Notas iniciais
vim aqui te desejar uma ótima leitura e espero que goste ♡ deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie

Jimin bocejou, os olhos cansados ao olhar para a tela do celular. Constatara diversas olheiras mais cedo ao acordar e se olhar no espelho, então agradecia pela companhia dos velhos óculos escuros. Jungkook já tinha mandado mil fotos com diferentes coraçõezinhos para ele mostrar à mãe – se havia alguém que gostava da mãe de Jimin, era o amigo maknae – e estava desejando boa viagem naquele exato momento. Agradecendo rapidamente, o menino saiu da conversa e começou a escolher a playlist que ia tocar pela próxima hora. Um metrô se aproximava, trazendo um vento frio que fez a touca de Jimin parecer inútil. Ergueu a cabeça para ver se era esse no qual deveria subir, mas constatou que não. Voltou a atenção para a escolha de músicas.

— Com licença.

Percebendo, surpreso, que a pessoa se dirigia a ele, levantou o olhar para ver quem era, justo quando a constatação de que já conhecia aquela voz brotou no fundo da mente.

E, só para dar razão a isso, lá estava – debaixo de um boné preto, calças jeans rasgadas e casaco preto de mangas curtas demais – Min Yoongi, cumprindo seu dever de brotar aonde quer que Jimin fosse.

— Sabe qual o próximo metrô para Busan? — Perguntou ele, inocente como se nunca tivesse visto o outro menino na vida. Pela expressão indiferente em seu rosto, Jimin temeu por um instante que ele não o houvesse reconhecido.

O mais novo ergueu uma sobrancelha, semicerrando os olhos e empurrando os óculos para poder olhar o menino por cima deles.

— Isso é sério?

Yoongi deu de ombros, forçando uma expressão confusa.

— O quê? Só quero saber qual deles pego para ir até Busan. Estou procurando uma coisa e um garoto bem irritante me disse que posso encontrar lá.

No momento em que pôs um ponto final naquela frase, Yoongi fez um dos cantos da boca subir e trazer um sorriso sarcástico ao seu rosto. Jimin não acreditou, balançando a cabeça e rindo em descrença.

— É mesmo? — Comentou, sem poder se conter. — Para sua sorte, eu estou indo para Busan.

— Não acredito — Yoongi fingiu surpresa. — Que coincidência.

Sem poder se conter, Jimin riu mais uma vez, trazendo outro sorriso ao rosto do menino desaforado à sua frente.

O metrô se aproximou dos dois, parando para que algumas poucas pessoas saíssem e umas tantas embarcassem. No vagão onde entraram, os meninos só conseguiram lugares em lados opostos, e Jimin olhava para o ar despreocupado e distraído de Yoongi. Não podia entender menos aquele menino. Uma hora, era grosso, metido e parecia se achar o melhor ser a ter pisado nesta Terra. Em outra, lançava o maldito sorriso que fazia Jimin, observando de longe quando o outro não estava vendo, acreditar que tudo aquilo valia a pena.

Mesmo assim, não podia deixar de se perguntar o que aquilo significava. Estavam indo para sua casa, possivelmente conhecer seus pais – apenas se ele não pudesse evitar – e os dois sequer eram próximos. Uma parte de Jimin pareceu rir em desdém ao lembrá-lo de que, para todos os efeitos, quem trouxe aquele assunto à tona fora ele próprio.

Então, apenas encostou a cabeça na janela e permitiu-se deixar as coisas acontecerem, ainda sentindo o peso dos pensamentos insistentes perturbarem sua mente já bastante confusa.



O metrô chegou ao seu destino muito antes do que Yoongi esperava. Ele seguiu Jimin para fora da estação e pelas ruas de Busan, reparando no óbvio sorriso do menino ao apontar para as diversas coisas que notava na cidade. Não demorou muito para eles chegarem até a tal loja, e o tempo foi consideravelmente insuficiente para o cérebro de Yoongi ser capaz de articular uma razão para estar ali. Ainda tentava se convencer de que Jimin não estava desconfortável e que não estava fingindo por educação, mas a constante insegurança por ter aparecido sem avisar persistia. Bom, tecnicamente ele tinha avisado, mas aquilo não contava.

Trazendo-o de volta à realidade, a exclamação animada de uma menina que ajeitava uma estante de DVD’s chamou sua atenção. Ela reconheceu Jimin e o recebeu com um sorriso largo, perguntando mil coisas e fazendo-o rir. Yoongi foi apresentado brevemente a ela e logo estava dando uma olhada pela loja – de fato era grande, com vários corredores e estantes com temas diversos, vários tipos de filmes em Fitas K7 e álbuns em LP’s antigos, um lugar que faria qualquer cinéfilo enlouquecer. Jimin voltou depois de conversar com a amiga para dizer que seu pai não estava trabalhando naquele dia (não parecia decepcionado com isso, Yoongi percebeu distraidamente), mas que eles poderiam procurar por si mesmos. O mais velho ainda demorou alguns segundos para entender que ele se referia aos LP’s da banda que ele decidira procurar ali para início de conversa.

Pela próxima hora, os dois reviraram a loja. Passeavam pelos corredores olhando todo tipo de CD, muitas vezes nem tão interessados assim, e trocavam comentários aleatórios. Por vezes se distanciavam, caminhando por seções diferentes, mas eventualmente se encontravam com os olhos e Jimin sorria para ele distraído, movendo o olhar logo depois. Por um bom tempo, Yoongi já começava a se contentar com o fato de que não encontraria o LP outra vez, do tanto que haviam procurado sem ter sucesso. Contudo, eventualmente ouviu o menino chamar seu nome de algum lugar da loja, pedindo licença para um grupo que se postara no meio do caminho. Quando encontrou o lugar onde Jimin estava, o viu segurando um LP cuja capa estava empoeirada e desgastada nas pontas, e sorrindo radiante.

— Achei! — Exclamou ele, visivelmente satisfeito. O menino sorria diante da sua conquista, e Yoongi não pôde conter o próprio sorriso. Assim que se pôs ao lado dele, Jimin empurrou o objeto em suas mãos. — Acho que tem outro aqui embaixo, espera um pouco.

O mais velho notou que havia uma espécie de mini depósito ali, não era uma estante, e sim uma enorme caixa cheia até a boca de diversos itens. Não parecia nada prático, mas isso não parecia importar para Jimin que arrastava vários CD’s de um lado para o outro, como se seus braços se movessem no automático. Alguns instantes depois, ele ergueu-se de volta, o LP em mãos e vários cachos na frente dos olhos. Ajeitando-os com um movimento de cabeça, ele examinou o objeto de um lado a outro.

— Não estão nas melhores condições, mas ainda devem tocar alguma coisa — Disse, encontrando o olhar do outro, que sorria. — Eram esses que faltavam?

— Ainda falta um, mas só de ter encontrado dois já é uma vitória e tanto — Respondeu Yoongi, parecendo deixar Jimin satisfeito. Olhando para a pilha que se erguia ao lado dos dois, ele mexeu em alguns itens sem rumo. — Todos esses estão bem velhos, é por isso que colocam nessa caixa?

— Deve ser. E por isso também devem ter um preço mais baixo. Sorte sua!

Yoongi riu um pouco, concordando. Depois disso, os dois se dirigiram ao caixa e foram recebidos pela mesma menina que falara tão animada com Jimin mais cedo. Depois de empacotar os dois produtos, ela comentou casualmente que havia avisado os pais dele sobre sua chegada já que seu pai não estava trabalhando naquele dia. Yoongi observou o outro abrir a boca com uma expressão indecisa, parecendo incerto sobre demonstrar sua indignação ou fingir que não se importava. No fim, o mais velho segurou o riso ao vê-lo escolhendo a segunda opção, despedindo-se da amiga e acompanhando Yoongi para fora da loja.

— Tem gente que gosta de ser inconveniente, viu… — Comentou o menino de cabelo rosa, suspirando. Yoongi riu sonoramente, balançando a cabeça.

— Sua amiga devia querer ajudar.

— É, ajudar fazendo meus pais ficarem no meu pé pra ir logo pra casa.

Yoongi franziu de leve o cenho, apesar de ainda sorrir.

— Não foi por isso que você veio pra cá? — Jimin deu uma olhadela rápido para o outro, e o tom de voz abaixou um pouquinho.

— Eu não estava exatamente com pressa… — Ele soltou uma lufada de ar, recompondo-se. — Enfim, não importa. Além disso, ela nem é minha amiga. Só me conhece por causa do meu pai e quer ganhar pontos extras com o chefe. Mas eu finjo que não sei disso por ser muito magnânimo.

O mais velho revirou os olhos.

— Sim, claro que você é.

Jimin riu e continuou saltitando à frente, os cabelos coloridos esvoaçando com o vento. Caminharam pelas ruas de Busan debaixo do céu nublado que iluminava a cidade costeira com uma luz pálida, todos os prédios e postes ganhando uma tonalidade quase pastel. O menino local não parava de apontar e comentar algo sobre os lugares pelos quais passavam, parecendo falar mais para si próprio e não se importar muito se o outro estava prestando atenção. E como ele estava.

Ao chegarem a uma das praias, o casaco e o capuz de Yoongi provaram-se bastante bem-vindos – a brisa fria que vinha do oceano se tornava confortável debaixo de algumas peças mais quentes. Eles mantiveram as mãos nos bolsos do casaco, Jimin rindo por trás de seu cachecol quando uma gaivota passou muito perto da cabeça do outro, fazendo-o soltar um xingamento. Havia muitas outras pessoas caminhando pela praia ou pelo calçadão como eles – alguns corajosos até nadavam nas águas geladas – e a atmosfera era bem mais leve que em Daejeon. Nem parecia que não estavam tão longe da vida cheia da cidade.

Justo quando Yoongi estava começando a pensar em almoçar, o mais novo avisou que devia ir para casa (a mãe havia enviado uma mensagem ou algo assim), mas que ele não precisava ir. Podia almoçar por aí e voltar pra Daejeon se preferisse.

— E perder de ouvir seus pais fazendo você passar vergonha, riquinho? — Provocou. — Não me subestime.

Jimin revirou os olhos, avisando que não se responsabilizava pelo que sua mãe faria. Depois de enviar mais algumas mensagens, ele mudou de caminho, indicando uma saída do calçadão da praia de volta para a calçada vizinha à rua. Na primeira parada de ônibus os dois esperaram pela linha certa e subiram, apoiando-se no metal frio enquanto o veículo balançava em curvas e freadas. Jimin estava mais quieto, olhando pela janela e não dando muita atenção para nada em especial. Não parecia nem notar enquanto Yoongi o encarava à sua frente, também voando em pensamentos.

O menino de cabelo rosa apenas acordou do devaneio quando percebeu estarem chegando perto, apertando o pequeno botão de parada e se direcionando para a saída. A rua da casa dos pais dele era consideravelmente mais tranquila que aquelas do centro, apenas poucas lojas abertas e algumas duplas de pessoas caminhando de um lado ou outro, aparentando ter um destino muito mais definido do que apenas passear. Jimin indicou uma pequena casa com o muro baixo, um sorrisinho tímido nascendo em seu rosto ao se aproximar e tocar a campainha. Yoongi não sabia do que ele poderia estar com vergonha. Se tinha alguém que deveria estar envergonhado era ele; nada seria pior do que o encontro desastroso de Jimin com sua mãe. Os pais dele teriam que se esforçar para superar aquele fiasco, e a julgar pelo filho que eles tinham, ele duvidava que isso acontecesse.

Depois de ouvir o som da campainha dentro da casa, Jimin esticou o braço para o lado de dentro do portão e o abriu, tirando um rangido leve de suas dobradiças. Os dois caminharam pela curta estradinha de pedras que dividia o jardim em dois até chegarem à porta, que se abriu poucos segundos depois por uma dupla extremamente animada. A mãe de Jimin logo o puxou num abraço, não parando de falar nem um segundo, e ele ria quase na mesma medida. Seu pai lhe deu um abraço quase tão demorado quanto o da mãe, enquanto ela se movimentava para cumprimentar Yoongi com um aperto de mãos e um sorriso igualzinho ao do filho. Ao se livrar do aperto do pai, Jimin pôs-se entre os donos da casa e o convidado, realizando as devidas apresentações.

— Ah, esse é novo! — Exclamou a mulher, que ele descobrira se chamar Eunbyul. — Bem que eu estava estranhando Jimin não ter dito o nome desse amigo que estava vindo…

— Vamos, entrem, entrem! A comida já está esfriando — Chamou o senhor Seungkwan, já atravessando a porta. Eunbyul colocou um braço ao redor do pescoço do filho, que deu uma rápida olhada sorridente para o outro antes de se virar totalmente e deixar-se ser guiado pela mãe. Yoongi seguiu o trio carismático até uma sala espaçosa, decorada com quadros nas paredes, uma televisão de frente para um sofá vermelho que ficava a alguns passos da mesa retangular no momento recheada com diversos pratos que cheiravam muito bem. Não muito foi dito antes de todos sentarem-se e começarem a se servir, os pais de Jimin nunca passando mais do que cinco segundos sem falar. Para o alívio de Yoongi, a maior parte da conversa era direcionada a Jimin e às novidades que tinha da vida fora da cidade – faculdade, trabalho, Jungkook e Taehyung, novas telas que tinha pintado… Com o cenho levemente franzido, ele percebeu que não sabia do que falavam, mas não houve brecha grande o suficiente para trocar um olhar com Jimin e mandar a pergunta silenciosa. Algumas perguntas educadas foram feitas a Yoongi, como com o quê ele trabalhava e como havia conhecido o outro.

— Bom, foi…

— Na loja de discos perto da minha faculdade — Cortou Jimin, determinado, olhando para a mãe talvez incisivamente demais. — Pode passar o suco, por favor?

O mais velho teve de impedir que o sorriso contido em seu rosto escapasse em uma risada, e foi mais fácil cumprir essa tarefa ao se concentrar em seu prato. De fato não seria muito inteligente contar aos seus pais como eles realmente haviam se conhecido, com todas as brigas, gangues, tiros e tal. Yoongi podia imaginar que naquela família histórias como essa não fossem muito comuns.

Apesar, é claro, de eles terem se encontrado muitos anos antes, ainda na época do colégio. Mas Jimin não lembrava disso, então não valia a pena insistir.

— Ah, sim! Já ouvi falar muito daquela loja — Respondeu Eunbyul, inabalada e passando o suco para o outro lado da mesa sem desgrudar o olhar do convidado. — E está gostando de Busan? Não tem praias assim perto de Daejeon…

— Sim, gostei bastante — Respondeu o menino, sorrindo um pouco tímido. E, se dirigindo ao pai de Jimin, continuou. — Inclusive da loja do senhor, nunca tinha visto uma tão grande assim.

Ele deixou a pequena mentirinha chegar ao dono da loja e o observou ficar bastante satisfeito com aquilo, um sorriso se iluminando em seu rosto.

— Ora, fico muito agradecido! Não é todo dia que minha velha loja vira ponto turístico — Disse, rindo sonoramente. Yoongi não precisava dizer que pelo menos duas das lojas desse tipo que ele visitara em Daejeon eram até maiores; e ver a felicidade do senhor do outro lado da mesa o fez ter certeza de que valera a pena. Afinal, era dele aquela na qual Yoongi encontrara os LP’s impossíveis de se achar, então era o mínimo que podia fazer. Com o canto do olho, podia perceber Jimin encarando-o com a cabeça apoiada nas mãos e uma expressão no rosto ao mesmo tempo levemente surpresa e agradecida.

— Ah, sim, e você encontrou os tais discos que procurava? Jimin comentou comigo — Continuou, parecendo se lembrar daquilo segundos antes de externá-lo.

— Sim, encontrei! Muito obrigada de novo — Respondeu o menino, rindo de leve junto com as palmas da mulher que comemorou a boa notícia anunciando o último prato da leva, logo antes de se levantar para ir buscá-lo.

O almoço estendeu-se por mais um longo tempo, com direito a sobremesa e muita conversa já depois de todos terem terminado. Apesar das eventuais pontadas de alarde que Jimin sentia (como aquela mencionada), na maior parte do tempo ele estava leve e ria com facilidade ao ouvir as histórias novas e antigas de seus pais. Quase parecia esquecer da presença de Yoongi em alguns momentos, e ele ficou grato por isso – ainda não tinha completa certeza de que aparecer lá havia sido uma boa ideia, considerando que Jimin era o tipo de pessoa educada que não diria nada mesmo que fosse o caso. Seguindo esse pensamento, a lembrança da conversa de mais cedo com a menina da loja de discos brotou em sua mente, e ele se permitiu rir dessa vez, considerando que os donos da casa estavam longe o suficiente para não ouvirem. Jimin, entretanto, voltou-se para ele com uma expressão confusa, mas sorridente.

— O que foi agora?

— Nada, só estava me lembrando da sua amiga lá na loja — Respondeu, recebendo um revirar de olhos de volta. Os sons de pratos batendo uns nos outros enquanto os dois lavavam a louça quase encobriu a risada contida do mais novo.

— E eu estou tendo sucesso o suficiente em não comentar nada com o meu pai, então por favor não piore as coisas.

— Por que você teria que esconder? — Provocou Yoongi, guardando o último copo no armário e virando-se para seguir o outro até a sala. — Não vejo problema em comentar.

— Claro que não, não é você que é o filho do dono da loja onde ela trabalha.

Ele estava prestes a responder quando a conversa dos dois foi interrompida por um chamado de algum lugar dentro da casa, e Jimin o seguiu corredor a dentro. Meio perdido, Yoongi sentou-se no canto do sofá, olhando displicentemente em volta. A casa era evidentemente diferente da de sua mãe (os móveis não estavam lotados com pilhas de caixas, livros e artigos diversos, nem as janelas eram quase todas cobertas por panos e roupas secando), mas algo que não se diferenciava era a quantidade de fotos penduradas nas paredes. O pequeno núcleo da família Park tivera apenas um filho que estrelava em praticamente todos os porta-retratos à vista. Jimin cantando, dançando, sorrindo largamente ou dormindo, o que quer que fosse. Apenas uma das fotos, meio escondida atrás de uma foto recente, mostrava Jimin e seus pais tantos anos antes ao lado de outro rapazinho pequenino que brincava com ele. Antes que Yoongi pudesse dar atenção suficiente para se perguntar quem era, se pegou ouvindo pedaços da conversa que escapava pela porta entreaberta.

— Não, pai, não vou aceitar! — Insistia o menino, a voz indignada. — Vocês precisam mais do que eu. Já tenho mais que o suficiente.

— Tivemos um mês bom na loja, podemos dividir esse crédito — Seungkwan devolveu, quase tão teimoso quanto o filho. — Não pense nisso como um presente, se é por isso que se incomoda tanto…

— Exato, vocês tiveram um mês bom na loja e por isso vão aproveitar esse crédito pra fazerem algo pra vocês — A porta se abriu mais e a voz dele estava mais alta; estava prestes a sair do quarto, finalizando a conversa. — Obrigada, papai, mamãe, mas realmente não precisa.

Yoongi moveu o olhar e a atenção para longe do corredor, tentando não pensar no fato de que a última vez que encontrara com a mãe ela pedira precisamente o oposto do que aqueles senhores pediam ao seu filho naquele momento.

Eunbyul ainda tentara dizer alguma coisa quando os três saíam do quarto, mas desistiu. Jimin foi até a mesa para retirar a toalha, e dirigiu-se ao outro antes de fazê-lo.

— Tá esperando o quê, folgado? Venha me ajudar.

Yoongi riu do fundo da garganta por um segundo, suspirando ao se levantar e esperar as ordens do mais novo sobre pegar uma outra toalha no armário perto da mesa enquanto ele próprio guardava a antiga. Os dois voltavam para o sofá, conversando, quando Yoongi foi interrompido pela senhora que chegava na sala carregando algo grande, animada e falando bastante como todas as mães sempre falam.

— Isso aqui já estava pegando poeira! Faz tanto tempo que Jimin não traz gente nova aqui que eu não tinha mais a quem mostrar...

Ela só começou a fazer sentido quando Yoongi enxergou o que carregava em mãos: um pesado álbum de fotos, de capa vermelha e cheia de desenhos infantis já muito desbotados.

— Mãe! — Esganiçou-se Jimin.

— Ah, deixe de besteira, não é nada demais — Cortou ela, sentando no sofá e puxando o braço de Yoongi para que ele ficasse ao seu lado. — Venha ver você também.

— Acho que já vi essas fotos o suficiente — Respondeu o menino, de braços cruzados e emburrado. Yoongi não sabia para onde olhar ou o que fazer, mas com a mãe de Jimin abrindo o gigante álbum quase em seu colo não era como se ele tivesse muitas opções.

— Olhe, essas aqui foram no primeiro dia de aula dele, aqui em Busan… — Eunbyul começou, indicando uma das páginas do álbum. O menino não pôde evitar sorrir à visão de um minúsculo Jimin de bochechas rechonchudas esticadas num sorriso ao seguir os movimentos da professora, mãozinhas ao redor do copo quando todos lanchavam, o rosto todo pintado em alguma apresentação de dança da turma. — Ah! Essas são minhas preferidas! — Exclamou a mulher ao seu lado quando, algumas páginas adiante, apareceram diversas fotos de um Jimin um pouco mais velho tocando teclado com muita concentração, às vezes cantando frente a um microfone de brinquedo. Yoongi franziu o cenho por um instante, movendo o olhar para a versão atual do menino das fotos.

— Eu não sabia que você tocava…

— Tá bom, já deu! — Declamou Jimin, puxando o álbum das mãos de sua mãe quando ela se distraiu, fechando-o sonoramente e levando-o embora. Seus pais reclamavam, mas ele os ignorou. O visitante ainda sorriu em divertimento, e logo o assunto foi esquecido.

Algumas horas depois, quando já estava começando a escurecer, Yoongi observou quando o menino de cabelo rosa arregalava os olhos para a tela do celular, com o qual estivera procurando o horário do próximo trem de volta para Daejeon. Numa chuva de palavras e xingamentos incompreensíveis, ele entendeu o necessário: havia acontecido alguma coisa nos trilhos em vários trechos, algo sobre uma queda de energia que não seria reparada até o dia seguinte. O que significava que eles não poderiam voltar até lá. Depois de muita discussão entre Jimin e seu celular, Seungkwan tentando acalmá-lo dizendo que não era grande coisa e Eunbyul já se levantando para organizar as roupas de cama que eles precisariam e tudo o mais, ficou decidido que Yoongi dormiria no quarto de hóspedes (como era de se esperar) e Jimin em seu antigo quarto. O mais velho tentou não se meter na conversa da família para que a situação não ficasse mais esquisita do que já era, considerando a agitação de Jimin. Eles não trocaram muitas palavras pelos próximos momentos, durante os quais o quarto onde Yoongi dormiria foi organizado e ele jogou sua mochila num canto e os donos da casa se despediram, dando boa noite e desaparecendo corredor a dentro.

Yoongi fumava no jardim na frente da casa, escuro àquela hora, tamborilando os dedos na perna conforme o ritmo de uma música qualquer. A rua estava ainda mais silenciosa do que estivera mais cedo, nem sequer uma pessoa caminhando de um lado ou outro – apenas um gato malhado que lambia a pata entre as plantas da casa. Com um ranger da porta, Yoongi virou-se para ver Jimin aparecer de lá vestindo um cardigã que quase cobria suas mãos por completo. Parecia distraído até notar o outro ali, erguendo o rosto com um sorriso educado.

— Ah, você está aqui.

— Estou — Respondeu Yoongi, soltando uma lufada de fumaça.

— Ainda não acredito na nossa sorte com o trem. De todos os dias… — Riu o mais novo, balançando a cabeça. Yoongi riu.

— Está andando tanto comigo que minha sorte já está passando pra você — Comentou, fazendo o outro sorrir levemente em resposta, mas sem dizer nada. Os dois permaneceram em silêncio, Jimin fazendo carinho no gato que passara por ali e Yoongi caminhando de um lado a outro da estradinha de pedras. O mais velho, eventualmente, ergueu os olhos para o céu estrelado, distraído.

— Aqui tem muito mais estrelas né?

Yoongi moveu o olhar para o outro, que também tinha sua atenção virada para cima. Como sabia que era isso que eu estava pensando? Tentando impedir-se de verbalizar aquele pensamento, disse apenas:

— Sim, é verdade — Alguns instantes depois, continuou, mesmo sem saber muito o porquê. — Você sente falta disso? Daqui?

— Às vezes. Mais ainda quando olho pela janela do meu quarto e procuro por essas estrelas, então me lembro que estou bem longe de casa — Respondeu Jimin, ainda sem olhar para o menino a sua frente. Parecia flutuar numa aura diferente, distante demais para que Yoongi pudesse ser visto. Estrelas voavam ao seu redor como se ele fosse o centro de algum universo, e gente como ele sempre era. Yoongi sabia, conhecera outros como Jimin. Seres humanos tão distantes do que ele poderia sequer pensar em ser que não aparentavam respirar o mesmo ar, vivendo numa velocidade completamente diversa da dele.

Piscando como se acordasse de um sonho e movendo o rosto para baixo, o mais novo ergueu-se e bateu suas palmas nas calças de leve.

— Até amanhã?

Tragando uma lufada de fumaça, Yoongi respondeu.

— Até.

E o universo rapidamente se afastou dele, desaparecendo como se nunca tivesse estado lá.



Manhãs geralmente são ruins, a pior parte do dia para a maioria das pessoas. Não entenda mal, na maior parte do tempo para Yoongi também eram. Mas em alguns dias, como aquele, que a noite e a manhã se confundiam em uma mistura turva sem uma divisão clara, não fazia sentido reclamar quando acordasse. Especialmente porque ele seu sono era interrompido diversas vezes, não apenas quando o dia começava.

Por causa disso, demorou algum tempo para os residentes da casa aparecerem na sala onde ele decidira ficar para se distrair um pouco (por algum motivo o melhor jeito de fazer isso era só mudar o lugar onde ele ia mexer no celular, porque no quarto estava entediante demais). Seungkwan foi o primeiro, já bastante desperto e vestido para trabalhar – ao ver Yoongi ali, o cumprimentou com um aceno e um “bom dia”. Sua esposa acordou uma meia hora depois, terminando de amarrar o roupão e se dirigindo para a cozinha onde o outro já estava, sem deixar de sorrir para o menino na sala ao passar. O único que não estava se esforçando para aparentar menos irritado era Jimin, levantando-se apenas uma hora depois e surgindo na sala com o cabelo bagunçado e olhos que mal se abriam. Yoongi, ajudando a pôr a mesa do café, riu do outro quando ele se jogou numa cadeira e de imediato apoiou o rosto entre as mãos como se não tivesse força o suficiente para deixar a cabeça erguida por si só.

— Bom dia, raio de sol — Saudou, recebendo um grunhido e uma testa franzida em resposta. Yoongi sentou-se, rindo mais ainda, e logo os pais de Jimin fizeram o mesmo. Depois de que alguns pratos foram passados para ele e o tempo foi se arrastando, o mais novo acordava gradualmente e até começava a soar como ele mesmo conforme a rouquidão e o inchaço do sono passavam. Os dois haviam comprado as passagens de trem na noite anterior, e já estava na hora de ir. Yoongi foi até seu quarto para recolher a mochila e o celular, voltando para a sala e vendo Jimin com a própria bolsa pendurada no ombro sendo seguido pelos pais para o lado de fora. Sem encontrar muitos protestos por parte do filho ainda cansado, os mais velhos ofereceram carona para os viajantes e, ao chegarem à estação de trem, as despedidas foram rápidas, até mesmo entre Jimin e seus pais – os abraços foram apertados e os pedidos para que voltasse logo não foram ditos apenas uma vez, mas Yoongi percebeu nos semblantes de todos que aquela família já parecia estar acostumada com despedidas daquele tipo. Logo o som inconfundível do trem se arrastando pelos trilhos começou a se aproximar na plataforma, e os dois meninos esperaram as portas para subir no vagão. Havia dois lugares livres vizinhos à porta, então ali se sentaram e observaram o tempo voar nas janelas de vidro, cada um com seus fones de ouvido. Não trocaram muitas palavras durante boa parte do trajeto. Yoongi sabia que Jimin dormia ao seu lado, há pelo menos meia hora, e manteve-se a olhar a paisagem na janela para se distrair. Havia tentado mandar mensagem para Moon, mas não tinha sinal do celular. Com um estalar de língua, voltou para a playlist e voou pelos diversos títulos, já enjoado daquele que tocava. Enfim colocou para tocar uma das poucas músicas que Namjoon tinha gravado com sucesso, ouvindo as palavras rápidas do amigo seguirem o ritmo que ele próprio ajudara a criar. Com um toque no ombro, ele sentiu algo encostar-se ali e, ao olhar para ver, descobriu um adormecido Jimin com a cabeça apoiada nele. Sentiu um sorriso nervoso surgir em seu rosto, surpreso e tentando não se mexer para não acordá-lo. Distraído, notou o celular do menino escorregar de sua mão em seu colo, esticando um braço cuidadoso para ver que música ele estava ouvindo e matar a curiosidade. Como esperava, não reconheceu o nome Whalien 52, mas anotou mentalmente para escutar depois. Sem perceber, estava olhando outra vez para o rosto indefeso do menino adormecido, seguindo o constante tom rosado que circulava em certos pontos específicos – ponta do nariz, canto dos olhos, bochechas, boca – até Jimin se mover de leve e Yoongi perceber, envergonhado, movendo o rosto de volta para frente. Quando o mais novo acordou de verdade, ergueu a cabeça talvez rápido demais e se espreguiçou para disfarçar o olhar alarmado que o outro notou em seu rosto.

— Foi mal — Disse, pigarreando. — É que eu não dormi muito bem ontem.

— Tudo bem — Respondeu Yoongi, simplesmente. Outra vez, conteve o pensamento completo de escapar. Eu também não dormi.

Ao chegarem na estação de Daejeon, os dois se despediram ao descer na plataforma, já que iam para direções diferentes. Jimin acenava com um sorriso simples, já caminhando de costas para ir embora. Yoongi aumentou o volume na música em seus fones e pôs a máscara sob o nariz e a boca, atravessando as ruas até a parada de ônibus. Quando o seu chegou, ele subiu e se apoiou em uma das barras de ferro. O veículo balançava conforme fazia seu caminho usual até a parada próxima ao apartamento de Yoongi. O velho portão rangeu quando foi aberto pelo menino, que subiu os degraus no automático, sem nem olhar direito para a indicação dos andares e chegando à sua porta já com a chave em mãos. Ao girá-la na fechadura, notou que a porta estava destrancada e abriu-se facilmente. Antes que ele pudesse chamar pelo seu nome ao entrar no apartamento, ouviu a voz de Hoseok em algum lugar lá dentro, rindo e gritando uma resposta para alguma provocação. Esticando o pescoço de onde se sentava na mesa, Taehyung anunciou:

— Seu marido chegou, dona!

— Já estava na hora — Devolveu Hoseok, surgindo da cozinha vestido com um avental de arco-íris e enxugando uma panela. — Que fugida foi essa, porra? Era seu dia de cozinhar e de repente eu tenho que me virar pra fazer o jantar. Tenho cara de palhaço, Min Yoongi?

Sentando-se à mesa de frente para o menino que ria da cena, Yoongi ignorou a irritação do companheiro de apartamento com um sorriso despreocupado. Tentou não olhar tempo demais para o convidado inesperado; ele e Hoseok não eram tão próximos ao ponto de visitas (ainda mais pela manhã) serem rotineiras. Yoongi considerou uma outra possibilidade mais além que fazia bastante sentido, mas decidiu perguntar quando V fosse embora.

— Fica difícil dizer não à essa pergunta quando você aparece vestindo isso — E indicou o avental com o queixo.

— Se for esse o problema, todos nós somos palhaços — Devolveu o amigo, empinando o nariz e voltando para a cozinha. Yoongi assentiu ao dar de ombros de Taehyung; não podia discordar daquilo, afinal. — Mas sério, o que você foi que aconteceu?

— Deu algum problema nos trens e todos os que passavam por aqui foram cancelados. Só voltou ao normal de manhã.

Hoseok tinha os olhos semicerrados.

— Hm. Conveniente — Ele não parecia convencido, mas Yoongi não tinha energia suficiente para insistir. Ainda mais sabendo que ele só ficaria mais insuportável se alguém o atiçasse. — Enfim, tá com fome? Eu e Tae acabamos de comer mas ainda tem umas torradas aqui.

— Tô de boa — Respondeu o mais velho, e a isso Hobi deu de ombros e voltou para a cozinha. Taehyung tomava o último gole de suco e Yoongi mexia no celular sem muito rumo. Distraído, percebeu a pequena nota que tinha feito com o nome da música que Jimin estivera escutando e subitamente lembrou-se de algo.

— Ei, pergunta meio aleatória — Anunciou, conseguindo a atenção do outro com sucesso. — Jimin por acaso tem algum irmão? Vi uma foto dele criança com esse menino que achei a cara dele, mas não aparecia em nenhuma outra foto.

V moveu o olhar, franzindo o cenho como se se esforçasse para lembrar de alguma coisa. Ainda sem olhar de volta para o mais velho, disse:

— Não. Por isso ele não participa muito das conversas sobre nossos irmãos, afinal ele é filho único então não dá pra se identificar muito — O menino claramente não se importava muito, e olhou para Yoongi com igual desinteresse logo quando Hobi passou ao lado deles anunciando que ia tomar banho. — Você chegou a perguntar a ele?

— Não, acabei me esquecendo na verdade — Mentiu, tranquilo. Taehyung não pareceu perceber. Ele não precisava saber que Yoongi evitava fazer perguntas sobre a família de qualquer pessoa, perguntas que poderiam ser consideradas banais, porque sabia o quanto as respostas para as mesmas geralmente não eram nada banais. — Acho que se eu perguntar agora vai soar muito estranho, então vou deixar pra lá.

V assentiu, examinando seu copo.

— Minha vez de fazer pergunta aleatória — Disse, e fez Yoongi rir um pouco. — Você não é daqui, né?

— Não. Nasci em Daegu. Nos mudamos pra cá pouco antes de eu entrar pro Ensino Médio.

— Peraí, você também é de lá? — Perguntou Taehyung, decididamente mais animado.

— Calma, você é de lá? — O outro riu, concordando. Yoongi balançou a cabeça, sorrindo sem acreditar.

— Finalmente encontrei um conterrâneo — Comemorou o mais novo, e em seguida fez o sinal da paz com os dedos em direção ao vizinho. — Daegu boyz!

— Não diga isso — Cortou Yoongi, sentindo a vergonha alheia escorrer pelos poros. Taehyung ria sonoramente, ignorando Yoongi.

— Você tem irmãos ou irmãs, hyung?

Yoongi olhou para ele, uma sobrancelha erguida.

— Jogando de volta pra mim?

— Por que não? — Explicou, mãos erguidas e sorriso sapeca. — Na verdade me lembrei de um comentário besta que Kookie fez algumas semanas atrás, sobre como você seria o típico irmão mais velho rabugento que implica sempre com o mais novo mas sempre o defende quando precisa.

Yoongi não pôde evitar rir ao absurdo, exibindo uma expressão acima de tudo confusa.

— De onde diabos ele tirou isso?

— Ora, deve ter sido porque no primeiríssimo dia que ele te viu nós dois nos metemos numa briga da porra com aqueles brutamontes bem na frente dele — Devolveu, ainda rindo um pouco mas dando de ombros, como se entendesse. V apoiou os cotovelos na mesa, parecendo pensar em outra coisa. — Ironicamente, essa descrição também daria certo se falasse de Jimin.

O mais velho olhou para ele, mais confuso ainda.

— Jimin? Sério?

Taehyung sorriu de leve, coçando um olho e bocejando.

— Você só não teve a oportunidade de ver, mas ele sabe se virar. Mais de uma vez já o vi brigando com pessoas duas vezes o tamanho dele e saindo por cima. E na maioria dessas vezes Jimin só se meteu na briga pra começo de conversa porque mexeram com alguém que ele conhecia — Finalizou, olhando para Yoongi com um sorriso de quem achava que ele não acreditava. — Por isso, a descrição dá certinho.

O celular do mais novo vibrou e ele o pegou para ver o que era, deixando Yoongi com seus próprios pensamentos. Mesmo que sua primeira reação tenha sido a descrença, quanto mais pensava naquilo mais sentido fazia. Antes de se reencontrarem, Jimin sempre parecera o tipo que não levava desaforo pra casa – até onde ele podia se lembrar, o mais novo respondia todos os babacas do colégio e às vezes até os professores, usando seus próprios argumentos contra eles. E, nos dois dias seguidos que ele dera de encontro com Yoongi no bar, o menino não pensara duas vezes antes de tentar defendê-lo, ainda que tivesse se metido onde não fora chamado. Para Yoongi esse sempre tinha sido a razão de seus maiores problemas, mas Jimin não parecia se importar.

— Ele sempre foi assim? — Perguntou, chamando a atenção do outro. — Sabe, quando era criança.

— Não sei. Não o conheci até o primeiro ano do Ensino Médio — Yoongi se surpreendeu, e Taehyung riu. — É, todo mundo tem essa reação. Enfim, não sei como ele era porque não estava por perto… — O olhar de V se distanciou e ele pareceu procurar alguma coisa dentro das próprias memórias. — Mas pensando bem, tem uma história que ele me contou mais ou menos sobre isso. É bem pesada. Não me lembro direito, mas era algo sobre um amigo de quando ele era pequeno, antes de se mudar pra cá, um amigo muito próximo que... sofreu um acidente. Não sei o que foi exatamente, só que Jimin ficou arrasado quando lhe contaram que ele não sobrevivera — O mais velho sentiu-se respirar fundo. Meio que esperava por aquilo. — Mas isso não foi o pior: depois, os pais do menino passaram a culpá-lo.

— Quê? — Aquilo, sim, ele definitivamente não esperava.

— É, ficaram dizendo que ele sabia que o menino ia fazer aquilo e que podia ter evitado, ou sei lá. Jimin nunca contou em detalhes. O fato é que, como uma criança de sete anos, é claro que ele acreditou naquilo. E não importa o que nós digamos, ele acredita ser culpado até hoje. Diz que se tivesse prestado atenção, se tivesse cuidado do amigo, o teria salvo.

— Então é por isso que ele cuida de todos ao redor dele agora? Porque tem medo de perder alguém de novo?

Taehyung deu de ombros, a expressão mais triste. Tinha algo além disso. Uma impotência fudida por não poder fazer nada para ajudar um amigo tão importante.

Os dois não disseram muito mais depois daquilo. O clima não ficou pesado ou estranho, mas cada um pareceu se perder em devaneios; Yoongi nem sequer percebeu quando Hobi voltou, se jogando no sofá e chamando V. Lá no fundo de seus sentidos podia ouvi-los conversando, apesar de não compreender o que diziam – era como se nadasse num oceano, as palavras abafadas por uma grossa camada de água persistente. Sentava-se na beira da janela, fumando um cigarro e repetindo as palavras de Taehyung diversas vezes na cabeça, um único pensamento sobrevoando todas elas.

Se Jimin cuida de todos, quem é que cuida dele?

My mother said the sea is blue

She told me to let out my voice as far as I can

But I don't know what to do

It's so dark

And there are only different whales

speaking entirely different words

I just can't hold it, mom

I want to say I love you

I want to trace back to this music sheet

like a song I sing only to myself

The sea is too deep

Still, I'm lucky

(Because if I cry no one would know) I'm a whalien

Notas finais
*a música no fim (obviamente) é Whalien 52, do BTS (a tradução eu peguei desse vídeo https://www.youtube.com/watch?v=BPfWH1_gQbY) obrigada por ter chegado até aqui, eu nem te conheço e tu já tens um lugar no meu coração ♡ ei, fique com vergonha não, valorização é muito importante pra quem escreve, deixa teu comentário aí!! pode falar o que quiser ^^ ~gabinnie
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.