She Will Be Loved 2
18 Bottle of Wine
Notas iniciais
Deixei a Alice no tal restaurante. Porém, estacionei o carro ali na frente. Vi Emily descendo de um carro, que parou na minha frente. E o imprestável tava quase batendo no meu. Buzinei. Ele colocou a mão pra fora da janela e me mandou o dedo do meio.
– Mas que porra! — Resmunguei e saí do carro. — Qual é, Isaac! — Bati no teto do carro e ele me olhou sínico.
– Que foi, Davis?
– Vai bater no meu carro agora?
– Ah… É seu carro que tá atrás de mim? — Como pode ser tão sínico e irritante? O que a Alice viu nesse infeliz?!
– É lógico que sou eu! E até parece que não me viu…
– Tá fazendo o que aqui parado?
– Pergunto o mesmo pra você.
– Vai querer a Emily também?
– Para de falar merda. — Ele desligou o carro, finalmente. — Vai entrar?
– Você vai? — Dei de ombros. Ele desceu do carro e passou por mim, esbarrando. Revirei os olhos. Fechei meus olhos, respirei fundo e fui atrás dele, indo até o restaurante.
As meninas já estavam bebendo algo quando nos viram. Alice parou de rir na hora e seu sorriso murchou. A cara dela não estava a das melhores.
– Oi, meu amor. — Dei um selinho nela.
– Tá fazendo o que aqui? E essa pergunta inclui você. — Ela apontou pro Isaac.
– Ah… Ele quase bateu no meu carro. — Falei tentando me defender.
– Isso era algo entre eu e a Emily, Andrew! — Ela falou brava.
– Vocês dois são mais infantis que meu sobrinho. E olha que ele tem cinco anos. — Emily falou rindo da situação.
– São dois idiotas. — Sorri.
– Isso aqui parece estar bom. — Sentei do lado da Alice e peguei um aperitivo na mesa. Vi que o Isaac também sentou.
– Isso me lembra uma cena de Esposa de Mentirinha. Lembra que vimos no cinema, Ali? — Emily perguntou e Alice riu baixo.
– Lembro. Pior que parece mesmo. — Isaac me olhou como se fosse superior e ri. — Que foi, Andy?
– Nada não. Então… O que vamos pedir? — Abri o menu e todos fizeram o mesmo.
– E como você tá, Alice? — Isaac perguntou.
– Bem. — Olhei pra ela, que forçava um sorriso. — E você?
– To bem também. Em um caso complicado, mas bem.
– É advogado também? — Perguntei.
– Delegado. — Alice respondeu.
– Você é delegado?! — Perguntei rindo.
– Tá rindo de que? — Isaac perguntou sério.
– Isso aqui vai ser melhor que barraco de novela. — Emily disse e revirei os olhos.
– E eu vou precisar de álcool pra passar por isso. — Alice disse e encheu o copo de vinho.
Realmente… Todos nós precisávamos. O jantar até que foi bem. Alice, apesar de quase bêbada, conseguiu conduzir a conversa junto com a Emily. Claro que o Isaac me alfinetava de vez em quando e eu não perdia a chance da fazer o mesmo. Aquele cara era insuportável.
– Sabe… Seria uma boa se a gente conversasse um dia desses, Isaac. — Alice falou e olhei pra ela.
– Que?!
– Sério? — Ele perguntou sorrindo e querendo flertar com a minha mulher. Cruzei os braços.
– É. No seu escritório, idiota. Preciso de umas coisas sobre um caso.
– E o que eu tenho a ver com isso?
– Muita coisa. Vamos? — Ela perguntou pra mim e eu assenti. Me despedi da Emily e fomos embora.
Fomos o caminho todo em silêncio. Quer dizer, não nos falávamos, mas a Alice ficou cantando o caminho inteiro. Quando parei no semáforo e descansei minha mão direita na marcha do carro, ela me deu a mão. Eu tava bravo com ela, mas olhei-a mesmo assim. Ela sorriu. Bosta. Sorri também.
– Por que você tá assim? — Ela perguntou.
– Assim como? — Soltei a mão dela e mudei a marcha logo depois de avançar com o carro.
– Seco. — Fiz que não com a cabeça. Chegamos em casa e tirei a blusa, logo depois a calça. — Andrew… O que aconteceu?
– Você praticamente flertou com ele, Alice. Vou ter que lembrar esse troço redondo no seu dedo agora?
– Ah… Ei! Eu não flertei com ele! — Ri irônico entrando no banheiro. — O nome dele surgiu naquele caso que te falei outro dia. — Ela entrou no banheiro e começou a tirar a maquiagem.
– Não gosto de você com ele. Você sabe disso.
– Andrew, é o meu trabalho.
– Não, não é. Você não precisa fazer isso. Seu trabalho é no escritório e no tribunal. — Liguei o chuveiro e ela ficou olhando pra mim.
– É meu trabalho sim! E… Eu falei daquele jeito pra tirar uma com a cara dele.
– Ah! Muito legal, Alice! E eu fico como? Com cara de corno?
– Foi uma brincadeira! Não falei por mal.
– Você sabe como aquele…
– Andrew, chega. Foi só uma brincadeira. Desculpa. Não pensei antes de falar. — Não falei mais nada. Não queria discutir. Mas o sorrisinho vitorioso que aquele energúmeno deu não saiu da minha mente. Ele acha que algum dia vamos nos separar. Isso é tão claro como uma parede branca.
Saí do banho, vesti uma cueca e fui direto pra cama. Alice estava sentada na cama, encostada na cabeceira e mexendo no notebook com um livro sobre código de sei lá o que em uma mão.
– Tudo bem? — Ela perguntou e acariciou minhas costas assim que deitei.
– Não. — Ela parou o carinho.
– Andy…
– Boa noite, Alice. — Me cobri até o pescoço e fechei os olhos.
(…)
De manhã não foi igual aos outros dias. É óbvio. Alice continuava com cara de cachorro que caiu da mudança. Eu só me troquei e saí de casa, indo direto pro escritório. Pedi pra Claire comprar um café e alguma coisa pra eu comer.
O dia foi completamente tedioso. Aproveitei pra resolver tudo que estava atrasado. E não aguentava mais assinar documentos. Levantei pra descansar um pouco. Estalei meu pescoço e fui até a janela. Meu celular começou a tocar. Era a Alice.
– Oi. — Falei quando atendi.
– Como hei de comparar-te a um dia de verão?; És muito mais amável e mais… ameno; Os ventos sopram os doces botões de maio; E o verão finda antes que possamos começá-lo; — Minha memória lembrou o dia que apresentamos Romeu e Julieta pra nossa turma de inglês. O dia que recitei o mesmo soneto de Shakespeare e o dia que me declarei pra ela pela primeira vez. — Por vezes, o sol lança seus cálidos raios; Ou esconde o rosto dourado sob a névoa; E tudo que é belo um dia acaba; Seja pelo acaso ou por sua natureza; — A porta da minha sala abriu e ela estava com uma garrada de vinho na mão e segurava o celular em outra. — Mas teu eterno verão jamais se extingue; Nem perde o frescor que só tu possuis; Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra; Quando os versos te elevarem à eternidade; Enquanto a humanidade puder respirar e ver; Viverá meu canto, e ele te fará viver. — Ela sorriu quando terminou. — E eu não estava lendo.
– Acredito nisso.
– Me desculpa agora? — Ela tinha um leve rubor nas bochechas. Sorri. — Eu sei que não levo muito jeito pra isso. Sei que não é nada comparado as suas declarações pra mim, mas tentei fazer bonitinho. E também eu não sabia o que te dar. Você já tem tudo! — Confesso que estava engraçado vê-la nervosa. — Eu… Eu sei que você gosta de vinho. Pensei que talvez pudesse ser um bom presente e… — Calei sua boca com a minha. Após o beijo, ela abraçou meu tronco. — To desculpada?
– Tá. — Dei outro selinho nela. — Esse teatro… Sabe qual foi a primeira coisa que eu pensei quando te vi de Julieta, isso ainda na casa da minha mãe? — Ela sorriu e fez que não com a cabeça. — “Eu preciso casar com essa menina!”.
– Seu desejo foi realizado. — Ela beijou meu pescoço por não alcançar minha bochecha. — E desculpa por ontem. Mesmo!
– Tudo bem. — Acariciei seu cabelo. — E o vinho… Foi uma boa escolha.
– Claro que foi uma boa escolha. Acho que já podemos ir pra casa. — Aproximei meu rosto do seu ouvido. — Tenho planos pra nós e pro vinho. — Sussurrei.
– Pro vinho? — Ela franziu a testa.
– Podemos tomá-lo sem ser na taça. — Alice riu.
– Seu pervertido!
– Você que começou! — Me afastei dela e comecei a organizar as coisas na minha mesa. — Só deixa eu terminar aqui e já vamos.
– Prefiro meu trabalho ao seu.
– Obrigado. — Falei irônico.
– É muito chato.
– E o seu é super legal. — Alice deu de ombros e deitou no sofá que tenho no escritório.
Ainda to sorrindo que nem um idiota. Ela decorou o soneto por minha causa. Pra Alice, ela parece ser desajeitada e nunca saber como fazer essas coisas. É como se ela fosse o homem da relação. Ri sozinho.
– Tá rindo de que? — Ela perguntou.
– Nada não. — Mas o jeito que ela fica, com vergonha, nervosa, é tão meigo e tão… Só dela.
Terminei de arrumar minhas coisas e saímos do meu escritório indo direto pra casa. E, claro, sem esquecer-me do vinho.
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