Serendipity
4 Coincidências?
Notas iniciais
A dor de cabeça de Jimin poderia enlouquecê-lo. Ao sentir o sol bater em seus olhos insistentemente, fez uma nota mental de nunca mais sair para beber com Taehyung de novo.
Bufando sem paciência, ele chutou o edredom e pôs os pés sem meias no chão frio, ouvindo vozes vindo de fora do quarto. Seu apartamento era pequeno – apenas uma simples sala conectada com a cozinha, um quarto e uma varandinha que ele usava para pendurar as roupas molhadas – porém era mais do que o suficiente para um universitário solteiro e pobre como Jimin. Mas, como naquela manhã mesmo, havia quem achasse que aquilo era um hotel.
— Bom dia, hyung! — Saudou Jungkook, levando um prato de ovos mexidos para a mesa, ao que Jimin encostava-se na parede da cozinha com cada canto de seu corpo latejando de cansaço.
— Quem é vivo sempre aparece — Brincou Taehyung, cozinhando como se não tivesse bebido até amanhecer no dia anterior. Jimin não entendia como ele fazia aquilo.
— Água — Foi tudo que conseguiu articular, ignorando o impulso de perguntar se os hóspedes iam começar a dividir o aluguel com ele, já que estavam sempre dormindo lá de qualquer modo.
— Beba isso. Tae já deve ter tomado uns três — Disse Kookie, estendendo um líquido efervescente que Jimin não se orgulhava muito por conhecer bem. Tomou tudo de uma vez, sentindo a garganta seca receber com gratidão o líquido gelado.
— Ei, não é verdade! — Retrucou Tae, rindo ao virar-se para olhar o mais novo, as mãos ainda concentradas em cozinhar. Kookie devolveu com outra provocação, e os dois começaram uma discussão regada de risadas e xingamentos, fazendo Jimin se perguntar por quê os dois não assumiam logo o namoro. O menino arrastou os pés até o sofá para fugir da súbita aura de amor matinal que se instaurara na cozinha, checando o celular com olhos cansados. Uma mensagem de um número desconhecido chamou sua atenção, então a abriu com o cenho franzido.
Oi, Jimin-ssi, quanto tempo! Você não deve nem se lembrar de mim >< HAHA Bom, eu e Joonie estávamos pensando em reunir todo mundo de novo, como nos velhos tempos! Mas não queríamos chamar só pessoas da nossa sala, já que o grupo era bem mais abrangente que isso, então sinta-se convidado! Hoseok já deve ter comentado com Taehyung, mas estou mandando isso por precaução. Enfim, fala comigo depois para mais detalhes :**
Ainda com o cenho franzido, Jimin mostrou a tela do celular para os amigos que se aproximavam, cada um com um prato em mãos.
— Que merda que deu no mundo para Kim Seokjin me mandar uma mensagem cinco anos depois de ele sair da escola?
— Seokjin? Aquele Seokjin?! — Guinchou Jungkook, largando-se ao lado dele no sofá e olhando para seu celular com animação até demais.
— Você conhece outro? — Retrucou Taehyung, sentando-se no chão e ligando a TV.
— Ele está chamando para um reencontro do pessoal do colégio — Continuou Jimin, olhando para o celular com ar desinteressado. Não estava com vontade de rever toda aquela gente, e na verdade não entendia o porquê de fazerem aquilo. As únicas duas pessoas de quem de fato continuara próximo depois de se formar estavam em sua sala naquele exato momento, e durante os três anos de faculdade fora perdendo o pouco contato que tinha com o restante delas.
— Hoseok comentou algo comigo semana passada — Disse Tae, com a boca cheia de comida e atento no programa que passava na televisão. — Imagino que muita gente vá, considerando a celebridade que Jin-hyung era.
— Olha quem fala! — Brincou Jungkook.
— E desde quando você e Hoseok-hyung mantém contato? — Cortou Jimin, não gostando nem um pouco do rumo que aquela conversa estava tomando.
— Nos falamos de vez em quando — Respondeu ele, dando de ombros. — Deixem suas agendas livres para sábado que vem, senão é capaz de sermos mortos por um hyung furioso.
— Eu nem sei se vou — Murmurou Jimin, apoiando a cabeça numa mão com plena consciência de que não conseguiria convencer os dois de o deixarem em paz em relação àquilo.
— Como assim? Claro que você vai! Faz tanto tempo que não os vê, tem que passar lá nem que seja só para dar um “oi”! — Indignou-se Jungkook, claramente animado por estar saindo com um bando de universitários quando ainda estava em seu último ano do Ensino Médio. Ele e Tae começaram a relembrar os tais “velhos tempos” sobre os quais Jimin provavelmente ouviria bastante daqui para frente, considerando que não poderia fugir daquilo. Desistindo, apenas apoiou a cabeça no braço do sofá e ficou em silêncio. Só restava aguardar pelo fatídico reencontro e rezar para sofrer algum acidente fatal durante os próximos dias.
*
— Meu Deus! — Exclamou Jin-hyung, abrindo o sorriso de galã de dorama que quase cegou Jimin com seu brilho incandescente. — Vocês estão irreconhecíveis!
O mais velho o abraçou com força, e Jimin teve de se conter para não discordar em voz alta com aquilo. Namjoon-hyung os cumprimentou com a mesma educação do namorado, apenas um pouco menos espalhafatoso. Jungkook sorriu tímido ao devolver o abraço do mais velho, e Taehyung lançou-lhe o mais largo dos sorrisos ao quase erguê-lo do chão. Sem parar de falar nem um segundo, Jin-hyung os indicou às outras pessoas – cujos nomes Jimin já não podia ditar com perfeição – espalhadas na mesa e no balcão do bar ao lado dela, que os receberam com sorrisos e acenos. Taehyung estivera certo – havia muita gente ali, e a cada dez minutos mais duplas chegavam para aumentar o grupo. Jin-hyung não parava quieto, caminhando de um lado a outro da mesa para se revezar nas diferentes conversas, indo até o balcão para conversar com os amigos que Jimin não conhecia, de vez em quando sendo puxado de lado para um cochicho risonho de Namjoon-hyung. Não era surpresa que ainda estivessem juntos depois de tantos anos, e Jimin até ficou surpreso ao não encontrar anéis compartilhados em seus dedos.
Taehyung já conversava com todos na mesa desde que haviam se sentado, na ponta próxima ao bar, e até Jungkook trocava palavras amigáveis com duas outras pessoas à sua frente. Jimin brincava com o canudo de seu coquetel, entediado e grato por ninguém estar tentando puxar assunto com ele – fora os habituais comentários sobre seu cabelo, aos quais ele havia se acostumado. Já era ruim o suficiente ter de estar lá, mas se pudesse passar por aquilo falando o mínimo possível, seria uma vitória.
Trazendo uma lufada de ar frio, a porta se abriu e mais um trio de pessoas se dirigiu até Jin-hyung. Hoseok exibia o mesmo sorriso radiante, vestindo uma camisa colorida e um boné vermelho. Ele recebeu o velho amigo em um grande abraço, ambos rindo que nem os dois retardados que eram. Para surpresa de Jimin, Moon também estava lá e logo foi apresentada ao anfitrião, exibindo seu sorriso simples carregado de batom azul-escuro, pelo outro menino que vestia uma jaqueta com aparência bastante usada. Agora Jimin tinha certeza: ela era namorada de Min Yoongi. Não que aquilo importasse.
Hoseok passou pela mesa e cumprimentou todos com as duas mãos, parando perto de Taehyung para fazer o cumprimento ensaiado dos dois. Os três se dirigiram ao balcão para sentarem-se ao lado dos antigos colegas de classe. Jimin observava umas duas meninas próximas a ele com um misto de nojo e desdém, ouvindo sua conversa e subitamente lembrando-se do motivo pelo qual nunca fizera questão de manter contato com aquela gente. Impaciente, ele suspirou, erguendo-se e avisando a Kookie que ia pegar mais bebida no bar. Se tinha de estar ali, que tivesse pelo menos a companhia do álcool.
Percebeu que Moon estava na ponta do balcão, brincando com seu coquetel colorido. Ao vê-lo, ela mostrou o sorriso que sempre deixava Jimin se perguntando como alguém podia transmitir indiferença e gentileza em doses iguais numa mesma expressão.
— Se divertindo, Jimin-ah?
Ele bufou, sentando-se no banco ao lado do dela.
— A beça.
Pelo que pareceu a primeira vez desde o momento em que se conheceram, a menina riu.
— Acompanhe-me, então — Disse ela, erguendo o copo no ar e bebendo o último gole. — Só álcool mesmo para me convencer a vir aqui.
Jimin sorriu ao comentário.
— Não seguiu a moda? — Indagou ele, indicando com o queixo os copos do resto dos companheiros, todos cheios de cerveja. Tinha vontade de perguntar o porquê de ela sequer ter ido, já que não era ex-aluna, mas sabia que era comum acompanhar o parceiro nessas coisas. Ou imaginava que fosse.
— Esse mijo fermentado? Não, muito obrigada.
O menino soltou uma risada, coisa que não pensara que fosse chegar perto de fazer ao entrar naquele restaurante. Moon pareceu satisfeita com a reação à sua frase.
— E eu não sei? Não entendo como sou o único dos meus amigos que sente o quão horrível esse negócio é. Às vezes acho que houve algum erro na minha formação durante a adolescência.
Moon riu de leve, apontando um dedo de unha pintada para ele.
— Errado, não, garoto. Muito certo.
Ele concordou, sorrindo, e pediu outro drink ao barman.
— Ei, vocês dois, escutem o que ele está dizendo aqui — Chamou Moon, cutucando o braço de Hoseok, sentado ao seu lado. — Talvez assim parem de dizer que há algo estranho em mim.
— Não, não, aquela é uma coletânea de muitas merdas, isso sim.
— Do que estão falando? — Indagou Jimin, rindo do que Hoseok dissera.
Hoseok se virou para ele, tirando a expressão irritada do rosto para mostrar-lhe um sorriso gentil.
— Ah, nada. Suga-hyung queria saber de alguma loja de discos antigos (LP's e essas coisas) perto daqui, e eu disse que a que eu conheço não tem quase nada.
Yoongi olhou para Jimin, despreocupado e com um sorriso de canto no rosto.
— O riquinho não deve nem saber o que é um LP.
Moon sorriu de lado, apenas dando um gole no novo coquetel que pedira. Erguendo levemente o queixo e tentando não não mudar o tom de voz, Jimin respondeu.
— Pra sua informação, eu sei muito bem o que é. Aliás, meu pai tem uma loja dessa, e é uma das melhores da cidade.
Assim que as palavras saíram, ele se perguntou o porquê de tê-las dito em primeiro lugar. A loja de seu pai era em Busan, a mais de uma hora de metrô. Não seria útil para Yoongi, e fora por isso que entrara no assunto para começo de conversa. Então por quê mencionara algo sobre si mesmo que nem era relevante?
Para a surpresa dele e de Hoseok, o mais velho ficou levemente interessado. Moon parecia apenas entretida.
— Sério? Não sabia que seu pai era dono do 80's Café.
Ficando um pouco nervoso, Jimin se apressou para responder.
— Ah, não, não é aqui. É em Busan. Meus pais moram lá — Era provável que tenha sido sua imaginação, mas ele pensou ter visto o quase inexistente interesse de Yoongi minguar de vez. — Mas... bom, de qualquer jeito, tem uma ótima perto de onde eu estudo, ela tem até alguns instrumentos. Às vezes vou lá depois das aulas pra relaxar. Você está procurando algo em especial?
— Só um LP de uma banda aí — Yoongi virou o rosto, brincando com o garfo no prato à sua frente. Jimin pensou ter ouvido alguém chamar Hoseok na outra mesa, que respondeu com uma risada ao se levantar, chamando a atenção de Moon. — É bem velha e quase ninguém conhece, você não vai saber.
— Teste-me.
Jimin sorria desafiante. Era divertido provocar Yoongi, já que na maior parte do tempo quando se encontravam o que acontecia era o contrário. O outro olhou-o, parecendo não esperar aquilo, mas não mudou de tom de voz ou de expressão quando respondeu.
— Tá brincando?! Meu pai é louco por eles! Ele tem todos os LP's, cresci ouvindo as músicas.
O rosto de Yoongi pareceu se iluminar, mais do que Jimin jamais vira antes.
— Como assim? Eu procuro por esses discos há anos e não consigo completar a coleção. Onde seu pai conseguiu?
— Ah, pelas viagens da vida. Onde ele estivesse, perguntava se vendiam algum LP — Jimin sorria, animado. Nenhum de seus amigos conhecia a banda preferida de seu pai, então era estranhamente divertido conversar com alguém que compartilhava desse gosto. — A loja perto da universidade tem alguns deles. Passe lá qualquer dia, pode dar sorte.
— É, acho que é um bom motivo para ir até a zona sul — Provocou Yoongi, o mesmo sorriso irritante no rosto.
Jimin riu, balançando a cabeça e revirando os olhos.
— Não é tão longe assim, babaca.
— Ué, você não estuda naquela faculdade privada? Hobi disse que era lá — Yoongi franziu o cenho, honestamente confuso. Jimin negou com a cabeça, imaginando por que Hoseok tinha dito aquilo – ele nunca tinha falado sobre isso com nenhum dos hyungs.
— Não, estudo na federal. No campus leste.
O mais velho pareceu surpreso, mas não era uma surpresa ruim. Jimin não sabia por quê aquilo significaria tanto, ele só estudava na universidade mais acessível. Era de se esperar, quando se estava morando sozinho na cidade e o emprego só lhe dava um salário suficiente para sobreviver durante o mês.
— De qualquer modo, minha área não é tão ruim assim, sabe.
Yoongi ergueu uma sobrancelha.
— Imagino. Deve ser insano.
Jimin cruzou os braços em cima do balcão, rindo da teimosia daquele menino.
— É muito fácil ficar se achando estando no seu território. Se estivéssemos no meu, as coisas seriam um pouquinho diferentes.
Dessa vez, foi Yoongi quem sorriu, mesmo que quase imperceptivelmente.
— Qualquer dia eu passo lá para deixar você me mostrar quais grandes aventuras a zona sul guarda, Park Jimin.
— Estarei mais que a disposição, Min Yoongi.
O canto da boca de Yoongi que havia subido para formar o sorriso que ele exibia quase gritava para que Jimin devolvesse, sorrindo como se não tivesse controle de seus músculos faciais. E os segundos se arrastaram enquanto seus olhos foram presos pelos do menino que insistia em fazê-lo pensar em mil coisas e, ao mesmo tempo, em absolutamente nada.
De súbito, Tae gritou alguma coisa para Jimin, que se virou para olhar. Todos estavam na porta se preparando para ir embora, inclusive Moon, e ele, corando, se perguntou quanto tempo fazia que havia ficado conversando sozinho com Yoongi. Hoseok estava voltando para se sentar ao lado do mais velho, sorrindo às despedidas exageradas de Taehyung. Jimin não pôde evitar ficar intrigado com o fato de Moon estar indo embora sem o namorado.
— Até mais, Park — Yoongi disse, puxando um cigarro do maço.
Você não vem?, foi o que Jimin pensou em perguntar.
— Até — Respondeu, apenas, levantando-se do banco e caminhando para a porta. No meio do caminho, percebeu que ele não havia o chamado daquele apelido irritante. Pelo que parecia a primeira vez, Yoongi o chamara pelo nome – mesmo que não o próprio.
Sentiu a iminência de olhar para trás, mas parou o movimento antes que se concretizasse.
*
O sininho da porta tocou ao que ela foi aberta, o frio do ar-condicionado atingindo Yoongi no rosto e fazendo-o pôr ambas as mãos nos bolsos da jaqueta. Já estavam em pleno outono, por que não aumentavam a temperatura? Exalando uma lufada de ar, impaciente, ele caminhou pelos corredores de estantes cheias de bugigangas, cadernos e fotografias antigas dentro da loja aonde o riquinho havia sugerido que ele fosse. Não tinha planos para aquele dia, e pareceu uma boa ideia checar se encontrava algum LP da banda ali. Melhor prevenir do que remediar.
Aumentou o volume dos fones de ouvido, apoiando-se numa prateleira de discos antigos e passando a folheá-los. Nada. Tentou outra prateleira, mas também não deu sorte, só encontrou os que já tinha. Yoongi suspirou, coçando a cabeça. Acho que vou ter de me conformar que nunca vou encontrar todos. Ele pensou em perguntar a algum funcionário por descargo de consciência, mas uma visão do fundo da loja o chamou atenção. Havia instrumentos ali, justamente como Park havia lhe dito.
Park. Park Jimin. Era um nome melodioso, quase como uma música, e Yoongi sempre gostara de nomes assim – que o lembravam, mesmo que vagamente, da música, aquilo que tanto amava. Claro, nunca o deixaria saber, preferia provocá-lo com o apelido que sabia que ele detestava só para ver sua expressão irritada, mas inegavelmente fofa.
Balançando a cabeça para afastar o pensamento, ele caminhou até o canto dos instrumentos, parando na frente de um teclado. Passou os dedos pelas teclas e pelo visor eletrônico – parecia usado, mas em bom estado. Olhou em volta e viu, num anúncio, que estava em promoção. Aquilo o surpreendeu, estava realmente barato para um teclado tão bom. Mas não poderia comprá-lo, seu salário nunca seria suficiente.
Mas isso não significa que eu não posso tocar aqui, não é?
Sentando-se no banco, ligou o aparelho e começou a testar acordes aleatórios, no simples e rápido freestyle. Quando percebeu, estava de olhos fechados, as pontas dos dedos passeando pelas teclas, quase sobrevoando-as.
— Eu disse que a loja era boa.
De súbito, virou-se para ver quem estava falando. Comprovando suas suspeitas, avistou Park, um ombro encostado na prateleira atrás de Yoongi, olhando-o como se tivesse flagrado-o em um momento frágil e pessoal. E realmente o tinha feito, mas não parecia achar graça ou pretender tirar sarro. Seu sorriso era simples, quase como se entendesse o que Yoongi sentia ao tocar o teclado. Mas ele duvidava.
Erguendo-se do banco, o mais velho se aproximou.
— Ela é mesmo, mas não consegui achar os LP's daquela banda.
O sorriso do outro mingou, e uma expressão desapontada se espalhou por seu rosto.
— Ah, sério? Jurava que eles iriam ter.
Yoongi deu de ombros, caminhando para longe dos instrumentos.
— Falta de sorte. Tudo bem, estou acostumado com ela.
Park riu, seguindo-o pelos corredores.
— Um dia você vai completar a coleção, confie em mim.
— E por que eu deveria fazer isso? — Provocou Yoongi, fingindo estar olhando os pôsteres na parede.
— Porque eu talvez saiba de outra loja que possa ter esses discos, mas só vou lhe contar quando confiar em mim — Respondeu Park, cruzando os braços ao lado dele e olhando-o com um sorriso que dizia não vou mais deixar você me irritar. De algum jeito, Yoongi imaginava que ele estivesse determinado a não ceder às provocações. Andando na direção da área dos CD's, Park continuou. — Enfim, eu gosto muito de ouvir música aqui. Eles têm ótimos álbuns.
— Eu vi — Comentou Yoongi, caminhando ao lado do outro. — Pensei em levar esse.
— Sério? Eu prefiro o mais recente deles.
E foi assim que, sem perceber, os dois passaram a caminhar juntos, conversando sobre as mais variadas bandas de rock, jazz e blues, os mais diferentes ícones do hip-hop e os mais vergonhosos primeiros ou últimos discos de qualquer banda da qual gostassem. Era surpreendente para Yoongi o quanto os gostos deles eram parecidos, aquele baixinho de cabelo rosa da zona sul não parecera nem de longe alguém que fosse alucinado por música clássica e, ao mesmo tempo, ouvisse rap nas horas vagas. O jeito animado com o qual falava sobre música fazia Yoongi sorrir, observando suas mãos pequenas gesticularem e apontarem para todas as direções – claro, nunca o deixava perceber que estava encarando com um sorriso.
Depois de algumas horas, começou a escurecer, e Park o chamou para comer alguma coisa na lanchonete ao lado, parecendo um tanto indeciso. Yoongi ficou surpreso e quase recusou – estava relativamente longe de casa e precisava acordar cedo no outro dia para trabalhar –, mas alguma coisa no olhar do menino o impediu de dizer qualquer outra coisa além de um "sim, estou ficando com fome mesmo".
Saíram da loja de discos e atravessaram a rua, entrando na lanchonete e sentando-se no balcão. Park pediu uma banana split especialmente colorida – que fazia um par divertido com o tom chiclete de seu cabelo – e Yoongi ficou numa casquinha simples. Ele, de vez em quando, roubava um pedaço do sorvete do outro, fazendo-o rir e dizer com aquele tom gasguita "pare, hyung!". Seus olhos se fechavam quase completamente quando ria, e Yoongi se viu hipnotizado por aquele sorriso.
Enquanto terminava seu lanche bastante colorido, Park enfiou a mão na bolsa para pegar o celular que tocava, virando-se de lado para atender. O menino ficou a observar a rua através do vidro da vitrine, distraindo-se com o que podia desde que já terminara seu sorvete.
— Tá. Tá bom. Sim, sim, vou ligar. Quando eu estiver indo, aviso. Até sexta, beijos — Murmurava Park, em voz baixa, logo antes de desligar.
— Seus amigos?
— Não, meu pai — Respondeu o menino de cabelo cor-de-rosa, distraído. — Prometi que viajaria para visitá-los próximo final de semana, já faz um tempo que não volto para casa.
— De onde você é mesmo? — Indagou o outro.
— Busan — Disse, sorrindo, animado por falar de sua terra natal. — Sinto falta de lá. Você conhece?
— Não — Respondeu Yoongi, apenas, sem a mínima vontade de se aprofundar no assunto. — Nunca fui de viajar muito.
Park ergueu as sobrancelhas por um rápido instante, parecendo entender que não era um tópico com o qual o outro ficava muito confortável. Alguns segundos de silêncio depois – Yoongi olhando para o nada e Park brincando com o restara da banana split –, o rosto do mais novo se iluminou, como se ele tivesse acabado de lembrar de algo.
— Espera aí, você ainda está procurando o último LP daquela banda, né? — Perguntou ele, apontando para Yoongi e fazendo o outro franzir o cenho.
— Sim...? — Respondeu, quase com medo.
— A loja do meu pai com certeza tem! — Completou ele, finalmente explicando o motivo da súbita mudança de ares. — Eu posso trazê-lo pra você.
Yoongi ainda passou dois segundos para assimilar o que o menino havia dito, a boca levemente aberta em descrença, a qual logo se transformou numa risada enquanto ele balançava a cabeça.
— Duvido que você vá saber qual é.
— Bom, meu pai é fã desde antes de qualquer um de nós nascer, então se você me disser o nome do álbum tenho certeza que ele saberá — Retrucou Park, um princípio de irritação brotando na voz.
— Não sei, não...
— Olha, se você não quiser, eu não trago — Cortou ele, quase como se gaguejasse. Parecia, de repente, notar algo estranho na oferta que fizera. — Foi só uma coisa da qual lembrei, então...
Algo na expressão do menino a sua frente, como ele abaixou o olhar e voltou a mexer na comida, quase como se murchasse, num instante acelerou o raciocínio de Yoongi.
— Essa não é a única opção, sabe — Começou ele, chamando a atenção de Park, que agora estava mais confuso do que nunca. — Eu posso ir com você. Assim não tem chance de você errar o nome do álbum.
Park parara de brincar com a colher, encarando Yoongi, que não tinha ideia de onde aquilo tinha vindo, nem muito menos em que situação aquela desculpa seria plausível. O que ele estava pensando?
— Ahn, bom... — Disse Park, pigarreando. Não parecia querer – ou conseguir – devolver o olhar. — Não sei se é uma boa ideia...
E aquilo foi suficiente para a ficha cair, trazendo Yoongi de volta ao mundo dos mentalmente sãos.
— Sim, é verdade. Tem razão, que loucura minha — Riu ele, dando de ombros. O outro menino finalmente olhou para ele. — Esqueça. Tenho certeza de que vou encontrar o que estou procurando em algum lugar por aqui.
Park não estava mais nervoso, mas tampouco recuperara a felicidade repentina que o invadira alguns instantes antes.
— Sim — Disse ele, em voz baixa. — Tenho certeza que vai.
O silêncio pesado fazia com que o som do sininho da porta fosse tão estrondoso quanto as badaladas vindas de uma igreja. Pigarreando, Yoongi começou a se levantar.
— Preciso ir — Disse, sem olhar diretamente para o outro. Jimin ergueu-se também.
— Sim, sim, eu também — Riu, ajeitando algumas mechas que caíram em seus olhos. O frio fazia suas bochechas corarem como dois pequenos pêssegos, o que Yoongi estranhou, considerando que nem estava tão frio lá dentro.
Saíram pela porta e voltaram a se encarar na calçada, Jimin de mãos nos bolsos do moletom e Yoongi pondo a máscara no rosto. O menino de cabelo rosa sorriu, dizendo apenas:
— Boa sorte, badboy.
O outro sorriu de lado, sem esperar aquilo.
— Valeu, riquinho.
E assim os dois meninos ficaram, em silêncio, em cantos opostos da calçada, caminhando para direções opostas, tão opostos quanto sempre foram um do outro.
Mas o que nenhum dos dois sabia era que, apesar de todas as diferenças, suas mentes estavam viajando pelo mesmíssimo lugar, voando por campos vastos e vazios, esperando esbarrar em outra solidão tão grande quanto as próprias.
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