Sexo, Escola e Rock And Roll
13 Admirável drama novo
Notas iniciais
Eu e meus companheiros de batalha caminhávamos até a porta da sala, abatidos, encarando nossas provas de história. Exceto um certo alguém.
— Ah, gente. Essa questão estava ridícula. É claro que o Iluminismo faz analogia ao Renascimento. Basta ver que ambos se baseavam no racionalismo. Isso é o suficiente para desenvolver uma resposta.
Encarei Isabel com meu melhor olhar mortal. Jack e Allen me imitaram.
— Desculpa, senhora gabaritei-a-prova-de-história.
— Vocês poderiam gabaritar se tivessem estudado ao invés de passarem a semana jogandoMortalKombat. Até você, Jack? Costuma sempre tirar as melhores notas.
Odeio quando os outros estão certos e eu não. Mas não era hora de pensar na prova de história. Iríamos comer num restaurante chique às custas do Allen, e eu estava louca para chegar lá.
— Parem de andar feito um bando de condenados, seus idiotas, temos um almoço de rico em uma hora!
— Eu preciso aproveitar, já que quando crescer não vou poder mais fazer isso... com essas notas, vou virar um mendigo e morrer de fome. — E Allen tinha começado com o drama. Dei um tapa em sua cabeça.
— Se você fracassar na vida ainda vai ter rios de dinheiro, já que existe algo chamadohe-ran-ça. Mas nós, reles mortais, teremos que vender manga no sinal e fazer malabarismo com bolinhas de cachorro.
Do nada, Sabrina apareceu na nossa frente. Dei um grito de susto.
— Desculpa, não queria assustar. — Ela se virou para Bel. — Posso corrigir minha prova com a sua?
Depois de pegar a prova de Isabel, ela se virou para nós.
— O professor disse que daria alguns décimos extras para quem não tivesse ido bem e corrigisse a prova. Vocês podiam tentar.
Meu mundo caiu. Agora todo mundo sabia que tínhamos ido mal? Alguns segundos de luto depois, Jack lembrou-se de uma coisa.
— Bel, Allen. Nós tínhamos que entregar aquela lista de matemática hoje, lembram? E já que eu fiz o trabalho todo — Os dois deram um sorriso amarelo. Vagabundos. -, ao menos vocês deveriam ir comigo até a sala dos professores.
Sem esperar um "sim" como resposta, ele simplesmente arrastou os dois escada abaixo.
Eu e Sabrina nos entreolhamos. Levei outro susto. Mas dessa vez era por uma razão diferente.
Nunca a tinha observado muito. Mas agora, olhando de perto para ela, notei que era muito bonita.
E aí aconteceu uma coisa estranha. Meu coração disparou, e entrei em transe. Mergulhei nos profundos olhos verdes de Sabrina, e só voltei quando ela falou, sem saber quanto tempo havia se passado.
- Algum problema, Maria?
- Hã? Ah, não, só me distraí.
- Tudo bem. Que tal irmos logo para a entrada?
- Ok, eu mando uma mensagem para o Allen avisando que vamos pra lá.
Descemos as escadas em silêncio. Não quis olhar para ela, com medo daquilo acontecer de novo. Afinal, o que foi aquilo?
- Ele disse se iria demorar? – Ela perguntava sobre Allen.
- Eles estão procurando o professor. Ele é do tipo que quer distância dos alunos e se esconde assim que terminam as aulas.
- Ele não parece uma pessoa assim. Deve ter outras ocupações.
Sua voz era extremamente doce, e até ingênua. Na verdade, ela parecia ser o tipo de pessoa que não encontra o mal nos outros.
Passou-se um minuto de silêncio.
- Er, Maria... posso te fazer uma pergunta?
Olhei para ela, evitando seus olhos. Ela estava corada.
- Ahm, claro.
- Bom, é que... você... já teve algum tipo de amor proibido?
Amor proibido? Que tipo de pergunta era essa?
- O que quer dizer?
- Já gostou de alguém mesmo a relação sendo impossível?
Por que ela estava falando disso? Na verdade, eu...
- Ah, desculpe. – Ela olhou nos meus olhos. Desviei o olhar. – É meio cedo para fazer esse tipo de pergunta, não?
Tive um calafrio. A cada palavra que dizia, ela ficava mais linda.
- Na verdade – Comecei a falar. Ela olhou para mim. – Eu já...
Quando ia começar a falar, o trio matemática surgiu na nossa frente, ofegante.
- Aquele... maldito... – Allen se sentou no chão.
- Que tipo de professor vai para a mesquita depois da aula? E ainda por cima, sem ser sequer muçulmano? – Jack se sentou ao lado dele, e puxou o braço de Bel, que fez a mesma coisa.
- Vocês conseguem andar até a estação de ônibus desse jeito? – Sabrina se levantou do banco em que estávamos. – Qualquer coisa, posso pedir uma carona para o meu namorado.
O namorado dirige, é?
- Ah, seria ótimo. – Allen se levantou de novo. – Se não for incomodar, adoraria não ter que pegar ônibus em horário de almoço.
- Você tem motorista pra quê, mesmo? – Perguntei.
- Na verdade, o motorista fica com o meu pai o dia todo. É que o trabalho dele fica numa cidade vizinha.
- Então vou chamar o Sam. Acho que fica meio apertado para nós seis, mas ainda assim é melhor do que o ônibus. – Ela tirou um celular meio detonado de dentro da mochila.
Depois de algum tempo, um jipe com estampa militar apareceu na porta do colégio.
- Ele chegou. Vou apresentá-lo a vocês.
Caminhamos até o carro, em fila indiana. Quem via de fora deveria estar rindo da nossa cara. Não tive a iniciativa de verificar.
- Feliz aniversário, amor. — O namorado foi até ela e a beijou.
- Obrigada. Sam, esses são Isabel, Jack, Allen e Maria. – Ela apontou para cada um de nós. Sam veio nos cumprimentar. Era alto, mas não tanto quanto Jack, tinha o cabelo parecido com o de Allen, porém mais escuro, e olhos negros.
- Prazer.
- Oi. – Falei, seca. Me arrependi logo depois: o cara estava fazendo um baita favor para nós.
- Obrigado por nos levar até o restaurante.
- Olá.
Entramos todos no carro. Sabrina foi na frente, e nós quatro nos esprememos atrás. Allen resolveu sentar no colo de Bel, para abrir mais espaço. Isso despertou a atenção de Sam.
- Vocês dois são namorados?
A dupla olhou para ele.
- Não, somos amigos. – Allen disse. – Bel é a namorada de Jack.
- Ah, é mesmo? Achei que ele fosse namorado da pequenininha.
Pequenininha?! Quem aquele cara pensava que era?
- Não. Como sou pequenininha, não alcançaria sua boca. – Fui o mais ríspida possível. Bel me olhou com cara feia.
- Foi mal aí. Não quis ser invasivo.
- Você não foi. Me desculpe pela Maria, ela é assim mesmo. – Bel fez o favor de responder antes que eu dissesse alguma besteira. Ah, qual é. Só sou sincera.
- Que isso. Ela é uma guria legal, acho que vamos nos dar bem. – Ele me olhou pelo retrovisor, com um sorriso estúpido. Lancei-lhe um olhar gelado.
Nos mantivemos quietos até chegarmos ao restaurante. Desembarcamos, atrapalhados, e entramos. Sam resolveu ir junto, mas não ia almoçar, só acompanhar. Não gostei muito da idéia, mas não podia me manifestar sem ganhar olhares gélidos.
O lugar era grandioso. Tons de vinho e marrom, design clássico, lustres e música ao vivo. Rico era outra coisa.
Sabrina e Isabel foram ao banheiro. Na verdade, Bel só queria ver o design do lugar inteiro. Havia ficado encantada com aquilo, era como a casa de seus sonhos – sem os troços de restaurante, claro.
Depois, Allen foi com Jack até o caixa pedir alguma coisa. Surpreendentemente, estava lotado, e demoraria horas até que alguém viesse nos atender. Os dois garotos me pediram para esperar na mesa, porém não gostei nadinha de ficar a sós com Sam.
- Você é bastante petulante, não é? – Ele se sentou à minha frente, me encarando. Seus olhos percorriam meu corpo como adagas. Olhei para ele, irritada.
- Ah, eu não era uma garota legal até agora pouco? – Desafiei-o com um sorriso sarcástico.
- Mas você é legal. – Ele tocou minha mão. Recolhi-a, rapidamente.
- Está brincando comigo? – Ele realmente estava me irritando. – Isso é algum tipo de jogo?
- Não, princesa. – Ele segurou meu braço. Tentei soltar. – Só quero conversar direito com você. – Sua expressão era tão cínica que me dava nojo.
- Larga o meu braço. – Eu finquei minhas unhas em seu pulso.
- Não adianta me atacar com suas garrinhas. – Ele me puxou para perto de si e chegou seu rosto próximo do meu. Tentei me livrar dele, mas o cara era muito forte. Ele começou a beijar meu pescoço e a passar e mão pelo meu corpo.Tive um acesso de náusea.
- Me... larga... – Ele não largou. A única coisa que pude fazer foi gritar. Mas minha voz falhou, e o grito saiu fraco. Para melhorar, a nossa mesa estava bastante isolada do resto do lugar.
- Idiota, para de gritar. – Ele agarrou mais forte nos meus pulsos, ignorando os olhares alheios. Olhei de relance para o balcão, e notei que Allen e Jack já estavam voltando. Parece que ele também notou, pois me soltou e encostou na cadeira.
Depressa, me levantei e sentei do outro lado da mesa. Os dois chegaram com alguns recibos em mãos. Segurei o braço de Jack quando ele passou ao meu lado.
- O que foi, Maria? – Ele olhou em meus olhos e captou a mensagem. Sentou-se ao meu lado. Vendo aquilo, Allen sentou-se à minha frente, assentindo com a cabeça. Eu podia sentir que Sam nos observava, apesar de evitar olhar em sua direção.
Um tempo depois, Sabrina e Isabel voltaram. Sabrina se sentou ao lado de seu namorado idiota, e Bel ao lado de Jack.
- Oi, amor, que saudade senti nesse tempo que você me abandonou. – Sam deu um beijo em Sabrina, que ingenuamente retribuiu. Como uma garota daquelas foi parar com um falso e descarado como aquele homem?
Algum tempo depois, nossa comida chegou. Eu não sabia o nome de nenhum dos pratos, mas eles pareciam deliciosos e absurdamente caros. Um deles era uma lagosta, que Allen fez questão de atacar.
Esperamos o pequeno leão acabar de se servir, e pegamos o resto.
Eu não conseguia aproveitar bem a refeição. Sentia que Sam me encarava de longe. Meus amigos estavam preocupados comigo, pois já sabiam que havia alguma coisa errada só de me verem daquele jeito. Então, não agüentei.
- Bel, você pode vir comigo até o banheiro?
- Ah, claro. – Ela se levantou, fiz o mesmo.
- Mas você acabou de voltar de lá. – O imbecil do Sam resolveu se intrometer.
- Isso não me impede de ir de novo. – Eu adorava Bel. Curta e grossa, mas sem perder o charme. Sam levantara os braços, como quem diz “eu me rendo”. Ridículo.
Andamos até o banheiro, tentando agir naturalmente. Chegando lá, me deparei com uma mulher de meia-idade que retocava a maquiagem.
- Algum problema, Maria? Você não parecia muito bem.
- Olha, Bel... se eu te contar uma coisa você promete guardar segredo, por tudo que é mais sagrado?
- Pode falar. – Entramos no box para deficientes físicos e trancamos a porta.
- Sabe aquele namorado da Sabrina?
- Sei. O que tem ele?
- Bom, basicamente ele tentou me assediar enquanto vocês estavam longe. E conseguiu, em parte. – Fui direto ao ponto, pois sabia que Bel era confiável.
Ela me encarou por um minuto, tentando processar.
- Como é? – Ela realmente não acreditava.
- Você ouviu.
- Olha, Maria... eu não sei se posso acreditar nisso, aquele cara foi tão legal nos trazendo até aqui, e ainda vai nos emprestar o estúdio. – Droga. Eu tinha esquecido da parte do estúdio.
Olhei-a bem nos olhos, séria.
- Eu já menti para você alguma vez na minha vida?
Ela me encarou igualmente. Respirou fundo.
- Tudo bem, eu acredito em você.
- Sabia que podia confiar em você. Mas então, o que eu faço?
- Aquele cara tem uns 20 anos de idade, você tem 15. Pode até colocá-lo na justiça.
- Não exagera.
- Ok, ok. Mas... o que exatamente ele fez?
- Agarrou meus pulsos com força e começou a passar a mão em mim e a beijar meu pescoço. – Tremi só de lembrar.
- Deus, como a loira foi parar com um cafajeste desses? – Eu também me perguntava isso... – Tudo bem. Vamos fazer de tudo para manter ele longe de você, e pelo menos dois de nós têm que ficar por perto.
- Dois?
- Já pensou se ficar só o Allen com você, por exemplo? É capaz do cara assediar os dois. – Apesar de tudo, rimos da situação.
- Verdade... – Fiquei séria de novo. – Mas Bel... sinto como se devesse falar isso para a Sabrina.
- Acho que ainda não. – Ela chegou mais perto. – Viu como ela o olha? Está totalmente apaixonada.
- Realmente. Parece você com o Jack. – Soltei um risinho.
- Quieta. Mas, por outro lado... vamos deixá-la com aquele imbecil?
Nos entreolhamos. Acho que ela pensou o mesmo que eu. “Aquela garota é uma bruxa. Há algumas semanas, a odiávamos, e agora estamos preocupadas com ela”. É a vida...
Sem dizer mais nada, saímos do banheiro e voltamos para nossos lugares. Nossos dois garotos pareciam curiosos. Sabrina não estava achando nada estranho. Apesar de sua expressão imutável, parecia contente por estar ali. Era mesmo uma garota incrível. Senti minhas bochechas queimarem ao olhá-la. Teria que aproveitar que estava feliz agora, pois iríamos estragar aquilo em pouco tempo.
Aquele retardado não iria dar em cima de mim e fazer aquela menina tão linda de boba. Lancei um sorriso cínico para Bel, que retribuiu. Allen e Jack não estavam entendendo nada.
Calminha, garotos... logo iriam descobrir.
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