Serenius Luna
3 Dons Ocultos

A morte de Dados ainda me martelou durante um tempo, comecei a passar noites acordada, uma insônia inexplicável habitou em mim. O céu certa madrugada estava coberto de estrelas, e a lua sorria muito linda no quarto crescente, fui para a proa admirando àquela bela cena, minha respiração estava lenta e minha cabeça finalmente se sentiu em paz, ao fechar meus olhos recitei meu nome:
– Luuuunaaaa. — disse devagar e doce.
Meu coração palpitou forte quando abri meus olhos e vi a lua gigante na minha frente, eu não sabia o que havia ocorrido, fechei os meus olhos novamente e recitei neutra dessa vez, como uma lua nova; tendo a lua invisível eu não pude acreditar, fiz e refiz tudo várias vezes, uma alegria e magia cresceu dentro mim, foi uma longa e mágica madrugada, até que o sol se pôs a nascer; me senti estranha naquele momento, coloquei as mãos na cabeça e ao tirá-las não eram mais as mesmas, eram compridas e cheias de penas, olhei meu reflexo na água e caí no chão assustada, meu rosto, meu corpo, tudo em mim... eu havia virado uma coruja.
Me escondi perto dos barris de rum e passei o dia lá, muitos piratas perguntaram por mim conforme as horas passaram, inclusive Pinóquio; eu não soube o que fazer, pensei apenas em esperar e não me apavorar. A lua apareceu e trouxe com ela meu corpo humano, respirei aliviada porém estava com medo de ao sol surgir me transformar em coruja novamente, tinha muita coisa estranha acontecendo comigo, pensei andando pelo convés às 02h00 da madrugada. Pinóquio observou tudo escondido, eu me surpreendi vendo-o chegar até mim, ele me fez perguntas, não pude mentir para ele, o contei tudo àquela noite e por estranho que pareceu, ele entendeu.
Fiquei trancada num quarto afastado pois tive que me esconder de todos até resolver o que fazer, Pinóquio disse que eu estava doente e não queria que me incomodassem, interessante foi o fato de eles não terem ficado curiosos e ido atrás de mim. Da minha janela pude ver o céu nublado cobrindo as estrelas, o reflexo iluminava o espelho da escrivaninha, me aproximei dele e fiz como a vez que fiquei presa, tentando saber se conseguiria repetir a mesma situação; mão ao lado de mão e tudo girou, caí numa tela em branco; muitos ruídos, gritos e zumbidos poluíram o local, passou imagens embaçadas por mim como fantasmas, pessoas brigando, gritando, fumaça encheu de canto a canto e cobriu até o teto o que pareceu ser um quarto dentro da minha mente, se era dentro da minha mente era as minhas lembranças, lembranças que até alí não estavam lúcidas e inteiras; corri para fora do espelho, e pela primeira vez em muito tempo dormi; à noite foi calma, como as ondas do mar.
Não sabia o porquê de eu não ter me transformado em coruja depois daquilo, porém eu fiquei com medo da transformação acontecer na frente de algum pirata, por isso me esquivava. Minha mente começou a passar flashes esporadicamente conforme o tempo foi passando, eram coisas cortadas e sem sentido para mim, ou faziam tanto sentido e eram de tanta importância que minha consciência não era capaz de absorver.
Muita ventania chegou no outono, os homens trabalharam muito para nada ficar fora do eixo; numa noite fria um vendaval muito forte soltou algumas cordas da vela, eu subi no pilastro para amarrar.
– Luna, saia daí, você pode cair! — eles gritaram preocupados comigo.
– Tome cuidado Luna! — era a voz doce de Pinóquio.
O meu pé pisou sem firmeza quando estava descendo e com o vento me empurrando acabei caindo. Todos gritaram por mim, correram e me viram flutuando; eu caí de costas, mas não a bati no chão, antes disso acontecer só quis que eu realmente tivesse flutuado como Pinóquio disse naquele dia, assim poderia acontecer de novo, e ao chegar bem perto do impacto eu parei. Foi um alívio ver que estava bem, foi um pesadelo ver o olhar de julgamento da maioria em minha direção:
– Ela realmente é um anjo! — exclamou Gram.
– Anjo? Anjo não mente, ela é um demônio! — começaram a me julgar.
– Olhem para ela, se fez de esquecida e perdida e estava amaldiçoando nosso navio o tempo todo.
– Então o que Pinóquio disse era verdade, ela voou mesmo!
– Não, deixem-a em paz. — Pediu Pinóquio.
– Segurem ele. Não vamos deixar que um ser do mal fique conosco. — afirmou Jacobs.
Eles tentaram me pegar, mas eu voei e fiquei acima deles, a sensação de conseguir me proteger foi incrível, foi a primeira vez que não me senti humana. Eles usaram Pinóquio para me atingir, disseram que o mataria se eu não descesse, eu não pude deixar que matassem ele mas também não pude deixar que me matassem, olhei para os lados atordoada e avistei a Lua, ela era a minha salvação; estavam gritando e subindo nas pilastras tentando me alcançar, enquanto isso uns tentaram colher informações de Ariel (Pinóquio), vendo-o ser atormentado e perturbado daquela maneira ergui as mãos e a Lua brilhou intensamente, os homens ficaram com a visão ofuscada, uns caíram das pilastras, eu os ajudei, meu coração não deixou ver eles se ferindo. Com a atenção em mim, pude mostrar a beleza da Lua, piratas encantados é uma cena engraçada; todos pararam de me julgar ou tentar me matar, desci até o convés, eles pareciam calmos, a maldade deles não me atingiu, ela ficou estável.
Os melhores dias foram aqueles, ao qual eu não precisei me esconder quando me transformava em coruja, ou quando mudava a Lua, eu ainda não sabia por que aquilo acontecia comigo mas sentia que a resposta não estava longe de chegar.
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