Notas iniciais
Etaa vida complicada a da Clara...

Clara atendeu o telefone exasperada:

_ Sílvia? Aconteceu alguma coisa com o Cadu?

_ Clara, desculpa eu pensei que você soubesse.

_ O que? Soubesse o que?

O desespero de Clara agora era quase palpável.

_ Calma Clara, tá tudo bem. É que mais cedo o Cadu passou mal e esteve aqui no consultório com a Verônica. Mas ele já foi examinado e medicado.

_ Com a Verônica? Mas, como foi isso? Quando?

_ Bom, pelo que eu entendi ele passou mal no bistrô e a Verônica acabou socorrendo ele.

_ Ai Sílvia, desculpa mas eu preciso desligar, preciso falar com o Cadu, saber onde ele tá.

_ Tudo bem, tchau e qualquer coisa me dá notícias.

Clara desligou o telefone sem se despedir. E já foi logo procurando suas roupas, jogadas pelo quarto, e vestindo-se rapidamente.

Marina perguntou preocupada:

_ Aconteceu alguma coisa com o Cadu?

_ Eu não sei Marina, a Silvia disse que ele passou mal no bistrô, eu não entendi direito.

Clara agora estava se culpando por tê-lo deixado lá trabalhando sozinho.

_ Calma Clarinha, o Cadu estava bem, não tinha como você saber que isso aconteceria.

_ Eu sei Marina, mas, mesmo assim, eu não tinha que ter deixado ele ir sozinho pra lá, ele acabou de passar por um transplante de coração! Pô! Aonde eu tava com a cabeça?

Clara sabia bem a resposta e agora se culpava também por isso.

Marina tentava tranquilizá-la, em vão.

Quando acabou de se vestir a assistente se despediu da outra e saiu esbaforida pela porta com o telefone em mãos tentando falar com o marido.

Clara passou todo o percurso entre Santa Tereza e Leblon tentando falar com Cadu, porém, o telefone dele só caia na caixa postal. A dona de casa sabia bem o que o marido estava tentando fazer: “Pressão psicológica! Será que o Cadu nunca saberia separar as coisas?”. Ele conhecia preocupação da esposa em relação à sua doença e tentava se aproveitar ao máximo disso.

Ao chegar em seu prédio o porteiro informou-lhe que o outro havia chegado já há algum tempo na companhia de uma moça.

“Verônica” pensou ela, e subiu furiosa até o apartamento onde moravao. Ao adentrar a porta foi logo questionando a atitude do marido em manter o celular desligado recebendo em troca desculpas esfarrapadas:

_ O celular descarregou, eu esqueci ué.

_Você tá melhor?

_ Tô a febre já passou amor...

_Custava ter me ligado? Custava ter me avisado?

_Não quis te atrapalhar.

Ouvir o marido falando daquele jeito dissimulado fez com que ela ficasse com mais raiva.

_ Não quis me atrapalhar mas tá com a Verônica até agora?

Verônica interferiu afirmando estar com o tempo livre e que quis fazer companhia pro Cadu até ela chegar.

Clara agradeceu por Verônica ter cuidado de seu marido, frisando o “marido” em tom de ironia. Afinal, Cadu não fazia questão de gritar essa palavra em alto e bom som para quem quisesse ouvir? Como se as palavras “Marido” e “casamento” dissessem por si só alguma coisa.

A atitude da mulher de Cadu acabou deixando Verônica constrangida e a mesma tratou logo de ir embora.

Com a saída de Verônica a discussão entre o casal prosseguiu:

_ Você foi grosseira com ela.

_ Você não foi legal comigo, o jeito que você me tratou, podia ter me avisado.

Ele sorriu debochando da cobrança de Clara respondeu-lhe:

_ Vem cá, aqui quem tá doente sou eu, não vem fazer a vítima não.

_ Ah é, coitado o doente e eu a vilã. Aquela que não merece nem a sua consideração, mas não se preocupa não, eu vou tomar meu banho e volto imediatamente para cuidar de você, pra cumprir o meu papel de esposa senhor.

Falou Clara ironicamente e foi saindo da sala.

Sabia que tinha sido grosseira com Verônica, que a mesma não tinha culpa de nada, muito pelo contrário. Seu problema era com Cadu e com o comportamento dele nos últimos tempos: Valia-se da própria doença para tentar fazer a esposa se sentir cada vez mais culpada, além disso sempre que podia colocava o filho no meio, ameaçando levá-lo com ele caso fosse embora. Já chegara até a ameaçar tirar-lhe a guarda caso ela levasse adianta o romance com Marina.

Clara não sabia se ele não conseguia separar as coisas ou se simplesmente não queria. Na maioria das vezes ela até tentava entender, sabia que a situação que viviam deveria ser extremamente difícil para o marido, mas ela já não aguentava mais aquilo. Era como se ele não desse valor para nada que ela fazia, para nada do que ela já tinha feito durante toda uma vida que passaram juntos. Aborrecia-se por perceber que ele dava tanto valor ao próprio ego que não conseguia reconhecer que o fato deles não serem mais felizes juntos não apagava o tempo em o que foram, e decepcionava-se por ele não desejar que ela fosse feliz tanto quanto ela desejava que ele fosse. Seu orgulho ferido era grande demais para reconhecer que a esposa podia ser feliz com alguém que não fosse ele.

Foi para chuveiro pensando nisso, no entanto, esses pensamentos desagradáveis não duraram muito tempo. Acabou chegando ao assunto que dominara seus pensamentos na maior parte do tempo naqueles meses: Marina.

Soltou um sorriso bobo, apaixonado ao começar a lembrar da tarde com a fotografa.

*********

Eu realmente vi o que eu tô pensando que vi?

_ Como eu vou saber? Não sei o que se passa nessa sua cabecinha.

_ Ah Marina não se faça de desentendida, foi a Clara que acabou de sair daqui? Era com ela que você estava trancada dentro do quarto?

_ Era, por quê?

_ Ora ora, então finalmente a santinha do pau oco acabou cedendo ao charme de Marina Meirelles.

_ Não é nada disso que você está pensando Van, a Clara está com problemas e quis conversar, só isso.

_ E pra isso precisava se trancar dentro do quarto com você?

_ Queríamos privacidade para que ninguém pudesse interromper a conversa e dai?

_ Por favor, Marina, eu te conheço não é de hoje. Sei que você não sabe ficar sem ter uma mulher na sua cama e conheço essa sua carinha aí. Desde a última vez que você me rejeitou eu sabia que estava dormindo com alguém, só não sabia se era com a dona de casa ou se tinha outra no pedaço.

_ Ou, as duas coisas (…)

Disse a fotografas soltando uma gargalhada.

_ Agora me deixa sozinha vai, por favor.

Pediu Marina.

Mesmo depois de tantos anos ainda se assustava com o fato de Vanessa conhecê-la tão bem. Marina realmente não sabia viver sem sexo, para ela era fundamental, como respirar..

Riu-se ao concluir o pensamento.

Talvez justamente por saber tão bem disso, Vanessa sempre se utilizava dessa arma para conseguir possuir Marina de alguma forma, mesmo que fosse apenas sexualmente. Vira e mexe conseguia seduzi-la e acabavam terminando na cama. Mesmo que não quisesse magoá-la como já havia dito várias vezes, sempre acabava não resistindo.

Todavia, para Marina o sexo e o amor que sentia por Clara eram duas coisas que ela sabia distinguir muito bem e Vanessa precisava entender isso. Quanto antes o fizesse, mais rápido superaria, voltariam a ser amigas como sempre haviam sido e parariam de brigar tanto. Até lá era melhor que a ruiva não soubesse nada do que já acontecera entre ela e Clara e nem das outras coisas (…)

Notas finais
Essa Marina...