Separados Pela Profecia
37 36- Uma ligação de Íris no lugar errado - Parte 1
Notas iniciais
P.O.V. Sam
Uma semana... Sabe o que é uma semana esperando que alguém te chame que um lobo apareça a sua porta, que alguém apareça? Eu estava angustiada com isso. Nada acontecia, estava calmo demais.
Estava andando em direção ao Coliseu para treinar, era noite já. Todos já tinham jantando e se recolhido. Menos eu, que estava inquieta. Queria lutar.
Quando fui lançar meu braço para cima, a fim de transformar meu anel em espada, vi o brilho do ouro imperial do outro lado do Coliseu.
–Quem está aí? – gritei. – Apareça!
Lentamente, um garoto saiu das sombras e veio andando em minha direção. Ele tinha os cabelos bagunçados e era mais alto que eu, porém não muito. Aparentava ter uns 15 ou 16 anos. Andava de um jeito meio largado, e seu rosto transmitia um pouco de loucura? Ele se aproximou, um pouco de mais, me fazendo andar para trás. Ele soltou uma risada um tanto enlouquecida.
–Ora, ora, Pretora, não vou te sequestrar. – ele disse com a voz num tom estranho. Seria sedutor?
–Não o conheço, por favor, se apresente. – disse tentando controlar minha voz, que teimava em falhar.
Ele se aproximou mais de mim e segurou minha mão que estava tensa. Aproximou dos seus lábios e deixou um beijo ali. Fiquei encarando ele, um tanto confusa.
–Meu nome é Guilherme, sou da Segunda Coorte. Filho de Baco, o mais bonito que vai achar. – ele piscou para mim.
Encarei-o, mas o meu olhar se prendeu em seus olhos. Lindos olhos castanhos claros. Brilhantes, meio enlouquecidos. Quando ele piscou, me surpreendi com a camada de cílios emoldurando seu olhar. Um sorriso torto saiu dos seus lábios e eu praguejei em minha mente.
–Guilherme Cysne, legado de Vênus, prazer. – explicou muita coisa agora.
–Bom você já sabe quem eu sou certo? – sorri agora mais controlada.
–Queria poder conhecer melhor...
–Lamento informar, mas não me encontro em um momento bom para flertes... – pisquei e lancei meu braço, girando o punho da espada quando se transformou e aproximei do seu pescoço. – Mas eu estou um pouco irritada agora.
Movimentou seu gládio, o brilho que o denunciou quando entrei no Coliseu, rápido, mas não o suficiente. Seus lábios carregavam um sorriso debochado.
–Quando Martin falou que você lutava bem, eu duvidei. – ele disse sarcástico. – Fiz errado?
–Caro, Cysne... – ele parou e eu abaixei a guarda por tempo suficiente para ele se movimentar, apontando a lamina para a minha garganta e segurando a minha espada ao lado do meu corpo.
–Do que me chamou? – ele perguntou.
–De Cysne. – tentei usar o mesmo tom que ele quando usou seu chame de Vênus para cima de mim. Não saiu do jeito que eu quis, mas foi o suficiente para ele relaxar. Livrei-me de suas mãos e coloquei a ponta da minha espada em seu peito desprotegido. – Então, continuando... – falei sarcástica. – Caro Cysne, o que Martin falou de mim?
–Ele disse que você era a melhor mulher espadachim que ele conhecia, melhor que Reyna. – eu sorri de lado.
–Nunca se compare ao seu mestre, ele tem mais truques na manga que você imagina. – falei. – Eu iria aprender todos eles se não tivesse destruído a vida deles. – fiz uma pausa, enquanto uma lágrima teimosa escorria por minha bochecha. – Sabe... Martin falou que eu era boa com a espada, simplesmente. Isso foi cruel.
–Como assim? – o sorriso debochado estava de volta. – Algo mais interessante? – ele deu um passo em minha direção, não se importando com a espada em seu peito, fazendo-me recuar com ela um pouco.
–Eu sou filha de Plutão, querido. – pisquei pra ele. – Treinei com Reyna e Jason, desde o dia que entrei nesse acampamento, aos 10 anos.
–Treinou com Reyna e com Jason? – ele sorriu.
–Sim. – olhei para as minhas unhas e as esfreguei no tecido da minha calça, um gesto egoísta eu sei. – Sou neta de Marte também.
Ele abriu a boca em forma de “o” e eu comecei a rir. Relaxei o braço, abaixando a espada, ainda rindo. Logo em seguida ele começou a rir também.
–Bom, que Plutão e Marte não fiquem bravos comigo então. – o olhei confusa. – Eu ia cantar a guerreira deles. – sorriu.
–Oh, querido, meu coração tem dono. – falei piscando os olhos inocentemente. “Dois donos...” pensei.
–Você disse estar com raiva. Quer treinar? – eu sorri irônica.
–Você aguenta? – arrumei a postura.
–Samizinha... Eu sou filho de Baco, não um bêbado qualquer. – ele arrumou a sua postura também.
Treinamos por horas a fio. Quando senti que estava exigindo de mais do garoto, eu falei que queria repousar.
–Se te interessar, todos os dias à noite eu estou aqui. – ele falou. Olhei para ele. – Eu gosto de treinar. – deu de ombros.
Acenei a cabeça e sai do Coliseu, indo aos meus aposentos. Na frente do meu quarto, se encontrava o quarto do Martin. O quarto estava fechado.
Desde a semana passada eu não falava com ele. Depois que Bella se tornou a Leitora, eu tentei falar com o Martin por quatro dias, mas ele simplesmente me evitava, aí eu desisti de falar com ele. Porém já era hora de encara a fera.
Bati na porta e ouvi um resmungo irritado mandando entrar somente se fosse importante. Quando abri a porta me xinguei mentalmente. Ele estava somente com uma calça de malha, consequentemente me fazendo encarar seu corpo forte descaradamente.
–Aqui Sam... – ele estalou os dedos, me fazendo corar e encarar seu rosto que tinha um sorriso safado nos lábios. – Aconteceu algo?
“Foco Samantha, você veio aqui para conversar” uma vozinha irritante suplicava por atenção dentro da minha cabeça. Decidi ouvir ela.
–Hm... Eu queria saber por que você não falou comigo desde o dia que a Bella virou Leitora. – falei rapidamente.
Ele bufou e virou as costas para mim começando a esbarrar com força alguma coisa que eu tinha certeza que logo estaria destruída. Primeiro eu fiquei com medo dele, dando um passo para trás. Martin descontrolado não era uma coisa muito boa.
Depois, quando ele começou a se acalmar, eu me aproximei dele. Ele não quebrou o que tinha pegado na mão, só tinha amaçado. Era uma miniatura de ferro do Coliseu original. Tirei da sua mão e o levei até a cama.
–Você me deu de presente e eu estraguei. – ele falou triste, cabisbaixo.
–Sem problemas... – peguei e arrumei o metal e devolvi pra ele intacto. – Novinho em folha. – sorri de lado.
–Desculpa, eu te assustei. – olhei para ele confusa. – Senti você se afastar... – deu de ombros.
–Eu só queria entender o que você tem contra a Bella...
–Eu não tenho nada contra ela... Eu... – ele começou, mas parou e respirou fundo. – Foi por causa de uma profecia que você foi embora...
Então eu me toquei, a ficha caiu. Martin não tinha problemas com os Leitores ou com as profecias. O problema dele era me perder. Engoli em seco. Não poderia dizer que não ia me perder, porque eu não tinha certeza disso. Então eu o abracei.
–Martin, eu... – eu fui interrompida.
–Uh-uhum...
Virei-me rapidamente, para ver quem tinha entrado no quarto e meu coração quase parou. Era uma ligação de Íris. Uma ligação de Íris dentro do acampamento romano. Dentro do quarto do pior romano. E quem fez a ligação poderia estragar com tudo. Era o Lucca. E sua cara não poderia ser pior.
–Lucca... – falei me perdendo mais uma vez naquela imensidão azul, porém não foi por muito tempo, porque ali havia muita mágoa.
Ele encarava algo e eu segui o seu olhar. Era a mão de Martin que ele encarava. A mão que ele tinha envolvido na minha cintura quando eu o abracei. Droga! Tirei a mão dele dali e voltei a olhar seus olhos azuis.
O ar começou a ficar pesado. Eu encarava o Lucca que encarava o Martin que me encarava. E ficou assim até que um garoto moreno apareceu ao lado do Lucca.
–Hei! Você deve se a famosa Samantha, o Lucca fala muito de você... – e a empolgação morreu ao ver o Martin ao meu lado. Ele engoliu em seco. Foi aí que lembrei que o Martin estava sem camisa. Deuses! – Hm... Bom, eu sou o Alessandro. Pode me chamar de Possati se quiser.
–Samantha? Esse é o Lucca? – o Martin perguntou atrás de mim. Eu assenti. – Ele é grego? – senti o nojo se apossar da sua voz.
–Sim ele é por quê? – eu perguntei irritada. – Os dois são, na verdade, algum problema? Não está nos seus padrões?
–Isso! Defende-me que eu não estou aí pra meter umas bordoadas em você. – o Possati falou.
–E você, cala a boca! – eu falei mais irritada. – Você acha que tem capacidade de enfrentar um filho de Marte? Ou melhor, de enfrentar O filho de Marte? – Ele engoliu em seco e senti o Martin rir. Levantei da cama, rápido e transformei a espada. – Qual foi a piada que eu perdi?
–Sam, chega... – ouvi a voz do Lucca, estava cansada e magoada e eu sabia que a culpa era minha. – Não devia ter... Você sabe... – ele indicou a chamada. E fez menção de encerrá-la.
–Não... Não desmancha... – Olhei pra ele com pesar.
Eu estava morrendo de saudades dele, só não queria admitir. Eu estava no meio de um fogo cruzado. Dois caras que eram afim de mim e eu afim dos dois no mesmo lugar.
–Eu vou sair. – o Martin falou e eu o encarei, com medo. – Confie em mim, Sam. Eu não vou falar. Só... – ele abaixou a cabeça. – Resolva isso.
E saiu do quarto, me fazendo encarar a porta. Desviei o olhar para a ligação de Íris e vi que o Possati tinha saído da ligação também. Estávamos sozinhos.
–Sam... – ele soltou num suspiro.
–Desculpa... – eu respondi. – Eu te machuquei, posso ver. Desculpa, eu... Eu não sei o que está acontecendo...
–Tudo bem. Você nunca falou que gostava de mim Sam, não tem...
–Cala a boca, seu tonto! – eu o interrompi gritando. – É claro que eu gosto de você. E muito por sinal! – Não tinha lógica estar gritando. Eu olhei para ele e vi seus olhos brilhando e deixei um sorriso torto escapar de meus lábios. – Só que eu também gosto dele. E eu to confusa... – continuei mais baixo, sem o sorriso.
–Shiii... – ele disse com um sorriso torto no rosto. – O quanto você gosta de mim? – ele perguntou e suas bochechas foram corando.
–-Muito. – terminei com um sorriso.
–Então, assim que você se decidir, vai falar primeiro pra mim. – eu acenei com a cabeça indicando um sim. – Prometa... Por favor...
–Eu prometo Lucca. – ele sorriu e ficamos nos encarando por muito tempo, eu acho.
–Então... – ele quebrou o silêncio. – Um filho de Marte, hein?
–Tecnicamente ele é meu tio. – eu ri, mas logo em seguida eu parei. – Você o chamou na forma romana...
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