Serendipidade
6 Primeiro dia de aula...
Notas iniciais
Fernanda POV's
As filas de H até P movem-se vagarosamente. O cara da minha frente está discutindo com o conselheiro. Dou uma olhada na de A a G e vejo que Emma (Morley) e Rafaella (Frossard) já receberam seus horários de aula e os observam, comparando-os.
— Mas eu não pedi teatro, pedi ciência da computação!
A conselheira agachada é paciente. — Eu sei, mas ciência da computação não cabia no seu horário, e a sua segunda opção sim. Talvez você possa fazer ciência da computação no ano que...
— Minha segunda opção foi ciência da programação.
Espere aí. Minha atenção volta-se para o que eles estão dizendo. Vocês podem fazer isso? Colocar-nos em aulas que não pedimos? Eu vou morrer se tiver que fazer educação física denovo.
— Na verdade, Niall — a conselheira folheia os papéis —, você se recusou a preencher o seu formulário de segunda opção, então tivemos de selecionar a aula para você, mas acho que você vai encontrar...
O garoto, nervoso, pega o horário da mão dela e sai. Dou um passo a frente e digo meu nome o mais educadamente possível, para compensar a situação desagradável criada pelo idiota que acabou de sair. Ela me dá um sorriso de covinhas de volta e me entrega meia folha de um papel amarelo.
Prendo a respiração enquanto o observo. Sem surpresas. Inglês avançado, cálculo, francês avançado, física, literatura e história europeia. E ah, algo duvidoso chamado La Vie.
Meu pai descreveu La Vie como uma aula somente para os alunos do último ano, semelhante a um salão salão de estudos, mas ocasionalmente, palestrantes convidados falariam conosco sobre como administrar nosso dinheiro, alugar apartamentos e etc.
Arrasto-me em direção a Emma e Rafa, Anna vem logo atrás de mim. Rezo para que compartilhemos algumas aulas.
— Três comigo, e quase todas com Anna! — Emma fica radiante e me devolve meu horário.
— Mas...E Rafaella?
— Surpresa! Esse é o meu último dia aqui — ela sorri pouco satisfeita.
— Último? — Reforço as palavras.
— Sim, último. Meus pais resolveram que seria melhor eu voltar para o Brasil. E, eu pedi para que eles me deixassem ficar só mais um pouco. E o prazo se estendeu até hoje, porque não tinha vôo nenhum antes. A escola aceitou me aturar só por mais um dia.
— Oh sim, e Harry?
— Bom, Harry tem a vida dele aqui. E o nosso namoro nem estava dando certo, talvez seja melhor eu ir embora mesmo.
— Oh Rafa, não sabia, me desculpe — sorri fraco.
— Vou sentir sua falta, você estava sendo tão legal — Anna abraçou Rafa.
— Awn — nos abraçamos coletivamente.
Elas agora conversam sobre pessoas que não conheço e minha mente vai até o outro lado da quadra, onde Louis espera com Malik na fila de Q a Z. Fico imaginando se vou ter alguma aula com ele.
Quer dizer, eles. Aula com eles.
A chuva parou e Malik chuta uma poça na direção de Louis. Ele ri e diz algo que os faz rir ainda mais. Louis é confiante, amigável e...
— Jesus, mas como olha!
— O quê? — volto a cabeça, mas Rafa não está falando comigo. Ela está balançando a cabeça em direção a Emma.
— Você está fazendo buracos na cabeça do Malik.
— Cala a boca! — Emma sorri para mim e dá de ombros.
Olho para Anna e sinto que ela está insegura. Claro, isso explica tudo.
— Não diga nada a ele — Emma diz. — Por favor.
— Claro que não — respondo e observo Anna mais uma vez.
— Preciso ir ao banheiro... — Anna se afasta.
Se eu fosse atrás dela, as meninas iam achar estranho demais. Andamos sem propósito até que a diretora chega para discursar.
Anna POV's
Garoto dos Sonhos está fora de cogitação. Todas as meninas dão em cima dele, Emma é afim dele e agora, eu. Céus, o que foi que eu fiz?
Respirei fundo e molhei o rosto. Não posso chorar. Não posso chorar. Respira Anna, respira.
Eu preciso voltar para o pátio.
Chego até a grande porta de vidro que dá para os jardins e não sinto coragem de andar até lá, até onde todos os alunos estão. Me sento em um degrau e ouço o discurso dalí mesmo.
A diretora é graciosa e se porta como uma bailarina. Tem pescoço longo, e o cabelo branco está arranjado em um nó firme que faz com que sua aparência seja diferenciada, e não de uma pessoa velha. O efeito geral é parisiense, embora eu saiba, pela minha carta de aceitação, que ela é de Chicago. Seu olhar desliza em torno dos alunos.
— Bem-vindos a outro ano empolgante na School For Foreigners in London. Estou satisfeita em ver tantos rostos conhecidos e estou ainda mais feliz em ver rostos novos.
Aparentemente, discursos escolares são algo que ninguém consegue melhorar.
— Aos alunos que estavam aqui nos anos anteriores, eu os convido a dar as boas-vindas aos calouros e, também, aos novos alunos do último ano.
Um punhado de aplausos educados. Concentre-se Anna, concentre-se. Mas sinto o seu olhar como se fosse o calor do sol. Minha pele umedece de suor. Por que ele está olhando? Ele ainda está olhando? Acho que sim. Por quê, por quê, por quê? É um olhar bom, ruim ou indiferente?
Mas, quando finalmente olho, ele não está olhando para mim. Está mordendo a unha do dedo mindinho.
A diretora finaliza, e Rafa sai correndo para encontrar os meninos.
Emma me mostra a sala de inglês. A professora ainda não chegou, então me sento nos fundos, junto com Fernanda. A sala de aula é menor do que a que estou acostumada e tem janelas escuras, em boas condições e altas.
— Vocês vão gostar da professora Hannah. Ela é hilária e sempre pede os melhores livros — Emma diz.
— Ah, e os meninos, onde estão?
Não era uma pergunta bem pensada. Eu já devia saber que eles não frequentam aulas de inglês. Quero dizer, eles nasceram e cresceram aqui em Londres.
Surpreendo-me ao ver Malik entrar na sala. Então, minha teoria estava errada.
— Malik, o que faz aqui? — Emma o encara, tão surpresa quanto eu.
— Decidi fazer aulas de inglês esse ano, sabe, isso pode me ajudar. E se eu não escolhesse inglês, teria de fazer pré-cálculo — ele faz uma careta e eu seguro o meu riso escandaloso.
Fernanda está do meu lado, olhando as pontas do cabelo. Algo está errado. Ela é sempre tão falante...
— Oh, Deus, Katy está chegando!
— Como sabe disso, Emma?
— Ela acabou de me mandar uma mensagem. Disse que Niall já chegou, alguém viu ele por aí?
Franzo a testa, não sei de quem ela está falando. Ninguém viu esse menino por aí.
— Niall? Branquinho, loiro, olhos claros? — Rafa faz que sim e Fernanda bufa — Vi ele discutindo com a conselheira, depois não o vi mais...
— Discutindo? Niall? Você deve estar falando da pessoa errada — todos começam a gargalhar.
— Foi o que eu ouvi, a conselheira disse a Niall que ele não faria ciência de alguma coisa que não me lembro agora. Ele ficou com raiva, arrancou o horário da mão dela, e saiu marchando. Ele é insuportável assim?
— Não, posso jurar que não! — Zayn diz como se fosse essa a verdade absoluta no mundo.
— E Liam chega amanhã, porque seu vôo foi cancelado. Agora é esperar né.
Dou de ombros e me concentro no grupo de alunos que sentam na frente. Não aparentam ser nerds, estão todos conversando.
Triste descobrir que terei aulas de inglês com Ashley e seu grupinho. Mas não me importo, desde que ela não me encomode.
Perco o fio do pensamento ao ver que Zayn tem a mão estendida em minha frente.
— O quê?
— Seu horário, deixe-me ver.
Pego o papel e entrego a ele, que sorri zombeteiro.— Oooh, francês básico.
— Eu te disse.
— Não é tão ruim — ele devolve meu horário e sorri. — Você estará lendo o cardápio do café da manhã sem minha ajuda antes mesmo que perceba.
Humm, talvez eu não queira aprender francês. Claro, porque Fernanda fala francês. Lógico. Não tem a ver com o Zayn me ensinando a falar "yaourt". É. Argh! Meninos fazem com que meninas fiquem tão estúpidas.
— Bom dia a todos. — Uma mulher usando um vestido azul marinho entra e estala sua xícara de café no púlpito. Ela não é tão velha e tem o cabelo mais loiro que eu já vi em uma professora. — Para os... — seus olhos passam pela sala até pararem em mim e Fernanda.
O quê? O que foi que fizemos?
— Para as únicas pessoas que não me conhecem, vocês duas, eu sou a professora Hannah. — Ela nos trata com extrema cortesia e a sala ri. Eles se voltam para olhar.
— Olá — digo bem baixinho e Fernanda apenas sorri.
Ela anda até a lousa e pede para que os alunos parem de conversar.
— Eu vejo que o pessoal encarregado ignorou meus pedidos mais uma vez — diz a professora Hannah. — Todos de pé. Vocês sabem o que fazer.
Eu não, mas empurro a minha carteira quando todos começam a empurrar a deles. Nós as organizamos em um grande círculo. É estranho ver todos os meus colegas de classe ao mesmo tempo. Aproveito a oportunidade para observá-los.
Todos tem uma aparência limpa e materiais reluzentes. Não fico de fora. Somos todos muito iguais com muitas diferenças. Sorri para o nada com esses pensamentos e a aula começa.
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