela atmosfera de nervosismo acabava por deixa-la nervosa também.

-Não é possível, meu filho não seria louco de atacar um exército inteiro sozinho! – A rainha aproximou-se de Lune, estava bastante aflita.

-Talvez ele seja, Annia... – Frid disse em sua voz enrouquecida, com olhar baixo e pensativo, fazendo a atenção dos presentes voltarem-se a ele. – Serge é jovem, imaturo... Ele é corajoso e justo, mas também inconsequente... – O rei quedou-se pensativo, havia extrema preocupação em seu semblante, muito além do risco diplomático que aquela ação poderia representar, seu coração se enchia de aflição pelo risco que o filho corria naquele momento. Annia por sua vez levou as mãos ao rosto e sentou-se, Niccolai foi até ela e a abraçou forte, dividindo com ela o sentimento de preocupação que sentiam.

Yuna observava a tudo confusa, mesmo que sentisse que nada daquilo lhe dizia respeito, não pôde deixar de sentir o coração apertado. Cerrou os punhos e olhou o chão pensativa, havia um misto de medo e tristeza em sua expressão que Lune conseguiu captar ao olhá-la, antes de se aproximar.

-Yuna, é melhor vir comigo... – O sacerdote lhe disse em voz baixa e gentil, tomando-a pelo ombro e levando-a com ele para fora daquele salão. Enquanto andavam pelos corredores, ela finalmente quebrou o silêncio.

-Por que eu estou vendo essas coisas, Lune? – O sacerdote estancou os passos e a olhou.

-Talvez você devesse ter mais fé nas suas próprias capacidades, Yuna. Algumas pessoas tem dons especiais, diferentes das outras, e muitas vezes não conseguimos explicar a razão. Mas eu reafirmo que no seu caso há algo muito maior, muito mais especial, e que você não deveria tentar reprimir. – As palavras do sacerdote a fizeram olhá-lo com dúvida. Ele suspirou e novamente voltou a andar ao lado dela. – Eu conheci uma garota como você, certa vez. Ela também era capaz de ver coisas que a assustavam muito e que ela não conseguia explicar o motivo. Ela lutou muito contra esse dom, mas os seus esforços em reprimi-los ou ignorá-los eram inúteis... Até que um dia ela percebeu que sua capacidade fazia parte de algo muito maior que ela própria, que nada nos acontece em vão. Foi só então que ela conseguiu encontrar paz... – Yuna o olhou surpresa ao ouvir tal história. Mas novamente seus olhos encheram-se de medo e ela voltou-se ao chão, cerrando os punhos e apertando os lábios, seus olhos pareciam marejados. Lune cerrou levemente o cenho ao perceber que havia enorme temor no olhar dela e a segurou gentilmente pelos ombros. – Há algo mais lhe amedrontando, Yuna. – O sacerdote disse-lhe.

-Lembra da... “Visão” que eu tive ontem, no almoço? – Ela falava sem encará-lo. Ele simplesmente assentiu. – Teve uma parte que eu esqueci de contar...

-Que parte? – Ele perguntou sem entender.

-Eu vi um homem ser morto enquanto lutava. Eu não vi o rosto, mas era um homem, parecia ser jovem... – Ela disse com a voz levemente trêmula e Lune arqueou assustado as sobrancelhas. – Se você diz que eu sou uma Deusa ou coisa assim, e que eu sou capaz de prever o futuro... Se no sonho que eu tive hoje, o cavaleiro solitário era o príncipe, talvez na visão que eu tive ontem o rapaz morrendo também seja... – Ela falava em voz baixa, quase inaudível. Lune estava claramente assustado com tais palavras, não esperava por tal revelação.

-Um jovem... Morto? – O sacerdote engoliu em seco e cerrou os punhos. Uma série de pensamentos lhe vieram à cabeça nesse momento junto com o grande temor pela vida do jovem príncipe. Cogitou a possibilidade de mandar uma tropa atrás dele, mas talvez só piorasse a situação, sentiu como se suas mãos estivesse atadas. Então cerrou os punhos e voltou-se a Yuna, que olhava para o chão com uma expressão de medo e confusão. – Não diremos isso a ninguém, entendeu? O rei e a rainha já estão bastante abalados, Niccolai está assustada, vamos esperar o que pode acontecer... E torcer para que sua visão não se concretize. – E dizendo isso, ele tocou-lhe o ombro e a acompanhou pelos corredores até desaparecerem entre as paredes de pedra.

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Algum lugar entre Oran e Uhr

Já estava perto de anoitecer quando o príncipe e seu pequeno grupo de soldados leais avistaram do alto de um morro o grandioso exército de Uhr que marchava de volta pra casa, seguindo a trilha de um pequeno vale que logo mais lhes serviria de abrigo. Estavam ainda a algumas horas de alcançar as fronteiras de Uhr e provavelmente descansariam durante a noite para seguir viagem no dia seguinte. Com esse pensamento, Serge guiava seus seguidores sobre o morro enquanto acompanhavam as tropas que passavam despreocupadas em direção a casa. Ele conhecia bem aquelas trilhas, os meses que passou em missão fora de casa o ajudaram a reconhecer aquelas passagens, de forma que sabia bem por onde andar. Ainda por cima tinha a vantagem da distração dos inimigos que não esperavam qualquer tipo de incômodo ofensivo àquele momento.

Sua estratégia era simples e bastante fácil de ser executada na teoria: Ele se infiltraria no exército inimigo, chegaria até a princesa, a resgataria despercebidamente e a levaria com ele para Denhaar. As dificuldades e imprevistos eram meros detalhes, boa parte de sua mente era ocupada apenas pelo reconhecimento que receberia ao retornar triunfante após salvar a princesa das garras do rei cruel. Serge olhava confiante o aglomerado de homens que se locomovia lá embaixo. Ele e seu grupo haviam descansado por algumas horas desde o momento em que saíram em missão na madrugada anterior, cavalgando a toda força para conseguir alcançar rapidamente o grupo inimigo, numeroso e lento.

Tão logo a lua ia ficando alta no céu, o exército de Uhr interrompia sua marcha e se preparava para montar acampamento. Serge observava atento a movimentação. Camuflado pelo véu noturno ele e seus homens pararam e amarraram os cavalos. Enquanto os observava com cuidado, aproveitou para colocar em ordem seus planos. Nada poderia dar errado.

-Bom homens, vamos esperar que estejam totalmente vulneráveis para agirmos – Serge falava sendo atentamente ouvido pelos guerreiros – Vamos repassar o plano: Eu e Liam pegaremos dois soldados distraídos e roubaremos suas roupas para nos disfarçar, assim nos infiltraremos no exército. Quando conseguirmos, vocês dois deixarão os nossos cavalos amarrados ali, escondidos naquelas rochas, nós vamos usá-los para nos afastarmos quando tivermos a princesa. Depois, nos encontraremos ali – e apontou no vale alguns metros adiante um pequeno desfiladeiro cuja passagem poderia ser facilmente feita despercebidamente por um grupo tão pequeno, uma vez que havia vegetação e rochas altas. – Se qualquer coisa sair errado, se formos pegos, vocês nos deixarão para trás e voltarão à Denhaar o mais rápido que puderem, entenderam? – Os soldados acenaram positivamente. O príncipe sorriu e voltou sua atenção ao acampamento lá embaixo, pondo-se a observar calmamente a movimentação.

Uma fogueira foi feita para que os homens do exército pudessem se organizar e se alimentar. Havia bastante movimentação e conversa, o alvo do olhar do príncipe era uma cabana montada a partir de uma diligência, a única guardada por dois soldados armados, a princesa só poderia estar lá. Passando os olhos pelos homens, pôde ver a figura de Horen, que ele não conhecia pessoalmente, mas reconheceu facilmente ao ver que os soldados lhe dirigiam reverências e que suas vestes eram diferenciadas – a postura arrogante dele também era bastante peculiar. Algumas horas foram suficientes para que, aos poucos, a agitação cessasse e aqueles exaustos soldados se entregassem ao descanso merecido, com exceção daqueles responsáveis por fazer a guarda. Haviam dois na cabana da princesa e mais dois próximos a uma cabana maior e mais afasta, a que Horen ocupava. Além destes, outros observavam norte e sul do acampamento, mas não pareciam muito atentos. Na verdade, todos estavam bastante despreocupados, em circunstâncias gerais, um vale entre morros ao lado de um arvoredo fechado não seria um bom lugar para acampar, mas Horen definitivamente não esperava um ataque naquela situação, especialmente tão próximo de casa. O príncipe então viu sua chance para entrar em ação.

Ele e seus companheiros desceram silenciosamente pelo desfiladeiro, puxando os cavalos pelas rédeas. Logo estavam nivelados ao numeroso exército de Uhr alguns metros à diante, mas ocultos pela vegetação e as rochas. Alguns passos foram o suficiente para que tivessem acesso ao arvoredo e assim, ficassem totalmente ocultos pela sombra noturna. Serge ficou na espreita por alguns momentos com Liam, um de seus companheiros, este um jovem loiro de olhos acastanhados. Os outros dois se puseram mais atrás, atentos à qualquer movimento. A diante, dois soldados faziam a guarda um pouco mais afastados dos demais. Serge pensou em fazer algum tipo de barulho para chamar a atenção, mas a sorte parecia estar de seu lado quando um dos soldados, este de barba castanha, se aproximava despreocupado, em direção a uma pedra grande mais afastada do companheiro, mexendo nas calças como se tentasse abri-las. O homem virou-se contra a pedra e com um suspiro aliviado, urinava tranquilamente, sem perceber a movimentação atrás de si. Mal se recompunha ao terminar e numa fração de segundos, sentiu uma mão lhe tampar a boca enquanto um braço forte lhe envolveu a cabeça, virando-a de uma só vez à direita num estalo abafado. Seu corpo sem vida era arrastado para o meio das árvores até desaparecer na penumbra.

Segundos depois, o companheiro sonolento deu pela falta do colega que ainda não voltara. O homem, cujo rosto atabalhoado estava claramente cansado olhou na direção que o outro havia ido e não o encontrou, fazendo-o olhar sem entender.

-Gerid? – Chamou, antes de ir na direção olhando ao redor enquanto o procurava, fazendo-o puxar a espada desconfiado. Tentou chamar novamente, mas antes mesmo que terminasse de dizer o nome, foi puxado rapidamente para trás da rocha, o movimento brusco o fez largar a arma na grama.

Alguns poucos minutos foram necessários para que Serge e Liam aparecessem vestindo as roupas que haviam tomado dos pobres diabos que já não precisariam mais delas. Serge mexia-se dentro das vestes, desconfortável, a que usava havia ficado um pouco grande para seu corpo, mas nada tão aparente. Relancearam os olhos ao redor com desconfiança, mas depois se entreolharam satisfeitos ao ver que tudo estava parado e que ninguém pareceu ter notado o que acontecera ali. Sendo assim, colocaram o plano em ação. Caminhavam discretamente pelo exército mantendo uma distância segura um do outro, enquanto viam muitas cabanas montadas nas quais os homens descansavam. Outros por sua vez repousavam em colchonetes rústicos ao ar livre mesmo, provavelmente os guerreiros de patente mais baixa. Logo se aproximavam da cabana guardada na qual se encontrava a princesa de Oran. Tão logo um dos guardas os viu, chamou-lhes a atenção.

-Vocês aí. – Disse, fazendo os dois jovens congelarem ao olhá-lo, um frio lhes percorreu a espinha, mas mantiveram-se calmos. – Vieram fazer a troca da vigilância? – Perguntou olhando-os com ar de superioridade, embora usasse o mesmo uniforme que os rapazes, demonstrando que eram da mesma patente. Os mais jovens não responderam imediatamente, apenas se entreolharam, e então Serge tomou a palavra.

-Sim, senhor. – Ele respondeu em voz firme, tentando passar segurança.

-Finalmente, estou exausto. – Disse o mais velho em suas feições rígidas. – Fiquem atentos a qualquer movimentação estranha na cabana. Não que eu ache necessário tanta segurança, o rei não deixou que alimentassem essa pobre coitada desde ontem, está fraca, mas ordens são ordens. – Tais palavras fizeram o príncipe cerrar os punhos insatisfeito, Serge não suportava tamanha crueldade para com uma garota indefesa. O soldado e seu companheiro se retiraram e Serge postou-se junto com Liam na entrada da cabana. Os dois se entreolharam por uns momentos, o companheiro do príncipe parecia um tanto preocupado, mas esperava que ele comandasse alguma ação. Serge por sua vez observou ao redor por alguns minutos até que o silêncio tomasse conta daquele ambiente.

-É agora ou nunca, Liam. Eu vou entrar e pegá-la, fique aqui esperando e tente avisar caso algo aconteça. – O rapaz disse, recebendo do outro um aceno positivo, e então adentrou a cabana. Seus olhos logo encontraram adiante a figura que jazia sentada de costas para si, com as mãos fortemente amarradas para trás num poste de madeira que sustentava o centro da barraca. Aproximou-se lentamente e abaixou-se diante da garota de cabelos acobreados que, de cabeça baixa, não pareceu dar-se conta de sua presença. Ele lhe tomou o queixo e ergueu o rosto pálido, olhando-a com preocupação. Foi quando ela abriu com certa dificuldade os olhos e mirou a figura do jovem desconhecido diante de si. Serge ergueu levemente as sobrancelhas ao ver sinal de vida nela.

-Princesa Alina? – Ele saudou com certo alívio.

-Quem é você? – A garota perguntou baixinho em sua voz enfraquecida.

-Sou um amigo, princesa, vim resgatá-la. – E dizendo isso, Serge desembainhou uma bonita faca, que trazia na empunhadura o bravo Leão símbolo de seu país, e cortou as cordas que prendiam os pés e as mãos da garota. Ela segurou os pulsos marcados e vermelhos entre as mãos num semblante surpreso. –Consegue andar? – Perguntou, novamente abaixado diante dela e lhe estendeu a mão. Alina o olhou com desconfiança incialmente, mas lhe segurou a mão, erguendo-se com dificuldade ajudada por aquele estranho. O movimento que fez para levantar-se fez abrir a ferida mal tratada que tinha no abdome, provocando nela uma forte pontada que a fez gemer e apoiar-se no poste apertando o corte com força. – Você está bem? – Serge perguntou tentando ampará-la, mas ela desvencilhou-se de suas mãos.

-Não é nada. – Alina disse sem olha-lo, com as sobrancelhas cerradas em dor. – Como pretende me tirar daqui? – Ela perguntou em voz baixa, mas sua fala fora interrompida por vozes vindas do lado de fora.

-Você, está fazendo a guarda sozinho? – Um recém chegado perguntou a um surpreso Liam que aguardava na entrada da cabana.

-Er... Sim... Quero dizer, não, é que o meu companheiro teve que... Se ausentar um minuto, sabe... Disse que o jantar não lhe caiu bem. – Falou com um sorriso amarelo, arrancando do outro uma risada.

-Hah, não me surpreende, essas malditas gororobas feitas pelos soldados sempre acabam nesse problema. — O soldado então olhou ao redor e sorriu malicioso a Liam, que tentava parecer seguro embora uma gota de suor brotasse em sua testa. – O velhote que estava aqui fazendo a guarda antes de você não deu muita brecha, mas aposto que você não vai se importar se eu entrar um pouco, não é mesmo?

-Entrar? – Liam perguntou surpreso. Alina e Serge lá dentro entreolharam-se surpresos –Pra que?

-Como pra que? Você deu uma olhada nessa garota? Ela não é nada mal, e faz dias que eu estou cercado de homens! – Falou grosso, como se tentasse intimidar Liam, que olhou várias vezes para a cabana e para o soldado, sem saber bem o que fazer. –Eu vou entrar um pouco e conferir aquela belezinha. – Ele disse e tais palavras irritaram profundamente Alina que escutava a conversa. O príncipe olhou ao redor como se procurasse solução para aquela situação e então voltou-se a ela com semblante confiante. – Você pode vir depois de mim se quiser, por enquanto fica aí vigiando. – E então o homem ia entrar quando Liam colocou-se diante dele numa última tentativa de impedi-lo sem levantar desconfiança.

-Acho que o rei vai ficar furioso se você chegar perto dela! – Avisou, mas o outro já com uma ruga de insatisfação o afastou.

-Ele nem vai notar, agora sai da frente! – E dizendo isso, finalmente adentrou a cabana, deixando um apreensivo Liam observando na entrada. Lá dentro, o guerreiro encontrou diante de si Alina sentada de costas, com cordas envolvendo os pulsos para trás. Sorriu e aproximou-se lentamente, abaixando-se e segurando-a pelos ombros. Foi quando a sombra de alguém aproximando-se atrás de si o fez olhar intrigado o chão, antes de virar-se para trás rapidamente e dar de cara com uma lâmina que por pouco não atravessou seu pescoço, dando-lhe tempo de segurar o braço de Serge, que o atacava.

-Mas que diabos é isso?! – Perguntou nervoso enquanto media forças com o príncipe disfarçado de soldado. O mesmo tentava golpeá-lo com a faca, presa no ar enquanto a investida de seu braço era amparada com dificuldade pelo atônito inimigo. Por um momento, Serge descuidou-se e deu brecha para que seu oponente o golpeasse com a perna, enfraquecendo-o e fazendo com que o outro conseguisse derrubá-lo, fazendo-o soltar a arma sem querer. Ao ver o amigo rendido no chão, Liam ia intervir, mas não precisou. A própria Alina pegara a faca caída e cravara sua lâmina com toda força nas costas do inimigo, que arqueou o corpo para trás em dor antes de ir ao chão. Não satisfeita, a princesa novamente o acertou, desta vez no abdome, olhando furiosa nos olhos arregalados e desesperados do moribundo. Serge não pôde deixar de se espantar com tamanha ferocidade da moça; talvez ela não fosse exatamente a garota indefesa que ele estava esperando encontrar. Alguns momentos de silêncio e ela respirou fundo, puxando de uma só vez a arma do corpo sem vida e largando-a no chão, antes de novamente levar a mão ao seu próprio corte no abdome num semblante de dor.

-Essa foi por pouco... – Serge comentou aliviado enquanto respirava ofegante. Depois olhou para o soldado caído no chão e para Alina, sentada ao seu lado, antes de relancear um olhar a si mesmo percebendo como estava vestido. – Acho que sei como tirá-la daqui sem maiores problemas. Mas temos que ser muito, muito rápidos.

...

Por sorte a confusão ocorrida na barraca não chamou a atenção nas proximidades. Com bastante cautela, os três caminhavam até se afastarem em direção ao arvoredo próximo ao acampamento. Alina estava agora trajada do mesmo modo que Serge e Liam, usando as roupas do soldado que acabara de matar, incluindo um capacete que escondia os cabelos presos para cima; a princesa caminhava com certa dificuldade, sentindo a cada passo o ferimento aberto lhe machucar, mas disfarçava. Embora grande para o corpo dela e ainda por cima sujo de sangue – dela e do inimigo – o uniforme servia apenas de um disfarce superficial caso se deparassem com algum soldado no caminho, o que também por sorte não aconteceu.

-Nossos cavalos devem estar por aqui. – Liam disse olhando ao redor quando finalmente chegaram ao arvoredo, até sorrir ao se deparar com as montarias um pouco mais adiante, amarradas num tronco. – Lá estão! Caleb e Karan fizeram tudo direitinho! – O trio foi até os cavalos e Serge olhou preocupado o semblante estranho de Alina.

-Tá tudo bem? – Ele perguntou á ruiva.

-Dê-me alguma coisa para beber, por favor. – Ela pediu com voz enfraquecida e Serge prontamente pegou um cantil de água que estava guardado em sua montaria e o deu a ela, que virou-o na boca com tanta rapidez que algumas gotas escorreram pelo rosto pálido da garota sedenta. Tamanha era sua sede que em segundos já havia tomado todo o conteúdo do cantil e mesmo assim ainda sentia-se capaz de beber um rio inteiro. Mas respirou fundo, aliviada, e com um leve sorriso devolveu-o ao dono. – Muito obrigada.

-Você deve estar faminta, ouvi os guardas dizendo que não come nada desde ontem. Mas agora não podemos ficar aqui nem mais um minuto, é melhor nos afastarmos o máximo que pudermos por hoje antes de montarmos acampamento. – O príncipe disse-lhe antes de montar seu cavalo e estender-lhe a mão para que ela também subisse, acomodando-se atrás dele. – Vamos, Liam! – O príncipe falou ao amigo, antes que os dois atiçassem o cavalo e se afastassem para concluir o plano e voltar a Denhaar o mais rápido possível. Sua missão estava cumprida, Serge agradecia internamente por estar voltando pra casa são e salvo.

...

O céu noturno já apresentava os primeiros tons de roxo indicativos de que a madrugada logo se despediria quando Horen foi acordado por dois soldados em sua cabana. Nada satisfeito, o rei ergueu-se da cama improvisada com palha e peles na qual dormia e olhou inquisidor os recém-chegados.

-O que significa isso?! – Perguntou aos homens que se entreolharam, pareciam amedrontados de dar a notícia que os levaram até lá.

-É a princesa, majestade... Ela... Desapareceu. – Tais palavras fizeram o soberano de Uhr arregalar os olhos rapidamente, num misto de surpresa e um profundo ódio. Um brilho feroz tomou seu olhar, fazendo com que os soldados dessem alguns passos para trás, receosos.

-O QUE?! – Esbravejou enquanto se levantava. Deixando seu acampamento, ele se dirigiu a passos rápidos e pesados até a cabana na qual Alina deveria estar e entrou, dando de cara com um homem seminu caído no chão, do qual um leve odor desagradável já emanava e tomava a pequena e apertada barraca. –Como isso é possível?! Ela estava com pés e mãos amarrados atrás do corpo, alguém deve tê-la ajudado! – Horen observava incrédulo ao redor, sua raiva era tamanha que uma veia saltara de sua testa enquanto falava aos berros com seus homens acuados. Foi então que um brilho no chão chamou sua atenção, fazendo-o lançar o olhar um pouco mais adiante onde, num canto esquecido, uma lâmina jazia no chão. Aproximou-se e tomou-a pela mão, vendo que estava suja de sangue já coagulado, provavelmente o sangue do soldado morto ali. Mas foi quando a virou que teve a surpresa, ao perceber talhado em sua empunhadura o desenho de um leão feroz que lhe rugia. Seus olhos se arregalaram e então apertou com força a arma, num brado enfurecido. –Denhaar!

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C.O.N.T.I.N.U.A...