Sexo, Escola e Rock And Roll

15 Um terrível passado e um misterioso futuro


Notas iniciais
* Versão de Sabrina van Gerard *

6 meses, 18 dias e um par de horas.

Esse foi exatamente o tempo que levou algo que, pelo menos em uma certa mente humana, duraria para sempre.

— Pronto, chegamos. — Abandonei meus pensamentos, depois que o táxi parou na frente de um prédio comercial. Pagamos, e em seguida descemos do veículo.

— Bom, eu já vim aqui antes. O estúdio fica no fim do corredor do terceiro andar. — Estúdio... apenas a música serviria para que eu me recuperasse do que acontecera.

Chegando lá, simplesmente entramos na sala de isolamento acústico, sem sequer fazer reservas.

Bom... significa que ainda não havia muitos músicos na cidade.

— Gente, o que fazemos agora? — Ficamos parados olhando para os instrumentos, sem saber o que fazer. Allen e Jack ainda não sabiam tocar os instrumentos adequadamente, e não havíamos planejado nada.

Isabel puxou a mão de Allen e foi até o microfone.

— Canta alguma coisa para animar a gente.

— Eu?! O que você espera com isso? — O jeito do garoto me lembrava de um amigo que eu tinha na infância... apenas amigo, infelizmente.

— Não me diga que você não se lembra daquele evento. — Seu tom de voz era malicioso.

— Do que voc... Ah, fala sério. Aquilo não, eu tinha 10 anos!

— Estava tão fofo, faz aí. — Do que eles estariam falando?

— Não.

— Vamos!

— Não.

— Ok. Então Maria, vem cá can...

— NÃO!!! — Todos gritaram ao mesmo tempo.

— Isso magoa, sabia? Canta, Allen!

— Vocês... — Ele ligou o microfone, e em seguida conectou um pen drive no estereo que estava no canto da sala.

Uma música que reconheci começou a tocar.

"Sekai de ichi-ban OHIME-SAMA

Sou-yu atsukai KOKORO-ete

Yone"

Todos começaram a gritar, como uma torcida. Não entendi muito, até que Allen começou a coreografar junto com a música. Sua voz era boa, limpa, mas não muito... masculina.

"Ahhhh!"

— Assim é fácil despertar o lado homossexual dos homens. — Isabel estava animada, e gargalhou quando o cantor lhe lançou um olhar mortal.

Quando ele terminou, as duas garotas pularam em cima dele. Jack não perdeu uma oportunidade de brincar.

— Eu nem quero saber como você aprendeu esse gritinho...

— Idiota.

— Eles não te cercaram no evento? Desse jeito você fica no topo da pirâmide das coisas molestáveis.

— Vocês têm sorte porque estou aqui para diverti-los. — Ele se afastou dos outros, com o nariz empinado. Jack seguiu-o.

— Então quer nos divertir? — O loiro se agachou um pouco na frente de Allen, olhando diretamente em seus olhos. O pequeno corou.

— Você tem sorte porque sou mais fraco. — Ele andou na direção contrária.

— Você também. — Seu sorriso era malicioso, o que fez Maria e Isabel corarem.

— Um dia eu te mato, idiota. — Jack riu, brincando.

Estávamos em um estúdio, apenas conversando e nos divertindo. Assim, peguei um violão no canto da sala. Eu não aguentava mais.

Improvisei uma melodia, mas roubando a letra de uma música que me acompanhava desde aquele dia.

"Just be friends!

Ukandan da Kinou no asa hayaku ni

Wareta GURASU Kaki atsumeru youna"

Todos pararam de conversar e olharam para mim, seus rostos num misto de seriedade e surpresa. Cheguei apenas até a metade da música, quando fortes lágrimas invadiram meu rosto. Caí de joelhos no chão.

Por que eu estava chorando? Mais do que ninguém eu sabia que nada daquilo havia sido verdadeiro.

Maria se levantou e foi até mim. Sentou-se à minha frente, enxugando minhas lágrimas. Ela sorria tranquilamente.

Naquele segundo, foi como se o mundo tivesse parado para mim. Olhei para ela, tentando manter a expressão neutra.

— Eu sabia que uma hora isso iria acontecer. Vamos lá fora, e você descarrega tudo o que guarda nesse coração. — Ela se levantou, esticando a mão para mim. Olhei para os outros, que apenas assentiram sorridentes.

— Vá. Assim nós aproveitamos para treinar sem passarmos vergonha na frente de vocês.

Então, eu e Maria saímos do estúdio e andamos até uma praça próxima. No caminho, ela não me fez perguntas.

Nos sentamos nas bordas de um chafariz. A cidade era bastante vazia àquela hora, então podíamos ficar mais à vontade. Ela olhou em meus olhos, por algum tempo, e sorriu.

— Maria...

— Sim! — Ela desviou o olhar rapidamente, como se estivesse distraída. Pausa. — Então, Sabrina... você pode se abrir comigo. — Seu sorriso voltou, junto com algumas lembranças que eu não gostaria de ter em mente. Suspirei.

— Não era nada, Maria. Nunca foi nada.

— Do que você está falando?

— Nossa relação. Foi toda arranjada. E tudo começou por minha causa. É uma longa história. — Senti um calafrio, então fiz pressão em meu punho.

— Eu não ligo. Conte-me tudo, Sabrina. Eu não aguento mais vê-la todos os dias e não saber de nada, não saber quem você é.

— Eu não sei porque estou aqui. Se era para passar por tudo isso, era melhor ter morrido ali, não? — As lágrimas voltaram para o meu rosto. Cenas daqueles tempos passaram por minha cabeça. Automaticamente pus a mão no canto direito de meu abdome, a prova que eu havia que carregar.

— Sabrina... isso tudo já passou. Eu não sei o que houve, mas você está entre amigos agora. — Ela me abraçou, acariciando meus cabelos. Meu coração acelerou, por algum motivo.

— Quando eu cheguei nessa cidade, há pouco mais de um ano, a única coisa que eu sabia fazer era cantar e tocar meus instrumentos. Então eu me apresentava em alguns bares como sustento. Até que consegui um emprego permanente em um certo lugar. Logo na minha primeira semana, tive que trabalhar até de madrugada. — As lembranças eram tão fortes que o pavor daquele dia retornava, me deixando tonta, enjoada e sentindo calafrios. Maria me abraçou ainda mais fortemente. — Quando eu ia saindo, dois homens me abordaram... — Solucei ao lembrar-me. — Eles não estavam sóbrios... eu tenho certeza de que uma pessoa sóbria nunca faria aquilo... eles me levaram até um beco, e como animais que acham um cervo morto na relva, arrancaram minhas roupas... e... e... — Não pude continuar de imediato. Estava passando muito mal, e as lágrimas não paravam de cair.

— Calma... isso já passou. Todas essas coisas horríveis estão seladas no passado.

— Eu... tentei me livrar, mas eles me esfaquearam duas vezes na barriga... doía tanto que perdi o foco da visão, e fiquei inconsciente. Até que um homem me achou e me levou ao hospital. Pelo menos é o que os médicos disseram. — Algo em Maria me acalmava, mesmo com aquelas imagens terríveis na mente. — Durante dois dias ele ia me visitar. No terceiro, veio uma pessoa diferente. Um rapaz pouco mais velho do que eu. Ele sempre me trazia, flores, sorrindo com os olhos tristes. — Eu me sentia melhor, era como se um peso saísse do peito... — Quando recebi alta, descobri que seu pai fora diagnosticado como HIV positivo.

— Esse rapaz...

— Sim. Sam. — Abracei Maria com força, naquele momento tão catártico. — O pai dele um dia resolveu ter uma conversa comigo. Disse que Sam não queria saber de trabalhar, só de se divertir com garotas ou de arrumar briga na rua. Disse que não tinha muito tempo de vida, mas que ele queria muito que eu e seu filho ficássemos juntos. Porque eu o ajudaria a tomar um bom rumo na vida, e ele me protegeria e posteriormente me sustentaria. Eu estava tão agradecida, e convencida de que isso daria certo... então chamei Sam para sair, casualmente. Ele apenas aceitou. Mas os dois sabíamos de tudo. Apenas não queríamos tocar no assunto. Eu visitava pai e filho todos os dias, eram minha nova família e eu os amava tanto quanto amei meus próprios parentes. Eu tentava me focar no presente, ignorando o que aconteceria em não muito tempo. Parecia tudo bem, até aquele dia.

— Então... era isso. Desculpe, pode continuar.

— Eu fui visitá-los, quando achei ele e Lil, uma amiga do bairro... — Fiz uma pausa, tentando expressar o ato com o silêncio. — Naquela hora, tudo aquilo em que eu acreditara até ali desapareceu. Percebi que todos aqueles dias juntos não passavam de uma mentira. Mas eu resolvi deixar passar, afinal, eu tinha feito uma promessa ao Senhor Phil, o pai de Sam. E agora, Maria... tudo sumiu de vez. — Me desfiz de seu abraço delicadamente, para examinar sua expressão. Mas era a mesma de antes.

— Agora eu entendo. Entendo tudo mesmo. — Ela arrumou meu cabelo. Meu coração acelerou de novo. — Sabrina... você não está mais chorando. — Era verdade. Minha tristeza acabara. Eu me sentia mais leve, mesmo depois de ter relembrado todo aquele passado doloroso. — Nunca, nunca mais, volte a sentir aquela tristeza. Isso é uma ordem.

Nossos rostos se aproximavam cada vez mais. Por algum motivo, as palavras ficaram presas em minha garganta. Ela brincava com meus cachos, enquanto sorria. Meu coração disparou de vez.

— Maria... o que...

E nossos lábios se tocaram.

P...por quê?

Notas finais
Pois é, Thamy, deu o que falar mesmo hihi