A manhã chegará límpida e fria, era o sétimo ano de inverno e decimo primeiro da vida de Rayan. Antes do amanhecer um grupo havia saído para uma caçada, vinte ao todo, divididos em cinco trenos. Havia sido a primeira vez que Rayan havia se considerado com idade para seguir os irmãos mais velhos, estava entre eles agora. Todos estavam mais adiantados com relação ao irmãos.

—Se topar com outro banco de neve, eu juro que te amarro com os lobos!- Advertiu Evie.

A garota estava montando um arco e flecha, quando Koda, que estava todo risos e assobios bateu novamente com o trenó.

—Gostaria de ver você tentar- Ele retrucou, com não mais do que uma sugestão de sorriso no rosto.

Raphael nada comentava desde a saida da matilha, estava distante e com os olhos concentrado em algum ponto mais a frente, com o capuz jogado sobre a cabeça. Até que ele apontou para o lado oposto da trilha e disse com uma voz abafada:

—Pela clareira.

Koda puxou as rédeas com força e fez os lobos pararem.

—Tem certeza?- Ele questionou.

—Me lembre uma só vez de quando eu estive errado.

As respostas foram dadas ali, ao ar frio da manhã. Koda novamente impulsionou os lobos a correrem para fora da trilha no caminho oposto entre as árvores até a direção da clareira.

—Não estamos nos arriscando?- Perguntou Rayan se dirigindo a Evie.

—É claro- Disse ela de forma animada- Essa é a graça, só aproveite.

Rayan não respondeu, ainda estava incerto e se sentia tão confuso como quando chegará naquele lugar estranho a três anos atrás, de um rio congelado em pleno alto inverno. Mas havia pouco que não entendesse.

A unica coisa que lhe parecia ocupar a cabeça, era a histórias que sua mãe lhe contava até alguns anos atrás. Todos os seis filhos em volta da fogueira, enquanto Mya falava suavemente sobre as terras do verão, os bosques cor de bronze e fogo que habitavam para lá do sul, as terras do leste moldadas por mármore e piramides de tijolos cintilantes de todas as cores. Sobre as florestas que ficavam nas terras neutras onde ali eram chamadas de "Terras de sempre inverno" Nunca houve de fato uma história com um final feliz.

Tudo que se contava sobre aquele lugar eram sobre os vampiros e gigantes das neves, que raptavam meninas na calada da noite e bebiam sangue dos inimigos por cornos polidos, tal como os selvagens das terras neutras que eram conhecidos por esfolar o rosto dos inimigos e usa-los como disfarces. Pensar nisso fazia Rayan estremecer.

Sabia porém que por todo aquele território de varias culturas, cidades e povos diferentes havia uma coisa em comum. Desde que se dizia que a deusa da lua havia se apaixonado por um grande guerreiro, descrito como um lobo. Desse amor haviam nascido três filhos, ou nesse caso, os três deuses que andaram sobre a terra.

Do filho mais velho havia nascido os descendentes, chamados de Alfas. Estes eram considerados líderes fortes e capazes, tanto quanto eram excelentes guerreiros. Normalmente viviam longe do controle das cidades e se juntavam em matilhas ao longo das montanhas. Muito do temperamento impulsivo e irracional dos alfas, de acordo com os antigos, vem do sangue de lobo.

O filho do meio havia tido descendentes chamados de Betas, que por sua vez, foram considerados os principais líderes da terra por serem muito numerosos. Porém perderam os privilégios de poderes ou grandezas maiores, chegando a grande parte viver em cidades, capitais e muitas vezes em vilas.

A mais nova e unica filha porém, deu vez aos Ômegas. Criaturas pequenas, sendo em maioria mulheres podendo apenas gerar filhos, entretanto mais fortes e saudáveis.

Mas a verdade era que qualquer um, seja homem ou mulher pode vir a ser descendente de uma dessas três classes. Ainda que seja raro encontrar mulheres alfas e homens ômegas, erma chance pequenas mas não impossíveis.

Por conta dessas varias diferenças físicas e biológicas, enquanto a maioria beta esbanjava todos os confortos de cidades extensas e numerosas, alfas e ômegas preferiam passar o resto de suas vidas como andarilhos ou a sombra de uma matilha, vagando seja entre as terras do verão, outono, as cintilantes florestas da primavera ou mesmo as escuras e frias terras de sempre inverno.

Desde que havia começado a aprender sobre aquela cultura, aquele povo (Que agora era seu também) Do porque eles viviam em florestas ao porque de tantos titulos serem concedidos havia percebido o quão longe estava de qualquer fosse o lugar que tivesse vindo.

De todos ali, apenas Koda era um alfa. Desde o primeiro dia, se supos que Rayan seria um beta, de alguma forma isso nunca o havia incomodado. Estava feliz por ser normal em ao menos alguma coisa desde que se lembrará.

O trenó parou por completo. Evie logo prendeu a mochila de flecha atrás das costas e abaixou o capuz. Rayan esticou o braço até a arma mais proxima que havia conseguido alcançar, uma lança. Estava tudo muito quieto, nem mesmo o vento balançava as ávores naquele lugar.

—Cheiro de sangue- Disse Koda.

—Vamos sair e procurar- Disse Raphael- Seja oque for, não pode ter ido longe.

—Certo- Concordou Evie. Ela fez um gesto para segui-lá, Rayan pulou para fora do treno e se pós ao lado dela de imediato, ainda com a lança em mãos.

A neve ali, lhe afundava até os joelhos. Evie estava enterrada de branco até os tornozelo e se movia com dificuldade.

—Não é sempre assim- Ela comentou ofegante pelo simples esforço de andar naquele terreno desregulado- Normalmente, essas caçadas acabam em sangue e ferimentos mas...Nos animais.

—Oque você acha que Raphael pode ter visto?- Perguntou Rayan.

—Eu não sei- Admitiu ela- Mas vamos descobrir. Fique de olho em qualquer trilha...

—Porque nada anda sobre a neve sem deixar pegadas...-Ele continuo, entornando o mesmo ditado.

Já havia ouvido aquela frase milhares de vezes, porém Evie lhe recompensou com um sorriso gentil.

Porém, depois de todos aqueles passos e olhares sem ver até mesmo dos próprios pés. os dois estavam novamente de volta ao lado do trenó, mas Koda e Raphael haviam avançado mais do que era esperado sobre a neve.

Enquanto Evie e Rayan passavam o tempo brincando com os lobos cinzentos que puxavam o treno, a sombra baixa de Raphael apareceu distante sobre a neve acenando.

—Evie! Rayan! Venham depressa ver oque Koda encontrou!- Ele gritava ao longe, e mais uma vez a sombra dele desapareceu sobre a neve.

—Vamos ver que carcaça eles desenterraram agora- Evie murmurou.

Ela e Rayan levaram o treno até onde Raphael e Koda provavelmente haviam chegado. Não era muito longe, mas havia sido mais do que ele e Evie conseguiram chegar andando. Rayan pode ver que Koda aninhava alguma coisa no braço e algo com um cheiro pútrido havia se espalhado ali, como perfume.

—Deuses- Evie murmurou ao olhar para o chão.

Um lobo, ou oque havia sobrado de um, estava jogado a neve. Mesmo ele estando em decomposição Rayan se assustou, a coisa tinha cinco vezes o tamanho dos lobos que puxavam os trenos, até mesmo eles tentaram se afastar apreensivos.

A coisa tinha a garganta aberta desde o focinho até a barriga, mas as entranhas pareceram sumir debaixo da ultima camada de neve

—Não se preocupe- Disse Koda- Ela está morta.

—Mas morreu ao dar a luz?- Raphael questionou.

Quando se aproximou, Rayan pode ver o embrulho que Koda segurava nos braços. Era uma minuscula bola de pelos completamente pretos, encolhida a ponto de parecer o menor filhote de cão do mundo conhecido. Ainda não havia abrido os olhos, mas batia cegamente com o focinho contra o peito de Koda.

—Oque são?- Perguntou Rayan por fim.

—Lobos gigantes- Disse Raphael- Eles crescem muito mais do que os normais.

Depois das palavras "lobos gigantes" Serem pronunciadas, na cabeça de Rayan veio a mente a história de que os antigos guerreiros costumavam montar lobos gigantes como cavalos de guerra, mas não sobravam muitos guerreiros vivos para contar que de fato chegaram a domar um lobo gigante.

—Tem mais desses aqui- Disse ele- São cinco ao todo. Acham que podemos levar?

—Você é o mais velho- Respondeu Evie- Acha que a mãe vai permitir?

—Podemos dizer que são filhotes de cães- Sugeriu Rayan.

—E depois?- Questionou Evie- Imagino que isso é um mau pressagio.

—Você imagina demais-Disse Koda.

Haviam outras bolas de pelo pequenas sobre a neve, todas elas negras ou cinzentas de olhos ainda fechados. Logo que colocaram todos os filhotes sobre o treno, Rayan recebeu o menor deles nos braços, mas este tinha os olhos amarelos e cintilantes abertos e uma pelagem acastanhada, o filhote até mesmo chegou a lhe lamber um lado do rosto com a língua morna.

A viagem de volta foi feita com Rayan abraçado a pequena bolinha quente junto ao corpo. Logo o filhote começou a querer se mexer entre seus braços, mas ele procurava manta-lo dentro dos limites do treno para que este não caísse.

Chegaram ao anoitecer, poderia não haver de fato uma caça, mas sem duvida Rayan se sentia mais satisfeito com os filhotes de lobo do que ter atravessado a lança em algum animal, pensava agora na mãe dos filhotes que deixaram sobre a neve e sobre quem ou oque havia matado.

Acima de tudo pensava no que Evie havia dito sobre o mau pressagio e sentiu o medo se retorcer dentro de sí como uma serpente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.