Seu Chapéu Torto
2 II
Devo ter acabado cochilando, pois apenas acordei quando uma das empregadas veio abrir as cortinas de meu quarto. Levantei de supetão, perguntando-lhe que horas eram; nove da manhã. Em desespero, arrumei-me o mais habilmente que minha mente frenética me possibilitou e desci as escadas com o tipo de velocidade que minha mãe me repreenderia se ali estivesse.
De fato, não estava. Olhei a sala: deserta. O escritório e a biblioteca estavam igualmente desabitados. Dei mais uma volta ao redor dos cômodos da mansão, mas os únicos que avistei eram os empregados, todos ignorantes às minhas preocupações. Um medo estranho apossou-se de mim, então; será que a chegada de Philippe havia sido um sonho? E, se não, o que havia acontecido com todo mundo? Era óbvio que meu pai havia ido trabalhar, mas minha mãe e irmã estavam quase sempre a um palmo de distância de mim.
De repente, senti uma mão em minhas costas; virei-me, assustado.
— Oh, Leo! Aí está você! – era minha mãe. – Estamos no jardim agora; não te acordei cedo porque Victoria disse não viria hoje de manhã.
Encarei-a por um momento, sem digerir as palavras, dado o susto; pelo menos nada de ruim parecia ter acontecido.
— Você viu Philippe ontem, não viu? – perguntou, inclinando a cabeça para o lado levemente. – Vamos, apresente-se a ele.
Tentei articular-lhe algo, mas som nenhum saiu de minha garganta; minha mãe apenas me empurrou para fora, em direção ao jardim. Avistei minha irmã no miradouro, que ficava entre os arbustos das madressilvas e dos lírios, além de outra pessoa que deduzi ser o infame Philippe.
Quando chegamos mais perto, prendi a respiração involuntariamente. Não sei qual visão mais me desgastou os olhos: a da hipocrisia de minha irmã, rindo descaradamente com o primo como se nunca houvesse proferido uma palavra contra a chegada dele ali, ou a de Philippe em si.
Ele era mais alto do que eu me lembrava da noite anterior – não que aquela visão houvesse sido indicativa de sua aparência, é claro, considerando que ele estava coberto de lama da cabeça aos pés –, e acredito até que fosse mais alto do que o esperado em um garoto de quinze anos. Tinha a pele um tanto bronzeada, como se passasse bastante tempo no sol, e os cabelos eram de um loiro queimado. Não direi que ele era particularmente bonito, mas era atraente – o jeito despreocupado com que ele estava encostado na madeira do miradouro me dizia isto.
— Philippe, este é Leo – minha mãe comentou – meu filho mais novo. Acredito que já se encontraram antes.
Philippe fitou-me, e senti uma espécie de tremor descer pelo meu corpo. A breve impressão que eu havia tido na noite passado já desaparecia, então – seus olhos esverdeados pareciam estar olhando não a mim, mas através de mim, e o sentimento não me era agradável.
Então, ele sorriu. Um sorriso inocente e tão descuidado quanto a aura que ele exalava; senti meus ombros relaxarem.
— Olá – ele disse. – Prazer em conhecê-lo, primo.
— Prazer – respondi, sem muito bem saber como continuar a conversa. Minha mãe logo disse que precisava fazer algo e deixou nós três a sós, para meu desgosto.
Evie claramente não estava feliz com a minha chegada ali. Seu rosto já havia se distorcido na carranca usual que ela sempre expressava quando eu estava por perto, mas dessa vez eu conseguia sentir o seu intento de me enxotar aos tapas dali. Felizmente, ela se conteve.
— Então, Philippe – Evie disse, forçando outra risada e ignorando minha presença ali por completo. – Conte-me mais sobre a França.
— Ah, não tenho muito mais o que dizer, – respondeu. – É certamente mais arejada do que a Inglaterra, e menos chuvosa, considerando que eu nunca havia tomado um banho de lama antes. Uma bela recepção, devo acrescentar.
Evie riu mais uma vez, e eu achei que meus ouvidos iriam estourar. Minha irmã conseguia ser tão fingida às vezes que me doíam os membros; era óbvio que ela queria parecer agradável a Philippe, e parte de mim achava a ideia inconcebivelmente engraçada. Philippe não podia ser tão estúpido.
— E as damas de lá? Como elas são? – ela retornou.
— As damas...? O que quer que eu diga?
— Ora, ouço dizer que são muito bonitas, e sempre trajam os mais finos vestidos, com plumas e enfeites. Além disso, possuem muito mais liberdade na França do que aqui. Ah! Como eu queria ir para lá. Diga-me, é verdade?
Philippe franziu o cenho por um momento, um misto de incrédulo e confusão; creio que Evie não tenha reparado no gesto, mas eu certamente percebi. Estava esperando uma reviravolta interessante e bem colocada na conversa por parte dele, mas não foi o que consegui.
— Não sei lhe dizer ao certo; não vivi em meio a burguesia. De qualquer modo, pelo o que experienciei, as inglesas aparentam ser mil vezes mais encantadores do que elas.
Tive de me segurar para não deixar sair um grunhido de nojo; eu estava no meio de dois babacas. Logo entendendo que minha presença ali era de pouca relevância ou uso, fui procurar outra coisa para fazer bem longe daquela cena infortuna. Philippe não era nada do que eu havia imaginado, e minhas esperanças acerca dele, já antes enfraquecidas pelo tempo da espera, haviam sido destruídas de vez.
Eu estava arrasado. Meses de espera, meses inventando conversas para ter com meu primo quando ele chegasse, meses de dúvida, meses para finalmente me livrar de minha irmã, minhas tias e primas chatas; todos estes meses jogados fora. Eu havia sido ingênuo, é claro, mas quando se tem treze anos, acha-se que tudo sairá ao seu bel-prazer; a imaginação é ativa e voa alta, mas mesmo assim, quando ela encontra o concreto da realidade, se espatifa contra ele e vira migalhas.
Fui até a fonte no meio do jardim, encarando minha reflexão na água cristalina. O tempo estava estranhamente agradável – haviam algumas nuvens no céu, mas nada que indicasse chuva iminente. Mas de que me adiantava isso, então. Não tinha nada para fazer, como sempre; Philippe havia acabado de se tornar apenas mais um personagem em minha vida.
Suspirei.
— Que fonte bonita.
Olhei para o lado; era ele. Não entendi exatamente porque estava ali. Teria minha irmã corrido de vergonha depois daquele comentário desnecessário?
— Esteve aqui desde que meus pais compraram a casa – respondi.
— Imagino que seja antiga, então.
Assenti com a cabeça, os olhos ainda fixados na água. A presença de Philippe me deixava tenso.
— Você não fala muito, não é? – riu. – Ou talvez não aprecia minha presença.
— Não é isso – defendi-me prontamente.
— O que seria, então... entendo que ontem você teve que voltar aos seus aposentos; mas agora que estamos livres para conversar, corre de mim.
Ao invés de responder, permaneci quieto. O problema não era ele, em sua totalidade, mas sim minha irmã, que conseguia me aborrecer como ninguém. Entretanto, depois daquela conversa, já havia julgado Philippe um pateta.
— Eu te entendo. É o único garoto da casa, logo ter ciúmes é mais do que natural. Eu não vim aqui te tirar de seu... posto, se é o que acredita.
— Você parecia estar se divertindo com Evie, não queria lhes importunar. É tudo.
— Me divertindo... – riu. – Claro. Sua irmã não é má companhia, mas não irei ficar conversando com ela o dia inteiro. Seus assuntos eram desgastantes demais.
— Então já estavam juntos faz tempo? – franzi o cenho.
— Hmm – ele assentiu. – Desde manhã, fui convocado a tomar café da manhã com ela e a sra. Venner. Francamente, não aguento mais; sentia-me como se estivesse andando em um campo minado.
— Garotas sabem te destruir as energias como ninguém. Principalmente minha irmã.
— Você parece ter experiência neste quesito.
— Ah, pois você também terá se continuar a dar brecha para Evie desse jeito; uma experiência pior que a minha, acredito, pois eu nunca lhe elogiei daquela maneira.
Philippe gargalhou, dando-me um tapa nas costas. Assustei a princípio, mas depois comecei a rir com ele, a tensão de meu corpo indo embora conforme eu abaixava minhas defesas. Retirei, então, o que havia concluído antes; eu havia julgado meu primo erroneamente.
Embora Philippe houvesse dito que não aguentava mais conversar com Evie e minha mãe, o mesmo parecia não se aplicar a mim. Permanecemos colados o resto do dia, inclusive quando Victoria chegou para me dar aula. Surpreendi-me quando Philippe disse que já sabia grande parte da matéria que eu estava aprendendo; aparentemente seu pai, tio Edward, o havia ensinado muito antes de ter falecido.
Achei que ele iria ficar magoado quando mencionasse os pais, mas, por mais estranho que pareça, Philippe não esbanjou reação melancólica nenhuma.
— Você não sente falta deles? Dos seus pais? – perguntei já quando Victoria havia se despedido. Estávamos na biblioteca, que embora não fosse grande, agrupava bem os que ali ficavam. Um dos hobbies de meu pai era colecionar livros, ainda que nunca fosse lê-los; a simples visão de possuir um cômodo forrado deles parecia lhe agradar.
— Dos meus pais...? – repetiu, visualmente checando os arredores como se para fugir da questão ou pensar nela. – Quando você é criado nas mesmas circunstâncias que eu, Leo, aprende a não se apegar demais a nada e a ninguém.
— Mesmas circunstâncias? O que quer dizer?
Ele olhou diretamente para mim – o mesmo olhar que me havia lançado no início da manhã, ainda que mais manso, os olhos verdes contrastando com a iluminação amarelo-vermelha do pôr-do-sol atrás do vidro das janelas.
— Você já está grande o suficiente para saber que nem todos têm os mesmos privilégios, Leo. Eu sou filho de duas pessoas sem classe, futuro ou mérito. Gente pobre, gente sem expectativas.
— Mas... isto não significa que você não os podia amar, nem sentir falta deles – retruquei.
— Oh, não. Eu os amava, e às vezes sinto saudades. Mas eles se foram pelo acaso; o que me resta agora é rezar para se tenha piedade em suas almas e agradecer à minha, por ainda estar intacta. É isto o que as pessoas pobres fazem, Leo. Nós não lamentamos os mortos.
— Mas você não é mais pobre. Vive conosco agora – respondi mais uma vez, um tanto confuso e indignado com a fala anterior.
Ele sorriu quase que imperceptivelmente.
— Ah! Você me é inocente demais.
Eu não compreendi suas palavras em exatidão; de fato, não compreendia a situação também. Tentei me colocar no lugar de Philippe: o que eu faria se meus pais morressem assim, tão tragicamente e de repente, também? Tentei, mas não obtive sucesso. A ideia me parecia sobrenatural e grotesca demais, algo que não se encontrava na vida, mas apenas em histórias desligadas à realidade. Ainda assim, Philippe havia passado por aquela situação.
Senti meu estômago revirar; realmente, eu havia o julgado errado.
— Além do mais, – começou, como sentisse que o clima havia ficado pesado de repente – eu ainda guardo parte deles comigo.
— Como? – Questionei.
— Vou te mostrar.
Philippe levantou-se, e eu o segui. Fomos até a sala de recepção, onde se encontrava o piano de minha irmã. Philippe sentou-se no banquinho do mesmo e pediu que eu me acomodasse também, e eu o fiz na velha poltrona ao canto. Estava curioso com o que ele iria me mostrar. Será que...
— Espero que ninguém se importe com minha falta de modos – ele riu. – O piano não é de uso privado, é?
Fiz que não com a cabeça. De qualquer maneira, a única pessoa que o utilizava era minha irmã; minha mãe sabia como tocá-lo, naturalmente, mas não via graça nem necessidade em fazê-lo. Eu, por outro lado, era um caso perdido. Minhas habilidades restringiam-se a correr atrás de petecas e ler enciclopédia históricas inúteis, como meu pai gostava de lembrar-me; era esperto a minha maneira, mas não possuía talento musical.
Philippe inspirou lentamente, seus dedos posicionando-se nas teclas do piano. Ele as tocou, o som primeiramente desprovido de ritmo ou musicalidade, como a fim de testá-las, mas antes que eu pudesse perceber, uma melodia lenta e calma começava a ecoar por toda a sala.
Minha mente pareceu esquecer-se de seus arredores; a única figura que meus olhos viam era a de Philippe, debruçada no piano, concentrando todo o seu foco na música que saia ao escorregar de seus dígitos pelo dominó do instrumento. Não pude evitar, e sorri. Philippe me parecia então tão natural, tão em seu elemento; como se ele tivesse sido feito pela Divindade para, realmente, sentar-se ali.
Admito que não prestei muita atenção à música em si; a melodia era bonita, ainda que simples, mas nada me cativou tanto quanto o olhar sério e focado de meu primo a encarar as notas e subjugá-las com maestria.
Eu estava totalmente vidrado em sua figura.
De repente, a música parou. Philippe deu um suspiro, e depois tornou o olhar para mim. Levantei-me da poltrona com um impulso, aplaudindo a cena que ele havia acabado de me proporcionar. Philippe apenas riu, sem graça.
— Minha mãe me ensinou a tocar – ele comentou. – Não sei onde ela aprendeu, pois nunca me disse. Muitos achariam estranho uma meretriz saber uma coisa dessas, mas a minha mãe... ela era diferente.
— Diferente como? – perguntei.
Philippe não respondeu. Ele passou os dedos por algumas notas, depois deteve-se.
— Ela criou essa peça. Não é nada demais, mas significava bastante para ela; me disse que conseguia desabafar quando a tocava. No começo eu não entendi, achei que era bobagem. Música é apenas uma sequência de sons que parecem agradáveis aos ouvidos..., mas agora vejo o que ela quis dizer.
Assenti com a cabeça, sem saber ao certo o que dizer; eu carecia de conhecimento abstrato o suficiente para compreendê-lo naquela época. Philippe, de qualquer forma, não parecia estar querendo uma resposta de minha parte; ele só estava expressando seus pensamentos.
— Bom – eu disse, porém, recordando-me de um dos meus diversos livros enciclopédicos de história inúteis, que agora mostrava-se relevante – certa vez li que Aristóteles acreditava na função catártica da literatura, na purificação da alma por meio dela. Por que a música não pode ter a mesma finalidade, também?
Philippe riu, balançando a cabeça negativamente; logo depois, minha irmã desceu as escadas, assustada. Quando avistou o primo sentando em seu piano, achei que ela iria surtar. Entretanto, indo contra minhas expectativas, ela apenas aproximou-se de nós, a mão no peito.
— Você sabe tocar?
— Um pouco – Philippe respondeu.
— Incrível! – ela suspirou. – Você é realmente incrível, Philippe!
Dessa vez, não consegui não revirar os olhos.
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