Sensorial
5 Calor Humano
Notas iniciais
Terminar ou não terminar aquele banho maravilhoso? Eis a questão- Que no segundo após o “Por favor, Atena- Fica aqui comigo” foi respondida. Atena soltou um gemidinho frustrado ao encarar toda aquela água sendo sugada pelo ralo, e considerou a si mesma a mulher mais frouxa de paixão do Brasil inteiro, não, a mulher mais frouxa de amor do mundo inteiro.
De todas as galáxias, contando as desconhecidas.
O barulho de sucção do ralo foi o que a motivou (tecnicamente, a tirou do transe) a terminar seu banho no chuveiro, e ela foi praticamente arrastando a si mesma, tirou o roupão e a toalha que enrolara em seus cabelos, ligou o chuveiro na potência máxima e deixou que a água corresse por ela inteira, entrou de cabeça debaixo do jato forte e gelado, bem gelado. Era como se toda aquela água a despertasse para o mundo ao redor, Atena havia se desligado completamente de qualquer coisa que existisse durante aquele tempo em que ficou pensando em nada além de si mesma.
E ela agora, considerou seu feito até mesmo egoísta- Esquecer que o homem que ela ama estava hospitalizado, correndo risco de morrer, e ela preocupada com os próprios sentimentos? Ah, Atena...Você só pode ter batido a cabeça na quina da cama quando dormiu com o Romero pela primeira vez...
Enquanto lavava os cabelos Atena recordara, eram umas três da tarde de um dia nada importante da semana, daquela época em que o Romero ainda achava que ela uma ricaça- Eles haviam acabado de passar possíveis duas horas sem fazer nada além de estarem juntos, e ela riu ao lembrar que o perguntara se “Seu amigo rico nunca vem pra casa não, Romero?”; “Não muito...Sabe como é que é essa gente de banco...”– E Romero sorriu pra ela, aqueles olhos escuros eram doces, e ele era sincero, do jeito dele, ele queria que o amigo rico fosse realmente um amigo físico rico, que fosse simplesmente desprendido do material e não ligasse mesmo de ter o Romero ali fazendo mala. Ela passou a mão pelo rosto dele, os olhos se encontraram e o rosto dela esquentou, a fazendo buscar alívio na curva do pescoço do Romero, aquele lugar era sempre geladinho, e ela podia ouvir seu rosto tomar o choque da temperatura.
Em momentos como aquele, em que Romero pertencia à Atena, e ambas Atena e Francineide pertenciam à Romero, eram daqueles momentos que ela sentia falta- Dos ciúmes dele com qualquer ser que cruzasse seu caminho, o interesse por ela, pelas coisas mundanas da vida nada interessante de falsa rica dela. Ela, sim, sentia falta de sexo, e como- Mas o depois, os carinhos nos ombros, os dedos arrepiando ela toda de coxa a clavícula, era isso que ela queria dele.
Não era demais.
Pô, ela já havia pagado leves parcelinhas de sessenta mil reais pra manter a cobertura dele, custava fazer um cafuné nela? Custava fingir que se importava se aquela gripe que ela pegou na semana passada era só uma gripe mesmo?...Isso, morre afogada no chuveiro!
– ATENINHA!!!
– AH NÃO VELHO VAI EMBORA!MENTIRA! – Volta aqui,mas não entra! Velho safado!
Ascânio não entrara por um milésimo de segundo, e ela não o queria ali mais por segurança mesmo, por que Romero e sua fascinação por vidros fizeram da cobertura uma casa com pontos estratégicos onde, parando pra observar com atenção, se via mais do que necessário; e Ascânio era um ótimo observador.
– Oh Madame Fran Fran, me diz uma cois- Que é que Madamo Romerinho tá fazendo no hospital hein!!? Levou uma coça violenta do Bombadinho da Macaca?
Atena rolava os olhos, era tedioso o velho, mas ele se importava com o Romero- Daquele jeito avesso dele, mas ele se importava. Desejava a morte do Romero por conveniência monetária, mas se o garoto morresse, o velho sentiria um soco na boca do estômago de fazer vomitar.
– Pra tua informação velho, não te interessa! Mas como hoje eu tô querida eu vou te deixar saber...O Romero teve uma crise, daquelas da doença né, e ninguém naquela casa daqueles ricaços sabia fazer nada pra ajudar-
– Nem a Tóinha dele não é!?
– Tóinha, velho- É a vaca da sua mãe tá certo!? E não, a favelada só soube me expulsar de lá, mas ele me ligou agora há pouco e eu vou pra lá ficar com ele...
– A Senhora quer que eu faça alguma coisa aqui pra ajudar?
– Sim. Limpa esse muquifo e vai ficar lá no cafofo do Chê até sua Ateninha te dar uma segunda ordem- Eu vou trazer o Romero pra cá, aquele povo só tem dinheiro, por que meu deus, que bando de gente que não sabe cuidar de doente, credo...
– Mas e se a moreninha vier procur-
– SE. ELA. VIER.- Você não vai atender a porta e ela vai deduzir, eu acho né, não dá pra confiar...Mas espero que ela entenda que ele tá aqui comigo, na cobertura!
– Às suas ordens, Madama!
– Agora vaza daqui que eu preciso me trocar e se tu espiar eu dou na tua cara seu desgraçado.
O velho saiu rindo alto da Atena, e ela soube o motivo da risada- Mas quer saber? Que se dane. O peito dela já tava aberto e cheio de amor pelo Romero mesmo, assumir isso mais uma vez não ia machucar nem mais, nem menos. A loira caminhou até o closet e optou por usar uma coisa mais prática, e confortável. Ok, era pra deixar o Romero maluco, sim era sim; Aquele jeans justo era pra o deixar querendo tocar o corpo dela? Sim. O sutiã rendado por baixo daquela regata que escondia...bem, não escondia muita coisa, fora propositalmente escolhido pra deixar ele com sede de Atena? Obviamente.
Mas ele estava no hospital...E daí? Ela nunca havia feito sexo no hospital, ao menos, não que ela lembrasse...
Atena riu alto dos próprios pensamentos impuros enquanto terminava de vestir a jaqueta e colocar os acessórios do dia- Noite longa número dois começava agora.
Ela estava decidida a pegar um táxi, mas quer saber, ela tinha carteira (falsa) de motorista, e os documentos do Porsche do Romero estavam em dia, era até um pecado deixar um motor daqueles perecendo numa garagem. Então Atena pegou as chaves, e foi dirigindo até o hospital, mas optou por estacionar umas duas quadras antes, num desses estacionamentos pagos, melhor não dar sorte ao azar nesse tipo de situação.
Atena só foi perceber que eram quase seis horas da tarde ao pegar o celular para avisar à Dante que estava chegando ao hospital e que daria mais notícias assim que as tivesse, Nossa...Você realmente perdia a noção de tempo e espaço quando terminava um relacionamento....
Aos passos calmos e tilintantes nos diferentes pisos que o salto batia, Atena caminhou cumprimentando meio hospital até o quarto do Romero, ela “esbarrou” com “sorte” no médico responsável por ele e arrancou tudo o que considerava pertinente para repassar ao Dante.
“O quadro do seu pai já tá estável, eles estão mantendo ele aqui por precaução de ter uma recaída ou um efeito colateral do remédio, se precisar falar comigo me liga, se cuida. Atena.”
– Oi? Romero?
Ela abriu a porta e colocou a cabeça no espaço livre, dando margem para que se algo estivesse acontecendo, pudesse ser parado sem que ela visse; mas ela não bateu.
Ele dormia, sozinho naquele quarto gigantesco, e ela levou um susto do próprio celular ao vibrar e apitar alto, ecoando no quarto e a fazendo ter um faniquito pra que ele parasse.
“ Ok, obrigada Atena- Dou uma passada aí mais tarde, assim que sair do trabalho. Obrigada mesmo.”
– De nada querido...-
Ela disse em voz alta, sorrindo abertamente sem perceber que o dorminhoco apenas a observara sentada no pé da cama.
– Tá dando uma de mãe e esposa é isso!?
Ele riu fraco e tossiu.
– Quer uma água, Romero? Tá com frio? Eu desligo o ar pra tu pera aí-
– Não, não, não...Só tô com a garganta seca mesmo...Obrigada.
– Ih, to estranhando todos esses obrigadas, cadê sua enfermeira? Ela tá te dando remédio pra educação e não pra esclerose...
Ela dissera isso sorrindo pra ele, enquanto ele bebia a água do copo que ela segurava, os dois não sabiam bem ao certo o que dizer naquela tarde; Noite passada ele estivera dopado demais para ter qualquer tipo de conversa, e bastou pra ela ter dormido ao lado dele. Mas hoje, ambos estavam conscientes, acordados, e sem clima para fingir que estavam mais interessados na televisão.
– Atena eu queria te ped-
–Não me pede nada, Romero. Não quero tuas desculpas, teu perdão, não quero nada- Finge que eu sou aquela sua amiga de infância que é mais um irmã...Imagina que eu sou aquela sua prima que voc-
Não houve tempo de imaginar- Não houve tempo para mais nada além de arfar afogando a si mesma no beijo que ele havia dado nela. Foi rápido demais para pensar sobre, foi uma coisa pela qual ela não estava realmente preparada. Ele apenas a beijou, a puxou pela nuca, os cabelos dela enrolando no tubo de medicação fisgado ao braço dele, o impacto forte de um nariz no outro, os dentes dele mordendo o lábio dela...Atena estava deseperada pelo toque dele, ele tinha oito mãos enquanto as duas únicas trêmulas e fracas mãos que ela possuía serviam de nada mais além de suporte corporal.
Era novo, tudo novo- Aquele beijo gelado de água mineral, que limpava a garganta dela, o gosto dele era novo, era fresco, a língua dele passeou por ela como se ele fosse morrer depois de tudo, como se ele quisesse isso mais do que quisesse sobreviver. Atena queria agarrar, queria morder e queria beijar, mas ela estava em êxtase com o simples fato de ele ter sido o proativo daquilo tudo. De ter sido o Romero a tê-la forçado a abrir a boca e a receber dele tudo o que ele queria dar, de ter explorado a boca dela de cima abaixo, da esquerda para a direita, e ela não fez nada além de virar geléia e derreter nos braços quentes dele.
Eventualmente, Atena recobrou os sentidos e agiu movida pela vontade dele de ter a Atena que ele queria. E ela não deixou barato, ao sentir firmeza nos dedos ela o puxou pelos cabelos e deslizou a boca ao pescoço dele, deixando vários beijos molhados e fazendo com que ele arrepiasse todos os cabelinhos do corpo dele. A boca ágil dela não deixava a desejar quando corria a língua pela extensão do pescoço dele até o queixo e descia com mordidas.
Era tesão demais pra saciar numa maca de hospital, eles teriam que se controlar.
Mas era muito difícil.
Atena já havia sentado nas coxas dele, as mãos apoiadas na maca e os rostos se provocavam, o cabelo dela já estava todo bagunçado; mas quem disse que ela ligava? Ele olhava pra boca vermelha dela, o pescoço arranhando pela barba, as marcas das mordidas no pescoço dele, era tudo dele. Ela era dele, mesmo que naquele espaço curto de bons tempos, ela era dele, sim.
– Eu te odeio, Romero...
Ela disse, sorrindo, os braços balançando seu corpo em resposta aos sorrisos dele, ele queria dizer, as palavras se formaram na garganta e ele cuspiu praticamente as primeiras sílabas...ele havia entendido o insight dela, ele queria fazer parte daquele insight.
Mas tinha a Tóia.
– Eu...-
–Eu quero te pedir pra aceitar minhas desculpas.
Ah não- Não Romero.
– Eu...-Eu já te disse que eu não quero tuas desculpas, pô, por que tu não ficou quieto? A gente tava bem até tu falar isso, eu já disse eu não quer-
Ele a beijou mais uma vez, era muito tentador- O jeito que os lábios dela se moviam quando ela falava o nome dele, e eles eram um par de lábios deliciosos. Ela tinha uma boca que era realmente digna de golpista, ele amava se afundar na boca dela, ele adorava beijá-la sempre que possível, era uma perdição aquele momento de beijar pra ele.
Ele sentia como se usasse muito ecstasy e o efeito era rápido demais, ele precisava repetir toda hora, a língua dela passeava por ele de um jeito diferente, o beijo era rápido, ritmado, mas ela não se importava em sentir todos os diferentes gostos de um único Romero. Era o jeito que ela gostava de morder o lábio dele no meio de todos os beijos, ela sugava o lábio dele, e ela não tinha vergonha de mostrar que a sujeira seria maior na cama, ela era uma safada culta, inteligente e astuta.
Ela não cedia por pouco, ela puxava o Romero pra mais perto pela gola da camiseta branca, ela puxava os cabelos dele e gemia quando ele puxava os dela e a beijava o pescoço. Atena era muito manual, ela usava o combo bocas e mãos pra desesperar o Romero, pra lamber os lábios dele e puxar seu cabelo, o impedindo de beijá-la. Ela mordia sua orelha e lambia seu pescoço, e fazia-o morder a ponta do seu dedo indicador, o tentando...
– O que é? Vai me calar agora com beijo, tu tá achando que eu vou o que? Me esquecer do que tu fez quando você me beij-
Outro beijo.
– Eu adoro-
Ele deu um beijo na ponta do nariz vermelho dela; Atena fingiu tédio, mas sorriu.
– Ver você-
Dois beijos nas bochechas.
– Toda-
Ele a beijou na testa.
– Estressadinha.-
Romero segurou o rosto dela com as duas mãos, as palmas estavam geladas e ela sentiu o corpo estremecer, as coxas apertaram e ela percebeu que Romero estava lutando contra a luxúria de ceder à ela também.
– Seu idiota.
Não era pecado olhar, era pecado cobiçar, mas ela não cobiçava até por que; Já era dela. Quem estava pecando era a outra. Roubar assim a felicidade de outra pessoa era pecar duas vezes: Ganância e Inveja. Então...Não era errado ficar admirando o Romero assim, de pertinho, não era errado colar a testa na dele, e ficar roçando o nariz no dele, e sentir o cheiro dele...
Não foi errado sugerir em silêncio que ela deitasse ao lado dele, se aninhasse ali no peito dele, e que eles ficassem ali, vivendo da respiração um do outro- Ora o Romero tossia e prontamente ela levantava e dava água pra ele, à contra gosto por que Romero se sentia bem melhor que ontem e hoje de manhã.
Atena dormiu abraçada no Romero, foi ninada por cafunés e conversas sem nexo sobre o que ele fazia da vida, por que ela realmente não sabia; E caçoou dele quando ele disse que esse verão estava sendo terrível de suportar...Sem um ar-condicionado que prestasse e assistindo aqueles filmes mortais de romance.
Ela era pra ele, a coisa mais linda de todos os universos, tanto do bom, quanto do mal.
Ela era a vitalidade que ele queria ter, a luz que ele admirava ter, e o amor que ele admitira apenas pra ele mesmo que ele, Romero Rômulo, o bandido sem coração, estava sentindo. Romero queria explodir, queria melhorar e gritar pra todo mundo que ele a amava.
– Eu te amo...Francineide.
Ele disse rindo no ouvido dela, num sussurro que era de se duvidar que ele mesmo tivesse ouvido.
Mas ela ouviu.
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