Sensorial

4 Romerite Degenerativa


Notas iniciais
Parem de me fazer postar antes do (meu) planjeado, assim o cérebro buga!! hahaha Esse é dedicado a minha xará (de cidade, e nome) @onlyromena, perdão pela ansiedade! Aproveitem e leiamao som de photograph que a dor aumenta só em uns 200%.

Ali mesmo, na porta agora fechada pela vaca (desculpem os palavrões) da faveladinha, ela jogara tudo o que suportara à seus próprios pés- Se fosse pra receber amor de verdade, seria o seu. Ela se amaria, ao dar aquele passo...Aquele próximo, enorme, passo. Seu pés não se moveram. As pernas tremiam tanto que o salto cambaleava um pouco, mas seu corpo se manteve em riste, as lágrimas já estavam formadas, ela podia sentir os olhos queimando por liberação daquelas pequenas gotas de frustração.

De arrependimento, por assim dizer- Pois apesar da dor, daquela dor imensa, de sentir os braços pesados demais ao falhar numa tentativa frustrada colocar a jaqueta; Apesar de toda aquela mágoa que ele a fizera passar durante todo esse tempo, ela realmente era incapaz de odiá-lo. Ficou tudo bem claro, ao ponto de fazê-la lacrimejar os olhos cansados e sôfregos, ali mesmo, com toda aquela gente olhando torto esperando que ela movesse qualquer parte do corpo e saísse do meio do corredor, desviando ao perceber que aquela epifania filosófica duraria tempo demais.

Ficou claro, ali, depois de mais uma vez sua única parte boa ter sido renegada pela única pessoa que a fazia se sentir boa: Ela estava cansada. Ela não sentiria vergonha de si se ele abrisse a porta e a pedisse, na maior cara de pau que voltasse e ficasse com ele, e ela não recusaria a oferta, ela abandonaria ali seu orgulho, juntaria todos os cacos da sua complacência e entraria naquele quarto. Ela cuidaria dele até seu último dia, e o faria o homem mais feliz de todos.

Mas ele não pediu, e ela se sentiu exausta; De amar. De tentar ser amada.

Nunca pensei” jamais fora bordão apropriado para nada além de doces deboches, até agora.Nunca pensei que seria feita trouxa. Nunca pensei que pedir, melhor- mendigar amor fosse tão doloroso. Até por que uma hora, o pedinte cansa, ou então recebe aquele amor meia boca, aquela coisa meio “prêmio de consolação” do amor, que tem uns meses bons e um fim trágico e drástico. Atena não havia chego a seu ponto final, mas essa seria a vírgula mais imponente colocada em qualquer capitulo daquela vida longa e cheia de aventuras dela.

– Deu. Chega Ateninha, vambora pra casa, deu disso

Seu pé vacilou no primeiro passo, um lembrete dado à força de que ela não estava preparada para partir, mas o pé de apoio a manteve de pé: Ela partiria, por seu próprio bem.

Não foi preciso um táxi, ela caminhou; O caminho era longo, bem longo, longo o bastante para afogar toda a raiva nos passos pesados e lentos que ela dava. Atravessando ruas com uma lentidão de dar inveja a qualquer zombie de filme trash, o cansaço agora parecia ter se tornado físico. Um cansaço pesaroso e desgostoso de se ter, daqueles que você não dorme por que te incomoda.

Um cansaço de alma, de coração exausto de bater rápido todas as vezes que ele passava por ela, das contas perdidas de inúmeras vezes em que ela desceu de madrugada ao apartamento dele, só pra ouvir ele lá dentro dando risada- Parada ali na porta igual besta, sonhando com um dia, em que ela fosse a razão de toda aquela felicidade.

Canseira daquelas que a gente levanta as pernas pro alto e dos calcanhares às coxas tudo amortece por um momento e você agradece por ter tamanha elasticidade- Era uma exaustão que a exauria sem derramar uma gota de suor, que a fazia capaz de caminhar quilômetros sem sequer acelerar o pulso. Era simplesmente cansaço, difícil de explicar, pra quem nunca sofreu de cansaço de amor. De dar, e dar, e dar, e nunca ter nada de volta. De acordar todas as manhãs e recarregar as baterias numa dose de whiskey, pra dar um gás no emocional e deixá-lo preparado para quaisquer colisões com outros corações, mais gelados que de costume.

Ela só queria que alguém, mas aquele alguém, a amasse- Qual a vantagem de se ter um amor, mas um amor que não se deseja? O bom do amor é o querer.

Uma brisa geladinha bateu no rosto de Atena, e a pontinha de seu nariz ficou rosada, assim como as bochechas...Como quando ele a fazia tão satisfeita dele que ela sentia vergonha, de gostar dele daquele jeito. E as bochechas rosavam, e ela suava por todo o corpo com nada mais que o olhar dele, quando o nariz roçava a barba dele e avermelhava sua ponta, e ele sorria e a beijava como se ela fosse a única coisa naquele mundinho deles.

Ela acreditou....Merda.

Atena admirava o pôr do sol enquanto virara a esquina do prédio onde morava, e como aquele era um dia de descobertas, não foi surpresa quando ela entendeu, olhando para o céu em tons de azul petróleo, roxo e laranja, que um pôr do sol tinha uma beleza metamorfológica: Ela variava seguindo o sentimental do poeta que o admirasse.

– Boa noite, Dona Atena...

– Opa Josi, tudo bom? Como que tá o movimento hoje?

– Ih, Dona Atena, tá parado, não teve nem arrastão hoje!

Atena o lançou um olhar rápido, Josivaldo era porteiro, porteiros sempre entendem demais sobre a psicologia humana e suas reações- Ela não queria o luxo de ter Josivaldo perguntando se algo a incomodava-

– Tá tudo bem com a senhora, Dona Atena?

Tarde demais.

– Tá sim...Que isso! Tô cansada Josi, vim caminhando do hospital até aqui, e de saltos meu querido, isso não é obra pra qualquer um não hein!? Bora, vai trabalhar que tu tem aquele sambinha na Lapa, querido, não vai perder não!

Sorrindo abertamente ela esperou que o homem abrisse a porta para ela, e ela passou com seus passos apressados até o elevador que tinha um morador pronto para fechar a porta- E pessoas a faziam mais firme para segurar o choro que ela tinha engolido até ali.

– Espera! Espera, espera! Segura a porta aí pra mim!

– Opa, segurei!

O garoto sorriu abrindo a porta, tinha no máximo uns quinze anos, era loirinho de olhos bem castanhos, um sorriso daqueles de criança que não sabe de nada, e acha que manja de vida.

– Obrigada...-

– Que isso, moça!

Ele falava alto demais, excitado demais- Ela só fez sorrir e apertar o botão mágico, despertando a curiosidade jovem do garoto.

– Então você é a dona da cobertura...Minha mãe odeia você.

Ela riu.

– Normal isso daí, se eu te contasse sobre todas as pessoas que querem a minha cabeça você criaria barba no meio da história! Opa- Seu andar.

– Tchau...

–Prazer. Atena.

– Tchau, Dona Atena.

Ela sussurrou um tchau que o menino não esperou para ouvir, a mola hidráulica da porta prolongou seu sofrimento por chegar a maldita cobertura, a fazendo considerar se ela não poderia tomar banho no apêzinho do Che- pedir para quem, de qualquer maneira? A chave ela havia devolvido, há tempos.

E ambos os moradores estavam no hospital.

Ela não queria entrar lá- Entrar e ter que fazer a encrenqueira com o Ascânio, o Ascânio era a última pessoa que ela queria encontrar no presente momento.

Atena respirou fundo, aguardou até que o impulso de começar a chorar no mesmo lugar onde dissera que o amava passasse, e esperou, focando sua atenção sensorial em movimentos e sons vindos de dentro do apartamento, na falsa esperança do encosto velho e rabugento ter resolvido sair para uma voltinha ao boteco ali perto.

Se ele estivesse ali dentro, estava morto; nenhum som, nenhum barulho de copos batendo na bandeja do mini-bar, ou aquele som irritante de músicas funk. Ascânio realmente teria atendido seus pedidos e partido dessa para uma melhor? No caso dele para uma pior, com certeza o encontraria no inferno algum dia.

Atena empurrou a porta com o peso de seu corpo e se deparou com todas as luzes acesas, nada além do barulho de vida que vinha de fora, entrando e tomando conta do apartamento pelas janelas da cozinha.

Sozinha, enfim.

Graças a deus.

Atena então se despiu de tudo, deixou caírem as armaduras e as máscaras, sua dor, sua agonia por estar ali, derrubou ao seu lado toda a tristeza e a frustração, e todas as lágrimas que ela segurara desde os três anos de idade caíram sozinhas. Involuntárias, como aquela gripe que a gente pega por tomar banho de chuva, caíram uma a uma, grossas, encharcando seu rosto por inteiro, ela não se deu ao trabalho de secar.

Ela rachou, e então, pedaço por pedaço, que quebrados batiam e tilintavam ao seu redor, pequenos cristais perigosos que continham partes dela pertencentes a ninguém, a abandonaram. E ela foi Atena, foi Francineide, foi quem queria ser desde que se entende por ser humano.

Ela se amou, e se odiou- Repudiou a própria estupidez e brigou consigo mesma batendo no chão, socos e mais socos amassaram os acessórios e arranharam seus dedos enquanto ela deixava que seus sentimentos rolassem pesados para seu pescoço, alternâncias de soluços por uma busca incansável daquela arfada de oxigênio, as narinas gelavam com a entrada de ar, e aqueciam quando as lágrimas caíam outra vez.

Ela não queria mais, sofrer, amar, e doer. Doía o corpo todo, amortecia o céu da boca e ela se sentia levitar, ela não tinha controle de mais nada além da loucura que a tomava por completo- Aquele amor sofrido foi derramado por último. Aquele amor todo, ele caía em gotas sobre seu jeans, que o absorviam como se seu corpo não pudesse simplesmente se desfazer dele, uma ironia da qual ela não conseguira rir.

Não dessa vez.

Atena já não tinha ar, nem forças para se levantar dali; Ela tirou a jaqueta, a bolsa e os sapatos, tentando como podia não gritar por liberação quando, sem ânimo nenhum, ela voltou a apoiar-se na porta.

Nem se dera o trabalho de acender as luzes, chorava sozinha, no escuro, como sempre fizera qualquer coisa- Mas dessa vez, foi reconfortante, saber que seu lugar, ao menos, estava preservado. Aquele lugar secreto onde ninguém entrara, nunca.

Mas Romero apareceu, turvo, na divisão de luz e escuridão geometricamente desenhada por algum engenheiro para um dia como esse, aquela faixa tênue dividindo a miragem dele em duas, uma sob a luz, sorrindo pra ela, a outra apenas um pedaço dele no escuro- Com raiva ela pegou um pé de seu sapato e jogou na direção daquela assombração que pedia por ela.

O sapato sumiu do lado escuro.

Eu te odeio.

Eu. Te. Odeio.

Eu te.

Amo.

– Eu te odeio...-

Atena batera a cabeça algumas vezes na porta, talvez o seu juízo estivesse dentro daquela porta, e com leves batidinhas ele flutuasse por ali e entrasse de vez dentro da cabeça dela, e acabaria ali.

Todo tipo de dor, de mágoa simplesmente puf!- Iria embora do mesmo jeito que entrou, de supetão, sem pedir licença ou permissão para ocupar aquele espaço vazio geneticamente destinado a ele. Não haveria amor por Romero, não haveria amor por ninguém, como nunca houve.

Eu preciso de um banho, é isso.

Talvez fosse, talvez tristeza saísse com água e sabão, por que não!? Por que sujeira pode sair da gente de um jeito, e o resto não? Atena se propôs a levantar dali e lavar o Romero dos cabelos dela, depois fazer um babyliss e ir acordar na cama de um modelo de 1,70 com um six-pack tão definido que poderia ser considerado a oitava maravilha.

A loira caminhou até o banheiro, sem acender uma luz atrás dela, apenas a do banheiro, e por tempo suficiente para que acendesse uma quantidade de velas necessária para não ficar na total penumbra, ligar a banheira e tirar as roupas. Feitas as preparações, numa sequência religiosa de acender as velas, ligar a água e tirar as roupas, ela se virou para o espelho.

Ela era bonita, era sexy- Era tudo na medida, sem bumbum demais, seios demais, seu físico era digno de revista e no espelho ela via o que era objeto de desejo de muitos homens ( e mulheres). Ele nunca reclamara de nada, do peso ou das curvas ou de nada, era insuportável viver nessa dúvida.

O banho, Atena...O banho.

Apagadas as luzes, ela colocou seu celular para tocar uma música ambiente, sons de algo que ela não fazia ideia se eram vento ou mar, e não era sua tarefa desvendar aquele barulho- Seu pé direito sentiu a temperatura da água primeiro, os pelos de seu corpo inteiro ouriçaram à medida que ela foi se afundando naquele oceano particular, o corpo brilhava sublime à luz das velas, e ela se sentiu bonita.

Acima de tudo, relaxada.

Então o amor morre apenas por afogamento? Não. Pois ao fechar o par de olhos que Deus lhe dera, o movimento da água em seus braços lembrara o toque de Romero, os dedos firmes e lentos acariciando cada pedacinho de pele que ela tinha, até que seu corpo estivesse pontilhado por arrepios, e ele os ligava com beijos depois. A água em sua nuca, quente, fizera o papel fantasma dos beijos molhados que Romero adorava depositar ali todas as manhãs em que acordaram juntos.

Atena apertou as coxas para conter a crescente frustração sexual que se instalou de imediato, mas a pressão da água lembrou coisas que a fizeram gemer mais alto do que ela se permitiria em seu estado de sanidade mental estável- Era demais, era tudo. Tudo a afetava de algum modo que a levaria de volta ao canalha que a destruíra por completo.

E que a reconstruíra novamente, a colando inteira com beijos, com aquelas noites de sexo em que ela desfalecia em cima dele, embaixo, no chão ou na pia. Ele a humilhava para enaltecê-la, a cegava por um momento e abria seus olhos para uma luz incandescente. Ele era seu ápice e sua destruição, uma faca de dois gumes que ela segurava com tanta força, fazendo ambas as mãos sangrarem.

Ela o amava, ela se orgulhava de amá-lo, ela amava amá-lo. E doía, claro que sim. Tudo dói, um tapa dói, um abraço dói. Uma gripe dói.

Amar doía apenas de um jeito diferente.

Dóia na mesma medida que dava prazer.

Era muito confuso também, esse bendito desse amor; Ela estava determinada há nem cinco minutos atrás de esquecer tudo, e seguir em frente. Abandonar o Romero em mãos leigas de amor por ele, e deixar que ele esmaecesse com aqueles que ele achava que tinham o amor que teria de ser dado à ele.

Há nem cinco minutos atrás ela queria que ele fosse para o belo inferno que seria casar-se com a menina que era parcialmente sua irmã, e que o chamara de pai diversas vezes, e ela queria pegar seu amor por ele com as mãos, sentar em seu trono e assisti-lo cair aos seus pés enquanto ela espremia todo o amor nela mesma, banhando a si mesma daquele amor enquanto ele assistiria, sofrendo e a beijando entre os seios para ter um pouco dele.

Algo vibrou, e Atena demorou a perceber que não era seu corpo, e sim seu celular.

Ela sorriu enquanto secava as mãos na toalhinha ao seu lado na banheira, apenas tempo necessário para alcançar o celular e o sorriso desaparecer de seu rosto na mesma hora.

O dedo deslizou na tela para atender a ligação e ela levou o telefone ao ouvido com as mãos trêmulas, e não sabia se era medo, ou alívio- Seu sistema nervoso não agia bem sob esse tipo de pressão.

Que a colocassem para arrombar o bunker da wiki leaks, e ela nem suaria- Mas nunca peçam que ela reaja calmamente à ligações inesperadas.

Ela não se dera ao trabalho de dizer um “alô”, e quando o aparelho chegara a seu ouvido, ele já havia dito a frase por completo, ela ouviu numa escala crescente à suas palavras-

– Eu preciso de você aqui, Atena.

Notas finais
Okay, todo mundo bem, todo mundo vivo? Ouviram a música no repeat? Se não voltem ao topo e escutem. ( mentira) Não direi quando vou postar, por que isso virou uma coisa rotineira na nossa vida, eu marco data e posto antes hahha; Capítulo 5 - Calor Humano vem por aí. Lela. ps: eu criei uma lista no twitter pra linkar vocês com mais facilidade, se eu não te adicionei e você quer ser adicionado, me avise lá