Notas iniciais
OLÁ FILHOTINHOS DE CACHORRA ♥ -qqqqqqq
Acho que se passaram 18 dias, ou algo assim, e como da última vez eu postei dois de uma vez só, eu me permiti esse "atraso".
Bem, baisser la fourchette significa baixar o garfo. Que pra SalF significa baixar a guarda. E isso foi um quase spoiler.
Esse capítulo foi escrito num momento em que eu estava muito chateada e triste, e isso refletiu muito no Kyu.
Esse capítulo é pra Venus. E só pra Venus. Porque tem umas coisas que eu digo que sem querer chateiam ela, e isso é o mínimo que eu posso fazer como pedido de desculpas. Mianhae, unnie.
E porque eu estou no meio de um pseudo divórcio por causa de um negócio chamado Amor Doce que eu nem sei o que é. Enfim. u.u
Eu com certeza esqueci de alguma coisa, mas tudo bem.
Boa leitura ^^

Aquele era só mais um dia de trabalho, KyuHyun pensava com um sorriso de lado para si mesmo ao se arrumar na frente do espelho, para justificar o fato de ter acordado meia hora mais cedo. Caseou os botões da camisa cor de ameixa que Zhou Mi o fizera vestir no dia em que fora à sua casa. Borrifou o perfume diretamente em si, e penteou os cabelos como de costume, afinal seriam cobertos pelo chapéu.

Foi para a cozinha onde seu café o esperava. Tomou-o tranquilamente, acompanhado de um petit pain au lait com requeijão. Escovou os dentes, pegou sua bolsa de trabalho e saiu. Percebeu que o tempo estava frio, mas não se importou, já era esperado para aquela época do ano.

Chegou ao restaurante quinze minutos mais cedo, comemorando rápida e energicamente ao ver sua vaga livre no estacionamento. Parqueou ali, pegou suas coisas e saiu do carro, dirigindo-se à porta. Foi até o vestiário e começou a se preparar para o trabalho. Pegou a parte superior do uniforme e a vestiu sobre a camisa, caseando cuidadosamente os botões, mas antes que pudesse terminar, foi bruscamente interrompido por uma presença que sentiu atrás de si.

— Kui Xian! — foi praticamente um grito. KyuHyun se virou, prontamente, mas sua feição se tornou repentinamente incrédula, ele olhava para o outro como se o chinês estivesse com dois palitos de pão enfiados no nariz.

— Você voltou! — Zhou Mi exclamou, eufórico, como se estivesse se segurando no lugar.

— É... eu voltei... — KyuHyun disse, ainda distraído e meio chocado com a imagem que via.

Zhou Mi havia tingido o cabelo de vermelho. Não era algo muito berrante ou chamativo, ficara meio que um castanho escuro avermelhado, mas mesmo assim chamava atenção.

— E está usando a minha camisa! — reparou, ainda mais contente.

— É, acho que sim. — KyuHyun murmurou, não conseguindo desviar o olhar. O pior, KyuHyun pensou, é que ele ficava ainda mais bonito daquele jeito. Parecia tão macio, ele sentia ímpetos de tocar as madeixas recém-coloridas.

Olharam-se por vários segundos, Zhou Mi agitado e lépido e KyuHyun com um olhar fixo naquele ponto. Não demorou muito e o chinês cedeu aos seus impulsos, abraçando KyuHyun pela cintura e o pegando de surpresa, fazendo-o arfar.

O coreano de início ficou sem reação, mas logo abriu um sorriso de como o de uma criança que estava prestes a fazer algo errado. Lentamente, ergueu as mãos e pousou-as delicadamente nas madeixas de Zhou Mi. Eram macias e sedosas como ele previra e ele não pode evitar, afundou os dedos ali, escorregando os fios entre eles. Ouviu Zhou Mi dar uma risada.

— Você gostou? — Ele perguntou, chamando a atenção do menor e fê-lo perceber o que estava fazendo. KyuHyun imediatamente saiu dos braços do agora ruivo e deu um passo para trás, olhando para os armários ao lado. Pigarreou, e disse, com desdém:

— É, ficou legal. — virou-se de volta para o armário, na tentativa de não voltar a olhá-lo. Terminou de vestir a camisa, colocou o chapéu e enlaçou o avental na cintura. Pela segunda vez, se assustou, ao sentir um par de mãos sobre as suas quando ia amarrar a peça. Deixou que Zhou Mi fizesse o nó e se afastou, indo em direção ao espelho.

— Siwon disse que você foi pra Paris com o TaeMin-ssi. — o ruivo disse, olhando KyuHyun pelo reflexo, que tentava ajeitar os cabelos sob o chapéu.

KyuHyun percebeu um certo tom de, ele não sabia dizer, algo como desprezo na voz dele, e abriu um meio sorriso, virando-se de frente para olhá-lo.

— É, eu fui. Por que, ficou com ciúmes? — provocou, com um sorrisinho que Zhou Mi julgou como irritante. O ruivo cruzou os braços e apoiou o peso do corpo numa perna, numa pose bem feminina, e revirou os olhos.

— Antes fosse. Deveria ter levado aqueles seus diabinhos junto com você. Eles quase me deixaram louco! — exclamou energicamente.

— Ah, é. Me esqueci de perguntar como foram as coisas aqui, mas parece que você lidou bem. — disse, irônico.

— A sua equipe, no geral, é um amor, consegui trabalhar bem com eles. Mas aquele seu confeiteiro e o seu chef de carnes... como você consegue lidar com aquelas duas criaturas? Eles não paravam de brigar, era só eu desviar o olhar que cada um pegava uma faca pra se matar! Acabou que no, final, eu que levei a pior. — choramingou, erguendo a mão esquerda, cujo dedo indicador tinha um curativo azul brilhante no meio.

Heechul e RyeoWook. KyuHyun riu, imaginando que os dois brigaram pela liderança da cozinha, o que já era previsível.

— Ooh, tadinho do Mimi... — disse, com pena exagerada, fitando o chinês fazer um beicinho, olhando para o dedo enfaixado. — Só dar um beijinho que passa. — disse, todo fagueiro. Pegou a mão erguida e aproximou-a do rosto, dando um beijo delicado sobre o curativo. Não demorou mais que dois segundos o seu olhar no semblante confuso do ruivo, e saiu da sala, dizendo:

— Melhor ir se preparar, temos trabalho a fazer.

——^^——

Assim que chegou, foi ao encontro dos motivos da dor de cabeça de Zhou Mi no dia anterior. Chamou-os para um canto e perguntou:

— Quero que me digam tudo o que aconteceu aqui na minha ausência.

Os dois começaram a falar ao mesmo tempo, rápido demais para que KyuHyun pudesse compreender.

— Ei, ei, ei! Um de cada vez! Heechul, você primeiro. — disse, e RyeoWook revirou os olhos.

— Chef, foi um pandemônio. Ele juntou as duas cozinhas! — começou, indignado. — E ficava opinando em tudo, como se entendesse do assunto. Eu disse que você ia ficar bravo se soubesse, mas ninguém me escutou. — continuou, esnobe. E recomeçou, em tom de fofoca. — Aliás, todo mundo aí ficou bajulando ele, mas eu não, é claro. Eu nunca ousaria. — concluiu, todo embevecido, claramente só querendo agradar KyuHyun.

— Eu disse que todo deveria me ouvir, porque eu sou o mais próximo de ser seu sous-chef¸ agora que a menina Summer foi embora. —RyeoWook disse, de braços cruzados, olhando de lado para Heechul, com desgosto. O boucher fitou-o e lhe deu as costas, pareciam duas crianças brigando. KyuHyun suspirou. De fato, ele não sabia como lidava com aqueles dois.

Antes que a cozinha pudesse começar a virar um caos, Siwon saiu de sua sala e postou-se entre os dois lados, pedindo a atenção de todos.

— Senhores, — disse aos chefs e à equipe de KyuHyun — e senhoritas. — referiu-se à equipe de Zhou Mi. — Hoje, olhando no calendário, eu constatei algo fantástico. Estamos a um mês do Festival de Gastronomia de Seoul, que todos devem saber do que se trata, e nesse ano, estaremos concorrendo nas categorias de Restaurante do ano e Chef do ano, como sempre. Mas... — fez um momento de suspense. — neste festival, uma novidade que não é apenas nossa. O artigo de capa de Lee TaeMin sobre o Maison Seoul concorre na categoria de Melhor Crítica! — e puxou uma salva de palmas que todos acompanharam calorosamente; aquele era o evento mais esperado do ano. Gesticulou para que se calassem. — Ano passado... cometemos alguns deslizes e por muito pouco não passamos por cima do Le Han. Mas esse ano isso não vai acontecer, porque nós temos os melhores chefs desse continente! Esse ano, o título é nosso, pessoal! Comecem desde já as preparações, não podemos perder nenhum segundo! — exclamou, e todos acompanharam com o olhar a sua volta para seu escritório com aplausos e gritos de encorajamento.

Isso fez com que ninguém percebesse quando dois cuisiniers se entreolharam de maneira duvidosa, cúmplices.

——^^——

— Então, eu vou precisar que vocês venham aos fins de semana para as reuniões sobre o menu e testar os pratos. DongHo, JinYoung, MinHyun, quero relatórios de todos os nossos fornecedores com tudo o que eles têm de melhor e mais novo pra nós. Alexander, Chansung, Wooyoung, JunHo, falem com aqueles caras lá da Europa. Precisamos da melhor bateria de cozinha já lançada, ou não, no mercado. E eu preciso disso pra esse fim de semana. — KyuHyun disse, arrancando vários resmungos e reclamações de sua equipe. Voltou a atenção para o prato que estava preparando, mas seus ouvidos estavam aguçados para o que se passava em sua cozinha. “Ele pede isso porque não é ele que vai fazer.” “Ele é o chef, ele que devia fazer isso.” “Olha só o chef Zhou Mi, não tá nem se preocupando com isso. Eu preferia muito mais ser da equipe dele.” “É, você viu ontem? Ele é muito melhor.” KyuHyun, ao ouvir isso, travou a mandíbula e cingiu os dedos em torno do cabo da faca, com força. “Se nós ganharmos esse ano, vai ser por causa do chef Zhou Mi.” “É, agora que ele chegou, não tem mais nada pro KyuHyun-ssi, vai levar o de Chef do Ano com certeza!”.

Aquele foi o fim da paciência de KyuHyun. Emitindo um som gutural muito semelhante a um rosnado, cravou a faca com força na peça de carne em cima da tábua, assustando a todos ao seu redor.

— CHEGA! — se virou bruscamente para os cuisiniers, colérico. — Vocês preferem o chef Zhou Mi, preferem trabalhar com ele, é isso?! Ótimo, fiquem sob o comando do chef Zhou Mi! — pronunciou o nome do outro com deboche. Viu-os se encolherem por terem sido pegos. Puxou o nó do avental e jogou-o junto ao chapéu, que já havia ido ao chão. Colérico, enveredou-se a passos pesados até a porta dos fundos, sem se importar com os olhares confusos e assustados sobre si, cruzou o estacionamento sem nem olhar para seu carro e começou a andar, meio sem rumo. Ficou ainda mais irritado ao perceber que ainda estava com a camisa branca; parou e despiu-a ali mesmo, recebendo vários olhares taxativos dos que passavam. Amarrou a peça na cintura e pôs-se a andar novamente. O tempo havia esfriado ainda mais, e o céu estava nublado e parecia baixo. Suspirou, sabendo o que aquilo significava, e fez uma nota mental. Mas não se incomodou, e voltou a andar.

Esperava que com uma caminhada sua raiva se esvaísse, mas antes que isso pudesse acontecer, ele se viu em frente ao seu condomínio. Deu de ombros e entrou, indo direto para seu apartamento. Jogou-se no sofá e puxou seu celular do bolso:

— Você sabe que eu posso te demitir, né? — Foi a primeira frase proferida do outro lado da linha.

— Por quê? Porque agora você tem alguém melhor do que eu? Porque ele é melhor do que eu? Ah, Siwon, francamente. — e desligou, sem paciência alguma pra aturar mais daquilo. Pousou o antebraço na testa e fechou os olhos. Em menos de trinta segundos, sentiu o celular vibrar em sua mão.

— O quê? — grunhiu entredentes.

— Desculpa, tá? Mas é que você sai assim sem mais nem menos sem avisar ninguém, e deixa a cozinha um caos. Zhou Mi só não está enlouquecendo porque ele é...

— Porque nós só temos dez mesas para servir, e a não ser que todo mundo decida fazer reserva pro resto do dia, nós não temos mais nada a fazer a não ser ir pra casa. — interrompeu, completando. — Eu sei disso, você acha que se estivesse movimentado eu teria saído? Você sabe que acima de tudo, eu sou uma pessoa competente.

— Tá, claro. Olha, você ainda não me disse pra quê ligou e eu ainda tenho que ir ver se Heechul e RyeoWook não estão se matando lá na cozinha.

— Aish, esses dois... Enfim. Já que, como eu disse, nós não teremos o que fazer no resto do dia, eu quero que você mande os 40 melhores currículos que você tem aí, homens ou mulheres, tanto faz, e manda pro meu e-mail.

— Kyu... o que você tá pensando em fazer? — Siwon perguntou, temeroso.

— Eu pedi facas novas pro festival. Pedi panelas novas. Pedi até uma baixela nova. Por que não uma equipe nova? É impossível trabalhar em paz com todo mundo reclamando, se eles não querem trabalhar comigo, ótimo, não sou eu quem vai sair. É simples.

— Kyu, é muito arriscado colocar gente nova a um mês do festival, eles não estão familiarizados com você!

— Siwon, me diz uma vez em que uma decisão minha trouxe algum resultado negativo pro Maison. — um instante de silêncio.

— ...Tá, você tá certo. Mas por favor, Kyu, pensa com cuidado, o Le Han tá de olho na gente, assim como a gente tá neles. — disse com um tom de preocupação que fez o chef revirar os olhos.

— Siwon... — suspirou, impaciente — olha pra tela do seu celular e me diz o que está escrito.

— O quê? Mas...

— Olha logo.

— Tá... Ahm... Cho KyuHyun?

— É, é com ele que você tá falando. Quero meus e-mails em quinze minutos. Até mais, Siwonnie. — terminou com um tom meloso e desligou.

Pontualmente quinze minutos depois, foi checar sua caixa de entrada, onde havia o e-mail que pedira. Analisou cada um dos currículos com cuidado, e elegeu os 20 melhores. Da sua equipe atual, ele manteria apenas os chefs de partie, mesmo porque os que ele ouvira reclamando eram apenas cuisiniers comuns, que para ele eram facilmente substituíveis. Ligou para cada um individualmente e fez a proposta, que não foi recusada em nenhum dos casos. Sem problema algum, pediu que comparecessem ao restaurante já no outro dia, às dez da manhã. Já eram quase quatro da tarde quando terminou tudo, e só então percebeu que não havia nem almoçado. Preguiçoso, voltou ao sofá e por lá ficou, pensando.

Estava quase cochilando quando a campainha soou, assustando-o. Amaldiçoou quem quer que estivesse do outro lado daquela porta a essa hora. Não podia ser Ahra, já que ela tinha a chave do apartamento.

Arrastou-se até a porta e não se deu nem o trabalho de olhar pelo olho mágico, abriu-a sem cerimônia. Toda a letargia causada pelo quase-sono se fora quando ele viu quem estava à sua frente.

— Zhou Mi? — ele estava elegantemente encostado no batente, com os braços cruzados e um sorriso no rosto.

— Kui Xian... — ele começou, num tom que KyuHyun reconheceu imediatamente.

— Olha, se for pra falar sobre o que aconteceu mais cedo...

— Não, não! — adiantou-se, erguendo uma mão. — Eu vim trazer isso — tirou a bolsa de trabalho de KyuHyun do ombro e a entregou para o dono, que estranhou a atitude. —; eu juro que está tudo aí dentro. — brincou — E discutir algumas coisas pro festival, Siwon-ssi me deu alguns catálogos e queria que nós víssemos, aí eu pensei...

— Tá, tá, entra, vamos falar disso enquanto eu como, fiquei com fome só de lembrar disso. — disse, gesticulando para que ele entrasse. Tirou o casaco e a bolsa de trabalho dele e o pendurou no gancho na parede atrás da porta; não sabia exatamente porque fizera aquilo, talvez ainda estivesse meio lento. Seguiram para a cozinha, onde KyuHyun começou a vasculhar a geladeira e os armários enquanto falava, mais para si mesmo.

— Eu... não sei o que eu quero comer, não pode ser uma coisa muito complicada porque... Aish, cozinhar pra si mesmo é um saco, não tem ninguém pra limpar a sujeira depois. Acho que vou fazer filé e... — virou-se bruscamente para Zhou Mi, que estava sentado na mesa da copa, com o rosto apoiado nas mãos e os cotovelos na mesa. — Você já almoçou? — o chinês meneou a cabeça negativamente.

— Qual o menu de hoje, Sr. Chef?

— O prato do dia é... filé ao molho madeira, arroz e batata frita.

— E a sobremesa? — perguntou, com um sorriso sapeca.

— Já tá querendo demais, se quiser comer, vai ter que cozinhar. Anda, vem me ajudar aqui. — disse, botando todos os ingredientes na bancada.

Depois de lavadas as mãos, KyuHyun começou a fritar o arroz em uma panela enquanto Zhou Mi aguardava instruções.

— Você... — colocou uma tábua, algumas batatas e um descascador à frente dele, e olhou-o, com um sorriso esnobe. Zhou Mi olhou-o incrédulo.

— Você vai fazer um chef duas estrelas descascar batatas? — perguntou indignado.

— Você tem duas estrelas? — KyuHyun perguntou, surpreso.

— Tenho. — respondeu, todo embevecido.

— Eu tenho três. — debochou. — Por isso, você descasca as batatas.

— Agora eu sei porque que o seu staff não te aguenta. — murmurou baixinho, o que foi prontamente captado pelos ouvidos atentos de KyuHyun.

— Já não basta ter acabado com o meu trabalho, vai ficar de piadinhas agora? — sibilou entredentes com um olhar gélido que pegou Zhou Mi de surpresa. Não era a intenção dele.

— Kui Xian... Do que você tá falando?

— Claro que você não sabe, não é? — jogou a colher que usava pra mexer o arroz em cima da bancada, e se aproximou dele com os punhos cerrados ao lado do corpo. — Eu me opus à sua contratação desde o começo. Porque eu sabia que, de algum modo, não daria certo. Previ o futuro. Desde que você chegou, a minha popularidade só tem caído, até os meus próprios cuisiniers acham você melhor! Foi assim, Zhou Mi. — estalou os dedos em frente ao rosto dele, que ouvia tudo calado. — Você roubou tudo o que eu tinha construído. O que eu levei anos pra construir, você tomou com um sorriso e algumas palavras gentis. Depois que você chegou, a minha vida virou um inferno! EU. TE. ODEIO, ZHOU MI.

Aquelas três palavras atingiram Zhou Mi de um tal modo que fê-lo sentir uma dor quase física, e na pressa de amainá-la, puxou o moreno para seus braços, encostando os corpos. KyuHyun ficou mais uma vez sem reação, inconscientemente se aconchegando naquele abraço, sentindo as mãos dele firmes em sua cintura, mas logo que voltou a si, apenas preferiu não corresponder.

— Não diga isso, Kui Xian, por favor... — disse, com o rosto contra os cabelos castanhos. — Não me odeie... Você é um chef incrível, você sabe disso. Eu sou só... a atração nova. Daqui a pouco perde a graça e você volta aos holofotes centrais, você vai ver. Não me odeie... pelo menos, não agora... — murmurou, virando um pouco o rosto para dar um beijo na têmpora de KyuHyun, com tal doçura que fez as pálpebras do menor se cerrarem e ele inclinar o rosto quando o contato foi desfeito.

Algo em KyuHyun, Zhou Mi não sabia dizer o quê, o atraía, como uma força tão natural quanto a gravidade ou o magnetismo, algo que ele não podia controverter, e que não o deixou com nenhuma outra escolha a não ser deslizar os lábios suavemente por aquela tez que era ainda mais macia do que ele imaginara, até chegar na bochecha, onde deixou outro beijo, ao mesmo tempo em que apertava-o ainda mais entre seus braços.

KyuHyun se preocupava apenas em lembrar como se respirava. De olhos fechados, com o tato mais aguçado, cada toque dos lábios de Zhou Mi ficava registrado em sua pele, como um carimbo, e lhe proporcionava uma sensação de torpor semelhante ao de uma droga. Não que ele já tivesse experimentado alguma, mas no momento imaginava que fosse semelhante a isso. Nem percebeu quando Zhou Mi recuou um pouco para olhar seu rosto e admirar o quanto ele ficava lindo com os olhos fechados e a fisionomia serena.

Não resistiu. Tentou lutar contra aquele impulso, mas não pôde. Nem tentou se refrear, sabia que não conseguiria, e apenas deixou que seus lábios se juntassem com os de KyuHyun. Foi um contato doce e gentil de ambos os lados, por mais surpreso e assustado que KyuHyun estivesse. Um beijo delicado, mais demorado que o último, e não menos intenso.

Mas não era suficiente. Para nenhum dos dois. Com uma ânsia que não lhes era familiar, o beijo foi se intensificando por uma iniciativa mútua. KyuHyun estremeceu quando a língua de Zhou Mi roçou-se contra a sua própria. Elevou os braços e cingiu o pescoço do outro. Aquilo era incrível para ele, sentia finalmente o alívio que fora buscar na outra metade do planeta. Não havia mais como fugir, havia apenas uma resposta. Zhou Mi sempre fora a resposta. Enquanto as bocas se provavam com avidez de um desespero, um cheiro característico se fez presente, o que foi percebido pelo faro aguçado dos dois, e que fez KyuHyun empurrar Zhou Mi bruscamente, se voltando para a panela de arroz, agora queimado. Na pressa de tirar a panela do fogo, o material abrasado acabou entrando em contado com seus dedos, fazendo-o jogar a panela na pia e soltar uma exclamação de dor.

— Droga! — grunhiu entredentes, examinando a região afetada, o que chamou a atenção de Zhou Mi, que prontamente veio e estendeu a mão para pegar a dele, que lhe foi recusada. — Tsc, deixa que eu faço isso. Só... Termina de cortar as batatas. — disse, e saiu da cozinha.

Em cômodos separados, onde não poderiam olhar pros olhos um do outro, os dois pensavam no que acabara de acontecer. Zhou Mi descascava as batatas com um sorriso bobo no rosto, brincando de lembrar o cheiro, o gosto e a textura da pele de KyuHyun. Aquilo não fora planejado, não devia ter acontecido. Mas havia algo irresistível naquele ser prepotente, teimoso e resmungão que no momento nem percebia que passava mais gel para assaduras que o suficiente nos nós dos dedos que começavam a arder. Pensava em como as coisas seriam depois daquele beijo. Não podia mais negar que algo em Zhou Mi o atraía, e que o outro também sentia o mesmo por si. Pensava que aquele beijo lhe traria alívio e respostas, mas ao responder uma, criou várias outras, deixando-o apreensivo. A diferença, é que dessa vez ele sabia quem poderia lhe dar as respostas.

E foi com esse pensamento que voltou à cozinha, onde Zhou Mi já fritava as batatas e começava a fazer o filé. Olhou para a panela de arroz dentro da pia e suspirou.

— Eu não vou fazer outro. — determinou, decidido.

— Nem eu. — Zhou Mi disse, sarcástico. KyuHyun aproximou-se, para mexer o molho, mas o chinês o impediu.

— Ei! — exclamou, indignado.

— Não vou deixar você se queimar de novo, Kui Xian. — esclareceu, impositivo. KyuHyun o olhou incrédulo.

— Eu sou um chef três estrelas, não um apprenti. — e cruzou os braços. Zhou Mi o olhou, emburrado.

— Você vai ficar jogando essas suas estrelas na minha cara até quando?

— Até você conseguir fazer igual. Agora me deixa fazer esse molho se não esse almoço vai acabar virando jantar. — contrariou a proibição de Zhou Mi e começou a condimentar o molho marrom.

O chinês parou por um momento para admirar o outro cozinhando. Parecia imerso em seu próprio mundo, era tanta a concentração e atenção que ele dava àquele simples molho que KyuHyun parecia estar envolto em uma bolha, que Zhou Mi rompeu sem cerimônias, ao roubar um beijo estalado do rosto de KyuHyun. Ele olhou-o incrédulo, mas acabou corando e abaixou a cabeça para esconder um sorriso.

— Está pronto. — Zhou Mi disse, apagando o fogo. Tirou as batatas do óleo e colocou-as para escorrer num recipiente forrado com papel-toalha enquanto KyuHyun arrumava a mesa. Depois, cada um se serviu e arrumou o prato ao seu modo. KyuHyun, vaidoso, arrumou um pedaço de filé sobre um ninho de batatas e decorou a porcelana branca com o molho. Lançou apenas um olhar convencido a Zhou Mi, que colocava a comida de qualquer jeito e revirou os olhos, sorrindo. Sentaram-se um de frente para o outro e levaram a primeira garfada à boca. O gemido de deleite veio de Zhou Mi.

— Acho que não ficaria tão gostoso se estivesse com arroz. — complementou. Os dois riram, mas logo ficaram sérios, lembrando-se do motivo pelo qual deixaram o arroz queimar. Desviaram os olhares para seus respectivos pratos, não conseguindo ver o sorriso bobo do outro.

Nos minutos seguintes, apenas se ouvia a bulha dos talheres, a respiração compassada dos dois e o arrastar da cadeira quando KyuHyun se levantou para pegar uma caixa de suco de laranja na geladeira e copos. O silêncio perdurou pelo resto da refeição e ao colocarem as louças na máquina de lavar. Não era de modo nenhum constrangedor, era até confortável, pois não exigia que se olhassem nos olhos ou comentassem sobre o ocorrido. Mas essa hora logo chegaria, eles sabiam disso, estavam apenas tentando adiá-la, pensando no que diriam um ao outro.

Foram para a sala, onde se sentaram um ao lado do outro, separados por dois palmos. Entreolharam-se finalmente, KyuHyun impassível e Zhou Mi com um olhar amável e um sorriso doce que o menor logo estranhou.

— Que foi? — o tom rude e seco não alterou em nada a expressão de Zhou Mi.

— Nada... É que... Você não me bateu, não brigou comigo nem mergulhou a minha cabeça no óleo da batata, então eu me sinto com certa liberdade pra ficar te olhando. — disse, com um ar meio onírico. KyuHyun semicerrou os olhos e franziu as sobrancelhas, olhando para Zhou Mi como se ele estivesse louco. Tudo bem que sabia perfeitamente do que ele estava falando, mas daí se comportar desse jeito sem nem mesmo um pronunciamento sobre de KyuHyun já era um pouco estranho.

— Você... não disse que trouxe uns catálogos pra eu ver?

— Ah, é mesmo... — lembrou, tristonho. Levantou do sofá e correu até o suporte perto da porta onde sua bolsa de trabalho estava pendurada e tirou de dentro vários catálogos grandes que jogou no colo do outro quando voltou ao sofá. Eram pratos, talheres, toalhas de mesa, guardanapos de todos os tipos nas páginas que eram viradas impacientemente pelo coreano que não parecia muito satisfeito com nada que via. Ou porque ele simplesmente não conseguia se concentrar. Jogou as revistas na mesa de centro e se recostou no sofá, passando as mãos pelo rosto. Apoiou a cabeça, olhando para o teto como se esperasse que um milagre caísse do lustre de cristal.

Zhou Mi olhou para ele. Parecia cansado, estressado e aborrecido. E sentia que era, direta ou indiretamente, sua culpa. Olhou pras próprias mãos e murmurou baixinho:

— Desculpa, Kui Xian.

Era verdade que KyuHyun estava incomodado tanto por causa do beijo quanto pelo que acontecera na cozinha mais cedo. E mais que isso, por não saber como lidar consigo mesmo na presença de Zhou Mi. Estava confuso, não sabia quais eram as intenções dele, e não entendia bem o que estava sentindo. Não queria baixar a guarda e ficar muito meloso mas também não queria dar a entender que estava rejeitando-o.

Mas o tom que Zhou Mi usara o sensibilizou. Ele parecia muito sincero ao proferir aquelas desculpas. KyuHyun não sabia ao que ele se referia exatamente, mas mesmo assim sentiu que lhe devia uma resposta.

— Não... Não se desculpe... É só que hoje foi um péssimo dia pra mim e... Como você consegue, Zhou Mi? — disse, ainda olhando para o teto.

Zhou Mi pareceu se surpreender com a pergunta do outro.

— Kui Xian... eu não entendi a sua pergunta. — perguntou delicadamente.

— Sabe... Eu não escolhi a gastronomia por causa de alguma história extraordinária sobre algum talento inato ou algo assim. Mas justamente por causa dos desafios. Aqueles que trabalham com você são os primeiros a te esfaquear pelas costas na menor oportunidade. Aquele lugar é um ninho de cobras. Você viu HeeChul e RyeoWook. Aquilo é só uma versão infantil da competição que acontece lá dentro. E pra mim é ainda pior, porque... Eu não sei porque eu estou te contando isso, já que você é o meu maior concorrente naquela cozinha, mas prometa que não vai contar pra ninguém, Zhou Mi. — fez uma pausa, esperando a resposta do outro.

— Eu prometo, Kui Xian. Mas antes, e queria dizer uma coisa. Eu não tenho, nem nunca tive intenção de roubar o seu lugar no Maison Seoul.

— Mas você faz isso, querendo ou não! Eu não sei como você consegue fazer tudo com um sorriso no rosto e achar tudo lindo tendo a certeza de que ninguém vai tentar te envenenar pra roubar o seu lugar e... — ele começou a falar rápido demais e parecia à beira de um ataque de pânico quando sentiu novamente os braços de Zhou Mi ao redor de si.

Agora sim ele começava a entender a personalidade de KyuHyun. Ele escondia inseguranças e temores atrás de um muro espesso de austeridade e frieza. E parecia ser muito sozinho. Morava sozinho naquele apartamento enorme, a irmã era casada e tinha uma filha e os pais não pareciam muito presentes. A única pessoa que o fazia sorrir fora embora e o trabalho parecia mil vezes mais exaustivo. E o jeito como ele se aconchegou no abraço deixava claro o quanto ele era carente.

— Ninguém vai tomar o seu lugar. — tranquilizou, passando uma mão pelo ombro dele. — E... é uma pena que você me odeie, Kui Xian... Porque eu gosto de você. Muito. — murmurou, recuando um pouco para ver o rosto de KyuHyun, mas ele o mantinha abaixado. Zhou Mi ergueu o rosto dele com uma mão em seu queixo e o fez olhar para si. Viu nos olhos de KyuHyun curiosidade, confusão, relutância, fragilidade. Isso porque Zhou Mi tinha uma incrível facilidade para interpretar as pessoas, pois para qualquer outro, aquele seria apenas um olhar frio e indiferente.

Não pediu permissão, mas a viu ser concedida. Um menear. Tão rápido que pareceu apenas um reflexo de KyuHyun, e pela segunda vez naquele dia, se permitiu provar aqueles lábios, que hesitantes envolveram os seus, e os acariciaram ternamente. Foi rápido, como um bombom único mordido apenas uma vez para que pudesse ser saboreado lentamente em outro momento.

Separaram-se depois de um selar carinhoso, mas apenas o suficiente para se olharem nos olhos. Como da primeira vez, Zhou Mi correu um dedo pela bochecha do outro, e sorriu, sendo timidamente retribuído.

— Você sorri... — Zhou Mi observou, sarcástico, ao que outro assumiu uma expressão séria de novo, fazendo-o rir.

Voltaram à posição inicial, sentados lado a lado, olhando pro nada. Não precisavam de muito naquele momento, o silêncio estava bom, estava gostoso, como se fosse uma calma, uma paz que era só deles. Mas um ser humano apaixonado é o animal mais carente da face da terra, e Zhou Mi era um bom exemplo disso. Deitou a cabeça no ombro de KyuHyun, mesmo tendo que deslizar um pouco pra baixo no sofá para fazer isso, e deixou seus lábios brincarem um sorriso bobo. O menor encostou a bochecha nele, e ergueu uma mão para acariciar as madeixas avermelhadas de Zhou Mi.

— Você ficou lindo assim.


Notas finais
É, FINALMENTE, EU SEI.
E EU SEI QUE TERMINOU SEM FIM. (?)
E tiveram uns pequenos detalhes que ficaram em aberto. Foi proposital, eu vou esclarecer no próximo capítulo.
Achei que ficou bobo e clichê, mas eu nunca fico satisfeita com o que eu escrevo, mesmo.
Eu não esqueci de colocar o que o Kyu ia contar pro Mimi não, foram eles que mudaram de assunto mesmo. u.u
Mas teve uma pista sobre o segredo que ao mesmo tempo é um spoiler.
E uma coisa nesse capítulo muito interessante que eu aprendi foi a coisa do curativo. Não foi invenção minha, eles realmente usam um band-aid azul brilhante pra não ter o risco de cair na comida e..... eca.
Eu sinceramente não sei porque que eu pintei o cabelo do Mimi, foi uma coisa que veio assim, do nada.
No próximo capítulo, as coisas começar a esquentar.
E é claro que eu esqueci de alguma coisa.
Ah, queria agradecer à diva Cris linda, a fumadora-mor, minha inspiração. Quase que literalmente. -qqqqq
Até o próximo, Salfers (como diz a Sweet Diamond aka Ninhe)