Servo da Família Sazawori
4 Faxina de Verão!
Hoje de manhã Lowei, o conselheiro do rei, veio para me fazer uma “visitinha” – leia-se me acordar com um balde de água fria. O conselheiro? Ah, um cara que só sabe meter a fuça nos assuntos do rei e gosta de mandar em mim.
É, hoje não foi diferente. Chegou naquele ar convencido e me mandou limpar o castelo todo. “Canto por canto, fresta por fresta”, de acordo com ele. Desgraçado.
Mas... Fazer o quê, né? Peguei o esfregão, um balde enorme d’água, dois panos e comecei a faxina. Limpei, limpei e limpei. Quando acabei, me dei conta que passei uma hora para limpar somente o quarto de Larian, que era até que um lugar bem arrumadinho.
Desanimado, saí para limpar a sala do primeiro andar. Fiquei ali um bom tempo, demorei bastante tirando as teias de aranha que se formavam dentro dos vasos brilhantes das estantes altas que eram o cúmulo para alcançar.
Aquela porra parecia nunca ficar limpa, não importa quanto tempo eu passasse ali. Os vasos grandes e pesados tinham desenhos tão delicados que dava medo de limpar, parecia até que os desenhos iam virar uma mancha borrada colorida.
Eu estava debruçado na janela tentando limpar debaixo do parapeito de madeira da janela, quando acabei me forçando demais e praticamente me jogando dali. Quando estava prestes a cair, senti algo me puxar para dentro. Quando caí sentado no chão do lado de dentro, dei um suspiro de alívio.
Abri os olhos e vi que Juan estava na minha frente segurando uma vassoura, uma espécie de avental branco e com um pano preso á cabeça. Ele me olhava de um jeito meio preocupado.
-Estava tentando voar, Dawari? –ele sorriu.
Virei a cabeça para o lado murmurei um ‘obrigado’. Juan riu e me ajudou a levantar.
-Por que está assim? –apontei o avental.
-Lowei não te falou? –ele pareceu surpreso- Hoje começa o verão!
-E daí?
Eu podia ter dado qualquer tipo de resposta. Um “ah, legal”, ou um “sério?” seriam boas opções, mas eu escolhi logo a mais direta. Acho que esqueci que estava falando com o rei. Idiota, esquisito, mas ainda é o rei.
Mesmo com a minha resposta curta e grossa, só ficamos num clima pesado de silêncio por alguns segundos, pois logo Juan sorriu de novo.
-Hoje é dia da faxina de verão!
-Faxina de verão? –que diabos é isso?
-É o dia em que fazemos uma faxina geral no castelo. –ele explicou, batendo a vassoura no chão.
Fazemos? Como assim? Ele também vai limpar?
-Desde quando existe isso? –perguntei, tentando ser mais delicado.
-Desde que só temos dois empregados. –ele disse, suspirando, mas logo voltando a sorrir- Eu e Larian vamos ajudar.
-Não precisa... –eu ia completar a frase.
-Precisa sim. Já viu o tamanho desse castelo? –Juan deu uma olhada rápida na sala toda- Isso aqui não é nem metade.
Ele se afastou e foi ver um vaso, ainda tagarelando sobre sua família e outras coisas que nem prestei atenção. Eu teria que limpar todo aquele castelo e ainda ter Juan perto de mim o dia todo. Tem como ficar pior?
Quando me dei conta, Juan estava correndo de um lado ao outro da sala, gritando para que eu tirasse uma aranha que subiu no braço dele.
Ok, tem sim como piorar. E muito.
Quando consegui fazer Juan ficar parado, a coitadinha da aranha já estava tonta. Segurando o braço trêmulo do rei, tirei a pequenina e coloquei-a no parapeito da janela, deixando-a sair.
-Tem medo de aranhas? –sorri sadicamente para Juan, soltando seu braço.
-E-eu? N-não! –ele gaguejou envergonhado.
Eu ri, pegando o vaso que Juan havia largado no chão. Parei de rir quando vi que aquele tão lindo vaso estava com um rachado. Merda.
-O que houve? –Juan se aproximou do vaso- Ops...
Ele pegou o vaso e colocou na prateleira de novo, virando o rachado para trás, impedindo assim de ser visto.
-Uh? Não vamos concertar? –perguntei, vendo que Juan já estava pegando a vassoura.
-Nãão. Sempre fazia isso quando eu acabava quebrando alguma coisa dos meus pais, eles nunca descobriam. –ele riu.
Ri junto dele. Finalmente algum vestígio que ele não é como os outros riquinhos mimados. De um jeito engraçado, sua risada era doce e inocente, mesmo com aquela personalidade forte, ele ria de um jeito tão amável e... Espera o que eu tô pensando? Não, não! Aquele era o Juan, não alguém amável.
Logo Larian entra na sala também. Ela usava um vestido laranja não muito formal, um lenço prendia seus cabelos e já chegava varrendo o chão do corredor. Cumprimentou-nos sorrindo.
-Que demora hein? –Juan disse apoiando as costas na parede.
-Desculpe, estava limpando o corredor. –ela disse, espreguiçando-se- Mas quanta poeira, esse castelo está imundo!
-É, sabemos... –eu disse, enquanto tirava umas duas teias de aranha de debaixo de uma prateleira- A quantos séculos não limpam esse lugar?
-Não vá reclamar, não é nosso dever manter isso organizado. –Juan me lançou um daqueles sorrisinhos irritantes dele- Seria bom um agradecimento.
-Eu já agradeci, e já disse que não precisam ajudar. –eu disse, cutucando um velho espanador. Aquela coisa parecia mais um rato gigante, só faltava aquilo andar.
-Mas nós queremos. –Larian interveio, pegando o espanador.
Continuamos naquela conversa que não levava a lugar algum por um tempo. Então mudamos subitamente o assunto para o reino, depois para os torneios de hipismo. Logo mudávamos de assunto a cada coisa que falávamos. Me enrolei e acabei por deixar a conversa fluir, mesmo sem saber do que se falava.
Ficamos horas para limpar aquilo tudo. Realmente, o castelo era maior do que eu pensava. Mas agora eu pelo menos acho que sei andar por ali sem me perder. Quando finalmente acabamos, estávamos todos exaustos. Larian já estava dormindo deitada no chão e eu estava com a cabeça deitada numa cadeira, caindo de sono.
Quando “acordei”, Juan estava sentado do lado de Larian. Ele não deve ter percebido que eu havia acordado. Acariciava os longos cabelos da irmã e cantava uma baixa e doce canção para ela. Terminou e sussurrou um “Boa Noite” para a ruiva, pegando-a nos braços.
Levantou-se e, antes que saísse para levá-la para o quarto dela, me viu. Sorriu.
-Bons sonhos, Dawari. –ele disse, saindo da sala com a irmã no colo.
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