Separados Pela Profecia
38 36- Uma ligação de Íris no lugar errado - Parte 2
Notas iniciais
–É... Bom... – ele falou mexendo nos cabelos. Aliás, nos lindos cabelos. – Meio que eu estou treinando com ele...
–Você está treinando com meu avô? – perguntei surpresa.
–Eu e o Possati, mas isso é assinto pra outra ligação. – respondeu com o sorriso torto. – Ele me deixou ligar, mas avisou que eu poderia não gostar. Ainda bem que eu não o ouvi. – respondeu com um risinho.
–Lucca... – eu falei baixo e estendi a mão, perto o suficiente para não encerrar. – Eu sinto sua falta. Está tudo confuso aqui. Meus líderes estão mortos e eu assumi o lugar deles, mas não quero isso. – desabafei, deixando uma lágrima rolar por minha bochecha.
–Ei calma... – então ele fez uma careta que me fez rir. – Preciso te dar um apelido.
–Eu já tenho um. – falei. – É Sam, lembra?
–Não, não. – ele disse sorrindo. – Um apelido meu.
Eu sorri e corei. Ele queria me dar um apelido. Sabia que eu estava muito longe dele e que ficaria exausta assim que terminasse de fazer o que eu queria, mas eu precisava.
–Abra a mão e feche os olhos. – ele me olhou confuso e eu sorri. – Confie em mim.
Ele assentiu e fez o que eu pedi. Vi uma peça brilhante subir no ar bem devagar e se acomodar na palma da sua. Então a exaustão tomou conta de mim.
–Sam... É lindo. – ele falou depois que abriu os olhos e encarou o objeto. Na verdade, era só um colar de prata, bem fino, mas eu ainda não tinha acabado.
–E o meu apelido? – pergunta com a voz cansada.
–Você é uma caixinha de surpresas... Você é o meu diamante. – ele sorriu de lado, ainda olhando o colar. – Meu diamante.
Sorri e me concentrei. Logo em seguida subir outra peça, mas o Lucca o pegou no caminho. Estava subindo mais devagar que antes.
Era um pequeno diamante protegido por leves fios de prata. Ele colocou o pingente no colar, depois pendurou no pescoço. Eu sorri.
–Seu diamante. – eu sussurrei e sorri.
Escutei gritos ao fundo e ele sorriu.
–tenho que treinar agora, Diamante.
–Tchau... – fale fraca e a névoa se dissolveu.
Devo ter continuado ali por um tempo e pego no sono por estar exausta. Moldar a prata e o diamante abaixo de mim e mandar para o outro lado do país é muito desgastante.
Senti um carinho nos meus cabelos e abris os olhos. Martin estava abaixado ao lado da cama me observando com carinho. Eu sorri de lado e falei:
–Você foi pego no flagra, grandão... – e voltei a fechar os olhos.
Senti seus braços fortes me rodearem e soltei um resmungo.
–Você não está em condições de reclamar. – sua voz era suave.
Senti-o chutar a porta do meu quarto e me deitar na cama, colocando um lençol fino por cima.
–Boa noite pequena. – ele sussurrou e saiu.
E eu dormi.
********
Quando acordei, me senti renovada, porém sentia medo do que poderia acontecer hoje. Martin viu Lucca e isso me assustava.
Arrumei-me e me direcionei para o refeitório. Estavam todos em seus devidos lugares como no dia em que eu os arrumei. A Primeira, a Segunda e a Terceira Coorte estavam organizadas e disciplinadas. A Quarta teve um minúsculo progresso, de solitários, duplas ou trios, passaram a andar em grupos de cinco legionários no mínimo. Somente a Quinta continuava emperrada no mesmo lugar.
Quando notaram a minha presença, todos se levantaram um hábito que tinham adquirido sempre que algum superior entrava. Cumprimentei alguns e me sentei à mesa. Martin a minha direita, Bella a minha esquerda e os cães metálicos a frente da mesa.
–Bom dia. – eu falei e os dois me responderam. – Então, vocês notaram a melhora na Quarta? – perguntei empolgada.
–Sim, estão mais unidos. – Martin observou e a Bella concordou com um balançar de cabeça.
Sorri e encarei a mesa da Segunda. Valência não estava sentada entre eles.
–Onde está a Valência? – perguntei e o Martin fechou a cara.
–Ela veio reclamar que era direito dela de ser Centuriã, porque merecia isso e... – a Bella começou, mas o Martin a interrompeu.
–E eu a mandei calar a boca, sair da minha frente e só voltar a direcionar a palavra para alguém quando percebesse que a Centúria nunca foi o seu lugar. Ela saiu praguejando e amaldiçoando. – ele parou e fez cara de confuso e então olhou para mim. – Acho que era para você.
–Ela falou algo como você ficar horrível pelo resto da sua vida ou algo assim. – a Bella comentou rindo, fazendo o Martin rir também e desencadeando em nós três gargalhando.
Após o acesso de risos, começamos a comer e eu observei a minha Legião.
A Primeira Coorte estava muito bem com seu novo Centurião, o Julian, ao lado de Isabelle. A Segunda prosperava com Yuri e Lilian. A Terceira continuava sendo a mais divertida das cinco, tanto que quando eu a observei, um pedaço de pudim acertou em cheio a testa de alguém e o grupo todo riu. A Quarta estava dando passos lentos, mas estava bem, Logan e Katharina estavam se dando bem no cargo e eu acho que fora dele também. A Quinta era a única que ainda estava na mesma.
Quando todos acabaram de comer, eu me levantei e falei.
–Todos os Centuriões permaneçam. Os outros guerreiros estão dispensados para seguirem com a sua programação.
Eles saíram e os Centuriões vieram a minha frente, dois degraus a baixo. Martin se postou ao meu lado e a Bella se levantou andar para longe de nós.
–Bella, fique! – escutei o Martin falar e me surpreendi. – Você faz parte disso agora. – ela assentiu e ficou ao lado dos Centuriões.
–Bom, eu pedi para vocês ficarem porque tenho algumas coisas a falar. – suspirei e desci os degraus, indo parar em frente à Isabelle e Julian. – Estou gostando do trabalho de vocês dois, continuem assim e estará tudo bem. Estão dispensados. – sorri de lado para os dois e eles saíram depois de retribuir o sorriso.
O Martin desceu e parou em frente ao Yuri e a Lilian, falando exatamente o que eu pensava daquela Coorte.
–Vocês também fazem um bom trabalho. – ele suspirou e balançou a cabeça. – Cometi um grande erro ao colocar a Valência na Centúria e espero que esse erro seja reparado. Vocês poderiam fazer um relatório dos estragos que ela fez?
–Se você se refere a ela ter mandado pintar metade das paredes de cor de rosa dizendo que o tom combinava com a sua pela, você tem muito a consertar irmão. – o Yuri falou com um sorriso debocha e eu ri.
Ela tinha mandado pintar as paredes de cor de rosa em vez de cuidar da sua Coorte! Com toda a certeza aquilo estava errado.
–Tudo bem... – ele concordou e sorriu. – Estão dispensados.
Os dois saíram e eu parei em frente aos Centuriões da minha Coorte. Sorri para eles e eles retribuíram, mas quem dirigiu a palavra a eles foi o Martin. Não poderia julgar a minha Coorte. Poderia parecer que eu os preferia.
–Vocês dois estão liderando tão bem a Terceira, que não tenho nem o que falar. – eles sorriram e eu sorri também. – Vocês eram o exemplo da Legião e ninguém o seguiu. Nem eu. Peço desculpas também por tudo que falei para vocês. – eles assentiram e sorriram.
–Você estava perdido. – Amada colocou a mão no ombro do Martin. – Eu também ficaria irmão, se eu perdesse alguém. Tem todo o direito de errar, contanto que os reconheça e os conserte.
–Estão dispensados. – ele sorriu para a irmã e para o Patrick.
Eu andei até a frente de Logan, Katharina, Cinthia e Jonathan. O Martin se colocou ao meu lado e, quase sincronizados, fechamos a cara ao mesmo tempo. Eu estaria rindo, mas não conseguia.
–Vocês da Quarta estão se saindo muito bem. – o Martin começou. Ele sabia que eu queria falar com a Quinta. – A desunião deles está diminuindo. Não sei o que estão fazendo, mas espero que continuem. – eles concordaram assentindo.
–Pretor, nós dois gostaríamos que vocês falassem um pouco com os nossos legionários, pois temos algumas intrigas lá dentro e temo que seja esse o principal motivo de estarem desunidos. – Katharina falou.
–Iremos sim. Agora podem ir. – eu falei e eles saíram do refeitório. Assim que as portas fecharam, eu já não estava com a cara fechada, eu estava com ela cheia de raiva. Era a vez da Quinta. – Até aqui eu elogiei todos. Queria tanto poder continuar assim... – falei baixo. – Mas não! A Quinta tinha que me dar dor de cabeça! – gritei.
–Sam, mais calma, por favor. – a Bella falou, segurando a minha mão. Eu suspirei e continuei.
–Primeiro eu quero saber o que acontece entre vocês dois para se odiarem tanto...
–A culpa é dele, esse ignorante e...
–Como adultos! – o Martin interrompeu a Cinthia. – Motivos decentes...
–Já sei. – a Bella falou. – Por que não separamos? Eu e a Sam conversamos com a Cinthia e você com o Jonathan, pode ser?
Assentimos e nos dirigimos para uma mesa ao lado oposto do Martin e do Jonathan, fazendo os dois se sentarem de costas. Eu tinha uma suspeita de porque eles se odiavam tanto.
–Então, – a Bella falou quando nós já estávamos todas sentadas. – Qual é o problema?
–O problema é que ele é um babaca, um idiota... – ela começou e eu a interrompi levantando a mão.
–Sabe o que eu acho? – perguntei e ela me lançou um olhar indagador. – Vocês dois tinham alguma coisa e ele fez algo e vocês dois terminaram, mas você ainda gosta dele só que não aceita o que ele fez. – ela piscou confusa, abaixou a cabeça e eu vi o seu soluço. – Acertei.
Suspirei senti ao seu lado e a abracei. Isso fez chorar descontroladamente. Virei minha cabeça pra trás e vi o Martin consolando um Jonathan que estava no mesmo estado que a Cinthia. Quando virei pra frente, falei para a Cinthia.
–Você quer me contar o que aconteceu? Talvez eu possa ajudar...
–Esse problema tem nome sabia? – ela falou entre os soluços.
Eu olhei confusa pra ela e quando eu ia perguntar o que ela queria dizer com isso, senti um arrepio. Olhei para a Bella, a fim de perguntar se ela também sentiu, e descobri de onde o arrepio vinha.
–Martin! – gritei chamando atenção dele, da Cinthia que estava com os olhos inchados e do Jonathan que estava com os olhos um pouco inchados também. – Bella. – falei.
A Bella estava com uma fumaça verde a envolvendo, com os olhos fechados também. Quando abriu os olhos eu levei um susto. Seus olhos negros agora eram verdes, no mesmo tom da fumaça.
–Olá, novamente, filha das sombras. – não era a voz da Bella. Era a voz de Delfos. Ele estava de volta.
Martin andou rapidamente e se colocou ao meu lado. A Cinthia estava tensa ao meu lado, rígida. Jonathan chegou perto e colocou a mão no seu ombro, hesitante. Inicialmente ela ficou mais tensa, mas depois relaxou. Sorri e me concentrei em Delfos.
–Delfos. Ao que devo a sua visita? – perguntei.
–A segunda etapa foi concluída. Os guerreiros dominaram o uso dos arcos e das espadas. Irei lhe revelar o segundo verso da profecia. – o Martin ficou tenso e eu dei minha mão a ele.
–Pode falar.
–Poderosos de mais juntos eles são, – ela falou com sua voz fantasmagórica se tornando um pouco melodiosa. – O supremo, o astuto e o confiante os subestimaram. – ela terminou com um suspiro e fechou os olhos.
E enquanto ela fechou os olhos eu fui sugada para uma nova, mas não tão nova, lembrança.
"Cheguei ao templo e um lobo cor de caramelo estava parado ao lado da entrada. Eu adorava os lobos, me passavam segurança. Acariciei sua cabeça e entrei. Em frente ao altar, estava meu avô. Não esperava vê-lo ali.
–Marte! – exclamei surpresa e me ajoelhei.
–Levante-se minha pequenina. – sorri e corri para abraçá-lo. Eu era pequena e meu avô sempre me deixou abraçá-lo assim como todos os seus filhos pequenos. – Você cresceu. – ele falou com um sorriso orgulhoso.
–Você está mais forte. – sorri e apertei seus bíceps e ele riu.
–Minha menina, você terá que me ouvir agora. É algo muito importante. – ele me disse com um semblante preocupado.
Eu fiquei com medo, só tinha 12 anos, o que poderia ser tão importante para deixar meu avô preocupa?"
Suspirei e encarei Bella.
–Eu vi o que você viu... – ela disse confusa.
–Isso é realmente estranho. – falei.
Fale com o autor