O trenó seguiu viagem até um acampamento, aos olhos do garoto pareciam um acampamento. Havia tendas de panos velhos afundadas na neve e para cada passo dado entre elas haviam tochas de fogo reluzentes. Também tinha pessoas, quando o trenó parou bem no meio do lugar, elas formaram uma pequena multidão.

Podia ter oitenta ou mais de cem, o garoto não sabia contar além disso. Todas elas tinham uma semelhança incrível, além das roupas de frio feitas de pele, todos ali tinham pele morena e cabelos escuros, quase pretos e olhos estranhamente amarelos. Havia crianças também, todas elas encolhidas aos pés dos adultos. Lobos também se juntavam ali, perto das crianças, como se fossem cães de estimação.

Sentiu lhe puxarem pelo cabelo, pensou em gritar mas dando em vista que isso podia deixar-los aborrecidos, ou teriam um motivo para mata-lo. Oquem pensariam dele, esses selvagens? Será que tinham tanto medo dele quanto ele tinha deles? Talvez tivessem.

Foi arrastado até o meio da multidão, quando o deixaram de joelhos na neve, todos aqueles olhares estranhos o estavam assustando, talvez pudessem lhe fazer algum mal e teria que morrer amarrado e com os dentes batendo por conta do frio.

Quando o menino finalmente parou de tremer conseguiu fazer a pergunta que ecoava por sua mente:

—O-o que vocês irão fa-fazer comigo?-O menino disse entre soluções. Não queria chorar, mas sua expressão estava estranhamente retorcida.

—Calado.-O soldado do meio respondeu com frieza e rapidez. Ele se calou, como o homem ordenou. Achou melhor não dizer mais nada, então eles sabiam falar.

Por entre as sombras do fogo, viu figuras se aproximarem do circulo, a medida que ele chegava mais perto as pessoas se afastavam em uma respeitosa plateia. A primeira pessoa que conseguiu ver foi um Um homem de , sua pele era enrugada e negra, cheia de cicatrizes,seus olhos eram fundos e negros,e de sua cabeça nasciam alguns tufos de cabelos brancos usando vários tipos de pele de animais.

—Onde eu estou?-O menino perguntou, já sentindo os olhos queimando.

—Eu faço as perguntas.-Disse o velho. -Meu nome é Hiram. Sou o Alfa líder dessa matilha. Meus homens disseram que você brotou do gelo. Isso é verdade?

—Eu não sei.-Respondeu o garoto, sua mente parecia querer volta a se lembrar do que havia acontecido, mas um dos guardas com a lança lhe deu um tapa do lado esquerdo do rosto. Não teve escolha, as lagrimas começaram a correr.

As pessoas em volta começaram a se pronunciar em vozes baixas, talvez eles achassem errado uma criança inofensiva estar sendo espancada, mas nenhum deles agiu realmente a favor do garoto. Todos permaneceram calados e estáticos, como se esperassem alguma resposta.

—Quero respostas exatas. Sim ou não. Entendeu?-Perguntou de forma firme.

O garoto balançou a cabeça

—Eu perguntei se você entendeu.-Voltou a perguntar. Ele balançou a cabeça mais uma vez, dessa vez mais rápido. Então mais um tapa do outro lado fez seu rosto queimar.-Eu quero ouvir sua voz.

—Sim.-Ele conseguiu dizer,ainda sem muito fôlego.

—Ótimo, agora responda, você brotou do gelo?

—Sim.-Respondeu, mas novamente sua mente agiu-Não.

Mais um tapa.

—Bem,estou vendo que você não vai me responder, não é mesmo?- O homem virou a atenção para os guardas- Vocês me fizeram perder tempo, ele não é um espião, é apenas um garoto. Delirando, provavelmente. Tirem-no da minha frente.

—Devemos...Devolve-lo a floresta?- Um dos guardas questionou, lentamente.

O homem mais velho virou as costas.

—Eu não sei e não me importo.

O terror invadiu o garoto, seria abandonado na floresta? Eles realmente eram selvagens a esse ponto?! Fechou os olhos com força, rezou internamente com todas as forças para estar sonhando e que acordasse, seja lá de onde ele estivesse dormindo. Sentiu as pernas voltarem a ser arrastadas na neve, seus lábios agora se moviam em um apelo silencioso.

—Esperem!-Gritou alguém, uma mulher, a julgar pela voz.

O garoto abriu os olhos e realmente era, uma mulher que estava junta a multidão, estava indo até ele e tinha feito os guardas pararem de lhe arrastarem. Ela se ajoelhou ao lado do garoto e ele sentiu seus braços o envolverem.

´´Era quente´´ Foi tudo que ele conseguiu pensar, realmente depois de tudo se limitou a fechar os olhos lentamente como se quisesse dormir ali, mas sabia que não duraria para sempre.

—Eu prometo, vai ficar tudo bem- Ela murmurou docemente, uma de suas mãos foram até a cabeça do garoto e ela começou a lhe afagar os cabelos, quase que com afeição.

Porém isso teve um fim breve, ela se pós de pé ao lado do garoto, ela encarava o líder de forma confiante, quase que de igual para igual.

—Eu me responsabilizo- Disse ela por fim -Eu cuidarei dele, garanto que sempre terá um lugar em minha mesa e um abrigo contra o frio. Ficarei responsável por qualquer ação dele dentro da matilha, seja boa ou ruim.

Houve um desacordo entre a multidão, o líder se virou, não parecia impressionado.

—Se ele adoecer, você mesma cuidara dele- Ele advertiu- E se ele morrer, que suas mãos cavem a sepultura dele sobre gelo e neve. Poderá ser aceito como membro da matilha futuramente, até lá quero ele fora do nosso caminho. Estão dispersados.

A multidão se espalhou, até mesmo os lobos se afastaram se separando entre as barracas. A sombra do líder desapareceu do mesmo jeito em que surgiu. A mulher porém, continuava ali.

Ela foi quem o pós de pé sobre a neve e enquanto desatava as cordas ela perguntou:

—Você tem nome?

—Não-Disse ele, mas acrescentou de forma rápida- Senhora.

—Isso não é necessário-Disse ela- Sou Mya, pode me chamar pelo nome. Se você não tem um, teremos que arrumar um para você, concorda?

O garoto assentiu.

As cordas já estavam soltas, mas as marcas em seus braços e pernas doíam e estavam terrivelmente vermelhas. Felizmente, Mya o levou em direção a um dos acampamentos de tendas afastadas do centro. Havia uma fogueira crepitando em frente a cada um desses conjuntos, era possível ver famílias inteiras ali e lobos escorados aos pés do fogo, deitados sobre a neve, despreocupados.

—É aqui-Disse ela, indicando o lugar mais a frente.

Havia três tendas armadas juntas, uma fogueira e crianças correndo em volta dela, 5 ao todo. Elas pararam de correr em volta do fogo quando seus olhares se voltaram para Mya.

—Mãe!- Todos eles exclamara e correram para abraça-la.

O garoto viu que sobre o ombro dela, um par de olhos estranhos o detectou, eram os de uma garota.

—Quem é ele?- Ela perguntou se afastando da mãe.

Todos os outros 4 fizeram a mesma coisa, se afastaram e continuaram encarando a figura estranha em silêncio.

—É o novo irmão de vocês- Mya respondeu, com simplicidade- Quero que todos sejam gentis e fiquem responsáveis por ele.

As 5 crianças o cercaram de imediato, logo fizeram perguntas que o garoto não soube responder :

´´Você é um beta?´´

´´Como se chama?´´

´´Você é diferente, veio de longe?´´

Ele reconheceu o par de olhos que o viu dá primeira vez, eram amarelos e cintilantes, assim como os de todos. A garotinha se afastou.

—Qual é o nome dele, mãe?- Ela perguntou.

Mya fez uma expressão pensativa e se ajoelhou ao lado do garoto.

—Que tal...Rayan- Ela sugeriu- Oque você acha , gosta desse?

—Sim...- Respondeu.

—Excelente- Disse ela- Agora todos vocês, em fila, quero todos limpos até a hora do jantar.

Os garotos formaram uma fila reta, do maio para o menor, mesmo tendo o mesmo padrão de características, eram todos fisicamente diferentes. O mais alto, e mais velho, era um garoto de cabelos pretos muito pouco arrumados, seu nome era Koda. Em segundo havia a garota, que tinha os cabelos escuros puxados para trás em um coque despenteado, se chamava Evie. Depois vinha outro garoto, mais baixo que Evie e tinha os cabelos escuros espalhados pelo rosto e apesar da altura menor, parecia ser o mais responsável entre eles, Raphael. Depois havia os garotinhos menores, de idênticos , desde os rostos arranhados e até os sorrisos maliciosos, não pareciam ter mais do que 3 anos. Os gêmeos mais novos, Brandom e Ben.

Rayan estava feliz, Mya havia lhe dado roupas quentes para vestir e também um lugar na cabana do lado esquerdo, que dividia com Raphael e Koda. O lugar, nada mais era que um espaço para encaixar um saco de dormir. Durante o jantar, que foi em frente a fogueira, havia pedaços de carne assando ao fogo, o cheiro de comida foi tão arrebatador que deixou Rayan tonto. Os lobos se aproximavam de fininho, para tentar suplicar alguns pedaços em expressões tristes. Os gêmeos jogaram quase toda a comida, até que Raphael disse para pararem, pois aquilo só iria atrair mais deles até lá, ainda sim os dois continuaram jogando pedacinho menos na neve.

Enquanto estava encolhido dentro do saco de dormir, Rayan estava se sentindo feliz, afinal tinha um nome e agora uma família. Ainda que houvesse muitas coisas a qual não tinha conhecimento, sentiu que tudo isso viria aos poucos, quem dirá das suas lembranças, de antes chegar ali e de ficar conhecido como ´´O garoto que brotou do gelo´´.