Estavámos lá, eu e ela, andando por aquela rua escura, seguindo passos de velhos amigos. Eu sabia que era algo sério, ela desviava os olhos claros dos meus escuros, e mexia no cabelo; exatamente como fazia quando estava nervosa. Haviamos chegado à praça, pulamos a cerca. Apesar de estar distante, eu podia senti-la, ela estava com medo. Medo de como eu reajiria? Medo de que nos pegassem novamente? Medo do que estava por vir? Eu não sabia [ainda]. Só sabia que eu devia tentar reconforta-la. Abracei-a e ela me respondeu o abraço deitando a cabeça em meu ombro enquanto andavámos pelo concreto da praça verde escura no calar da noite. Subimos ao centro da praça onde havia uma bela estatua branca, cinza na ocasião. Cada detalhe da cena, cada parte das imagens que me aturdiam aos olhos enquanto eu a acompanhava durante nossa passagem eterna ficava preso na minha cabeça, como uma máquina registradora. Todos os acontecimentos anteriores se encaixavam à nossa melancolia e tornava cada vez mais difícil para mim imaginar uma forma de alegra-la. Então nos sentamos num dos bancos em volta da estátua. E antes que eu pudesse perguntar o que ela queria, seus lábios macios e delicados já se encontravam juntos aos meus, e naquele instante era como se nada daquilo estivesse acontecendo, erámos só nós, [sosinhos no escuro]. Guiei a dança de nosso beijo e senti a chama que ela emanava, que sempre me mantera calmo [até aquele dia]. Então, como num eclipse, quando a luz do sol é interrompida lentamente, mas ao mesmo tempo tão bruscamente pela sombra da lua, ela parou de dançar e de fugir do meu olhar. Então eu disse o que eu estava esperando a noite inteira para falar:

— Tem alguma coisa para me contar, amor?

Como numa explosão dos filmes de holywood tudo foi muito rápido: Seus olhos incharam e ficaram vermelhos, lágrimas começaram a escorrer e sua exressão, antes séria de sofrimento agora era pura expressão de desespero. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa ela falou:

— Meu pai fechou negócio Rafa, nós vamos embora!