Serenity

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Olá pessoas! o
Bom, essa é muito basicamente, minha primeira fic postada.
Espero que aproveitem.

A estação de trem se encontrava num estado um tanto lamentável coberta pela neve. Estávamos no meio do inverno e, apesar de toda a neve que cobria parte dos trilhos e os congelava, a estação continuava com o seu mesmo ritmo de sempre. Eu havia acabado de comprar o café e ele já parecia querer esfriar em minhas mãos, tão geladas quanto à neve que cobria a estação. “Leve as luvas.” Um aviso tão simples da senhora que morava no apartamento ao lado do meu, e ao mesmo tempo, tão importante. Sai cedo de casa, com as roupas de frio, mas ainda descrente de que o dia ficaria ainda mais frio, ou que eu não estaria em casa até o início da noite, quando realmente esfria. Apenas agradeci pela preocupação dela. Grande erro. As piores coisas acontecem quando não estamos realmente acreditando que podem acontecer. Até mesmo a previsão do tempo do canal 42 pode mudar.

O barulho do trem dispersou meus pensamentos tão rapidamente quanto chegou. Era o último trem da noite. Novamente, não achei que ficaria tanto tempo na casa da minha Unnie*, que morava na cidade próxima, Suwon*, da província de Gyeonggi, também minha cidade natal. O plano era passar apenas a tarde com ela, buscar alguns documentos e voltar. Não estava no plano ficar para jantar, mas Park Min-ho pode ser persuasiva quando quer, infelizmente. Quando as portas do trem se abriram, me apressei para entrar e encontrar um lugar confortável e quieto para terminar o meu café. O suéter e os dois sobretudos junto do cachecol pesado e vermelho não davam conta de me esquentar realmente, então eu apenas rezava para a viagem de 45 minutos de Suwon até Seul não demorar muito. Aos 27 anos sendo enfermeira, exatamente como a minha mãe queria. A renda não era incrível em relação ás tantas horas que eu trabalhava, mas, dava para o gasto. Eu nunca fui uma pessoa realmente ambiciosa e a maioria das pessoas com que eu convivi viam isso como um grande problema. “Falta de ambição não te leva a lugar algum”.

Mais um gole demorado do café para afastar os pensamentos negativos que minha cabeça carregava o tempo inteiro, como uma nuvem pesada sempre acima de mim. Passei os olhos pelo vagão que eu estava apenas para observar as pessoas que pegavam um trem tão tarde, assim como eu. Uma senhora com uma criança que dormia encostada nela, um homem com uma maleta de trabalho também cochilando encostado no vidro, um rapaz de fones e expressão desinteressada para o que lia em seu telefone. Voltei minha atenção ao meu café. Parando para pensar, ali se encontrava boa parte dos estágios da vida. Uma criança despreocupada, um rapaz desinteressado, um homem trabalhador e uma senhora protetora. Eu provavelmente me encaixava na categoria que dormia no trem.

Ato 2

A primeira coisa que fiz quando entrei em meu apartamento foi ligar o aquecedor e tirar a roupa para o longo banho quente que eu estava ansiando desde que sai da casa da Unnie. Lavei o cabelo e usei todos os itens hidratantes disponíveis. Ao terminar, vesti um conjunto moletom e sequei todo o cabelo com secador. Esquentei algo no micro-ondas e assisti a um filme enquanto comia, aproveitando que a televisão ficava em meu quarto. O apartamento era mediano, típico para alguém solteiro ou alguém que trabalha com medicina, que não fica muito tempo em casa, e eu era os dois, ponto. Joguei a embalagem de ramén de micro-ondas no lixo antes de escovar os dentes e ir direto para a cama. Eu não precisava de muito esforço para dormir, já que vivia o tempo inteiro cansada, seja fisicamente ou mentalmente. Era necessário apenas achar uma posição confortável e fechar os olhos, e foi exatamente o que eu fiz.

Ato 3

Alguns dias já haviam se passado, o ritmo entre trabalho e casa eram os mesmos. Eu saia com algumas amigas para almoçar ou jantar, era o máximo de socialização que eu chegava.

—Kim Miyeon, Sala 13. –A superior avisou ao passar. A sala 13 era uma das salas usadas unicamente para vacinação e coleta de sangue. Peguei a prancheta das mãos dela e dei uma olhada enquanto caminhava para a sala. Eram dois doadores de sangue, ambos B positivo.

Entrei na sala de maneira silenciosa. Os rapazes conversavam banalidades enquanto eu ajeitava todo o equipamento necessário para começar.

—Vou recolher 450ml. Não vai doer, mas ao terminar, ficarão sentados aqui por 15 minutos e deverão, obrigatoriamente, comer o lanche oferecido. Nas próximas quatro horas, devem ingerir bastante água e evitar exercícios que exijam esforço nas próximas 12 horas. –Aquilo saia de maneira tão automática da minha boca que eu nem precisava realmente prestar atenção ao que eu mesma dizia. – Alguma dúvida? –Com um balançar de cabeça negativo de ambos, fiz todo o procedimento para injetar a agulha sem risco de infeção e ao começar a coleta, simplesmente sentei numa cadeira próxima para anotar algumas observações básicas na prancheta.

—Então, como eu ia dizendo, a história de como virei doador de sangue é hilária. –O homem mais velho contava para o outro. O segundo homem me era estranhamente familiar, com uns reflexos roxos nos fios de cabelo um pouco ondulados. Se eu já o havia visto, realmente não me lembrava. Depois da influência do kpop* na Coréia do Sul, não era incomum ver pessoas de cabelo tingido. A história parecia mais interessante que a prancheta, então, quando comecei a prestar atenção o homem realmente se empolgou. – Eu tinha uma namorada mais nova e ela era muito atraente, com várias curvas e umas pernas maravilhosas. Eu estava muito feliz da vida com ela, até que descobri que ela me traia com o condomínio inteiro! Corri para o hospital para fazer um exame. “E se a maluca me passou alguma doença?” Eu tava desesperado. Ai eu fiz o teste e deu negativo, graças a Deus. A enfermeira me pediu para fazer o exame de sangue mais a fundo, só por precaução. Quando ela viu que eu era muito saudável, me sugeriu a doação de sangue e cá estou!

—Tudo isso por uma namorada traidora, Ahjussi*? – O segundo riu e balançou a cabeça em negação. Até eu me permiti soltar uma risada abafada, o que chamou a atenção.

—Oh! A mocinha ai sabe rir! –O mais velho disse em tom de surpresa, e eu sabia bem que era basicamente deboche. – Você estava explicando o processo e parecia um tipo de robô. A senhorita é bonita demais, devia se expressar melhor com esse rostinho.

—Bom... Quando se trabalha num hospital, expressão demais apavora os adultos e expressão de menos apavora as crianças. Então tentamos manter um equilíbrio entre ambos, eu acho er... Choi Dongyul-ssi*. –Chequei na prancheta para não errar os nomes.

—Então vocês fingem? – O outro perguntou, e eu quase pude sentir a agulhada de cinismo ali. Procurei seu nome na prancheta, ele foi mais rápido ao notar minha intenção. –Kwon SiCheng.

—Você não é daqui? Esse nome é chinês. –O mais velho perguntou interessado. Mordi minha língua. Apesar de ele ter sido impertinente, eu ainda era uma funcionária e não poderia tratá-lo mal ou com frieza óbvia.

—Minha mãe é da China, foi criada aqui. –Ele conversava com naturalidade, escutava mais do que falava.

Ao fim da sessão de doação, recolhi as bolsas de sangue e servi o lanche para ambos durante os 15 minutos de espera. O mais velho recolheu suas coisas primeiro, dizendo que tinha que buscar a filha mais nova na escola. Ele era divorciado pelo que havia dito. Foi embora depois de assinar na prancheta. O rapaz impertinente demorou um pouco mais para se levantar e pegar seus pertences. Entreguei a prancheta e a caneta para que assinasse e assim ele o fez antes de ir até a porta.

—Até mais, doutora. – O tom de voz fora completamente informal e impertinente, exatamente como eu imaginava. Os olhos escuros e sutilmente puxados como os de um felino observaram-me acompanhados de um falso e pequeno sorriso nos lábios finos e de cor desbotada. A altura dele me incomodava, sendo prováveis 15 centímetros mais alto que eu. Ele era magro, e não parecia ser saudável, apesar de ter passado nos testes para doação de sangue. Meu cabelo preto e longo presos num rabo-de-cavalo baixo e sem graça junto dos lábios pequenos e um pouco cheios para uma coreana, meu rosto fino, junto dos olhos tipicamente pretos e os óculos de leitura de armação fina não eram nada além de comum. Todos costumavam dizer que ao meu redor, a cor cinza era a que mais combinava para descrever a sensação que eu passava. E antes dele sair, respondi com o máximo de indiferença que minha voz conseguia, tentando muito dificilmente esconder a raiva que queimava o meu interior. Odiava pessoas informais.

—Eu sou enfermeira. –Saiu mais como um resmungo, que pareceu satisfazê-lo a ponto de soltar uma risada abafada antes de ir embora definitivamente.

Sai depois de alguns minutos e levei ambas as bolsas de sangue para o exame final para saber se elas seriam descartadas ou mandadas para o estoque. Depois daquilo, fui chamada mais algumas vezes para lidar com crianças que precisavam de vacina. Minha mão era leve para injeções e as crianças estranhamente gostavam de mim.

(....)

—Sunbae*! –JaeHwa praticamente corria pelos corredores até mim, parando em minha frente e respirando fundo antes de me entregar um copo de cappuccino da máquina da recepção. Peguei o mesmo com as duas mãos e tomei um gole, provando da cafeína quente que me acompanhava todos os dias desde que comecei a realmente trabalhar. – Eu pensei por um segundo que a Sunbae precisava de uma pausa, então trouxe um café.

—JaeHwa, você está me mimando. –Falei de maneira séria, observando-a corar e abrir a boca, mas sem dizer nada. Deixa-la constrangida era fácil, era só agir como se ela tivesse feito algo seriamente errado. Levei minha mão até o topo de sua cabeça e acariciei ali, rindo abafado. –Obrigada pelo café.

—Você brinca muito comigo, Sunbae. Isso não é gentil. –Reclamou como sempre fazia para disfarçar a breve felicidade de ser reconhecida. Ela era uma médica-residente, Era seu segundo ano trabalhando ali. – Eu tenho que ir. Vou acompanhar o Dr.Baek numa cirurgia! Até depois.

—Boa sorte, JaeHwa. –Falei e ela apenas acenou. Voltei a tomar meu café. Dei uma olhadela no relógio de pulso e vi que faltavam alguns minutos para o meu turno acabar.

(...)

Já enrolada em todos os casacos e eu havia trago, caminhei até o ponto de ônibus mais próximo. A grande verdade era que minha carteira havia vencido há no mínimo três meses e meu escasso tempo me impedia de ir renovar. Ainda era cedo, por volta das 20:30min. Pensei seriamente em dar uma volta, talvez ir a algum parque. Mas o cansaço de um dia inteiro de trabalho bateu em minhas costas e quando o ônibus parou no ponto, não pensei duas vezes antes de entrar.

O ponto próximo ao meu prédio era quase em cima de uma lojinha de conveniência, e eu a visitava quase toda semana. Peguei uma cesta e dei algumas voltas passeando pelas prateleiras, acabei enchendo a cestinha com cup-noodles. Apoiei a cesta no balcão e esperei o rapaz a minha frente terminar de pagar seus cigarros comuns e entre eles, um de canela. Meu corpo se contorceu quase inconscientemente ao reconhecer o antigo vício nas mãos do jovem. Droga.

—Doutora? –Ah não. O dito cujo virou-se para mim e abriu o mesmo sorriso falso de antes, quase como se debochasse explicitamente da minha cara. SiCheng.

—Kim MiYeon. Esse é o meu nome, caso não tenha visto no crachá antes. –Ele se afastou sutilmente para a moça passar todas as porcarias que eu estava comprando. Por um segundo, me senti envergonhada. Uma enfermeira comprando tanta porcaria pra ferrar com a própria saúde, ao mesmo tempo, tremendo só de ver um maço de cigarros de canela na mão do Sr.Impertinente. – Mora por aqui?

—Minha avó. Tenho que cuidar dela temporariamente. E você? – Terminei de pagar e sai da loja com ele logo atrás e assim que saímos, ele colocou um cigarro de canela entre os lábios e o acendeu com um isqueiro vermelho. Tragou uma vez e soltou a fumaça para o meu lado. Tive que prender a respiração para que o cheiro da fumaça não me seduzisse. – O que foi doutora?

—Meu prédio é por aqui. Eu não sou muito fã de cigarros. –Menti descaradamente e ele novamente, pareceu me analisar interiormente com os olhos de felino cerrados. Tragou mais uma vez enquanto me encarava. – Eu preciso ir agora, SiCheng.

—Quanta intimidade... -A forma como falou soou natural, mas o conteúdo da frase chegou a me deixar corada de tão constrangida. Quando eu havia me permitido chama-lo pelo nome? Meu cérebro parecia relutante em me obedecer, cedendo à pressão que o olhar dele fazia.

—Até mais. –Me apressei em me retirar antes de cometer mais alguma burrice. Ele segurou delicadamente meu pulso e pegou um dos cup-noodles de carne da sacola, deixando o maço de cigarros de canela no lugar.

—Seus sintomas são de abstinência, MiYeon-Ah*. Achei que enfermeiras não mentiam. –Ele se retirou levando uma pequena parte do que seria meu jantar pelo resto da semana, deixando meu antigo vício no lugar.

—Urgh! Impertinente! –Resmunguei o caminho todo de volta para casa. Minha vida era simples, tudo corria em ordem. E eu detestava qualquer um que ameaçasse essa ordem e simplicidade. Mesmo que só por um dia.

Quando cheguei em casa, fiz o mesmo ritual; Ligar o aquecedor, tomar um banho, fazer algo para comer e escolher um filme.

De volta do banho, já limpa e cheirosa, abri a sacola e escolhi aleatoriamente o sabor do cup-noodles antes de colocar a agua para ferver. O maço de cigarros abandonado na sacola gritava por atenção. Resisti por longos dez minutos antes de pegar o maço e ir para a janela da sala, que era ligada a uma escadaria de ferro do lado de fora. Levava a todos os apartamentos e eu sentei ali. Meu primeiro cigarro em quatro anos. O coloquei entre os lábios e acendi com o isqueiro reserva da cozinha. Traguei longamente e esperei um pouco mais para soltar a fumaça. Era simplesmente gostoso sentir novamente o toque de canela junto da nicotina. Experimentar um vício depois de muitos anos era tão bom quanto perigoso. O terminei rápido e voltei para a cozinha, terminar o trabalho de colocar a água no cup-noodles. Fumei mais um enquanto esperava os três minutos, outro toque gostoso do vício. Os deixei de lado quando meu “jantar” ficou pronto, pegando o copo e indo para o quarto. Ajeitei-me em minha cama e coloquei um dorama, “Love Rain*”.

O próximo ritual se seguiu normal; Desligar a tv, jogar o copo no lixo e ir até o banheiro escovar os dentes. Enquanto deslizava a escova entre os dentes, apagando qualquer resquício de evidência que tinha passado algum cigarro pela minha boca, lembrei-me do idiota que me prejudicou. Kwon SiCheng estava me observando o tempo todo, e me dar os cigarros foi como minha sentença final sob seus olhos. Impertinente.

Terminei minha higiene e me acomodei em minha cama, enrolando-me o máximo que eu podia nos cobertores. Ainda estávamos no meio do inverno afinal.

Notas finais
*Suwon: Cidade turística da coreia do sul.
*Unnie: Forma de mulheres mais novas tratarem mulheres mais velhas quando são amigas, irmãs ou simplesmente intimas.
*Kpop: Gênero musical famoso na coreia do sul.
*Ahjussi: Maneira informal de chamar um homem bem mais velho.
*-Ssi: Significa "Senhor/Sr." Sufixo formal.
*Sunbae: Veterano no ambiente de trabalho ou escola.
*Ah: Sufixo informal. Geralmente usado entre pessoas da mesma idade ou que são íntimas.
*Love Rain: Dorama real lançado em 2012.