Seu Amor Em Mim #Aurieta
5 Soberano
Notas iniciais
Entrei na charrete e decidida, pedi ao motorista que voltássemos à fazenda. Eu precisava de um lugar para ficar só e chorar. Durante todo o caminho, as lágrimas insistiam em queimar minha pele. “Eu consegui. Consegui afastar de mim todas as pessoas que eu amo. Como pude ter sido tão dura com Aurélio? Como pude ter acusado com tanta rispidez alguém que sempre foi doce e carinhoso comigo?”
Eu me odiava. Me odiava por não saber confiar nas pessoas, me odiava por ser tão fechada, tão egoísta. Eu queria controlar o mundo ao meu redor, mas, não controlava nem mesmo o meu coração.
Entrei correndo em casa e para meu desespero, me deparei com Susana no pé da escada.
— Julieta, o que houve? Que cara é essa minha amiga, você por acaso está chorando?
— Me deixe passar Susana, estou com muita dor de cabeça.
Eu disse tentando disfarçar as lágrimas.
— Eu sei que os últimos dias tem sido difíceis pra você, Julieta! Mas, acredite! Tirar aquele homem da sua vida foi a melhor decisão que você poderia ter tomado.
Foi então que me lembrei de uma parte da minha conversa com Aurélio que, naquele momento de fúria eu deixei passar sem dar maior importância. Mas, não dessa vez!
— Susana, eu não ia entrar nesse assunto com você, mas, dias atrás Aurélio me disse que você tentou fazê-lo se afastar de mim. Isso aconteceu?
Falei seriamente olhando nos olhos dela. Susana fez uma careta, levou uma das mãos à boca e a outra ao peito, mas, antes mesmo que ela completasse com palavras a sua encenação, eu a interrompi.
— Isso aconteceu, Susana? Vamos, responda! O que você disse para ele?
Ela olhava para baixo, para cima, para os lados, menos para mim.
— Falei a verdade, Julieta. Quantas vezes você mesma me disse que não se dava a certos disfrutes? Eu só quis deixar isso bem claro para Aurélio, então, disse que você me confidenciou que nunca mais se casaria. Que viveria para sempre no luto e que era melhor ele desistir se esperava de você algo além da sua maravilhosa amizade.
— Você não tinha, aliás, não TEM o direito de se intrometer assim na minha vida. Esse tipo de decisão só cabe a mim. E ainda por cima mentiu! Nós nunca conversamos sobre isso, não que eu me lembre.
Eu estava furiosa. Como Susana pôde se achar no direito de influenciar assim o meu destino? Só de imaginar a maneira como ela, provavelmente, falou com Aurélio eu já sentia repulsa. Então, por um segundo eu lembrei da forma como eu mesma o tratei e voltei a me odiar.
— Julieta, eu fiz isso para o seu bem. Desde o início eu percebi as intenções de Aurélio com você. Só quis livrá-la desse sofrimento pronunciado e não me arrependo. Aliás, me arrependo sim! Eu deveria ter sido ainda mais dura com ele. Assim essa história teria acabado MUITO ANTES de qualquer interesse seu, e você não sofreria.
Ouvir aquilo soava até engraçado. Susana não sabia, mas, meu interesse por Aurélio existe desde que eu o conheci. Desde a primeira vez que nos falamos naquele restaurante em São Paulo ele nunca mais saiu da minha cabeça. A verdade é que eu o odiei tanto em nossos primeiros encontros que sou capaz de amá-lo para sempre. Tive vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo. Nem ouvia mais as desculpas de Susana.
— ...quero que saiba que estou aqui, ao seu lado!
— POIS ENTÃO SAIA DAQUI. AGORA. E avise a todos os funcionários que eu não quero ser incomodada.
Susana entendeu o recado e finalmente deixou o caminho livre para mim. Cheguei ao meu quarto e deixei rolar as lágrimas que segurei na presença dela. Abracei meu travesseiro. Aurélio teve muitos motivos para se afastar de mim e não o fez. Eu sou a única culpada pelo seu afastamento. Eu merecia ficar só. Ele não! Ele recomeçaria a sua vida facilmente. Era um homem gentil, amigável, um verdadeiro gentleman. Logo conheceria toda a sociedade de Recife e talvez encontrasse por lá alguém para dar a ele o carinho, o amor e o companheirismo que eu não fui capaz de lhe dispor.
Cancelei todos os compromissos daquele dia para ficar totalmente imersa em meu sofrimento. Lembrei de todos os nossos encontros. Das pequenas mudanças que ele provocara em minha maneira de agir e de pensar. Era inegável: Aurélio fez vir à tona uma Julieta que eu mesma achei que já estivesse morta. A moça romântica, sonhadora e leve que eu era antes de Osório destruir a minha vida.
Eu já havia me conformado em viver de amargura. Mas, Aurélio me desafiou. Ele não só despertou em mim sentimentos que eu já esquecera como me encorajou a demonstrá-los. Eu fui capaz de abraçar meu filho, fiz as pazes com minha nora, consegui contar minha história a Elisabeta e até ficamos amigas. Meu coração estava cada vez mais aberto para as pessoas e eu finalmente era capaz de confiar na humanidade de novo.
O pequeno sorriso que eu mantinha na face enquanto lembrava esses acontecimentos se desfez. “A pessoa que mais merecia minha confiança eu destratei e afastei de mim.” Esse foi o último pensamento de que me recordo antes do cansaço me fazer dormir.
Mas, não pude descansar! Meus sonhos me levavam novamente à casa de chá, onde Brandão dizia, dessa vez com mais ênfase, que Aurélio iria “respirar outros ares, conhecer novas pessoas, NOVAS MULHERES”. Meu estômago revirava. Em questão de minutos eu estava de volta ao meu escritório, sentia Aurélio tocar meu rosto, “Eu nunca me aproveitaria de você, meu amor”. Eu me mexia na cama e de repente, estávamos nos beijando. “Não estou preparada para tudo o que o amor envolve”, “Eu espero o tempo que for”. E assim eu revisitei cada conversa, cada briga, cada beijo. “Um dia você irá admitir e aceitar que me ama”. “Um dia você irá admitir e aceitar que me ama”. “Um dia você irá admitir e aceitar que...”.
Acordei agitada. A voz de Aurélio martelava em minha cabeça. Era isso! Eu precisava admitir. Eu precisava dizer a ele o quanto o amava. Mesmo que ele não me perdoasse, mesmo que ele estivesse irredutível em sua decisão de ir embora. Eu não podia deixá-lo partir pensando que não significava nada para mim, como eu fiz parecer naquela conversa.
Levantei apressada. Meu coração acelerou quando vi as horas. “Meu Deus, como pude dormir tanto?” Já passava da meia noite e as pessoas do vale costumavam sair em viagem antes mesmo do sol raiar. Passei em frente ao espelho e me assustei com o que vi, minha imagem era degradante: eu tinha o cabelo despenteado, a roupa amassada e o rosto inchado de tanto chorar. Mas, não havia tempo para me recompor. Desci a escadaria correndo e foi aí que a realidade se mostrou deveras mais complicada. Àquela hora, todos já estavam dormindo. Não havia ninguém disponível para me levar até a cidade.
O meu desespero pode ser medido se avaliada minha decisão a seguir. Fui até o estábulo. Encontrei Soberano. Ele estava de pé e bem acordado. Eu sorri para ele em agradecimento e dei início a uma das maiores loucuras que me permiti cometer na vida. Eu não cavalgava bem e mal conseguia lembrar quando e como foi minha última montaria, mas, não poderia deixar o medo ser maior que meu desejo de reencontrar Aurélio antes que ele partisse.
Montei o meu cavalo, respirei fundo. O vento batia em meu rosto e fazia dançar os fios de cabelo que soltaram do penteado. Eu me sentia livre como há muito não me sentia. Acho que fui contagiada pela famosa alegria dos desesperados. Acariciei os pelos de Soberano e o guiei em direção à saída da fazenda.
— Vamos visitar um amigo?
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