Será?
11 Retornando ao "normal"
Notas iniciais
— Festa de aniversário adiantada? – Perguntou meu pai quando coloquei o bolo em cima da mesa do quintal.
Estavam todos do lado de fora da casa e havia uma fogueira um pouco afastada da mesa e da entrada da cozinha. A fogueira foi rodeada por todos que estavam em casa, meu pai e meu tio seguravam um violão cada.
— Não é aniversário, mas é para comemorar. – Falei sorrindo.
— Betina, toca com a gente. – Falou meu tio Gilson me entregando o violão que segurava. – Vamos te acompanhar cantando. – Completou ele.
Uma das melhores lembranças que tenho da minha infância é assim, minha família unida, cercando uma fogueira, tocando violão e cantando moda de viola.
Peguei o violão e sentei em um banquinho feito de tronco de árvore ao lado de meu pai.
— O que querem que eu toque? – Perguntei.
De vez em quando participo de luau com o pessoal da faculdade e lá eu sei exatamente que música tocar, mas aqui não, se eu sair tocando um indie Internacional de artista desconhecido que tanto amo, ninguém vai me entender.
— Você escolhe! – Respondeu meu pai.
— Tem certeza? – Perguntei tentando fazer alguém falar uma música.
Meu pai balançou a cabeça em forma de afirmação e todos me olharam esperando eu começar.
Ajustei meus dedos nas cordas e comecei a deslizá-los.
— Sabia que ela ia escolher essa música! – Disse minha mãe se aproximando.
Realmente ela sabia! Eu sou bem atualizada quando o assunto é música, mas quando se trata de "modão" tem uma em especial que adoro.
“Eu quero que risque o meu nome da sua agenda
Esqueça o meu telefone, não me ligue mais
Porque já estou cansado de ser o remédio
Pra curar o seu tédio
Quando seus amores não lhe satisfaz...”
Comecei a cantar e todos seguiram juntos na canção. Não somos uma família de cantores, mas até que somos afinados.
Terminei a música aplaudida.
— Sabia que seria essa! – Gritou minha mãe vindo para perto da fogueira.
— Adoro essa música! – Falei.
Não sei por que, mas desde criança eu sempre gostei dessa música. Foi a primeira que aprendi a tocar e a primeira que cantei em público quando tinha 3 anos numa festa na Fazenda dos meus avós.
— Agora vamos cortar o bolo. Tenho uma novidade para contar! – Falei animada e levantando do banco e devolvendo o violão para meu tio.
Fui até a mesa da varanda e peguei o bolo, coloquei em outra mesa mais perto da fogueira e perto das pessoas. Minha madrinha trouxe pratos, garfos e uma faca para cortar o bolo.
— Qual a novidade? – Perguntou minha tia Célia com curiosidade.
— Já vou contar. – Falei. – Mãe e pai, por favor venham até aqui! – Completei.
Meus pais foram do meu lado. Vi no rosto deles a preocupação do que eu poderia dizer, já conseguia ouvir os pensamentos da minha mãe “ELA ESTÁ GRÁVIDA!” e de meu pai “QUERO SABER QUEM É O CABRA!”.
— Primeiro quero agradecer por tudo que já fizeram por mim e dizer que mesmo longe continuo amando cada dia mais vocês! – Falei abraçando eles. – Agora vem a notícia... – Fiz uma pausa para deixar o pessoal mais curioso. – Sei que para uns pode parecer besteira, mas eu estou muito feliz e quero compartilhar com vocês. EU FUI PROMOVIDA! – Falei por fim.
Meus pais me olharam com admiração, alívio e me abraçaram alegres.
— Parabéns minha filha! – Disse meu pai me dando um beijo na testa.
— Parabéns! Sempre soube que você seria uma ótima jornalista! – Disse minha mãe.
Em meio a risadas e parabéns ouvi palmas, elas vinham da porta da cozinha. Me soltei dos braços de meus pais e olhei para o lado que vinha o barulho.
Encostado na porta estava Felipe e mais a frente Olivia me aplaudindo.
— Parabéns Betina! – Disse ela quando percebeu que a vi.
Coloquei um lindo sorriso no rosto e respondi:
— Obrigada Olívia! O que faz aqui? – Perguntei cínica.
Felipe saiu de perto da porta e foi em direção a Olívia.
— Eu a trouxe. – Disse ele. – Bênção madrinha, bênção padrinho. – Completou ele se dirigindo à minha madrinha e meu pai acenando de longe.
— Deus te abençoe. – Respondeu eles.
— Oi Betina! – Falou Felipe.
— Oi Felipe! – Respondi acenando.
— Parabéns pela promoção! – Disse ele sorrindo.
Me lembrei de quando éramos pequenos e inseparáveis, um protegia o outro, não existia segredos entre nós e tudo que fazíamos era juntos. Hoje nada disso existia, tudo que eu sei sobre ele é que não terminou o ensino médio, não trabalha e está namorando Olívia.
— Obrigada! – Falei.
— Aproveitando que estão todos reunidos quero dar uma notícia também... – Felipe começou a falar. – Eu e Olívia estamos namorando. – Completou ele sem rodeios.
***
À noite passada estava ótima até Felipe e Olívia chegarem. Depois tudo começou a ficar chato e insuportável, então fui para meu quarto e dormi.
Um novo dia começou e melhor que isso é meu último dia aqui! Só de pensar na minha cama, no mar, nas minhas amigas, na minha vida no litoral...
— Posso entrar? – Perguntou minha mãe após bater na porta.
— Pode sim! – Respondi.
— Bom dia! – Disse ela assim que entrou.
— Bom dia, mãe! – Falei ainda deitada.
— Filha, eu sei que você não gosta muito de falar sobre sentimentos, mas eu vi sua cara ontem a noite quando o Felipe falou que está namorando Olívia. – Disse ela se sentando nos pés de minha cama.
— Ah mãe, a senhora sabe que não gosto da Olívia, mas a vida é de Felipe. Nem amigos somos mais. – Falei.
— Entendo. De qualquer forma os dois se merecem. Ouvi dizer que Olívia foi pega roubando um uma joalheria na cidade vizinha, e adivinha quem estava com ela?! Seu primo! – Falou minha mãe.
— Nossa! Mas não quero nem saber deles mãe. – Falei tentando mudar de assunto.
— Bom mesmo, não quero você metida com esse tipo de gente. – Falou ela. – Mudando de assunto, vamos almoçar na fazenda? – Perguntou ela.
— Vamos sim, estou morrendo de saudades do vovô e da vovó! – Respondi.
Minha mãe levantou da cama, foi até a janela e abriu a cortina deixando o sol entrar e me fazendo se encolher na cama.
— Então levanta logo para irmos. – Disse ela saindo do quarto.
Meus pais moram no interior, mas no centro da cidade, meus avós por parte de mãe moram em uma fazenda afastada da cidade. Meus avós por parte de pai morreram em um acidente de carro quando eu tinha 7 meses.
Desde então minha madrinha Sandra a filha mais velha ficou com o papel de cuidar dos irmãos, meu pai o mais novo, meu tio Gilson, meu tio Armando e minha tia Sônia. Pelo lado da minha mãe tenho duas tias e um tio. Minha tia Carla a mais velha, meu padrinho Anderson e minha tia Marlene.
A casa da fazenda é grande, meus avós não gostam de sair de lá, mas adoram visitas.
O fim do meu final de semana foi muito bom. Estar com quem amo é muito bom.
Almocei, andei de cavalo, tomei banho de piscina, ouvi piadas do meu avô, conversei com minha avó e minhas tias que estavam lá.
Por volta dás 16:00 horas me despedi de todos e fui embora, meus pais e as crianças ficaram na fazenda.
***
— Vadiaaaaas! – Gritei ao abrir a porta do apartamento.
Duas horas e 30 minutos após sair da fazenda de meus avós cheguei em casa. Já havia avisado que estava chegando e as meninas falaram que não iriam sair, conseguia sentir o cheiro de bolo de chocolate vindo da cozinha.
— Betina sua puta, que saudades! – Disse Raissa vindo me abraçar.
Deixei minhas coisas no chão e fui abraçar ela.
— Também senti sua falta! – Falei.
— Quero saber de tudo, mas antes vem ver quem está aqui! – Falou ela me puxando para a cozinha.
Da sala já dava para ouvir a voz Clarice, Maria e Orlando conversando. Quando entrei no prédio fui direto para a garagem no subsolo e subi de elevador, nem vi quem estava na portaria.
— Betinaaaa! – Disse Clarice vindo me abraçar.
— Saudades! – Falei retribuindo o abraço.
— Bebena, que saudades! – Disse Maria. – Como foi a viagem? Acho que você cresceu mais alguns centímetros! – Completou ela me abraçando.
Eu tenho 1,79 de altura e Maria 1,58, para ela eu sempre cresço um centímetro a mais.
— Também estava morrendo de saudades Mari! Foi boa a viagem, agora sobre crescer... acho que foi você que diminuiu um pouco. – Falei abraçando ela.
— Deixa um pouco para mim! – Falou Orlando colocando uma mão no ombro de Maria.
— Tem para todo mundo meu velho! – Falou Maria me soltando.
Cumprimentei todos e contei como foi meu final de semana enquanto comíamos o bolo que Maria havia feito, falei sobre minha promoção para Maria e Orlando e avisei que passaria menos tempo em casa.
***
— Bom dia, Betina! O chefe quer falar com você. Ele disse para você ir lá na sala dele. – Disse Mariana, a secretaria.
Segunda-feira chegou e com ela meu primeiro dia como funcionária efetiva da redação de um jornal grande, porém eu ainda não tinha um setor definido quando estagiária.
— Bom dia, Mariana! O que será que ele quer? – Perguntei.
— Não sei, mas ele disse que é importante. – Respondeu ela.
— Deixa eu ir lá então! – Falei.
O editor chefe da minha equipe tem 27 anos e também já foi um estagiário como eu, isso me deixa bem confiante em relação a minha carreira.
Bati na porta e alguns segundos depois escutei ele falar:
— Pode entrar!
— Bom dia, Kelvin! – Falei.
— Bom dia, Betina! Que bom que chegou. – Falou ele.
Na verdade hoje foi meu recorde de horário. Acordei às 5:00 horas e às 7:30 já estava na redação.
— Nem consegui dormi direito de tanta ansiedade para vim logo! – Falei com sinceridade.
— Ótimo! Por que tenho uma proposta para você! – Falou ele com um tom misterioso.
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