Notas iniciais
Gostei de ver a curiosidade... rsrs Mas gente, tudo a seu tempo...

Passaram-se alguns dias e a situação entre Clara e Cadu continuava a mesma. Por mais que Clara tentasse fazer com que as coisas melhorassem tudo ia de mal a pior e a dona de casa sabia que parte da responsabilidade disso era sua. Não conseguia mais ter paciência com ele. Sentia-se como um animal enjaulado. Aquela vida familiar que antes lhe era tão agradável, agora parecia uma prisão, como se ali não fosse mais o seu lugar.

Naquela manhã específica as coisas pioraram consideravelmente. Ivan presenciou mais uma briga dos pais e reagiu muito mal, chegando a gritar para os dois que “Criança também podia ouvir a verdade” quando o casal tentou disfarçar a crise.

A dona de casa não sabia mais como levar aquilo adiante, porém, não conseguia desistir de Cadu. Não conseguia abdicar da ideia de fazê-lo aceitar aquilo tudo, isso era quase tão importante para ela quanto estar ao lado de Marina. No entanto, entendia que uma hora teria de desistir. Se as coisas entre ela e ele não melhorassem até que ele recebesse alta, teria de deixá-lo assim mesmo. Não era mais justo nem com ela e principalmente com Marina que demorasse mais tempo.

Como Cadu ainda se encontrava de repouso em casa, depois do incidente do outro dia, Clara voltara a comandar totalmente o Bistrô e era para lá que se encaminhava após deixar Ivan na escola. Sua cabeça, como sempre, dava voltas e nem chegou a ficar surpresa quando se deu conta que estava a caminho da casa de Marina. Precisava vê-la mesmo que fosse só por alguns minutos: “Para começar bem o dia” pensou sorrindo.

Ao chegar no estúdio encontrou a fotografa jogada no tapete olhando algumas fotos. Ficou fitando-a de longe por algum tempo antes de anunciar sua presença. Era mágico vê-la daquela maneira, concentrada no trabalho daquela forma. Já admirava Marina antes mesmo de conhecê-la, o talento daquela mulher era sensacional, sua paixão, sua entrega deixavam a dona de casa maravilhada.

Sem dizer uma palavra foi se aproximando da fotografa e deitou-se junto a ela, posicionando-se em sentido oposto com cabeça em uma das almofadas que estavam por ali, acabaram por ficar de “cabeça para baixo” uma em relação a outra. Marina custou a sentir a presença de Clara, estava distraída, porém, quando percebeu não manifestou maiores reações apenas esperou calmamente que Clara se deitasse ali perto dela. Apenas olharam-se por alguns minutos tendo em vista que as vezes um olhar vale muito mais que qualquer palavra.

Quando enfim quebraram o silêncio foi porque Marina percebeu, mais uma vez: Clara não estava bem. Perguntou-lhe qual o problema e se tinha acontecido mais alguma coisa grave entre ela e o marido. A assistente contou-lhe sobre a reação do filho ao testemunhar a última briga com Cadu e acabou recebendo todo o apoio de Marina, como sempre. Era incrível como Marina havia se tornado sua companheira, seu “porto seguro” sempre que estava a seu lado parecia que todos os problemas simplesmente desapareciam. Marina trazia-lhe uma paz tão grande, mesmo que o natural fosse pensar ser ela o furacão que chegou sem avisos e bagunçou toda sua vida, Clara não conseguia sentir como se tivesse sido assim.Marina chegara em sua vida apenas para ocupar o lugar que, de alguma forma, sempre lhe pertencera. Confuso, não? E realmente era. Há coisas na vida que realmente não têm explicação.

Seguiram conversando, Clara quis saber sobre a sociedade que a fotografa estava prestes a estabelecer com Branca, e se a amada realmente achava que daria certo. Marina afirmou não saber, mas que esse era o único jeito de manter o estúdio funcionando e a assistente, como lhe era de costume, tentou chamar atenção para o ponto positivo dessa inusitada sociedade:

_ Talvez isso seja muito bom pra Gisele.

Marina concordou e aproveitou o momento para terminarem a conversa que tiveram no outro dia. Clara tinha exposto seus sentimentos, porém, nada tinha dito sobre como e quando pretendia, de fato, resolver aquela situação:

_Quando que você vem?

Disse querendo referindo-se ao “quando Clara seria realmente livre para que elas pudessem viver tudo aquilo que sentiam. Quando poderiam ter uma vida apenas delas”?

_ Minha vida tá cada vez mais enrolada caramba, sei que não é fácil pro Cadu, mas também tá muito difícil pra mim.

Foi o que ouviu em resposta.

A fotografa preferiu não ouvir mais nada. Aquelas palavras eram o suficiente. Conhecia Clara e sabia que a amada se tratava de uma pessoa honesta, leal, não conseguiria levar aquela situação muito mais longe. Reconhecia que a assistente já era inteiramente sua, e que aquilo que ansiara durante tanto tempo estava muito perto de acontecer, em breve dividiria sua vida com ela e quem sabe seria para sempre. Não a pressionaria de forma alguma, pois não queria que a amada sofresse e confiava em seu discernimento. Se ela insistia em fazer o Cadu entender tudo aquilo do jeito dela era porque tinha seus motivos e Marina respeitaria isso até o fim.

Aliás, era exatamente esse tipo de comportamento de Clara que fizera com que sua admiração pela dona de casa crescesse a cada dia desde que se conheceram.

_ Eu sei, então não vamos falar nada mais. Vamos ficar quietinhas aqui, juntas.

Assim o fizeram, com a cabeça de uma recostada na da outra, olhos fechados e fazendo-se carinho nos cabelos. Até que em um determinado momento seus olhares se encontraram mais uma vez, o que acabou culminando em um beijo calmo e doce, nele estava refletido toda carga de sentimento que lhes envolvias, fazia com que ambas sentissem ser aquele o seu lugar no mundo: “Juntas”.

Foi ai que a realidade chamou-as de volta:

Ouviram Vanessa, Flavinha e Gisele vindo as gargalhadas em direção ao estúdio.

Afastaram-se rapidamente.

Flavinha e Gisele ficaram constrangidas por terem interrompido o momento. Já Vanessa não demorou a soltar mais um de seus comentários irônicos:

_Oh, que romântico. As duas estão namorando.

Foram levantando-se, sem graça, e preferindo ignorar o comentário de Vanessa.

Clara disse à Marina que precisa ir para o Bistrô, o que Marina, obviamente, lamentou mas acabou despedindo-se dela tristonha. A assistente despediu-se também de Flavinha e Gisele e foi encaminhou-se para o trabalho.

Gisele se aproximou de Marina pedindo desculpa:

_ Não queria atrapalhar.

_Que isso Gi, vocês trabalham aqui e outra vocês não atrapalharam nada. A gente estava só conversando. A Clarinha está cheia de problemas em casa coitada.

Dessa vez, foi Gisele quem não acreditou muito no que Marina havia falado, porém, sabia ela não ter nada com isso e então, calou-se.

_Bom gente, vamos trabalhar então? Vamos, vamos que hoje a gente tem muita coisa para fazer.

A fotografa apressou-se em dizer tentando tirar o foco do que tinha acontecido minutos atrás.

****

Após a visita à Marina, Clara se sentia mais leve. Seu dia de trabalho acabou sendo bem mais produtivo.

Ao final da tarde recebeu a visita de Silvia. Tinha certeza que a médica fora até lá, na verdade, para ver Cadu, porém, como o marido continuava de repouso em casa a loira aproveitou para ter notícias dele através de Clara. A dona de casa informou-lhe que estava tudo bem e Silvia lhe pediu desculpas por tê-la alarmado no outro dia. Clara tratou de tranquilizá-la. Enquanto conversavam sobre a saúde de Cadu e a crise em seu casamento, a dona de casa recebeu uma ligação da escola do filho, informando-lhe que Ivan havia brigado com um colega e solicitando sua presença.

Nesse momento a tranquilidade adquirida durante aqueles minutos ao lado da amada esvaiu-se: “E agora mais essa”. Despediu-se de Silvia e foi correndo à escola preocupada com o comportamento do menino.

Notas finais
Vida difícil essa da Clara...