Sentimentos Ocultos

2 Sentimetos Ocultos - Capítulo 2


Notas iniciais
YO!
Estou aqui para fazer a postagem do segundo capítulo de "sentimentos ocultos". É... Tá quase acabando. Outro dia posto o último.
Boa leitura!

Nezumi ligou a água quente e entrou no banho, deixando-se queimar pelo jato escaldante. Não gritou. Ele queria queimar. Queria que a água aquecesse seu coração, que relaxasse seus nervos e que apagasse o fogo de sua alma. Mas sua dor não era uma questão de temperatura, era muito mais profundo que isso. Era por Shion que ele sofria, não por uma doença. Preferia que fosse uma doença, mesmo que algo terminal. Preferia morrer a ter de suportar a ideia de que Shion jamais seria dele.

Em um surto de dor intensa, abraçou o próprio corpo e se deixou cair de joelhos, as lágrimas escorrendo de seus olhos e soluços escapando de seus lábios travados como prisioneiros fugindo, por um buraco na parede, de uma prisão de segurança máxima. Levantou-se, jogou a cabeça para trás e fechou os olhos, permitindo assim que a água quente lavasse as lágrimas de suas bochechas. Não podia permitir que tais provas fossem vistas pelo outro.

Queria voltar lá e espancar Shion, descontando suas mágoas sobre aquele que o havia ferido. Entretanto, o garoto jamais seria capaz de machucar seu ursinho polar.

Saiu do chuveiro e se enrolou em uma toalha branca, os cabelos negros gotejantes deixando a parte superior do tecido completamente ensopada. Sentia frio por causa do choque térmico causado pelo fim do banho, mas sentia ainda mais frio por conta da mágoa. Era um dor intensa, um grito contido lutando para sair e esmurrava sua garganta em uma tentativa de escapar. Uma lágrima que queria escorrer e queimava seus olhos para tentar subir. Mas acima de tudo havia aquela queimação de chamas gélidas que afetava sua alma e seu coração.

Enxugou-se e se vestiu antes de prender os cabelos negros e sair do banheiro para encontrar os olhos vermelhos de Shion encarando-o ansiosamente, quase que com fome. Não, era impressão dele. Shion não se sentia atraído por homens, certo? Mais uma vez aquela raiva preencheu Nezumi.

- O que foi? – Perguntou em um tom acidentalmente ríspido. O pequeno imediatamente baixou os olhos, claramente magoado e fazendo uma carinha de choro que preencheu com culpa o coração de Nezumi, aumentando ainda mais o nó na garganta.

- Nada. – Murmurou Shion antes de respirar fundo e se controlar para poder prosseguir. – Sente-se melhor?

- Um pouco. – Respirou o maior em uma entonação cansada que foi o melhor que pôde fazer para esconder suas lágrimas. Odiava a si mesmo por magoar Shion, seu melhor e único amigo.

Nezumi ainda se lembrava do dia em que Shion se tornara sua última esperança. Naquele dia em que descobrira que seres humanos também eram quentes. Quando sentiu pela primeira vez um pontada no coração ao deixar alguém para trás. Naquele dia, Nezumi quis levar aquele garoto consigo e não se separar dele nunca mais. No dia em que aquele menino ingênuo se tornara sua única esperança, sua salvação, seu único bem a ser protegido, seu primeiro amor. Porém naquela época ele ainda não sabia que amava Shion, apenas que tinha uma estranha necessidade de protegê-lo. Por isso passou a vigiá-lo com seus ratos enquanto estudava a cidade. Apenas posteriormente, pouco antes de perdê-lo pela primeira vez, se deu conta de que estava perdidamente apaixonado por seu ursinho polar. Apaixonado a ponto de literalmente levar um tiro por ele.

Sentou-se na cama, da qual Shion havia se retirado para permitir que tivesse uma noite confortável. Nezumi não conseguia parar de observar o menor. Não conseguia deixar de sentir os penetrantes olhos vermelhos nos seus. E tampouco queria parar de sentir aquilo. Queria continuar sentindo, queria acima de tudo continuar amando o garoto que se tornara sua desgraça.

Finalmente foi capaz de deitar-se e fechar os olhos, mas não de dormir. Nezumi simplesmente não conseguia desvencilhar-se do desejo intenso de ir até Shion e abraçá-lo novamente. De escutar seu coração batendo, de sentir sua respiração pesada fazendo seu peito subir e descer. Queria que Shion segurasse sua mão outra vez quando fosse abraçado durante o sono, que ele suspirasse seu nome apaixonadamente como fez da primeira vez, que o beijasse como havia feito alguma vezes. Mas sabia que não podia se iludir com sonhos que jamais se realizariam. O amor de Shion havia sido uma ilusão, não era real, nunca seria.

Nezumi repreendia-se por sua infantilidade. Como podia ser capaz, depois de tudo, de confiar em seu próprio coração? Uma vida inteira guiando-se para longe de sentimentos tentadores, maliciosos, desastrosos e cruéis como o amor para se apaixonar pela única pessoa com quem não era capaz de se irritar, de culpar, de odiar. Porque o amor, ainda que seja um sentimento completamente abominável, é tentador demais para ser odiado. Chega devagar, como um lobo solitário espreitando uma corsa nas trevas da noite que cai, e se apossa do corpo lentamente, como uma doença. E no fim, quando o hospedeiro de tal vírus finalmente acredita ter aceitado a ideia de amar, o amor volta-se contra o amante, atacando-o pelas costas como um tigre, provocando a dor que só pode ser proporcionada pelo ataque brutal de um urso mal-humorado. O amor é como um crocodilo, chegando sorrateiramente e puxando a vítima para baixo da água, afogando-a em sua agonia.

Ainda assim, mesmo que o garoto já conhecesse os danos causados pelo amor antes mesmo de se apaixonar, o sentimento o atingira de forma tão avassaladora que não lhe restaram muralhas emocionais para que se protegesse. Não havia sido um ataque de animal, mas uma força da natureza. Devastadora como um tornado, porém bela como um aurora boreal e tentadora como a água de um rio em uma tarde de calor insuportável.

Era um idiota, ainda assim. Não importava o quão sedutora fosse aquela força, ele deveria resistir. Não podia se dar ao luxo de se apaixonar, não daquela forma. Certamente ele podia se permitir amar, mas não a ponto de sacrificar sua própria vida em nome de alguém que não o amava de volta, ainda que este fato lhe fosse desconhecido na época.

- Nezumi? – Chamou Shion, eliminando de Nezumi quaisquer possibilidades de pegar no sono ainda naquela noite. Ele não queria, mas ainda assim seu corpo estremeceu ao ouvir seu nome saindo da boca do ursinho polar. Não queria, mas ainda assim sentiu seu coração se estufar dentro de seu peito. Não queria, mas como sempre acontecia quando Shion o chamava, Nezumi se apaixonou mais ainda. Baixinho estúpido.

- Hm? – Resmungou em uma tentativa de ocultar a voz embargada pelas lágrimas que novamente lhe subiam aos olhos.

- A Inukashi me pediu para, amanhã, além de lavar os cachorros, eu checar a saúde dos filhotes que nasceram agora, então chegarei bem tarde. Não me espere para dormir se ficar com sono. – Shion ainda soava contente quando falava da líder da matilha de cachorros. Será que... Não, Nezumi estava ficando paranoico, tinha de estar. Ninguém normal se apaixonaria por Inukashi.

- Claro. – Murmurou com uma expressão um tanto carrancuda, porém invisível para Shion por conta da escuridão do covil. Aparentemente, entretanto, sua mágoa não era inaudível.

- Nezumi? – Continuou o garoto. O maior sentiu o peso sobre a cama aumentar e braços finos e quentes o abraçaram ao mesmo tempo em que algo incrivelmente quente e confortável repousou em seu peito. A cabeça de Shion.

- O que é? – Não. Não podia se deixar levar. Shion era inocente demais para perceber que, com aquele gesto, mas o machucava que ajudava. Não podia reagir de forma alguma ao carinho do amigo. Amigo... Aquela palavra seria, infelizmente, a definição eterna de Shion dentre as relações de Nezumi.

- Está zangado comigo? É por isso que fingiu estar passando mal? – A voz inocente do pequeno interrogou. O maior estremeceu. O que mais Shion havia percebido.

- Não é isso... – Respondeu em um tom um pouco mais calmo. Pobre pequeno ursinho polar... quando começaria a entender que não tinha que se culpar por tudo? Nem mesmo o outro o culpava por sua falta de amor, então ele deveria manter a consciência limpa. – Não é nada, não se preocupe comigo.

- Como não me preocupar? – Questionou o pequenino. Como ele poderia jamais se despreocupar e ignorar que seu amado sofria? Como fingir que não escutara seus soluços saindo do banheiro? Ou sua voz embargada disfarçada de indiferente? Como ignorar a dor que surgiu nos olhos do moreno quando Shion acordou e perguntou o que estava acontecendo? Como ignorar que, se o Nezumi do dia em que a muralha de Number Six fosse comparado com o Nezumi deitado naquela cama na biblioteca oculta, mal seriam vistas semelhanças entre os dois? Era óbvio, ao menos aos olhos de Shion, que o garoto sofria muito além do que um ser humano jamais seria capaz de sofrer.

- O que quer dizer com isso? – O moreno tentou argumentar, mas não tinha saliva na boca para discutir com Shion. Não tinha mais força na língua para continuar a negar e tampouco seus maxilares poderiam fazer sua boca se mover novamente apenas para que outra mentira saísse dela.

- Quero dizer que não posso fingir que não estou vendo o que vejo. Não é como você fosse qualquer pessoa, você é o único que eu não posso ver sofrer! Eu te... – Um movimento rápido e um estalo fez-se ouvir pelo quarto. Isso foi o bastante para Nezumi compreender que o menor havia tapado a boca com a mão para impedir que algo saísse de seus lábios. “Amo”, Shion completou mentalmente. Mas não diria aquilo em voz alta, não naquele contexto. – Você é meu melhor amigo.

Suspirou e tirou o peso do ursinho polar de sobre o seu corpo, sentindo um frio insuportável tomá-lo quando o contato acabou. O pequeno também se sentia desconfortável com a separação física, aquilo era perfeitamente perceptível até mesmo para o cético Nezumi. Na verdade, a cada vez que havia um contato entre seus corpos, mais difícil se tornava a atividade de recolocar a distância entre eles. O autocontrole necessário para conter o impulso da declaração era cada vez maior. O coração do garoto dos ratos ficava cada vez mais gelado e quebradiço.

- É por isso que não quero falar. – Explicou Nezumi. Mesmo no escuro, não foi difícil imaginar a carinha de choro que se formara no rosto infantil e delicado de Shion. – Vá dormir, Shion.

- Mas... Nezumi...

- Por favor... Você não entenderia, então só deite e durma. – Implorou o mais velho. As malditas lágrimas transbordaram de seus olhos, mas não tão intensamente quanto as de Shion. Shion era fraco e não tinha vergonha alguma de demonstrar. Shion era perfeitamente capaz de chorar na frende de Nezumi, derramando suas lágrimas no rosto do moreno. E, assim, ambos choraram juntos, um nos braços do outro, Shion soluçando abertamente e Nezumi permitindo que suas lágrimas molhassem o cabelo branco de seu ursinho polar.

Não choraram por um longo tempo, é verdade, mas foi por tempo o bastante. Foi o suficiente para aliviar a ferida do moreno e para que o pequeno se sentisse novamente querido e aconchegado no peito de Nezumi. Foi o bastante para que os dois confessassem, ao menos internamente, seus sentimentos um pelo outro, para que aqueles sentimentos explodissem dentro deles e os dominassem. Tornaram-se escravos, mas não lutaram. Ambos foram dormir ainda feridos, mas sentindo-se mais leves. Mais leves não por terem se declarado um paro o outro – o que não fizeram-, mas por terem permitido que o amor saísse apenas de seus corações e tomasse conta, como a infecção da paixão é projetada para fazer durante seu ataque, tornando suas presas não mais que corpos débeis, esperando pelo sofrimento da esperança.

Shion e Nezumi dormiram abraçados, agarrados um ao outro, aninhados no calor que emanava de seus corpos, escutando o coração um do outro. As batidas lentas, calmas e ritmadas embalando-os e levando-os ao sono mais profundo e intenso, para um mesmo sonho no qual diziam e sentiam o que desejavam. E, sem saber, suspiravam durante o sono o nome um do outro enquanto seus dedos se entrelaçavam. Os dois garotos só tinham consciência, durante seu sono, de um único fato presente em suas vidas.

Amavam-se.

Notas finais
E aí? Gostaram? Espero que sim! Bem, comentem aí o que acharam, onegai.
Até o próximo capítulo!
Kisu!
- Ushio-chan