Notas iniciais
oi! vejo as visualizações, mas não há comentários nem nada. eu vou continuar postando aqui porque gosto muito desse site, mas seria bom se alguém se pronunciasse. boa leitura

Camila Cabello

Os dias têm passado depressa demais para o meu gosto. Mamãe dizia que era porque eu trabalhava muito, mas eu realmente tenho a sensação de que tem algo errado. Eu estava vivendo ou existindo? Essa pergunta clichê sempre passava pela minha cabeça nos momentos ruins. Momentos que eu tentava simplesmente evitar, porque eu não tinha tempo para sofrer.

Sinu se casou com um revendedor de imóveis que conheceu meses depois de chegarmos nos Estados Unidos. Ela foi bem rápida, mas sempre dizia que era para nossa segurança. Éramos todas ilegais, mas ela conquistou sua legalidade ao casar-se com Peter e, com muita sorte, pôde matricular Sofia e eu na escola do bairro em que morávamos, pois a direção não pedia mais que comprovante de residência, certidão e exames médicos. Consegui me formar sem problemas, só que eu também queria fazer a prova de admissão da Universidade de Miami, mas, para isso, além de precisar dos comprovantes da minha casa no México, eu teria que provar uma renda que possibilitasse minha estadia nos EUA sem precisar trabalhar. Ou seja, sem faculdade para mim.

Nunca mais tivemos notícias de Montecarlo. Na verdade, nunca mais tivemos notícias de nada. Minha mãe achava que era melhor assim, pois aí não sentiria saudades de casa. Mas eu sei que ela sentia, ela mantinha aquela capa de durona só para que nós não ficássemos tristes também. Mas, diferente dela, eu lidava melhor com isso. Sim, seria bem mais fácil se eu pudesse estudar, porém, como não era possível no momento, passei a procurar trabalhos em tudo quanto é tipo de lugar. Já fui faxineira, secretária, ajudante de construção e babá. Todos pagavam semanalmente uma quantia que daria para comer por uns dias, o que já era ótimo – contudo, eu sentia falta de me divertir como uma pessoa normal.

Minha mãe dizia que não era necessário que eu me esforçasse tanto, já que Peter podia cuidar muito bem de todas nós. Acontece que Peter não é meu pai e, apesar de ser um cara legal, já estava na hora de eu sair dos cuidados de minha mãe e seu marido. Por isso aluguei uma pequena casa em Atlantic Road no Opa-locka com meu melhor amigo, Troye Sivan. Ele era um garoto meio problemático, sensível e com tendências suicidas. Seu pai era gerente de uma importante loja em Miami Beach, mas sua vida era miserável. A velha história de menino rico, junkie em tratamento e com pais ausentes, porém, tinha muito mais escondido naqueles brilhantes olhos azuis. Algo que ele só compartilhava comigo e sou muito orgulhosa disso, pois conquistei a confiança daquele garoto tão difícil de lidar. Procurando por liberdade, ele aceitou dividir o aluguel comigo – ele havia insistido em pagar tudo. Para bancar o aluguel, eu consegui um emprego novo em um restaurante boa pinta em Overtown, graças a Peter – mais uma vez – que apresentou os irmãos Maximo. Eles foram legais e disseram que poderiam me dar um bom emprego no estabelecimento deles se eu concordasse em trabalhar lá de segunda a sábado. Caralho, eu sempre achei suspeito quando tirava sorte grande. Mesmo desconfiada, aceitei a oferta.

Acabou que eu era apenas uma garçonete, ou seja, nada de capa para prostituição ou tráfico de drogas. O dinheiro que eu ganhava agora daria para viver uma vida relativamente confortável, mas sem grandes luxos. As duas primeiras semanas no novo emprego foram as mais tranquilas que já tive em todos esses anos. Eu pensei em todas as coisas que poderiam dar errado, mas nada fora do normal aconteceu. Era um lugar muito diversificado e, apesar da fama de serem rudes, os clientes americanos foram todos muito simpáticos. Achei que estava vivendo um sonho, aquilo era muito mais do que eu podia pedir: Um emprego que eu não corria o risco de decepar os dedos ou quebrar a cabeça com um tijolo, ou mesmo ser processada por ter feito a criança chorar.

No fim da tarde, chegaram duas garotas que eu pensava serem um casal. Frank pareceu animado em vê-las ali, então tomei liberdade de perguntar quem eram. Ele disse que se chamavam Lauren e Lucy, clientes regulares do restaurante. Depois que deixei os sanduíches delas na mesma em que estavam sentadas, fiquei olhando como elas conversavam alegremente e por alguns segundos invejei suas vidas, mesmo não as conhecendo. Eu não era de ficar sentida com essas coisas, não. Ainda mais agora que eu devia estar muito mais que contente por ter encontrado um trabalho como aquele. Mas, eu sentia falta daquilo que elas estavam tendo ali. A paz de sentar em um bom restaurante e bater um papo descontraído com alguém.

Pensei em Olivia.

Pensei tanto nela que não percebi outros fregueses chegando, o que fez Frank chamar minha atenção. Balancei a cabeça para espantar os pensamentos ruins, que estavam cada vez mais constantes e mais difíceis de evitar, e fui atender os clientes. Ao passar perto da mesa das meninas, a mais branca delas me olhou rapidamente. Nossos olhares se encontraram de relance; pude notar também que ela havia dado um pequeno sorriso. Foi muito rápido e não pude retribuir, logo eu estava na mesa dos outros clientes, segurando um bloquinho pronta para anotar os pedidos.

Quando voltei para o balcão para entregar os pedidos a Charles, senti o olhar da mesma moça me acompanhar. Um pouco desconfortável, coloquei para trás da orelha uma mecha de cabelo que havia soltado do meu coque e que eu só havia notado que estava ali ao me sentir estranha com o olhar da mulher. Ignorei a sensação e voltei ao trabalho, vez ou outra olhando para a mesa das garotas, mas dessa vez não aconteceu nada de estranho. Suspirei aliviada quando deu o horário da pausa e finalmente pude usar o banheiro e comer alguma coisa. Só então percebi o quanto estava cansada por ter ficado o dia todo no Blackberry Bistro. Cansada mentalmente.

Já quase no fim do intervalo, recebi uma mensagem de Troye. Ele disse que estava na casa do namorado, Marco Díaz, também muito amigo meu, em Miami Beach, e que depois passaria no restaurante para me buscar. Disse a ele que não era necessário, que podia pegar um ônibus para casa, porém ele simplesmente não deixou. Falou que estava de carro com Marco e que o próprio se ofereceu para nos deixar em casa.

Suspirei fundo enquanto digitava a mensagem de volta para ele. Com um "Yess ;)" de Troye, bloqueei a tela e voltei para o trabalho. Ao fim do intervalo, vi que o casal já não estava mais lá e a mesa já estava limpa. Mantive o foco durante as últimas horas do expediente, dando o melhor de mim e recebendo boas gorjetas. Essa era uma das melhores partes de trabalhar em um restaurante, você simplesmente ganhava um dinheiro a mais se fazia o trabalho certo – mas devo admitir que tem muito machismo nessas situações. Eu ganhava uma quantia a mais quando vinha de homens com outros interesses (os assédios eram constantes, por diversas vezes precisei me conter para não socar o rosto desses caras).

Quando deu meia-noite, fui liberada. O lugar ficaria aberto até altas horas e dei graças a Deus por ter ficado com um horário razoável. Ainda estavam instalando chuveiros no novo banheiro dos funcionários; eu tinha a impressão de cheirar a verdura e queijo caro, mas não me importei de estar com aquele cheiro para encontrar Troye.

Do outro lado da rua, vi um carro cinza parar e a janela descer. Troye acenou sorridente para mim e abriu a porta de trás. Dei uma corrida até o carro, entrei e me joguei no banco.

— Oi, gente!

— E aí, Camila – disse Marco, olhando-me pelo retrovisor com um sorriso impecável.

— Mila, meu anjo – Troye se colocou entre o banco de passageiro e motorista para me abraçar. — Você está com um cheiro gostoso de comida. Trouxe um panino para mim?

— Não, na verdade, o panino sou eu.

— Então vai ter que me deixar te comer – disse, mordendo o lábio e o deixando vermelho sem muito esforço. Dei um soquinho em seu peito e ele se sentou corretamente. — Marco, põe uma música decente aí, está ouvindo Zendaya há horas. Já estou farto dessa flopada. Sério.

— Flopada?— Marco olhou indignado para Troye.

— Não vai trocar? – perguntou Troye, arqueando a sobrancelha e deixando a boca um pouco entreaberta.

Marco suspirou e apertou uns botões do som. Logo uma suave voz feminina preencheu o carro e Troye fechou os olhos, relaxando na cadeira.

— Podemos ir agora – disse Troye a Marco. — Gosta da música, Camila?

— O que é?

— New Americana da Halsey. Como assim você não conhece, louca? – perguntou, virando o rosto para mim.

— Sei lá, eu não tenho tempo para ouvir música...

— Ou você simplesmente não muda os discos. Tipo, literalmente. Acho que o que menos gosto é aquele garotinho mexicano, como é mesmo o nome dele?

— Joselito. Meu pai gostava muito das músicas dele – disse. — Ele canta melhor que muito pirralho americano que faz sucesso no YouTube.

— Não vou mentir que o garoto canta bem, mas, ainda assim, acho estranho.

— Ah, isso me lembra algo! – disse Marco, de repente. — Eu preciso devolver seu vinil do Miguel Aceves Mejía, Camila.

— Nossa! Você está com ele faz tempo.

— É verdade... Eu gostei bastante, pra ser sincero – respondeu. — Está em algum lugar lá em casa, vou devolver pra você da próxima vez.

— Sem estresse – disse. — Você pode ficar com o vinil.

Marco era um rapaz genuíno. Bem polido, educado e simpático, ele conseguiu conquistar o coração flagelado de Troye há alguns anos. Mas, o relacionamento deles se desenvolveu de maneira extremamente complicada, havendo separações e reencontros como não haveria mesmo em uma novela mexicana. Marco, a propósito, é mexicano. Seus pais se mudaram na mesma época que eu para os Estados Unidos. Apesar de ser ilegal, ele tinha um carro e ganhava bem. Seus pais foram encontrados e deportados ano passado, apenas ele conseguiu ficar. A primeira vez que o vi achei que fosse um homem em seus 30, quando na verdade ele tinha apenas 17 anos! De fortes traços indígenas, Marco não era muito alto, mas seu corpo era bem definido pelos anos de trabalho pesado em construções. Tinha a pele muito bronzeada, possuía tatuagens antigas pelo corpo liso, sem pelo algum.

Quando chegamos em casa, tentamos entrar de fininho para não nos irritarmos com os ruídos do chão de madeira que rangia muito forte quando pisávamos nele. Além disso, as paredes eram velhas e finas, então dava para ouvir sons bizarros do encanamento e bichos que viviam dentro das paredes. "Bela espelunca arranjamos", pensei comigo mesma. Troye insistiu para que Marco dormisse ali aquela noite e eu revirei os olhos só de pensar no que aconteceria mais tarde. Toda uma cena se passou pela minha cabeça: eu acordando de madrugada para usar o banheiro, mas a porta estaria trancada porque os dois decidiram transar lá por ser o cômodo com melhor isolamento acústico.

Mesmo prometendo que nada aconteceria, eu sabia que não era garantia. Antes de me preparar para dormir, peguei uma Miller gelada e sentei em frente a televisão. Estavam reprisando "Os Muppets conquistam New York" pela quinta vez no mês, mesmo assim, eu decidi assistir. De gole em gole, o sono foi chegando e a escuridão penetrava meus olhos aos poucos. Precisei forçar meu corpo a andar até o quarto. Eu estava com tanto sono que levei a garrafa junto comigo para a cama e então, bum, simplesmente apaguei.

Sonhei com sanduíches italianos e belos pares de olhos verdes aquela noite. Não fez sentido algum, foi um verdadeiro trainwreck do começo ao fim. Acordei repentinamente, suada e com as costas doloridas. Que porra? Ao olhar paa o teto, vi que havia dormido com o ventilador desligado, por isso eu estava encharcada de suor. Levantei gemendo de dor e fui até a pequena janela para ver o movimento na rua. Imaginei que fosse umas cinco da manhã, mas eu já podia ver o sol despontar do outro lado. Aos poucos, pequenas linhas laranjas surgiam no horizonte, trazendo um novo dia. No entanto, eu ainda estava presa na noite anterior.

Massageei a nuca, sentindo o suor escorrer pelos dedos. Meu deus, que lugarzinho mais abafado que fomos arranjar!

Fui para a cozinha beber um copo da água para tirar o gosto amargo da cerveja da noite passada. Meu estômago estava doendo, eu não havia comido nada desde a última pausa do trabalho. Procurei pelo pão no fundo do armário e cortei alguns pedaços para colocar na velha torradeira. Enquanto não ficava pronto, peguei todas as geleias que tínhamos e deixei em cima da mesa.

Ouvi a descarga do banheiro ser acionada e segundos depois Marco apareceu na cozinha, abotoando a camisa branca. Ele sorriu ao me ver e beijou minha testa, dando um bom dia caloroso.

— Teve uma noite boa – falei, enquanto enchia chaleira para fazer café. — Sorte a de vocês que eu não ouvi nada.

— Ainda bem – disse ele, entregando-me o pó de café. — O que vai fazer hoje? É sábado.

— Bom, vou correr um pouco, depois vou voltar e me preparar para o trabalho.

— Não acredito que vai ficar o dia todo hoje no bistrô – disse ele. — Isso é trabalho escravo.

— Ei! – ri. — Não exagera. Eu não tenho problemas com isso. Além do mais, domingo eu vou ter folga o dia inteiro.

— É mesmo? E se eles "pedirem" para você dar uma mãozinha lá por um dinheiro extra, você não vai aceitar, vai?

— Bem, é dinheiro extra...

— Camila! – protestou ele. — Se ousar ir trabalhar no domingo, eu vou lá e dou um jeito de demitirem você. Vamos passear! Tem lugares incríveis para ir e, veja só, eu tenho um carro.

— E se pegarem a gente?

— Relaxa, não vão pegar. Vamos planejar isso direito – Marco desviou o olhar para o fogão. — Já está fervendo a água, ponha o café.

Olhei para a chaleira e fui fazer o que ele disse. No mesmo instante, as torradas ficaram prontas e Marco as levou para a mesa. Tomamos duas xícaras de café até o momento em que Troye apareceu na porta, coçando os olhos, sem camisa, só de cueca. Chamou Marco com uma voz manhosa e quando viu que ele estava sentado, abraçou ele pelos ombros, apoiando o queixo em sua cabeça, olhando para mim.

— Bom dia, Mila – falou com a voz rouca – Olha só, tem comida na mesa – não tive tempo de impedi-lo, quando vi, ele já estava com uma torrada na boca.

— O que vai fazer hoje, Troye? – perguntei, ignorando o fato de ele ter comido a minha torrada. Marco se levantou para preparar outras, recebendo um grunhido de Troye por tê-lo feito sair da posição que se encontrava.

— Não sei, estava pensando em ir à praia com Marco.

— Só mais tarde, meu bem – disse Marco, cortando o pão. — Preciso passar no trabalho, mas depois eu volto para buscar você.

Troye fez manha, insistiu para ser levado junto, mas Marco disse que era melhor que ele ficasse. Era engraçado ver que eles haviam mudado tanto depois de cinco anos juntos. Quando penso nisso, me vem uma sensação estranha. Quantos anos de amizade Olivia e eu estaríamos fazendo hoje? Não lembro. A cada ano, por mais que eu me obrigue a reviver todo meu passado, as minhas memórias se distanciavam de Juárez.

Marco esperou eu me arrumar para podermos sair juntos. Ao colocar o corpo para fora de casa, o calor abrandou e respirei fundo, preenchendo o pulmão com a brisa da manhã. Marco me ofereceu carona, mas disse a ele que iria até o Amelia Earhart Park. Decidi apenas acompanhá-lo até o carro.

— É uma boa caminhada daqui até o parque – observou Marco. — Faz esse trajeto sempre?

— É apenas um dos meus percursos. Gosto do parque porque posso entrar no lago no final. Normalmente eu iria correndo para o trabalho, mas o bistrô está sem chuveiros para os empregados. Então chegar lá suada não é uma opção – respondi. — Se eu sair cedo como agora, tenho tempo de me exercitar, nadar, me arrumar no parque e pegar o metrô para o Blackberry Bistrô em Downtown Miami. Não soa prático, não é? – constatei, analisando minha própria rotina enquanto falava. — Faz sentido na minha cabeça. – Marco riu.

— Fico feliz que tenha conseguido esse emprego em Downtown, Camila. Você estava pilhada.

— Eu não tinha tempo nem para pensar que tanto trabalho estava me fazendo mal.

— Viu, só? Troye estava preocupado com você, Camila. Vivia chamando você de vaca burra por não aceitar a ajuda financeira dele.

Soltei uma risada alta, divertindo Marco. Ficamos de combinar como seria o passeio no domingo, nos despedimos e ele partiu. Fiquei parada por uns segundos olhando o pequeno canal em frente a nossa rua e suspirei. Hora de começar o aquecimento. Levei as mãos para a nuca e pressionei a cabeça para baixo, demorando alguns segundos antes de puxar a cabeça para o lado direito até sentir uma pressão na lateral no pescoço. Repeti o processo para o outro lado, devagar, contraía meus músculos para depois alongar novamente.

Ao todo eu fazia 13 movimentos para aquecer, então dava uns pulinhos e começava a correr, sentindo a energia viajar por todo meu corpo em forma de calor e, mais tarde, como uma dor agradável de desafio alcançado. Felizmente, o ácido lático começava a circular em meu sistema já no fim do percurso, depois de 10 quilômetros, mas, ainda assim, eu me forçava a continuar, pois, ao chegar no parque com a roupa encharcada e o coração à mil, eu pulava no lago e nadava até o fundo. Sempre buscando o limite, esse era meu estilo em tudo na vida.

As noites em claro estourando os punhos no saco de pancadas, calejando as canelas com cabos de vassoura ou bambu e ouvindo os gritos ensandecidos de Alejandro, El Gran Toro, endureceram não só meu corpo, como minha essência. Minha mãe, que sempre foi um modelo de mulher forte, surpreende-se com o que eu havia me tornado. Mas, já fazia tempo desde que lutei de verdade.

Aos 16, ficamos no aperto e precisei sair da academia onde eu treinava (atualmente falida). De qualquer forma, eu tinha que manter a linha nos Estados Unidos, então no mesmo ano decidi abandonar os ringues clandestinos definitivamente, para o alívio de minha mãe – pois eu sempre voltava um desastre. "Gazes e álcool custam caro", ela dizia, "você praticamente gasta o que ganha tentando curar essas feridas". Voltei a trabalhar como caixa de supermercado, faxineira, entre outros serviços e com o passar dos anos, a responsabilidade só aumentava. Foquei nos estudos, consegui me formar e quis entrar em uma universidade. Não deu. Vida fodida.

Havia um desejo crescendo em mim. Algo que eu tentava empurrar para dentro, como fiz com o vômito na noite infernal de Juárez. Mas, diferente do vômito, que era algo desagradável, essa vontade era pura, tinha vida própria e parecia farto das angústias que eu engolia. Aquele desejo crescente em meu âmago era algo que eu havia enterrado há anos. Algo que eu não possuía plenamente naquele país.

Liberdade.

Notas finais
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