Sexta-feira, 13 de Junho

2 Na frente do penhasco...


Aconteceu tudo muito rápido, e eu nem percebi quando ela se foi. Eu não pude senti-la pela última vez.

Depois que ela me deu a notícia na praça, eu fiquei em choque; a ficha ainda não tinha caído. \"Ela vai o que?\" A príncipio minha reação foi ficar lá sentado abraçado com ela. Ela chorava com o rosto em meu peito, e eu olhava pro nada, minha expressão vazia... não acreditava... não conseguia acreditar. Naquele momento, eu não estava mais dentro da realidade. Naquele momento eu não existia.

Ela, aos poucos, parou de chorar... me soltou e levantou-se. Ela me olhou de cima a baixo. Eu ali, sentado, olhando pro nada. Uma lágrima escorreu do meu olho esquerdo. Eu continuava em choque.

Ela me beijou novamente. Ela estava tensa, fazia-o como se fosse a última vez, com toda a intensidade que podia, com todo o fogo que ali ainda sobrara, mas eu não conseguia senti-la. Ela estava distante. Meus sentidos estavam atordoados. Mesmo eu não correspondendo, ela continuou. E ela continou...

Ela se levantou mais uma vez — a última — se despediu... e partiu.

Eu não senti nada. Ela sumiu... Nunca mais voltou...

Aquela sexta-feira acabou no momento em que ela disse o meu nome...

\"Meu pai fechou negócio Rafa, nós vamos embora...\"

Depois daquilo somente sobrou o vácuo que ela deixou no meu peito. Ela partiu, e levou consigo um pedaço de mim... a melhor parte de mim.

Eu não tentei levantar... por quanto tempo fiquei sentado ali? Teriam sido minutos? Horas? Não sei ao certo. Sei somente que adormeci. Acordei... a praça estava clara. Pessoas circulavam pelos arredores. Eu me levantei meio grogue, não de sono... me perguntei se eu teria sonhado tudo aquilo. Me perguntei se aquilo seria possível. Fiquei de pé. Andei até a saída da praça e subia a Avenida Angélica até chegar na Consolação, e dali continuei seguindo reto, por instinto. Eu estava andando, não para chegar em algum lugar, mas estava andando só por andar. Por que eu não tinha nada a fazer. Nada.

Senti vontade de ouvir alguma coisa, enfiei a mão no bolso e puxei meu celular. Havia uma mensagem de texto.

\"Rafa, eu tô no aeroporto... a gente vai embora daqui a 30 minutos. Desculpa não ter avisado antes. É que eu não queria deixar as coisas mais difíceis, me desculpa... eu te amo.\"

Mais uma vez eu fiquei parado, olhando pro meu celular. Estava ali, em pé. Não conseguia acreditar. Definitivamente. Foi naquele momento que o meu mundo realmente desabou — ou pelo menos o que havia sobrado dele.

Dessa vez, não uma, mas várias lágrimas, soluços e gemidos escaparam. Uma senhora que estava encostada à parede reparou em mim. Percebi e, envergonhado, saí correndo. O mais rápido que eu podia. O mais rápido que qualquer um poderia!

A cada passo que dava escorriam mais e mais lágrimas. Lágrimas não, lágrimas seria muito pouco. Minha face estava encharcada daquele líquido. E eu sentia o gosto na minha boca.

Eu corria sem olhar para onde estava correndo, pulei carros, esbarrei em pessoas... A ficha tinha caído. Ela havia partido. Eu não esperava que fosse tão de repente. Ela não me disse a data. Não esperava que aquela noite teria sido a nossa última noite, nossa última sexta-feira, nosso último suspiro, nosso último, tão triste, beijo...

Meus pés estavam doendo muito... eu estava correndo já fazia muito tempo e o céu já mudara de cor. Tropecei. Só tive tempo de sentir minha cabeça tombando no chão.

Me levantei atordoado, tonto, sentindo dor... Olhei para o chão e vi sangue, e senti o sangue escorrer pela minha testa até que começou a cair por cima dos meus olhos... Agora o sangue se misturava às lágrimas em meu rosto. E eu olhei ao redor. Estava em outra praça, esta de concreto.

Levantei e, lentamente caminhei de volta para casa, andando por aquelas ruas escuras... meus pés doíam, mas não tanto quanto o meu peito.

Quando cheguei em casa, não fui ao quarto... dormi no chão da sala.

7 dias se passaram...

Saí do quarto, rendido, derrotado. O que eu queria, naquele momento, era poder simplesmente tê-la em meus braços. Mas isso já não era possível, pois ela estava muito longe.

Saí pela rua escura, observando os pequenos detalhes dos edifícios. Eu já não mais podia ver a beleza das coisas. Na avenida, somente minha sombra me acompanhava. Então, depois de algum tempo andando, cheguei à catedral da Sé. Não sei por que, mas, naquele momento, me deu uma enorme vontade de subir até o topo da igreja.

A praça estava deserta. A única coisa que havia lá era um carrinho do posto policial móvel, mas eles — os guardas — não se encontravam lá. Depois de checar o lugar, comecei a subir pelas grades das janelas, depois mais para o topo, pelos detalhes da arquitetura. E do alto da cruz negra, olhei para a cidade... para o nada... para ela.

Não fazia uma semana que ela havia partido e eu nem conseguia me imaginar muito mais tempo sem ela. Pensei, realmente pensei em me jogar lá do alto. Mas fui sensato. Não valeria a pena. Isso não a traria de volta. Fiquei lá em cima, apreciado a vista da cidade, pois isso me acalmava. A escuridão também.

Que horas eram? Três da manhã? Quatro? Não importava. \"Olhei para o brilho das estrelas no céu noturno.\" Eu estava deprimido por causa dela.

\"Amor é fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente;\" nunca havia entendido como algo tão prazeroso poderia causar dor... mas eu estava começando a entender... ou melhor sentir.

As saudades doíam; não físicamente, mas sim no fundo do meu coração, da minha mente... Era como se eu estivesse frio, incompleto... havia um buraco atravessado no meu peito. Eu sentia um enorme vazio. Quis fugir dessa dor.

Senti vontade de correr. Lentamente me levantei, minha sombra, lá em baixo, me seguiu e eu pulei para a outra torre da igreja numa queda livre. Me agarrei no parapeito da janela, caí e me segurei na batente de outra e, novamente, pulei para longe da igreja, caindo em cima de um pequeno edifício cinza. Corri pelos prédios... pelas árvores de cimento da floresta de concreto. Era uma sensação agradável, era como que, quando eu estava correndo e saltando o vento que eu cortava entrava pelo buraco em meu peito e preenchia o vazio, quebrando essa máscara... essa corrente que me prendia. Aquele momento foi bom para mim... Quando eu cheguei em casa, já exausto, caí duro no chão e dormi, mas por dentro eu estava tão leve.