Serendipidade
8 Apenas amigos
Notas iniciais
Fernanda POV's
Eu não conseguia manter minha respiração no ritmo, eu não conseguia falar. Soa um tanto dramático. Digo, eu conheço Louis há apenas dois dias e já estou assim?! Não quero nem pensar no que vou sentir daqui há uma semana. Céus, imagine! Vou virar uma tocadora de braços, vou querer agarrar Louis sempre que possível. Vou me tornar uma idiota.
Não que eu já não seja uma. Olhe onde estou! Sentada, olhando a rua pela janela. E faço isso porque não consigo encarar a figura corada de Louis sentado em minha cama.
— Londres é sempre assim? — Decido por quebrar o silêncio.
— Assim, como?
— Chuvosa, não sei, um pouco triste.
— Acha que Londres é triste?!
Franzo o cenho e faço que sim, mas não tenho certeza do que falo.
— Oh, isso é porque você não conhece nada por aqui.
— Eu conheço muita coisa, acredite. Anna só fala de Londres, de pontos turísticos, de como a sociedade é civilizada aqui, como as ruas são limpas, como London Eye consegue ser tão deslumbrante... — desandei a falar e não percebi que Louis estava sentado ao meu lado. — Até de museus ela fala, e olha que ela nunca foi chegada à isso sabe, a cultura.
Ele ri e minha face passa de "estou-falando-rápido-porque-estou-nervosa" para "me-sinto-uma-idiota".
— Ah, você conhece por fotos, vídeos, conversas. Nada se compara ao que realmente é. Você precisa ir até todos os lugares que Anna já te falou, para ver que ela está certa, ou melhor dizendo, meio certa, porque com toda certeza, quando se está lá...Bem, é melhor do que por foto. London Eye realmente é deslumbrante, podemos ir até lá.
Encaro Louis. Aquilo foi um convite?!
— Claro, podemos.
Ele ia dizer algo mas foi interrompido pelo som estridente do meu celular tocando. Fico desapontada...Por quê me ligar agora?! Antes mesmo de pegar o celular, decido que não vou atender.
Lucas.
As letrinhas do visor piscam com esse nome e eu atendo. Já mencionei que vivo fazendo coisas/escolhas erradas? Então, essa seria apenas mais uma na lista.
— Nanda? — Meu coração amolece.
— Lucas!
— Como você está? Por quê não ligou quando chegou?
— Estou ótima...Ah, desculpa, eu só não tive tempo. Eu ia ligar, mas não deu. Foi mal. Mas e você, como está?
Qualquer um sabia que isso era mentira, eu não ia ligar pra ele. Nem motivos para isso eu tinha. Quero dizer, eu não tenho nada com Lucas!
— Não teve tempo? Você não tem mais tempo para seus amigos brasileiros? — Dou uma risada leve, ele não podia estar falando sério.
— Cara, se você visse isso aqui, entenderia. É bem estranho sair de uma escola em que eu estudava no máximo cinco horas por dia e agora ter que estudar nove, levando em conta que agora minha casa também é aqui. Ou seja, mesmo estando em um dormitório, eu ainda me sinto na escola! Meus amigos de classe são meus vizinhos. Tem noção? — Ele ri alto.
— Tudo bem, eu entendo. Só não esqueça de nós, por favor.
— Oh, como se isso fosse possível. Por favor né, Lucas — faço graça.
— Por favor digo eu, dona Fernanda — Louis deixa o copo cair no chão fazendo um barulho imenso...— Fernanda?!
— Oi, estou aqui. Foi só um copo que caiu.
— Desculpa, Nanda — Louis ri desconcertado.
— Nada, Lou.
— Hum, quem está aí com você? — Volto ao celular.
— Um amigo.
— Amigo? Certo.
— Sim, amigo. Lucas, vou limpar a bagunça que Louis fez, mais tarde eu te ligo. Prometo.
— Tá...Então, tchau.
— Tchau.
— Ei, Nanda.
— Sim.
— Preciso que volte logo...
Que frase era aquela? O que Lucas estava dizendo? Como assim ele precisa que eu volte logo? Pra quê? Para me fazer sofrer mais uma vez? Já tenho sofrido demais ultimamente, rejeito a proposta.
Sem mais nem menos, desligo.
— Sou um desastrado, me desculpa! — Louis coloca as mãos no rosto.
— Deixa disso, você não é mais desastrado que eu, garanto.
— Ah, então quer dizer que você é desastrada?
— Até demais.
— Bem vinda ao clube! — Louis sorri com as mãos erguidas.
— Que gay — caio na gargalhada.
Ele "joga" os cabelos para o lado e me faz rir mais ainda.
— Para quem não estava se sentindo bem...
— Ah, Rafa exagerou. Eu só estava com dor de cabeça e um pouco tonta.
— Não exagerou. E se você piorasse?
Dou de ombros e termino de limpar o chão. Agradeci mentalmente por não ter caído nada no tapete.
— Me desculpa, mais uma vez — ele diz todo envergonhado.
— Não foi nada, já disse — sorrio e vou até a mesa do computador, para pegar meu chocolate.
— Se continuar assim, você vai ficar gorda! Imagine, você gorda! — Louis ri e me faz rir também.
— Cuidado, se você chama uma mulher de gorda, ela pode te odiar para o resto de sua vida.
— Retiro o que eu disse! — Ele se apressa com as palavras e eu caio na gargalhada.
— Relaxa, eu não ligo pra isso.
Descubro que Louis pode ser um ótimo amigo. Até então eu não tinha pensado nisso, na nossa amizade. E no momento, isso parece mais importante. Então eu dou lugar para os sentimentos de amizade, deixando aquela confusão amorosa de lado.
Louis, meu amigo. Não é tão ruim.
Emma POV's
Perco a paciência. Aquilo me irritou! Não foi só irritante, foi uma lástima. Que decepção. Malik nem conhece Anna direito para ficar assim, tão grudado nela.
Anna está sendo tão boba quanto as outras. Se ela acha que eles podem ficar juntos, sinto muito por ela, muito mesmo. Porque Malik está em sua fase mulherengo, galinha, e por aí vai, apenas piorando. Ele não namora ninguém há, espera um minuto! Ele nunca namorou!
As palavras pesam na minha cabeça.
Ele nunca gostou de ninguém. Acho que o "relacionamento" mais longo que teve, durou duas semanas. Duas semanas de pura diverção com Ashley.Lembro dos dois juntos e meu estômago revira, sinto vontade de vomitar. Eles eram o casal mais popular do colégio, e viviam se engolindo por aí. Não tinha nada que os impedisse de ficar demonstrando suas intimidades pelos cantos.
Meu sangue ferve. Sinto vontade de dizer tanta coisa. Mas me mantenho calada.
Porque somos amigos, obviamente. Apenas amigos.
Saio do taxi com pressa, como se lá dentro não tivesse ar suficiente para cinco pessoas. Mesmo com as janelas estando abertas.
— Emma, está tudo bem?
— Arrã — Logo ela, Anna, veio falar comigo. Não mereço isso, não mesmo.
— Tem certeza? — Ela me encara e sinto vontade de morrer por isso, ela já me conhecia...Sorrio em resposta, mas não funciona. Ela gesticula para que eu chegue mais perto e nós vamos andando na frente, um pouco afastado do resto do pessoal.
— Me desculpe Emma, sei porquê está assim.
— Não precisa se desculpar, eu só não aprendi a controlar esse tipo de coisa.
Fui sincera. Mas paro pra pensar no que disse. Ainda não aprendi a controlar uma coisa que sinto há quase quatro anos. Talvez eu tenha que aprender isso bem rápido, ou então, não sei o que será de mim. Mal sei disfarçar, oh.
— Não quero que pense que estou afim do Malik. Por favor, não quero que sinta raiva de mim. Ou ciúmes.
Anna estava mentindo. Eu tinha certeza disso. E eu não podia deixar que ela mentisse só para me confortar.
— Fico grata por você ter vindo falar comigo, de verdade. Mas — respiro fundo, não sei se é o certo, mas direi a verdade —, não precisa mentir. Da mesma forma que comecei a gostar dele, você também gostou. E foi bem assim. Eu vejo na forma como você o olha, como sorri pra ele. Não te culpo por isso, nós não podemos escolher, não é verdade?
— Oh, Em, se não estívessemos em público eu estaria chorando agora — eu rio. — Sabe, nem Fernanda conversou comigo sobre isso. E você, que nem me conhece a muito tempo, já sabe isso tudo. Eu não queria deixar transparecer. Foi um erro, lógico. Se você reparou, ele deve ter reparado também. Enfim, está tudo errado. Eu não queria estar gostando dele. E, estou decidida a não gostar. Prefiro ter a amizade de vocês dois, entendeu?
— Não precisa ser assim também, não estou te obrigando a isso, ok? Só posso te dar uma dica?
— Sim...
— Não caia na conversa dele. Não deixe que esse charme todo tome conta de você. Ele ilude muito as meninas, digo isso porque sei exatamente como é. Me tornei a melhor amiga dele. Sabe quantas vezes chorei após ter conversado com ele? Garanto que foram muitas, muitas mesmo. Ele chegava no meu quarto para contar como foi sua noite, como tal menina é perfeita. E eu me sentia uma idiota. E me sinto ainda. Mas não quero que fique com uma má impressão dele. Porque apesar de tudo o que estou dizendo, ele é uma ótima pessoa. Um ótimo amigo — reforço a última palavra e ela faz um gesto positivo com a cabeça.
— Obrigada por confiar em mim, a ponto de desabafar assim. Sério, fico grata por estar me falando isso tudo. E se permite, quero te dizer uma coisa...
— Hum.
— Não chore por ele. Pelo que vi até agora, não vale a pena.
Dou o sorriso mais sincero e abraço Anna.
— Eu que estou indo embora e vocês que ficam se abraçando.
— Olha o ciúme — abraço Rafa.
— Bom, já está na minha hora.
Todos nos entreolhamos sem saber o que fazer. Lágrimas finas escorrem pelo meu rosto.
— Obrigada por tudo — dou um abraço bem apertado nela, torcendo para que ela entenda tudo o que quis dizer com esse gesto.
— Não entendo porque seus pais querem tirar você da gente — Katy também já está chorando e abraçando Rafa.
Assim fomos, de um em um, todos dizendo o que sentiam.
— Ai meu Deus, vou passar o ano inteiro com cara de peixe de tanto chorar por saudade — nós gargalhamos e abraçamos Rafaella coletivamente.
Acompanhos nossa loira até a fila para a sala de embarque. Último ponto.
— Bom, é isso...
Mais abraços, mais lágrimas, mais palavras choradas carregando um tanto de saudade.
Rafaella se foi.
Me viro para Malik e ele me envolve em seus braços. É o único que pode me ajudar agora.
Louis POV's
— Não me leve a mal, mas, quem era no telefone?
Me sinto intrometido, mas eu queria saber quem era. Fernanda estava tão diferente depois dessa ligação. Eu não entendi o que ela disse, porque lógicamente, ela estava falando em português. Mas houve uma mudança grande de fisionomia dela entre o antes, o durante e o depois da ligação.
— Lucas, um amigo, lá do Brasil.
— O que ele queria? — Fernanda me olha espantada, com toda razão. — Ah, me desculpa, eu não queria me intrometer assim, me desculpa...
— Não, não foi nada, Lou — ela sorri.
Mas não responde a minha pergunta. Não insisto. E algo me leva a pensar que esse Lucas é mais que um amigo.
— Quando você faz aniversário? — Mudo de assunto.
— Vinte e dois de abril, e você?
— Vinte e quatro de dezembro. Viu, somos da família do vinte.
Fernanda ri, e eu não entendo o porquê. Se a piada foi tão sem graça.
— São tantas as semelhanças entre nós — concordo.
— Diga o nome de uma banda que você gosta. Só não vale falar uma banda brasileira, ok?
— Ok. Hummm, The Fray! Você pode achar até estranho, porque os caras não são tão conhecidos assim, talvez você também não conheça, mas sei lá. Eu gosto do tipo de música que eles fazem, me descrevem várias vezes — Não ouço nada depois disso.
The Fray. Eu não acredito. Fernanda gosta da mesma banda que eu gosto. Isso não pode ser verdade. Nada aqui parece verdadeiro. Que sentido tem em eu conhecer uma garota bonita, legal, simpática, divertida, que tem grandes semelhanças comigo...
— Louis? — Fernanda ri.
— Oi, perdão, eu só me desliguei aqui. Espero que não se assuste, mas The Fray também é uma banda que eu gosto. Não sei o que dizer.
— Tá brincando?!
— Eu poderia, mas não estou — ela ri.
— Nossa, será que nós temos algum tipo de ligação? — Caímos na gargalhada.
Apesar de inocente, nós tínhamos uma resposta para aquela pergunta. E ambos sabíamos que, até pode parecer loucura, mas nós temos um tipo de ligação. Mesmo que fraca.
Anoitece e todos chegam com cara de enterro ao dormitório. Tento animar todo mundo, mas não dá certo. Todos vão para seus quartos... o melhor é esperar até amanhã, penso.
— Até amanhã, Fernanda Elefanta — ela ri e me bate.
— Até amanhã, Boo Bear — fico sério e levo as mão ao rosto.
— Ok, desculpa, não está mais aqui quem falou.
— Boba — ela ri, meu coração acelera. — Até amanhã, sem atrasos.
Viro e vou andando pelo corredor. Antes de subir as escadas, olho para a porta de seu quarto.
Ela ainda está lá, pendurada, me olhando com um sorriso no rosto. Sorrio de volta. E subo degrau por degrau, com o mesmo sorriso bobo na cara. Quando na verdade, a minha vontade é de voltar lá e passar mais algumas horas conversando com ela. Só com ela.
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