Notas iniciais
Pra fechar a noite ♥ #aurieta

Uma semana havia se passado após aquela dolorosa conversa. Aurélio não me procurou como eu imaginei que aconteceria. Soube por um funcionário, que ele conseguira devolver grande parte dos aparatos que havia comprado para a fazenda e o que ele não pôde devolver, pagou do próprio bolso, não sei como. O fato é que as contas foram acertadas e ele não me devia mais nenhum centavo.

Eu sentia sua falta como nunca. Queria de novo sua companhia, sua voz, seu cheiro, seu toque. À medida que o tempo passava eu começava a pesar melhor aquela situação. “Será que eu o julguei errado?” Eu já havia errado tantas vezes nessa vida, afinal. Ainda mais, no que diz respeito às reais intenções das pessoas ao meu redor.

“Eu posso sim, ter entendido errado aquele telefonema. Eu posso sim, ter me deixado levar pelas acusações de Susana, que sempre julgava mal a todos.”

"E se Aurélio fosse realmente o aproveitador que tanto enfatizei, ele não teria desistido tão fácil de seu baú. Não teria respeitado minha decisão de afastamento. Poderia muito bem ter usado a dívida comigo como um pretexto para se reaproximar de mim, mas, ao invés disso, ele acertou tudo rapidamente."

Aqueles pensamentos me corroíam. Eu precisava sair de casa, tomar ar fresco. Decidi ir até a cidade. No fundo, eu tinha esperança de vê-lo, mesmo que de longe.

Não encontrei Olegário. Ele devia estar metido com Susana às escondidas. Agiam como se eu não percebesse nada. Resolvi ir mesmo assim, apenas com o motorista.

Na cidade, os moradores me olhavam com respeito. “Se não fosse a intervenção de Aurélio, eles ainda me odiariam.” Pensei, enquanto caminhava. E então, meus olhos encontraram o que tanto queriam. Vi de longe Aurélio entrar na casa de chá. Ele estava de conversa com Coronel Brandão.

Não me viram. E eu não queria mesmo ser vista. Não queria que Aurélio pensasse que eu estava indo atrás dele. Apesar de sentir em meu coração que eu havia errado, minha razão ainda tinha dúvidas quanto ao caráter de Aurélio. A desconfiança ainda era mais forte. Caminhei com cautela até a casa de chá. Se tudo desse certo eu os observaria às escondidas. Só queria saber se ele estava bem e onde se hospedara após deixar a pequena casa que lhe ofereci na fazenda.

Eu estava com sorte. A mesa onde eles sentaram ficava ao lado de uma pequena saleta que adentrei aproveitando um momento de distração dos dois com a espalhafatosa Dona Ágata. Ela levou café e bolo pros dois e finalmente os deixou a sós.

— Você está mesmo certo sobre essa viagem, Aurélio? Sabe que pode ficar o tempo que quiser em minha casa, não entendo porque foi pra hospedaria.

— Não quis incomodá-lo novamente, meu amigo. Apesar do gasto que tive para quitar a dívida na fazenda, eu já havia conseguido juntar alguns trocados. O suficiente para pagar alguns dias de hospedagem e para comprar minha passagem. Amanhã mesmo eu pego estrada.

Eu ouvia tudo com atenção. Estava inquieta. “Que viagem é essa de que tanto falam? Estaria Aurélio indo passar uns dias em São Paulo com Ema?”

— E Julieta? Vai mesmo desistir da Rainha do Café?

Disse Brandão, curioso. E eu quase o agradeci por perguntar por mim. Foi então que vi Aurélio dar um sorriso discreto e triste, eu diria.

— Eu lutei muito por essa mulher, Brandão. Não vejo minha partida como uma desistência. Sinto que no passado, muitas coisas foram impostas na vida de Julieta e ela sofre com isso até hoje. Por isso eu nunca quis impor nada a ela, nunca quis esse papel para mim.

Eu olhava para ele admirada. Era incrível a leitura que Aurélio fazia de mim e da minha vida. Ele parecia me conhecer de tal forma que, se eu tivesse um diário, estaria certa de que Aurélio havia lido. Deixei meus pensamentos de lado e voltei a escutá-lo.

— Esse meu amigo já havia me oferecido trabalho há algum tempo, mas, eu não aceitei justamente por causa de Julieta. Eu não queria ficar longe dela. – Ele respirou fundo. – Agora, que ela mesma decidiu pelo nosso afastamento, não tenho mais motivos para continuar aqui no Vale. Ema e papai estão em São Paulo. Eu também preciso seguir a vida, preciso trabalhar!

— Você está certo, meu amigo. Tenho certeza que será uma boa experiência. Você merece um recomeço. Lá vai poder respirar outros ares, conhecer novas pessoas, novas mulheres. Nunca fui à Recife, mas, a cidade tem uma fama muito boa, dizem que é linda e a economia está se desenvolvendo bem por lá.

— Sim, sim! Para alguém como eu, que perdeu tudo, uma proposta de emprego assim, num lugar como Recife, é praticamente irrecusável.

RECIFE. Aurélio estava indo para Recife. Eu precisava sair daquele lugar, estava desesperada. Comecei a suar, queria chorar, queria gritar. Mas, eu não podia ser vista. Só Deus sabe o quanto foi difícil permanecer ali escondida, enquanto o via terminar de comer, brindar à viagem, se despedir das pessoas... “Você conseguiu, Julieta. Parabéns, você conseguiu afastá-lo!” Era isso. Ele estava indo embora não só do vale, mas, também, da minha vida.

Notas finais
A essa altura, juju já estava sentindo o arrependimento bater a porta. Seria tarde demais para a Rainha do Café? ♥ #aurieta