Shape Of My Heart
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Kevin – O quê? Você vai pra fazenda? Mas quando, por quê?
Isabella – Porque é melhor assim, Kevin. É o melhor pra mim, só assim eu vou esquecer o Nicholas, só assim eu vou ter paz. Olha... eu também não queria no começo, mas você sabe que eu não tô feliz aqui no Brasil. Eu já tinha te dito outras vezes que eu tinha vontade de voltar pro Canadá, você lembra?
Kevin – Lembro. É claro que eu lembro. E eu sempre fui contra essa ideia maluca. Bella, não importa o que aconteceu, o seu lugar é aqui. É aqui, em São Paulo, no Mônaco, com seus amigos.
Isabella – Com a Vanessa também, não é, Kevin? Com ela e o Nicholas. Você não percebe que eu tô sofrendo? Que toda vez que eu penso no que ele fez, toda vez que eu fecho os olhos e imagino ele lá transando com aquela garota eu sinto como se uma faca entrasse dentro de mim?
Kevin – Eu sei, eu entendo, Bella, mas...
Isabella – Eu não suporto mais respirar o mesmo ar do Nicholas. Eu quero esquecer que ele existe, quero arrancá-lo daqui (apontando para o lado esquerdo do peito), você não entende?
Kevin – Ele te fez muito mal, não é, Bella?
Isabella – Fez. Fez sim. Eu dei tudo de mim pra ele. Eu confiei nele, entreguei os meus sentimentos e no momento que eu mais precisei ele me virou as costas. Eu chorei, me humilhei, fiquei doente e ele tava lá com a Vanessa. Eu não vou perdoar nunca, Kevin. Nem que eu viva mil anos.
Kevin – Bella, e a nossa amizade? Como é que vai ser?
Isabella – A gente se fala por cartas, telefones, Whatts App...
Kevin – Não é a mesma coisa.
Isabella – É sim, Kevin. Se nós somos amigos de verdade a nossa amizade vai resistir a distância. Vai resistir a tudo.
Kevin – Isso é coisa da Laura, não é? É ela que cismou que quer que você vá pra fazenda. Isabella, não faz isso. Fica, por favor. Olha, eu prometo... eu prometo que vou fazer tudo pra você melhorar. Eu te dou a minha palavra.
Isabella – Não precisa, Kevin. Eu não vou mudar de ideia. Eu gosto muito de você, Kevin, muito mesmo, mas eu não quero mais sofrer. Se coloca no meu lugar. Você acha que é facil pra mim continuar nesse lugar depois de tudo o que eu passei? Eu sonho com aquele estupro toda noite, eu tenho medo de sair na rua e encontrar aquele maníaco... Nem você, nem a Laura podem entender o que eu tô sentindo. Nem você, nem ninguém.
Kevin – Bella... (abraça Isabella de surpresa).
Eles continuam abraçados e Isabella se solta dele lentamente.
Kevin – Eu me sinto tão culpado... a Laura diz que eu devia ter contado tudo pra ela mesmo que você não falasse mais comigo. E ela tem razão. Eu devia ter contado, devia ter ido na polícia, prestado queixa, mesmo contra a sua vontade.
Isabella – Pára com isso, Kevin. Você não tem culpa de nada. Ninguém tem.
Kevin – Se eu pudesse fazer alguma coisa... eu juro que eu faria.
Isabella – (cai uma lágrima dos olhos dela) – Agora vai, Kevin. Vai, eu preciso arrumar minhas malas. (chorando)
Kevin – Eu te adoro, Bella. Nunca se esqueça disso.
Kevin abraça Isabella novamente. Ela se solta dele.
Isabella – Vai... (chorando)
Kevin – Bella, você está chorando.
Isabella – E daí? Quem se importa? (ela pega uma mala e joga na cama) – Sai daqui, não torne as coisas mais difíceis.
Kevin – Tá bom. Eu saio. Mas isso não é uma despedida. Não.
Isabella – Adeus, Kevin. Adeus.
Kevin sai. Isabella se senta na cama e abre a mala chorando. Ela se levanta, vai até o guarda roupa e pega algumas blusas. Isabella coloca as blusas na mala.
Ela pega mais uma mala. Vai até o guarda roupa novamente, abre uma gaveta e pega um bolo de roupas. Ela coloca as roupas na mala.
Na sala, Kevin está descendo as escadas, chegando no térreo. Ele vê Laura e vai até ela.
Kevin – (puxa o braço dela) – Laura, vem aqui.
Laura – (andando com Kevin enquanto ele segura o braço dela) – Ai... Kevin, o que você quer? Me solta!
Kevin – Vem comigo.
Laura – (andando com ele, sendo puxada pelo braço) – Me solta, seu maluco!
Kevin e Laura saem.
Na casa de Nick, na sala de jantar, Nick está sentado na mesa. Ele está sério. Marina está colocando suco no copo dele.
Marina – Que foi, Nick? Tá com uma cara...
Nick – Que cara, Marina? Eu só tenho essa.
Marina – Ih, que humor...
Nick – E como é que você quer que eu esteja? Que eu esteja sorrindo pelos cantos depois de ter sonhado a noite inteira com aquela traíra?
Marina – (dá risada) – Nick, chega desse orgulho bobo! Você gosta dela, está apaixonado, apesar dos erros que cometeu. Assuma esse amor a si mesmo.
Nick – Não, Marina. Eu estava apaixonado. Estava apaixonado pela Isabella que eu salvei de ter morrido atropelada. Por aquela que se recusou a passar a noite comigo porque não estava pronta pra se tornar mulher. Não por essa mentirosa, fingida que eu ouvi dizendo que amava outro homem e ainda se faz de vítima dizendo que não quis.
Marina – Nick...
Nick – Chega, Marina. Eu tô atrasado, tenho que levar a Angel pra escola. (para Angel) – Angel, você não tá esquecendo nada?
Angel – Não, Nick, tá tudo aqui. Ai... meu caderno!
Angel sai correndo, subindo as escadas.
Marina – Eu vou chamar a Isabella. Ela vem e vocês conversam.
Nick – Não, Marina. Nem pensar. Se você fizer isso eu te demito, entendeu? Eu esqueço os anos de trabalho e companheirismo e você vai pra rua.
Marina – Tá bom, Nicholas. Eu não vou fazer nada. Mas você ainda vai se arrepender por essa injustiça com essa menina. Eu tenho certeza.
Nick – (gritando) – Angel, vamos logo!
Angel chega.
Angel – Pronto, Nick. Já estou aqui.
Nick – (segura a mão de Angel – para Marina) – Arrependido eu tô de ter me deixado apaixonar por ela. (para Angel) – Vamos, Angel.
Angel sai com Nick. Ela anda com ele como se estivesse pulando.
No jardim do Mônaco, Nick está levando Angel para o carro. Ela pára na frente dele.
Angel – Nick?
Nick – O quê?
Angel – O que aconteceu com você e a Isa?
Nick – Vamos, Angel. Você vai chegar atrasada no colégio.
Angel – Ah, não, Nick. Não tenta mudar de assunto. O que aconteceu com você e a Bella?
Nick – Chega dessa conversa, Angélica. Esse assunto não é pra uma criança.
Angel – Mas...
Nick – Chega, Angel. Eu já disse, você vai chegar atrasada.
Angel – Ai, tá bom.
Angel e Nick continuam andando. Ele vai até a portinha e abre para Angel entrar. Angel entra.
Nick fica olhando para a porta da casa de Isabella.
Na casa de Isabella, na sala, Isabella está descendo as escadas com suas malas na mão. Ela chega no térreo, coloca as malas no sofá e vai até a porta. Isabella abre a porta e dá de cara com Nick de longe. Eles ficam se olhando. Ela deixa uma lágrima cair do seu olho direito e fecha a porta. Nick está distraído.
Angel – (dentro do carro) – Vamos ou não vamos?
Nick – (demora um pouco pra responder) – Vamos. Vamos sim.
Nick fecha a porta do lado de Angel, dá a volta e abre a portinha para entrar. Ele entra, fecha a porta, ajeita o cinto de segurança e eles saem.
Na casa de Isabella, na sala, ela vai até o sofá e se senta chorando. Ela seca o rosto no mesmo minuto.
Isabella – Pára, Isabella. Você não pode chorar por esse garoto.
Regina chega.
Regina – Isabella? (Isabella olha pra ela com os olhos embaçados) – Bella, você já arrumou as malas?
Isabella – Já. Já sim, Regina. Eu quero sair daqui logo, quero ir logo pra fazenda, quero ficar bem longe do Nicholas, bem longe. (chorando)
Regina – Não. Não, Isabella, que isso... Pare de se enganar. (Vanessa aparece no corrimão da escada e começa a ouvir a conversa) – Olha pra você, você está chorando. Você não quer ir pra fazenda, não quer ir embora (Vanessa dá um sorriso), você quer ficar aqui.
Isabella – Quero. Quero sim, Regina. O quanto antes eu sair daqui vai ser melhor. (chorando)
Regina – Não chora, Bella.
Isabella – Eu não consigo esquecer aquele estupro. Foi horrível, Regina, foi horrível. (chorando)
Vanessa sai.
Regina – Eu sei, meu amor. Eu imagino. Mas você vai superar.
No quarto de Vanessa, ela chega sorrindo.
Vanessa – Então quer dizer que a idiotinha vai pra fazenda dos pais? Meu plano tá saindo melhor que a encomenda.
Vanessa pega o celular e começa a discar um numero. Ela começa a ouvir o telefone chamando do outro lado da linha.
Vanessa – Atende, Maurício. Atende.
Maurício – Alô?
Vanessa – Alô, Maurício. Sou eu, a Vanessa.
Maurício – E aí, Vanessa? Cadê a minha grana?
Vanessa – Calma, Maurício. Eu vou te dar. Podemos nos encontrar na sua casa?
Maurício – Claro. E a gostosa da Isabella? Quando é que eu vou ver de novo? Tô com saudades dela.
Vanessa – Olha, eu acho que vai ser difícil. A vadia ficou tão traumatizada que tá querendo fugir pra fazenda dos pais.
Maurício – Ah, que pena...
Vanessa – Pois é.
Maurício – E onde fica essa tal fazenda?
Vanessa – Acho que é na cidade de Ponta dos Campos.
Maurício – Ponta dos Campos? Ponta dos Campos é no interior, mas eu gostei tanto dela que vou fazer um sacrificio. Eu já sei o que vou fazer. Vou comprar uma casa lá, assim vou poder ficar bem perto daquela maravilha.
Vanessa – Você gostou mesmo dela, né?
Maurício – É claro. Linda daquele jeito quem não gosta? Assim eu aproveito e faço umas boas visitinhas pra ela lá.
Vanessa – A vadia vai adorar. Eu fico imaginando a cara de sonsa dela quando a campainha tocar e ela atender toda empolgada achando que é a idiota da Laura e de repente... BUM! Maurício.
Maurício – Que horas a gente se encontra? Quero a grana logo.
Vanessa – 16:00 tá bom pra você?
Maurício – Tá ótimo. E caso a linda da Isabella vá mesmo pra Ponta dos Campos avisa ela que lá vai ter uma bela surpresa esperando por ela.
Vanessa – Não. Faz uma surpresa pra ela. Eu tenho certeza que ela vai adorar. Agora eu vou desligar. Tchau.
Maurício – Tchau.
Eles desligam. Vanessa pega sua bolsa e tira de dentro o dinheiro. Ela começa a contar as notas.
Vanessa – Perfeito.
Vanessa coloca o dinheiro na bolsa novamente. Ela fecha a bolsa e sai.
Na lanchonete do Mônaco, Laura e Kevin chegam. Laura está com o braço sendo segurado por Kevin com força.
Laura – (sendo levada por Kevin à uma mesa) – Me solta, Kevin!
Eles chegam na mesa e ele solta o braço dela.
Kevin – Senta.
Laura – Não precisa, Kevin, eu fico bem em pé.
Kevin – Senta, Laura.
Laura se senta.
Laura – Tá bom, Kevin, o que você quer?
Kevin – Você continua com aquela ideia maluca?
Laura – Que ideia maluca, Kevin? Do que você tá falando?
Kevin – Como assim “do que eu tô falando?” Você sabe muito bem. Quando é que você vai parar com essa ideia estapafúrdia de levar a Isabella pra fazenda?
Laura – Não é nenhuma ideia estapafurdia, Kevin. Você sabe muito bem que é o melhor a ser feito.
Kevin – Melhor? Só se for pra você, não é, Laura? Pra Isabella não é. Será que você não percebe? Tudo isso aconteceu aqui, ela tem que ficar pra poder esquecer tudo isso, superar o trauma.
Laura – Mas...
Kevin – Me diz uma coisa: você não gosta da Isabella não? Você quer o quê, que ela tenha medo do mundo, das pessoas?
Laura – Claro que eu gosto, Kevin. Ela é a minha irmã. Você me ofende com essa pergunta. Eu quero o bem dela tanto quanto você.
Kevin – Então desiste disso. Deixa ela aqui. Eu já disse, ela tem e vai ter todo o meu apoio. Olha, eu conheço uma psicóloga amiga da minha mãe que é ótima. Eu tenho certeza que se a Bella fizer um acompanhamento psicológico pode ser muito bom pra ela.
Laura – Psicólogo?
Kevin – Sim, Laura.
Laura – Pra quê, Kevin? Ela mesma acabou concordando que um tempo longe pode ajudá-la.
Kevin – Não, Laura. Ela está agindo pelo Nicholas. Ela vê nessa viagem a oportunidade perfeita para esquecê-lo. Eu conversei com ela. Ela não está bem, está triste. No fundo eu sei que ela quer ficar.
Laura – Não sei não, Kevin. Não é só pela Vanessa, é pelo Nicholas. Ela ainda gosta dele. Eu não quero que ela sofra mais do que já sofreu.
Kevin – Pensa bem, Laura. Não faz isso.
Laura – Não, Kevin. Eu já pensei e já tá decidido. Ela vai e ponto final.
Laura se levanta.
Kevin – (enquanto Laura está encostando a cadeira na mesa) – Laura... Laura, espera!
Laura sai.
Enquanto isso, numa rua, Nick está dirigindo com Angel, que está dentro do carro no banco traseiro, quando se lembra:
No jardim do Mônaco, Nick fica olhando para a porta da casa de Isabella, quando ela porta e dá de cara com Nick de longe. Eles ficam se olhando. Isabella deixa uma lágrima cair do seu olho direito e fecha a porta.
Nick, que está alheio aos seus pensamentos, não percebe quando o farol se fecha pra ele e quase atropela um garoto.
Angel – (grita) – Cuidado, Nick!
Nick dá uma freada brusca no carro e o menino sai correndo assustado.
Angel – Nick, cuidado. (com voz de choro)
Nick – Calma, Angel. Já passou. Tá tudo bem.
O farol se abre e Nick sai com o carro.
Na casa de Bob, na cozinha, Rosângela observa do vidro da janela, AJ segurando Luna no colo e a girando no jardim.
Rosângela – O que que tá acontecendo?
Do vidro da janela, Rosângela vê quando AJ beija Luna na boca. Ela faz um sinal de “não” com a cabeça.
Na casa de Maurício, na sala, ele está vendo uma revista masculina, quando a campainha toca. Maurício se levanta e atende. É Vanessa. Ela está segurando uma pochete na mão.
Maurício – Oi, gostosa?
Vanessa – (levanta sua pochete para o alto) – Adivinha o que eu tenho nessa pochete.
Maurício – (se fazendo de desentendido, dando risada) – O quê? Eu fiz alguma coisa muito maravilhosa essa semana?
Vanessa – Seu presente.
Vanessa entra na casa dele, vai até o sofá e abre a pochete. Ela vira a pochete de cabeça pra baixo e todas as notas vão caindo.
Maurício – Uau... é grana demais...
Vanessa – É a sua recompensa pelo seu serviço maravilhoso. Maurício, você fez um trabalho exemplar.
Maurício – Ah, eu sou bom em tudo o que eu faço. E com uma gata como a Isabella por perto a inspiração aumenta.
Vanessa – É... que pena pra você que a ladra de namorados vai sumir pra Ponta dos Campos.
Maurício – Relaxa... eu vou pra lá pra ficar pertinho da princesa. Agora vem cá... vem cá que eu tô com saudade de você.
Maurício empurra Vanessa pra mais perto dele e os dois dão um beijo selvagem.
No dia seguinte...
No Colonial Mônaco, na casa de Isabella, na sala, Isabella está deitada no sofá apagando as fotos dela com Nick do celular.
No jardim, Nick está caminhando, quando dá de cara com Kevin. Nick vai até ele.
Nick – (enquanto Kevin olha pra ele sério, com a mão fechada) — E aí, Kevin? Como vai?
Kevin, que está com a fisionomia séria e com a mão fechada, dá um soco na boca de Nick de surpresa.
Fale com o autor