Na escola de Ivan Clara encontrou-se com Cadu, os dois entraram juntos na sala da diretora. A mulher detalhou-lhes o que havia acontecido, explicando o motivo por ter resolvido chamá-los: o comportamento agressivo do menino não era habitual e a escola interessava-se em saber se em casa estava acontecendo alguma coisa que serviria de justificativa. O casal acabou constrangido pelas perguntas da mulher, pois sabiam bem o que Ivan estava enfrentando. Desculparam-se com ela e prometeram resolver o problema, aquilo não iria se repetir

Já em casa ela e Cadu conversaram sobre a situação e que aquilo não podia continuar, tornou-se visível: os problemas deles chegara ao ponto de afetar o filho. E se tinha algo em que os dois ainda concordavam era que o bem-estar da criança era mais importante que qualquer outra coisa.

Clara tentou chamar a atenção do marido para o fato de ele sempre tentar usar o menino como “moeda de troca”, que eles tinham que tratar o próprio relacionamento e o relacionamento com o filho como duas coisas distintas. Cadu aceitou o argumento da esposa, porém questionou-a cobrando uma posição sobre o casamento dos dois.

A dona de casa já não queria mais conversar sobre aquilo, qualquer coisa que dissesse a Cadu denunciariam coisas que ela não queria lhe dizer, fazia questão de que ele fosse capaz de se dar conta sozinho, afinal como dizer que o deixaria por uma mulher? Como dizer que o amor que sentia por essa mulher era mais que o suficiente para fazê-la desistir dos sonhos, dos planos e da vida que construíram? Como dizer tudo isso a ele e ainda conseguir fazê-lo acredita que não ficara a seu lado durante toda a fase difícil por amor e não por pena? Ele precisava ser capaz de chegar a essa conclusão sozinho, por isso, naquele momento preferiu desviar-se do assunto, alegando dor de cabeça. O importante era que se entendessem em relação a Ivan e isso já havia sido feito.

Nos dias subsequentes esforçaram-se ao máximo para manter um clima ameno entre si, principalmente diante do menino. Cadu tinha tido uma conversa com o filho sobre a briga na escola e o menino prometera que não mais aconteceria.

Clara seguiu ajudando o marido no bistrô pois ele nem sequer havia recebido alta ainda. A saudade de Marina apertava constantemente, mesmo q elas se vissem, eventualmente, quase todos os dias.

Naquele dia após concluir suas obrigações domésticas, Clara encaminhou-se às pressas para o galpão na esperança de ainda conseguir assistir a aula da fotografa, porém, ao chegar deparou-se com a mesma já em curso, contentando-se em ficar ali da porta admirando a amada sem disfarçar o olhar e sorriso apaixonado.

Marina, que até então se encontrava compenetrada no discurso não pôde deixar de perceber ser observada, sentindo a presença da dona de casa retribuindo-lhe o sorriso.

Clara permaneceu ali, acompanhando do lado de fora a aula da fotografa. Quando a mesma chegou ao fim, Marina foi ao encontro da amada chamando-lhe a atenção por sua ausência em classe. Clara justificou afirmando “não estou tendo tempo”, Marina julgava ser verdade, mesmo assim brincou dizendo a ela que a reprovaria.

As duas riram.

_ Pena eu não ter trago minha máquina, hoje tá mais tranquilo.

Disse Clara ainda rindo do que a outra havia dito.

_Não seja por isso, eu te empresto a minha.

Falou a fotografa já oferecendo o objeto que até então se encontravam pendurado em seu ombro.

Clara aceitou-o e tratou de perguntar à fotografa qual exercício ela tinha passado para turma.

_ Eu pedi para que eles fotografassem qualquer coisa que emocione dentro desse espaço.

_ Qualquer coisa que me emocione?

_ Isso.

_ Sua imagem, sua imagem me emociona.

Ouvir essas palavras vindo da amada deixou Marina ruborizada. Justo ela que sempre fora tão segura de si, estava ali, agora, tímida diante da amada. O amor realmente muda as pessoas.

_ Então me fotografa, pode me fotografar.

Disse ela com um sorriso tímido no rosto, porém, mal se aguentando de felicidade. Era sempre assim que se sentia ao lado de sua coisinha.

Clara que ainda mantinha o mesmo olhar apaixonado da hora que chegara, ajeitou o rosto e os cabelos da amada e tratou de fotografá-la.

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Cadu assistira, ao longe, toda a cena.

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Clara e Marina separam-se, a fotografa voltou à classe para conversar com alguns alunos e a dona de casa resolveu, de posse da câmera da amada, aproveitar o tempo livre para exercitar outras dicas que a mesma havia lhe dado.

Clara e Marina separam-se, a fotografa voltou à classe para conversar com alguns alunos e a dona de casa resolveu, de posse da câmera da amada, aproveitar o tempo livre para exercitar outras dicas que a mesma havia lhe dado. Estava de saída com foi interpelada por Cadu, transtornado pela cena que acabara de presenciar e decidido: “Nosso casamento termina aqui” alegando que sairia de casa.

Após ser deixada sozinha por ele, Clara permaneceu por ali, perplexa pela forma com que as coisas tinham acontecido e com as palavras ditas pelo homem. A reação dele tinha sido a pior possível.

Ao acabar de dispensar os alunos Marina saiu à procura de Clara, sendo informada de que algo sério ocorrera entre ela e o marido. Ao encontrá-la veio a saber sobre o ocorrido. Ficou sem reação: na prática, o casamento de Clara já acabara, todavia, entendia o peso trazido por essas palavras ditas em alto e bom som. Tentava consolar Clara quando foram interrompidas por Cadu que, mais uma vez, reagiu pessimamente ao vê-las juntas.

Quando o chef se afastou, foi a vez das duas despedirem-se. Ambas sabiam que Clara tinha uma batalha pela frente ao chegar em casa, teria que lidar com mais uma situação extremamente difícil em sua vida. O coração de Marina estava partido, ver Clara sofrendo fazia com que se sentisse assim.

Imediatamente ao deixar o galpão, Clara foi conversar com a irmã e com a mãe. De certa forma ela buscava aprovação, a família para ela era importante. Dá primeira vez que buscou aprovação junto a Helena, escutou da mesma que ela deveria se preocupar com o marido e esquecer Marina. Como se no coração houvesse um “botão de liga e desliga”. Justo Helena que em outro momento tinha apoiado sua relação com Marina.

A partir desse dia pareceu a Clara que esse apoio só ia até certo ponto. Clara até podia ter alguma coisa com Marina, desde que isso não comprometesse a fachada de casamento feliz. Ali Clara percebera que o preconceito era algo que viria da própria família, mesmo que não assumido, velado. Por isso, em sua primeira conversa com a mãe sobre o assunto, mesmo revelando que amava Marina, acabou por tentar convencê-la que a relação com Marina não traria riscos ao seu casamento.

Contudo, agora não tinha mais jeito, seu casamento chegara ao fim e ela precisava, se não do apoio, pelo menos da aprovação da família. Acabou surpreendendo-se ao ouviu da mãe que a única coisa que a mesma deseja era que “ela fosse feliz”. Sentiu-se mais confiante ao receber essas palavras.

Dali direcionou-se à praia, precisa ficar só. Colocar os pensamentos em ordem.

Embora estivesse muito triste pelo fim de seu casamento, Clara não via a hora de estar nos braços de Marina, porque a partir daquele momento, quando isso acontecesse ela não teria nunca mais de ir embora outra vez. Isso lhe trazia uma felicidade indescritível.

Era certo que o casamento com Cadu não fora a única coisa que lhe mantivera afastada da fotografa durante todos aqueles meses. No fundo, havia dentro dela um certo receio em relação à Marina. Clara não aceitava muito bem a ideia de que aquela mulher pudesse amá-la de verdade, afinal de contas o que “uma mulher dessas viu em mim”? Por vezes convenceu-se que o que encantava a fotografa era a conquista, o fato de “não poder tê-la por inteiro” como Vanessa insistira em dizer-lhe mais de uma vez. Clara tinha muito medo de se entregar totalmente a uma relação com Marina e acabar decepcionando-se. Tinha medo de acabar se tornando uma “Vanessa” na vida daquela mulher e sabia ser possível tal coisa acontecer já que uma vez que se entregasse a tudo que sentia pela fotografa perder-se-ia nesse amor e seria bem capaz de aceitar viver como a ruiva caso Marina um dia resolvesse tratá-la da mesma forma.

Sentia-se insegura pela forma que a fotografa parecia encarar a vida. “Amor e pose não combinam” sempre lembrava dessas palavras, não positivamente. Se era para ser de Marina, queria ser só dela e que ela fosse só sua. Aos seus olhos a amada era muito moderna, enquanto ela ainda tinha pensamentos, sonhos e planos convencionais, além de tudo, ela, Clara tinha um filho e todas as responsabilidades que a maternidade acarreta. Como Marina lidaria com isso? Nessa altura do campeonato acreditava totalmente no amor da fotografa, se não fosse assim, não teria se entregado a ela. Esse era, inclusive, um dos motivos pelos quais não o fizera antes, no entanto, mesmo que Marina a amasse será que seria capaz de acostumar-se com seu mundo? A insegurança de Clara residia nisso.

Mas, agora era a hora de enfrentar. Não podia mais fugir e também não podia mais fazer isso consigo mesma. Era a hora de transformar todo o medo em risco. Porque sem amor nada valeria apena.

Foi para casa determinada a dizer todas essas coisas à Marina. Chegara a hora delas viverem tudo o que estavam sentindo. No mais, também precisava ter uma conversa com Cadu, a última, sem brigas.

Notas finais
Tá chegando a hora :)