Shell Hudson
11 Eu interrompo uma reunião privada.
Notas iniciais
AS REUNIÕES DO CONSELHO ACONTECIAM NA ARENA, em torno de uma mesa de pingue-pongue.
Essa foi a segunda coisa que eu aprendi, a primeira sendo que apenas os chefes dos chalés podem comparecer, isso me tirava da lista de pessoas permitidas.
Mas se você acha que eu fiquei quieta no meu canto e deixei-os discutirem sobre a profecia da missão que EU deveria a ir, você não entendeu nada sobre mim.
Eu estava determinada a ouvir tudinho, por isso criei um plano. Que incluía: Eu, ajoelhada, na frente da arena, com a orelha encostada na fechadura da porta.
Meio indigno, certo, mas pelo menos eu sabia o que estava acontecendo.
Naquele momento, eles estavam tentando descobrir o que a profecia significava, o Leo sabia, é claro, mas antes dele entrar eu o tinha feito prometer que não diria nada.
– Pelo que vocês disseram, Rachel se dirigiu diretamente para o Leo. E a profecia diz... O que mesmo? — Annabeth estava dizendo.
– “Aquele que possui o fogo vai guiar,
Acompanhado pela coruja e o mar,... ” — Leo falou
– Exato. Isso só pode significar que o Leo será o chefe da missão, e que um filho de Atena e outro de Poseidon deverão acompanhá-lo. — Ela continuou.
Que Rachel tinha falado para Leo, isso eu sabia. Mas Leo seria o líder da missão? A não ser que ele seja aquele que possui o fogo... É possível, já que Hefesto é o Deus do fogo.
Quanto ao mar e a coruja, imagino que Annabeth esteja certa. Se eu me lembro bem, a coruja é o símbolo de Atena e o mar... Bem, é meio obvio.
– Claro. Mas e o resto? — Perguntou Piper.
– Bem, se eu não me engano eles tem que achar alguma coisa... — Kate Gardner de Deméter começou.
– Alguém. — Leo interrompeu.
Eu o xinguei mentalmente.
– Como você sabe que é alguém e não alguma coisa, Leo? — Quíron questionou.
– E-eu não sei. Só... Quis dizer que poderia ser uma pessoa.
Ótima desculpa Leo! – Uhum, okay... – Tomara que tenham comprado...
– Sim, sim. — Kate falou. — Eles têm que achar uma coisa ou uma pessoa.
– E uma dama também, eles tem que achar uma dama. — Completou um dos irmãos, Connor e Travis de Hermes – não sei diferenciar os dois nem a voz deles — . Numa voz provocadora.
– É, mas eu não gosto muito da ultima parte. — Admitiu Will, filho de Apolo. — “Pelo perigo em cristal dois serão arrasados,
Apenas um poderá a todos salvar.”
Eu estremeci.
Essa também era a parte que me incomodava. Com certeza queria dizer que um de nós iria salvar a todos, eu só não sabia se isso incluía os outros dois, que seriam “arrasados” pelo “Perigo em Cristal”.
– Bem, nós já sabemos que Leo tem que ir. E eu imagino que, como filho de Poseidon, eu também irei... — Percy anunciou.
Eu sabia que seria uma idiotice entrar lá agora.
O melhor seria que eu esperasse para falar com Quíron mais tarde, ou ate sair do acampamento por conta própria. Mas foi só ouvir o murmuro de concordância entre os campistas da sala que eu me desesperei. Era EU quem tinha que ir, EU tinha que achar John, Afrodite tinha pedido para MIM.
E mesmo que eu nunca fosse admitir isso em voz alta, eu também queria poder fazer algo para que Poseidon sentisse orgulho de mim, como ele sentia de Percy.
Então, sem pensar — como sempre -,eu entrei como um furacão na arena.
– Não! — Protestei.
– Shell! Não pode ficar aqui, espere lá fora, por favor. — Pediu Quíron, desconfiado com minha interrupção.
– Não... Deixe-a ficar. — Rachel o contrariou, calmamente apoiando uma mão em seu braço. Os outros pareceram surpresos, ela não tinha falado durante a reunião inteira. — Explique Shell. Por que você acha que Percy não deveria ir?
– Sou eu quem tem que ir. — Falei decidida.
Clarisse, a grandalhona, filha de Ares que não gostava de Percy, soltou uma gargalhada:
– Ela só pode estar brincando, não é? — Ela riu, então olhou para mim e se deu conta de que não era brincadeira, seu sorriso sumiu. — Fala sério. Isso é loucura! Você quer se matar? Porque se quiser existem jeitos mais rápidos, eu posso fazer isso numa boa...
– Chega Clarisse! — Quíron ordenou.
Percy se levantou, me encarando:
– De jeito nenhum! Você não vai nessa missão.
– Vou sim! Escuta Percy. — Pedi. — Eu sei que é complicado para você. Eu entendo. Claro que não é fácil de descobrir que se tem uma irmã, assim, do nada, eu que o diga. Mas sou EU quem vai com o Leo.
Os olhos dele brilharam com o entendimento. Agora ele sabia que eu o tinha ouvido na tarde anterior. Em seguida suas bochechas coraram e ele baixou os olhos, arrependido.
– Não tem nada a ver com isso! — Ele insistiu. — Você não tem ideia do quanto é perigoso. E você ouviu a profecia, dois serão feridos, ou mortos, ou qualquer outra coisa de tão ruim quanto!
Tão ruim quanto a morte? O que seria?
Ei! É sonho, ou Percy está se preocupando comigo?
Oh! Que fofo, ele esta sim, preocupado comigo. Parece que a reação de ontem foi só algo passageiro, mas eu não podia me deixar abalar por isso, além do mais, Afrodite tinha dito: Era o meu destino. E além disso o que ele havia dito tinha machucado. Não tenho coração de pedra, mas também não perdoo de primeira.
– Percy! Sei muito bem que é perigoso. Sei o que a profecia diz, entendi muito mais do que você pensa. Sei que posso morrer ou ser ferida. E acredite em mim quando eu digo que não quero morrer. Mas eu preciso ir! Eu não tenho escolha... — Implorei.
Eu estava muito abalada, não sabia o que aconteceria se eu não fosse. Ou melhor, sim, eu sabia: O mundo seria destruído.
Minhas pernas e mãos tremiam e eu estava a dois pontos de ter um colapso nervoso. Leo percebeu e se levantou, para que eu pudesse me sentar em seu lugar. Ele se postou a traz de mim, com as mãos apoiadas nos meus ombros, como um advogado e sua cliente.
– Ela tem razão, ela precisa mesmo ir. — Ele veio em minha defesa.
Todos os outros estavam quietos observando.
– O que vocês dois sabem que nós não sabemos? — Annabeth perguntou, estreitando os olhos.
Não respondi, não estava muito a fim de falar dos meus sonhos para todos os presentes. E sabia que se eu mentisse, ela ou Quíron iriam perceber pela minha voz.
– Leo? — Quíron pressionou.
Leo se remexeu atrás de mim, e o centauro olhou mais insistente para ele. Ele acabou por suspirar e me lançar um olhar de desculpa.
– Shell teve sonhos. — Ele falou tão baixinho que só eu ouvi, então, com uma segunda olhada, ele repetiu mais alto. — Shell teve sonhos.
Alguns resmungaram em compreensão.
–Que tipo de sonhos? — O diretor de atividades perguntou.
– Bem... — Eu disse tomando meu tempo, se eu fosse falar, não falaria tudo. — Tem esse amigo meu: John... — Comecei.
Eu falei, sobre o sonho com John e expliquei seu desaparecimento, inventando somente que, nesse sonho, ele havia falado comigo e dito que eu tinha que achá-lo em uma missão. Annabeth parecia saber que não era tudo, assim como Quíron, mas eu evitei seus olhares.
– É isso? Você tem que achar seu namo... Seu amigo? Sem problemas, me fala como ele é que eu o acho para você. Não precisa vir junto. — Percy falou dando de ombros.
Bati as mãos na mesa, exasperada.
– Mas...
– Isso não é tudo, é Shell? — Annabeth perguntou.
Suspirei. Eu entendia aquele olhar que ela me lançava. Annabeth só queria me ajudar, afinal, quando Percy tinha desaparecido por causa de Hera, quando Gaia estava acordando ela também tinha rodado o país para achá-lo, Piper quem me disse.
– Isso não é tudo... — Concordei, e me lancei desde o começo explicando tudo o que Afrodite havia me dito e contando a verdade sobre o sonho com John.
– Mesmo assim, você não tem que ir! Eu faço em seu lugar... — Percy recomeçou.
– Ela tem que ir sim, Percy. — Quíron o interrompeu. — Se Afrodite pediu a ela, deve ter uma razão.
– Não! Ela acabou de chegar ao acampamento. Não vou deixá-la ir sozinha atrás de Afrodite e desse cara.
– Caham! — Leo esclareceu a garganta. — Ela não estará sozinha, eu vou ir.
– Ah, tá! Como isso fosse acalmar alguém. — Clarisse zombou. — Olha garota. Eu odeio dizer isso, mas seu irmão tem razão. Você morreria no primeiro monstro que aparecesse.
– Ei! — Todos nós olhamos surpresos para o canto da mesa. Era Clovis quem tinha falado. Ele era um filho de Hipnos e tinha dormido a reunião inteira, ninguém tinha percebido que ele havia acordado. — Eu só, não entendi porque Afrodite mandou o tal garoto para Roma. — Ele disse entre bocejos.
O sono de Clovis começou a me afetar e um bocejo saiu da minha boca. Eu rapidamente balancei a cabeça para acordar.
– Minha mãe gosta de brincar com... Os sentimentos das pessoas. Imagino que Shell e John eram bem próximos. — Piper explicou erguendo as sobrancelhas para mim, que corei em resposta.
John e eu nunca chegamos a sair oficialmente, mas eu estaria mentindo se dissesse que não havia nada mais do que amizade entre nós. Mais uma vez, senti Leo se mexer atrás de mim.
– Outra coisa, quem é que fez tudo isso? Sabe, prender Afrodite e mandar o monstro para Roma e tal. — Perguntou Buch, filho de Iris.
– Eu não sei. — Annabeth disse fazendo uma careta, como se o fato de não saber de algo a incomodasse. — Alguma ideia Quíron? — Ela olhou para o Centauro, mas ele não respondeu, apenas sacudiu a cabeça como para mandar embora um pensamento desagradável. — Mas eu acho que sei quem é o monstro. Shell, você disse que era uma mulher com um véu na cabeça, não?
– Sim. — Concordei. — E Afrodite disse que não sabia que ela havia voltado do tártaro e também comentou sobre uma mulher com cabelo de cobras que se chamava...
– Tia Eme. — Ela completou olhando para Percy assustada. — Percy acho que você lembra...
– Medusa. — Meu irmão disse. — Mas que droga, eu a tinha matado tão direitinho, ela já voltou?
Ninguém respondeu, todos pareciam perdidos em seus próprios pensamentos, fora Clovis, que já estava dormindo de novo. Até que Will teve coragem de falar:
– Certo. Nós já sabemos que "O que foi sequestrado por causa do am... — Ele lançou um olhar em minha direção e recomeçou. — "O que foi sequestrado" é esse John. Esse negocio de "Fogo verde" deve ser fogo grego. Mas os "Vestígios do passado" e a "Ilha exilada" ninguém sabe o que é, sabe? — Todos indicaram que não com a cabeça. — A dama com certeza é Afrodite, e quanto as duas ultimas linhas... — Ele deixou a frase no ar, "arrasados" não era uma palavra boa.
– Pelo menos, se for mesmo a Medusa, nós já sabemos onde procurar. — Percy tentou amenizar o clima.
– É a Medusa. — Annabeth falou. — Se ela não se mudou, é só ir até O Empório de anões de jardim da tia Eme, em Nova Jersey.
– Ótimo. Agora precisamos de um filho de Atena. — Leo comentou.
– Mas nós já somos três. — Disse meu irmão.
Eu olhei para ele cansada.
– Não, nós somos dois. Você não está vindo conosco, Percy.
Ele abriu a boca para protestar, mas Annabeth o lançou um olhar que faria qualquer um calar a boca.
– Eu posso mandar um dos meus irmãos, acho que Malcon aceitaria ir...
– Na verdade, Annabeth, eu ia pedir que você viesse. — Leo arriscou.
– Eu também preferiria que você fosse. — Quíron concordou, olhando a de um jeito que queria dizer muitas coisas.
– Eu... — Ela hesitou. — Está bem, eu vou com vocês.
– Perfeito! — Quíron respirou fundo. — Vocês sairão logo depois do almoço e...
– Não. — Eu disse e todos olharam para mim novamente. — Afrodite disse que deveríamos sair amanhã ao por do sol.
– Mas nós já estamos com os dias contados! — Annabeth relembrou.
– Eu sei, mas ela disse que eu... Que nós precisávamos nos preparar. — Expliquei.
– Vocês só terão 6 dias. — Falou Piper. — E porque ao por do sol?
– Sua mãe disse, eu recito: "Será mais seguro se você viajar pela noite, o céu é mais claro durante o dia."
– O que isso quer dizer? — Percy perguntou para Quíron.
– Eu tenho uma pequena ideia, mas ainda é muito cedo pra ter certeza. — O diretor de atividades respondeu pensativo. — Bem, eu assumo que a reunião esta encerrada. Podem voltar às suas atividades.
Me levantei e me virei para Leo, queria falar com ele sobre a missão. Ele sorriu para mim.
– Doido, não? Estou pegando fogo para ir nessa missão com você! — Ele exclamou.
Então sua mão pegou mesmo fogo. Uma flama enorme saiu dela e ficou dançando em sua palma.
Com o susto de vê-lo em chamas, dei um pulo para traz e senti um puxão no estomago. Segundos depois, um jato de água saiu de um cano e acertou Leo em cheio. O jato só durou por alguns segundos, mas quando ele acabou Leo estava encharcado da cabeça aos pés.
Milagrosamente — ou nem tanto assim — nenhuma outra pessoa da arena havia recebido nem uma gotinha. Sra. O'leary agora estava usando o cano como bebedouro.
– O que aconteceu? — Não pude deixar de perguntar.
Todos caíram no riso, à não ser Quíron, que só deixou escapar um sorrisinho. Até Clarisse estava dobrada de rir.
– É muito mais engraçado quando não é comigo. — Ela comentou.
– Ah, é mesmo Clarissinha, querida? Venha aqui pra eu te dar um abraço! — Leo chamou com uma voz falsamente doce indo até ela.
– Nem pense nisso Valdez. Você quer ser morto antes de começar a missão? — Ela ameaçou recuando para longe dele.
Olhei para Percy pedindo uma explicação, ele ainda estava rindo.
– Você aconteceu. — Ele falou parando de rir e me olhando, ainda envergonhado pelo que havia dito ontem. — Vamos trabalhar juntos o resto da manhã, tenho que te ensinar alguns truques.
– Truques?
– Sim, com água. Coisa do pai.
– Certo. — Concordei e me virei para Leo. — Me desculpe por ter te encharcado, foi sem querer, mas você me assustou com o fogo. Você não me disse que sabia fazer isso.
– E só um dos meus muitos talentos. — Ele deu de ombros. — Eu não disse antes para não te assustar.
– Sinto dizer que você falhou nesta ultima parte. — Impliquei. — Todos os seus irmãos podem fazer o mesmo?
– Não isso é exclusividade minha. — Ele respondeu.
Suspirei.
– Tudo bem, se precisar de mim estarei com o Percy... — Percebi que não sabia aonde nós iríamos. — Aonde?
– No lago. Agora vamos que você tem muito que aprender.
Ele deu um beijo na bochecha de Annabeth, eu fiz um sinal para os outros e nós saímos da arena.
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