Sentimentos Ocultos
3 Sentimentos Ocultos - Capítulo 3
Notas iniciais
Espero que gostem!
Kisu!
Shion acordou ainda nos braços de Nezumi, cujos olhos estavam fechados e ocasionalmente tremulavam suavemente, como se buscassem olhar algo importante. A face, usualmente pálida, estava ligeiramente avermelhada, como uma criança tímida que acabou de conhecer alguém de sua idade. Sorria ligeiramente durante seu sono, como uma adolescente apaixonada que tenta esconder seu segredo enquanto sonha com seu amor.
Queria poder acordá-lo também, mas não queria tirá-lo daquele estado tranquilo apenas para alertá-lo sobre sua saída. Além do que, o mais velho sempre se estressava quando acordado por alguém que não seu próprio organismo. Sempre se incomodava com a falta de sono e, ainda que não, seria quase cruel tirar aquela expressão relaxada e contente do rosto adormecido de Nezumi. Se pudesse, Shion o manteria daquele jeito para sempre.
Comeu apenas um pedaço de pão antes de sair da biblioteca subterrânea e começar a caminhar lentamente em direção ao hotel de Inukashi. O fato era que Shion não tinha vontade nenhuma de trabalhar naquela agradável manhã. Doera bastante sair dos braços quentes de Nezumi depois que acordou... Não era justo. Ele sempre odiara acordar cedo, mas acordar cedo naquela manhã fora especialmente horrível. Em especial porque teria que enfrentar todo o caminho até o hotel. Todo o lixão no qual se transformaram os arredores de Number Six. Todo o horror que, por muito tempo, ele mesmo havia cultivado sem querer.
- Está atrasado. – Declarou Inukashi quando Shion apareceu em sua porta e um labrador o recebeu com uma série de lambidas no rosto depois de derrubá-lo no chão. – Os filhotes estão reclamando de alguma coisa, mas não sei o que é. Supus que você pudesse descobrir.
- Claro. Vou checar se eles estão bem de saúde antes de dar banho no resto dos cães. – Disse antes de se informar sobre a localização dos filhotes e subir as escadas, que rangeram desagradavelmente sob seu peso.
Os filhotinhos, ele tinha de admitir, eram lindos. Aninhavam-se contra o ventre de sua mãe, de onde saíram recentemente, e ganiam de leve, reclamando de algo que aparentemente não existia. Talvez o leite da mãe fosse insuficiente para saciar sua fome de filhote, mas também poderia ser o frio ou alguma infecção. Os pelos já grossos, todos brancos como neve e chegando a parecer filhotinhos de foca, eram perfeitamente capazes de protegê-los do frio mediano, Shion reparou. Certamente a temperatura não era o motivo do incômodo. Talvez fosse a mãe. Entretanto, após examiná-la, Shion constatou que sua produção de leite era até mesmo excessiva para apenas cinco filhotes. O exame físico relatou uma saúde perfeita na maioria dos filhotes, mas o quinto era pequenino e fraco demais. Era o que gania mais baixo, fazendo sons mais distantes e longos. Sofridos. Talvez não resistisse àquela noite.
Pegou-o no colo, causando o desespero da mãe, que latiu e ganiu, pedindo seu bebê de volta. Aquela visão era cruel. A de uma mãe a quem era negado o direito de cuidar de um de seus filhos. O desespero em seus olhos escuros era óbvio. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo; perderia seu filhote e não havia nada que pudesse fazer. Aquela inteligência nos olhos escuros do cachorro branco lhe remetiam a um outro olhar desesperado que vira antes. Os olhos de Nezumi estavam assim quando Shion acordou da morte. Como se tivessem sofrido a perda mais cruel que pudesse acontecer. Será que ele havia causado aquele mesmo sofrimento em seu amado? Será que era aquilo que Nezumi sentia por ele, afinal? Um amor paterno? As lágrimas voltaram a escorrer dos olhos vermelhos, agora pingando sobre o corpo do cachorrinho. Os ganidos da mãe compartilhavam de sofrimento equivalente, porém em forma canina.
Porém, ao contrário dela, o garoto não sabia exatamente porque chorava. Chorava pelo filhote? Por ter feito Nezumi sofrer? Ou por não ser amado da forma que queria? Aquela sensação de abandono, de frio, percorreu seu corpo novamente.
- Ele vai morrer, não vai? – Perguntou a voz de Inukashi.
- Não. – Shion se decidiu. Não ia deixar que aquele filhote morresse. Não faria mais ninguém sofrer por algo que ele não fora capaz de fazer. Não queria mais se sentir culpado e fazer Nezumi se preocupar com ele.
Shion se sentia esperançoso com relação ao filhote, agora que se decidira. Tudo na sala indicava aquilo, inclusive o silêncio da cadela, que o encarava com curiosidade desde sua declaração a respeito da sobrevivência de seu filhote. Mesmo os irmãos do cãozinho pararam de reclamar, sugerindo que seu desconforto fosse devido ao luto antecipado.
Aquela esperança toda que depositavam sobre ele deu ainda mais coragem ao garoto, que começou a fazer todo o tipo de teste no animalzinho em seu colo, que parara de ganir e se remexer. Não tinha pulgas e nem nenhuma infecção, o que era um ganho, mas ainda poderia ser um verme ou outra doença em seu aparelho digestor, o que explicaria sua falta de desenvolvimento.
- Oh! – Shion deixou que uma exclamação de surpresa saísse de sua boca. Ele já vira aquilo antes. Até mesmo sentira na pele. – Vespa.
Aquele casulo devia ser um dos remanescentes das vespas assassinas que outrora infestaram Number Six. Estava localizado atrás do pescoço do cachorrinho, bem onde sua mãe devia segurá-lo para o transporte. Aquilo devia estar doendo muito, o casulo já era bem grande, o bastante para ser palpável sob a camada de pelos brancos e longos.
- As vespas? – Inukashi interrogou. Shion se virou para ela, preocupado, e assentiu.
Por mais inesperado que fosse, por mais impossível que parecesse, a menina começou a chorar desesperadamente. Dentre todas as coisas no mundo, as únicas que tinham seu real e sincero amor eram seus cães. Não eram apenas cachorros, eram sua família. Sua matilha. Nascera entre os cachorros e certamente morreria entre os cachorros. Era sem dúvida fiel a Nezumi e a Shion, mas jamais faria por eles algo que pusesse seus cães em risco. E naquele momento aquele filhotinho no colo de Shion estava lutando por sua vida contra algo muito maior e mais forte que ele.
- Se eu retirar o casulo, sua chance de sobrevivência é até bem alta, levando em conta seu tamanho. Provavelmente começará a ter um desenvolvimento normal depois que a dor passar. Preciso dar uma anestesia nele, ou vai piorar tudo. – Anunciou o garoto. Inukashi obviamente não gostou da ideia de uma cirurgia, mas não faria nada que fosse arriscar ainda mais a vida do bichinho... Afinal, Shion sabia o que estava fazendo.
Após aplicar a anestesia, esperou alguns minutos até que o filhote não fosse mais sentir dor com o corte e abriu-lhe a parte de trás do pescoço, provocando um curto e fraco ganido que revelou um erro de cálculo. Bem, até suturar a anestesia já teria feito a dor passar. O corpo do cachorrinho relaxava a cada momento até que todo o casulo – que já tinha um tamanho considerável – saiu de seu interior. Ganiu baixinho e perdeu a consciência, recuperando-a depois de os pontos já terem sido dados e com o curativo já preparado.
Depois de toda a cirurgia, Inukashi, que havia se deslocado até perto da janela para “respirar um pouco de ar sem cheiro de sangue”, como ela mesma disse. Não que Inukashi nunca tivesse presenciado cenas sangrentas anteriormente, ou mesmo a morte de alguns de seus cachorros, mas daquela vez era claramente diferente de tudo o que já tinha acontecido antes. Era como ver um membro da família sofrer uma cirurgia logo depois de nascer... Não... era exatamente isso. E então aconteceu o mais inesperado: o corpo da garota começou a cair em direção ao chão, o barulho do impacto revelando sua inconsciência. Havia desmaiado.
Shion correu para ajudá-la no exato momento em que ela recuperou a consciência, exaltando-se e fazendo seu corpo pular na direção do menino, os lábios se tocando por um segundo e trazendo o incômodo e o constrangimento mútuo. Mas tal desconforto jamais chegaria aos pés do que ocorreu depois. Um estalo muito forte seguido de um eco que só poderia ter vindo de uma tábua sendo quebrada indicou uma terceira pessoa na sala. O garoto congelou. Sabia que só uma pessoa poderia estar ali naquele momento e ter aquele tipo de reação no meio dos cachorros de Inukashi. E Nezumi não poderia ter entrado em momento pior.
- N... Nezumi? – Shion sentiu seus membros congelarem. Era impossível não ver a raiva e a dor nos olhos do mais velho. A probabilidade de ser odiado para sempre pelo garoto que amava era alta demais para que fosse capaz de se conter naquele momento. Os lábio inferior trêmulo denunciou as lágrimas que se seguiriam, assim como os soluços. Aos olhos de Inukashi, nada daquilo fazia sentido, em especial a fragilidade de Shion e a raiva de Nezumi, que teria se atirado sobre ela se um dos cachorros não tivesse se colocado no caminho, rosnando.
- Eu sabia que não deveria ter deixado. – Grunhiu para si mesmo enquanto se retirava a passos largos. Sabia perfeitamente que não deveria abrir seu coração para ninguém, então porque se entregara daquela forma para Shion? Gostava de pensar que era porque ele o tinha feito primeiro, mas já havia passado o tempo em que tivera certeza de seu amor.
Caminhou a passos largos e apressados para fora da hospedagem de Inukashi, intencionando voltar para casa e nunca mais olhar nos olhos do ursinho polar. Os cachorros, que geralmente o barrariam, pareciam compreender ou sentir sua raiva e se encolhiam nos cantos, temendo serem feridos. Ouviu passos apressados atrás de si e previu uma longa discussão com Shion.
- Nezumi... Espere! Não é o que você está pensando! – Implorava o ursinho polar. O maior se virou para ele, o casaco de couro descrevendo um semicírculo no ar e dando um efeito ainda mais sinistro a sua face fria.
- E o que é que eu estou pensando? – A pergunta veio acompanhada de uma entonação gélida e dolorosa que magoou Shion até os limites de sua capacidade, fazendo-o chorar ainda mais intensamente e, por consequência, devastando os sentimentos de Nezumi, arrebentando as poucas partes ainda inteiras de seu coração. Não chorou, é claro, aquilo não seria típico dele. Ainda assim, aquilo lhe era quase insuportável.
- Sobre o que você viu... não foi realmente o que aconteceu. Ela caiu, só isso! – Afirmava Shion entre lágrimas.
- O que te faz pensar que você me deve alguma explicação a respeito de quem você beija ou deixa de beijar? – A voz permanecia fria. Fria a ponto de causar agonia não só em Shion, mas em qualquer um que pudesse escutar. O pequeno estremeceu, como se estivesse com medo.
Nezumi, entretanto, não intencionava ferir seu ursinho polar nem física nem emocionalmente. Pretendia exclusivamente matar aqueles sentimentos que cresciam dentro dele e, apesar de tentadoramente belos, eram vívidos e fortes demais para continuarem a se espalhar por seu interior. A única complicação seria remover aquele amor de dentro de si sem acabar com sua vida, o que já era problema o bastante.
- É que... Eu pensei que... – O pequeno tentava se controlar o bastante para falar, mas lhe era completamente impossível. Mais uma vez Nezumi se forçou a dizer algo.
- Pensou o quê? Que eu me importava? – Cuspiu. O nível de autocontrole necessário para não se atirar nos braços de Shion era excessivo e não duraria muito tempo, de forma que precisava sair logo dali. – Eu não ligo, Shion. Não me importo mesmo. Se era isso o que estava te incomodando, volte para lá e termine o que tiver que fazer.
- Mas... Não era isso! Nezumi... eu... – O menor implorava que o outro o ouvisse, mas ele se negava.
- Acha que só porque te amo eu sou um idiota apaixonado? Pare de mentir para mim. Além disso, você nem me deve fidelidade. Não tenho esse tipo de controle sobre você. – Naquele momento, Nezumi decidiu que não mais se seguraria. Se deixaria levar por seus sentimentos e diria a Shion tudo o que sentisse que deveria dizer.
- Eu não sinto nada por ela! E mesmo que sentisse, ela é apaixonada demais por aqueles cachorros e pelo bebê para gostar de alguém desta forma! – Gritou Shion, já impaciente com a negação do outro.
Controlou suas lágrimas quando o maior se aproximou dele e pousou a mão em sua cabeça. Queria lhe contar exatamente o que sentia, que o amava demais para simplesmente ficar calado para sempre, que jamais o trocaria por Inukashi...
- Pare de tentar não me machucar. Só faz doer mais, sabia? – A decisão de deixar as emoções fluírem por sua boca aliviou Nezumi a ponto de sua raiva não mais estar presente na fala.
- E por que é que isso te magoa? Você simplesmente não percebe que eu gosto de você, então por que se importa se eu estou ou não apaixonado por outra pessoa? – Shion tinha claramente se irritado com Nezumi, mas suas palavras ríspidas foram o bastante.
O bastante para que Nezumi compreendesse que Shion o amava da mesma forma.
O maior puxou seu ursinho polar em sua direção para um beijo que nenhum dos dois jamais havia sentido. Não era como aquele toque de lábios que trocaram quando o muro fora derrubado e tampouco foi como seu primeiro beijo, inocente e polêmico demais para carregar todas as emoções que vinham com aquele novo beijo. Naquela primeira vez fora diferente, não havia paixão, não havia aquele amor transbordando por seus lábios.
Aquele novo beijo era profundo, intenso, sem promessas ou despedidas, apenas amor. Apenas Shion e Nezumi. Sem dor, sem saudade, sem pedidos de desculpa. Era como se o mundo pudesse explodir naquele exato instante e não interrompê-los. Era como mágica, como se não tivessem a capacidade de separar seus lábios. Shion tentava inutilmente impor resistência a dominância de Nezumi, mas não era como se realmente a quisesse para si, ele intencionava apenas prolongar o beijo. Sendo mais forte, porém, o maior combatia com facilidade a débil resistência de seu ursinho polar enquanto explorava o interior de sua boca.
Por fim, já sem ar, foram obrigados a parar o beijo. Ofegantes, eles se olharam. A expressão de Nezumi, em geral impassível, se tornara apaixonada, aliviada e feliz. Shion, sempre emotivo, carregava um olhar claramente chocado, porém tão apaixonado quanto o do outro. Ambos traziam um brilho diferente nos olhos, algo desconhecido para os dois. Mas eram perfeitamente capazes de sentir aquele mesmo fulgor em seus corações, aquecendo-os por dentro. Era uma sensação boa, como tomar um banho quente em um dia frio.
Abraçavam-se, aninhando-se no corpo um do outro. E, no conforto daquele abraço, finalmente foram capazes de falar.
- Eu te amo. – Sussurraram ao mesmo tempo.
Nada mais importava depois de aquelas palavras já ditas. Seus corações estavam completos. A vida estava completa. Tudo o que importava era a segurança de terem para sempre o amor um do outro.
Notas finais
Kisu!
Aishiteru, minna!
- Ushio-chan
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