Seu Chapéu Torto
1 I
Quando eu tinha dez anos, minha mãe gostava de sentar-se na beirada de minha cama, à noite, a fim de ler para mim. Bem, talvez gostar seja o verbo incorreto neste caso – eu era uma criança atrevida, irremediável, mas mesmo assim minha mãe amava-me o suficiente a ponto de não recorrer a um internato para isolar-me de sua vida; ela enfim havia aceitado seu destino de criar o diabinho que havia concebido e tentar purificá-lo.
A maioria dos livros era constituída dos típicos contos de fada: princesas perdidas e príncipes em cavalos brancos, espadas cintilantes e aventuras valorosas; já outra porcentagem menor incluía as fábulas e contos de moral que uma criatura de dez anos claramente jamais entenderia. É claro que tais histórias não apeteceram meu apetite e mente fervorosa por muito tempo, instáveis como eram. Certa noite, enquanto garoava entre os campos por detrás da janela e minha mãe começava sua rotineira leitura, senti-me homem o suficiente para pedir-lhe uma história real.
— Real? O que quer dizer? – ela perguntou.
— Não sou mais criança para ficar ouvindo contos de fadas. Quero algo de verdade – resmunguei.
Ela me lançou um olhar zombeteiro, erguendo as sobrancelhas como qualquer pessoa o faria – ali estava um espécime curiosa, ainda que comum: a criança que não acredita sê-la. Então, talvez também cansada de percorrer os olhos sobre as mesmas páginas amareladas, ou talvez jogando a favor de minhas manhas já que entendia que não conseguiria escapá-las, minha mãe, a tão solerte senhora Mary Venner, cedeu.
— Pois bem, sobre o que falo... – colocou o livro de lado, pensante. Permaneceu por um tempo calada, mas logo depois suspirou, como se tivesse desistido. – Ah! Apenas o que me vem à cabeça nestas horas é Edward.
— Edward? Quem é Edward? – indaguei.
Minha mãe arregalou os olhos de repente, de maneira que me fez entender que ela havia dito algo que não deveria. Puxei a manga de sua camisola, pedindo-a que me contasse sobre o tal Edward. Ela me sorriu frouxo, um sorriso que me pareceu melancólico.
— Edward era um homem... excêntrico. Não se dava bem com a família e tinha um estilo de vida horrivelmente boêmio. Pouco tempo após eu ter me mudado para a propriedade, ele envolveu-se com uma certa... dama francesa, e ambos fugiram da Inglaterra após a revelação da gravidez dela. Edward, Leo, era o irmão mais velho de seu pai, e seu tio.
Arregalei os olhos, ajeitando-me mais entre os cobertores. Meu pai nunca havia mencionado ter um irmão, e a ideia de possui um tio me era extremamente agradável – é fato que nenhum garoto gosta de ser paparicado por tias intrometidas, afinal, e eram apenas estas que vinham ao solar de North Grove; e ainda, como se a presença delas em si não bastasse, sempre traziam consigo suas filhas de presilhas prateadas entediantes.
— Eu quero conhecê-lo!
— Impossível, – minha mãe pigarreou – nunca mais recebemos notícias dele.
— Por quê?
— Ele se mudou para França, e seu avô o deserdou. Deus sabe o que houve com o rapaz... Embora eu possa adivinhar.
— O quê, mãe? – questionei, meu interesse crescendo mais e mais.
Minha mãe lançou-me um olhar que apenas pude interpretar como pena, e levantou-se.
— Já está tarde, Leo, e eu falei demais. Não pense muito sobre o que lhe contei, e por favor, mantenha isto entre nós.
Ela me deu um beijo na testa, disse boa noite e foi aos próprios aposentos logo depois. Fiquei ali parado na cama, meu interesse no assunto afundando ligeiramente após aquele fim anti-climático; ou melhor, a falta deste. Fui, enfim, dormir emburrado e com o mais novo conhecimento de que adultos não pareciam gostar muito de histórias reais, por qualquer motivo que fosse.
No dia seguinte, como se minha curiosidade houvesse, mais uma vez, retornado a meu corpo – crianças, são, é claro, temperamentais –, acordei o mais cedo que consegui a fim de encurralar meu pai antes que ele saísse de casa. Ignorei, como é óbvio, o pedido de minha mãe na noite anterior. Necessitava saber mais.
Arthur Venner, ou como todos do vilarejo o chamavam, dr. Venner, meu pai, era o médico que os habitantes da vizinhança recorriam quando o fio da existência começava a afinar; circunstância que não era, e ainda não é, incomum. Sempre fora um homem solene e estoico demais para meus gostos, e não posso dizer que meu pai me encheu de amor e carinho; descrevendo minha educação paterna com palavras otimistas, apenas tenho a dizer que nunca passei necessidade sob seus cuidados. Mesmo assim, na maior parte do tempo evitava lhe dirigir a palavra; repetia a mim mesmo o mantra que minha mãe sempre me redigia, “seu pai é um homem ocupado, Leo”, mas a verdade é que o temia.
Naquela manhã, porém, minha curiosidade infantil venceu meu temor irracional do homem.
O peguei arrumando a mala na porta principal; não pensei duas vezes antes de cutucá-lo. Arthur estreitou os olhos, como se perguntasse o que eu estava fazendo acordado àquela hora.
— Pai, podemos viajar à França neste natal? – perguntei.
Ele suspirou, já cansado de nossa interação.
— Por que a França, Leo?
— Então poderemos ir procurar o tio Edward – comentei, com naturalidade. Crianças raramente tem o dom da palavra, ou da sutileza, e eu, infelizmente, carecia dos dois. – Quero conhecer ele.
O olhar que me foi dirigido a seguir, então, fez-me consciente de minhas pobres habilidades de conversação e de minha estupidez. Os olhos negros de meu pai pareciam ter brilhado por um instante; ele agarrou meu braço com força, torcendo-o de leve.
— Onde ouviu esse nome? De sua mãe? – perguntou-me.
Fiz que não com a cabeça, temendo que algo acontecesse com ela. Ainda que a dor que sentia naquele momento estivesse fazendo com que lágrimas se formassem nos cantos de meus olhos, simplesmente não conseguia denunciá-la; já havia lhe desobedecido.
Arthur soltou meu braço de supetão. Em seguida retirou o relógio de bolso do casaco e resmungou alguma palavra feia, despedindo-se, e disse que teríamos uma conversa quando chegasse em casa.
A conversa nunca veio, pelo menos não para mim.
Três anos se passaram desde o incidente.
Aos treze anos, felizmente, já não apresentava mais o mesmo gênio que tinha aos dez, e embora o assunto de Edward Venner e sua misteriosa esposa francesa nunca houvesse sido tocado novamente, o mesmo ainda martelava em minha cabeça.
Passei os anos sem fazer muita coisa da vida. De dia tinha aulas com Victoria, minha professora particular, e à noite gastava o tempo ora lendo, ora atazanando minha irmã mais velha, Evie. North Grove recebia visitas de minhas tias esporadicamente, mas como o meu humor e o delas raramente se alinhava, eu usava as ocasiões para caminhar e arrancar plantas em volta da mansão. Não possuía muitos amigos; ou melhor, não os possuía, além talvez do filho baixinho e banguela do jardineiro que às vezes dava as caras e os personagens que criava em minha mente quando sentia a necessidade de me divertir.
Em uma de minhas escapadas ao escritório de meu pai, acabei descobrindo que meu avô havia falecido meses após o sumiço do filho mais velho, Edward, e semanas depois de tê-lo deserdado. Não cheguei a conhecê-lo, mas ao que tudo indicava o velho havia sucumbido ao desgosto. Talvez fora por este motivo que meu pai havia expulsado a simples existência do irmão de sua vida, afinal.
Ainda assim, não importava o quanto eu pressionasse minha mãe, ela não me contava mais nada sobre a história. Era assunto proibido. Não possuía a coragem de reviver o tópico na presença de meu pai, também, então permaneci quieto, levando a vida como sempre havia feito até então: entre os livros da senhorita Victoria, fugindo de minhas tias e jogando petecas comigo mesmo ou com o filho do jardineiro.
Em agosto de 1808, porém, uma carta chegou à North Grove. Uma carta que fez com que meu pai caísse em seu poltrona, como se houvesse visto um fantasma, os olhos escancarados a fitar a caligrafia trabalhada do papel. Perturbado, ele acabou chamando minha mãe para uma conversa a sós; aproveitei o momento de distração de ambos e peguei o papel com minhas próprias mãos, lendo-o ansiosamente.
“Senhor Venner,
É com grande pesar que venho por esta lhe informar que seu honorável irmão, o senhor Edward L. Venner, e sua esposa, Constance Jauffret, faleceram hoje, em março de 1808, em um incêndio ocorrido em sua residência.
Embora ambas almas estejam agora com o Senhor, o filho único do casal, Philippe Venner, de quinze anos, ausente da casa durante o ocorrido, continua aqui. Como o rapaz diz não possuir parentes próximos ao não ser o senhor, sinto-me na obrigação de pedir, por favor, que adote, ou pelo menos ajude, o pobre moço que conosco está alojado.
Apesar de sua de origem bruta, é um jovem inteligente e de talentos variados. Tenho certeza que será de utilidade para o senhor; por favor, considere-o com o bom coração que sei que tens.”
Ainda que houvessem mais alguns parágrafos abaixo, não tive tempo de lê-los, pois meus pais acabavam de voltar. Coloquei o papel de volta na mesa, onde estava, e com uma rápida olhadela pude verificar que o emissor havia sido um abade de nome Émile.
O primeiro a se pronunciar foi meu pai, agarrando a carta com as mãos robustas e jogando-a para minha mãe.
— Olhe esta desgraça! Olhe!
— Acalme-se, Arthur – ela respondeu, dobrando o papel ligeiramente amassado com o tipo de delicadeza que só ela mesma possuía. – O senhor está agitado demais; por favor, respire.
— Eu sabia que ele iria morrer logo, era de se esperar, mas dessa maneira... – com um lenço retirado da roupa, meu pai limpou o suor gelado que lhe descia a testa. – E agora somos obrigados a aceitar esta vergonha? Eu me recuso, e irei escrever-lhes imediatamente.
— Não seja tão precipitado; o garoto não tem culpa de nada.
— Ele é o filho de uma prostituta e um vagabundo, Mary. Diga-me novamente que ele não possui culpa e lhe perguntarei porque se batiza crianças.
Estremeci diante das palavras cruas de meu pai. Minha mãe suspirou.
— Dê-lhe uma chance; você não o conhece, logo não pode julgá-lo. Coloque-se no lugar dele agora, Arthur. Deve estar sofrendo.
— Edward não se colocou no lugar de meu pai antes de lhe desonrar e matar, Mary. Ninguém o fez!
— Pois bem, seja você o revolucionário nesta hora e não assassine seu sobrinho da mesma maneira que Edward fez com o pai!
Arthur estremeceu, as palavras finalmente lhe atingindo o âmago. Ele sentou-se em sua poltrona, a cabeça entre as mãos. Se não conhecesse meu pai, diria que ele estava chorando, ou pior, de luto pela morte do irmão; logo minha mãe lhe sussurrou algo em seu ouvido que não escutei, e depois, de cabeça baixa, levou-me para fora do escritório.
O nome Philippe ficou incrustado em minha mente, assim também como conteúdo da carta. Tudo parecia estranhamente surreal.
Dias mais tarde, quando eu recitava versos do De Belle Gallico, de Júlio César, uma empregada passou por mim, levando algumas cartas em uma bolsa. Abordei-a, curioso sobre como a história havia se desenrolado, no fim.
— Senhor, não tenho certeza do conteúdo da carta. Apenas fui incumbida de levá-la até o correio.
Resmungando, fui procurar minha mãe. Ela sabia de tudo o que meu pai fazia, é claro. Encontrei-a com minha irmã na sala de visitas enquanto Evie tocava o piano; não muito bem, tenho a adicionar.
— Qual foi o desfecho? – perguntei logo a adentrar a sessão.
— Do que está falando, Leo?
— Da carta. O que o pai respondeu ao abade?
Minha mãe piscou algumas vezes, como se estivesse resgatando de sua memória os fatos que eu lhe perguntava.
— Ah, a carta. Seu pai aceitou o pedido.
— Aceitou?!
— Sim, é claro. Com um pouco de persuasão de uma mulher, tudo é possível – sorriu. – Eu sabia que seu pai não recusaria; ele é um bom homem, afinal.
Levei uma mão até minha boca, um misto de sentimentos tomando conta de mim. Então, logo uma pessoa nova iria morar conosco; meu primo. Eu tinha um primo. A única presença masculina que havia tido em minha vida, salvo a dos empregados, havia sido a de meu pai; a adição de outro membro de meu sexo na casa me deixou atordoado e entusiasmado ao mesmo tempo.
De repente, minha irmã parou de tocar.
— Aposto que ele deve ser um mendigo – comentou. – O que o papai tem na cabeça? Aceitar esse tipo de pessoa em nossa casa?
— Não diga isso, Evie – minha mãe retrucou. – Como cristãos, devemos ajudar aqueles em necessidade.
Evie pareceu ficar emburrada; ela conseguia ser tão insuportavelmente mesquinha quanto minhas primas, às vezes. Não compreendia como a maioria das mulheres conseguia ser tão impertinente.
— Não estou nem aí. Tenho certeza que ele só nos trará prejuízo – respondeu, voltando-se ao seu instrumento.
Virei os olhos.
— E eu tenho certeza que ele consegue tocar essa musiquinha melhor do que você, morcega – respondi secamente, e saí da sala.
Atrás de mim, consegui escutar Evie gritando o meu nome, e minha mãe tentando lhe apaziguar. Ignorei-as. Eu estava ansioso para conhecer Philippe Venner, seja lá quem ele fosse.
Mas, conforme dois meses se passaram, minha ansiedade se transformou em dúvida e frustração. A viagem da França até a Inglaterra não era exatamente curta, ainda mais quando seu destino era Yorkshire e a guerra contra Napoleão continua a rugir por todo canto. Nesse tempo, meus pensamentos todos se destinavam à figura exótica que algum dia colocaria os pés em North Grove, e, como sempre havia sido uma pessoa ociosa até demais, esses pensamentos me desgastavam. E se Evie tivesse razão? E se o tal Philippe fosse um mendigo, não muito lá diferente do menino banguela do jardineiro? Eu o veria com o mesmo entusiasmo, então? Às vezes recordava-me da carta do abade. “Um jovem inteligente de talentos variados” era o que lá jazia escrito, mas até que ponto aquela descrição era verdade? Até que ponto minhas expectativas acerca de meu primo eram certas? Até que ponto o Philippe Venner que eu endeusava mentalmente, como uma espécie de irmão mais velho e que chegaria para satisfazer todas as minhas vontades, existia?
Eu estava cansado. Às vezes até mesmo achava que ele nunca chegaria, que, Deus me perdoe, não teria aguentado a viagem ou a guerra lhe tivesse impedido. Que talvez a carta fosse uma armação. Havia todo um clima de ansiedade em North Grove aqueles meses, uns dias mais do que os outros, e ninguém sabia o que esperar do fatídico momento em que Philippe seria introduzido a nós.
No meio de novembro, as chuvas pioraram. Eu ficava dentro da mansão o tempo todo, e o sol raramente aparecia lá fora; quando o fazia, rapidamente escondia-se mais uma vez. Minha mente já estava se acostumando com a ideia de que talvez Philippe jamais aparecesse, para minha infelicidade, mas tudo mudou uma certa noite.
Nunca fora o tipo de dormir cedo; geralmente, quanto a maioria dos habitantes de North Grove já haviam se recolhido, eu ficava na sala, lendo, ou na cozinha, beliscando seja lá o que eu encontrasse pela frente. Estava a ler uma coletânea de contos populares quando escutei o estrondo de um raio cair no campo. A luz de minha lamparina vacilou, e uma onda elétrica de medo desceu pelas minhas costas. Olhei ao meu redor, mas não vi nada; respirei fundo, mas depois de ler mais duas linhas do livro, ouvi batidas na porta principal. Senti meu coração afundar no peito no mesmo instante; encarei a porta com receio, sem me mexer, e não demorou muito para que as batidas voltassem, dessa vez mais fortes.
Levantei-me do sofá lentamente, fechando o livro e caminhando em direção da porta com a garganta fechada. Quem poderia ser àquela hora da noite? Ainda mais após a queda de um raio gigantesco. De repente, todas as histórias de terror que já havia escutado retornaram à minha mente, e vacilei em tocar a maçaneta de mogno a minha frente.
Por um momento pensei que poderia ser alguém vindo encontrar meu pai em uma emergência, porém depois a ideia de que o estranho do outro lado fosse um maníaco gritou mais alto no fundo de minha cabeça. Ao não ser que...
Philippe.
Sem pensar duas vezes, destranquei o cadeado e puxei a porta para trás; dei-me de cara com um garoto mais alto do que eu, ensopado de lama e chuva da cabeça aos pés, de maneira que não conseguia distinguir-lhe o rosto muito bem, carregando uma mala aparentemente pesada ao seu lado.
Era ele...!
Dei um grito surdo, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, eu ou ele, a governanta da casa veio correndo dos aposentos do fundo, empurrando-me para o lado.
— Senhor...! Sabe que não pode sair por aí abrindo a porta para qualquer um! Agora...
Ela olhou para a porta também, notando o garoto maltrapilho que se encontrava a nossa frente. Amarrando melhor o avental ao redor de sua cintura rechonchuda, ela puxou o garoto para dentro, atordoada.
— É você? – questionou.
— Phillipe Venner, madame – ele respondeu, o sotaque francês um tanto forte em sua língua.
— Por que não nos disse que chegaria! Olhe o seu estado! Se o senhor e a senhora o virem assim... Ah, vão surtar. Venha, vou dar um jeito em você.
O garoto sorriu meio sem jeito, mas nem sequer lançou um olhar em minha direção. Ofendi-me e quis chamar sua atenção, clamando que era eu, Leo Venner, seu primo, mas a governanta insistiu em que eu saísse do cômodo e fosse dormir, pois já era tarde. Tive que obedecer, é claro, senão poderia ter que levar algumas palmadas. A última coisa que eu queria era embaraçar-me na frente de Philippe.
Philippe. O nome tinha um gosto estranho. Ele existia, de verdade.
Considero desnecessário dizer que, após os eventos citados, não consegui um minuto de sono pleno até a manhã seguinte.
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