Sensorial
6 Efeito Colateral
Notas iniciais
Dante nunca fora o tipo de cara que observava outras pessoas além de seus suspeitos ( e com a ajuda de um bom time de psicólogos para auxiliá-lo, sempre), mas o garoto conhecia seu pai, e soube, ao abrir a porta do apartamento do pai para a até então lenda que era Atena, que aquilo seria algo para se manter vivo; Dante via no casal à sua frente uma cumplicidade desconfiada, e desleixada, daquelas que nenhum dos dois se esforça mesmo para fazer funcionar, e mesmo assim, por algum motivo extremamente maior- Funciona.
Era um casal complicado, extremamente diferente, que combinava até nas coisas mais estúpidas; Dante nunca fora o tipo de cara que observava o pai olhando para outras pessoas, mas depois do primeiro encontro com Atena ele passou a fazê-lo, e após seis longos meses de análise pôde atestar naquele momento, ao entrar no leito do hospital, encontrando ninguém menos que Atena dormindo agarrada à seu pai, que era amor.
O que quer que fosse que ele tivesse com a Tóia, iria acabar- Não era daquele jeito. O Romero passara o braço ao redor dela e dormia abraçado de lado, a bochecha encostada na cabeça da loira, ambos respiravam calmos e não se ouvia nada além de barulhos de máquinas de pressão cardíaca, essa que se mantinha sempre elevada quando Atena estava por perto.
Romero corava quando encontrava Atena, Dante observara em encontros anteriores, e os olhos dele ficavam atentos e ágeis, captavam qualquer singelo movimento da loira, e de camarote, Dante vira tudo acontecer- Vira o pai pular do asco à doçura, do tédio à surpresa em questão de milésimos ao lado dela. Era tudo muito intenso entre os dois, tudo era visceral, todas as palavras que saíam da boca deles, fossem elas ditas em discussões ou conversas tolas sobre nada de interessante.
E Atena não ficava muito atrás não, viu- Ela era a mulher que não conseguia ficar com as mãos longe de seu pai por mais de cinco minutos, era sempre um cheiro no pescoço, um carinho no rosto, com aqueles olhos brilhando pra ele, o sorriso sempre a postos pra fazer o Romero amolecer antes de dar qualquer bronca por ela ter contado algo que não deveria pro filho dele.
Eles eram dois autoritários dividindo uma quase vida juntos; Atena era mais presente que a atual noiva de seu pai, e ela era presente por orgulho de ser. Ela nunca cobrara um cumprimento de Romero em eventos de caridade, mas ela comparecera a todos eles, sem deixar nenhum faltando. Mas Dante sempre aparecia para confortá-la após três horas em pé e nada além da invisibilidade para o pai.
Ele não entendia isso; Essa força do Romero para ignorar a Atena, mas quando ele mais precisara dela, ela vinha correndo, não importando a hora ou o lugar, ela colocava o primeiro par de saltos que encontrasse e iria em disparada ao encontro dele.
Dante gostava dela- Do jeito dela, de como ela se importava. Com tudo e todos, ela sempre queria todo mundo perto dela, sempre convidativa a qualquer coisa que envolvesse mais pessoas.
Atena era a mulher do “quanto mais, melhor”- Ela gostava de ir pra fazenda dela e levar pelo menos duas pessoas junto. Atena não viajava sozinha, não saia daquela cobertura sozinha, e era difícil de encontrar com ela, não fossem os eventos do pai dele.
Mas se ele pudesse escolher uma mãe, nesse exato momento, Atena seria a eleita. Ele genuinamente gostava dela, não tinha um por que dos mais racionais, mas ele gostava dela, e ponto final.
Dante ficara dentro do quarto pensando sobre as pessoas que estavam desmaiadas na maca por quase meia hora, a mão segurando à de seu pai, os olhos fixos num ponto qualquer e a mente longe, e ele nem percebera que acordara Romero ao apertar sua mão firme.
– Pensando na morte da bezerra, filho?
–Ahm, oi?-Pai, desculpa, te acordei? Tava falando sozinho?
– Não, você não me acordou, não...Tô te olhando faz um tempinho já, achei que você estivesse me olhando, mas eu te chamei e você nem respondeu, deve estar com a cabeça bem longe hein!?
Dante soltou um início de risada, mas engoliu o resto dela quando Atena resmungou e Romero a acalmou com cafunés nos cabelos.
– Pai...Eu conversei com seu médico antes de entrar, e a Atena também me falou que ele só tá esperando você estar com o pulso mais normalizado pra te dar alta, as enfermeiras me contaram, seu Romero...Que vieram aqui umas cinco vezes durante a tarde- E que os dois pombinhos nem sequer sentiram a presença de alguém nesse quarto-
Dante sorria e seus olhos brilhavam. Romero tentara disfarçar em vão que não tinha adorado dormir sentindo o cheiro dela todo o tempo, o nariz assim tão perto dela, a cada respiração o cheiro dela impregnava um pouco mais em seu pulmão.
–É...A Atena ela tá cansada, sabe...-
– Mas você tá dormindo desde ontem, fez isso de safado que é!-
– Não...Para com iss-
– Ele faz dessas, Dante, pode isso!? Me usa aqui de suporte pras pernas, por que ele me enrola aqui, e eu não consigo sair, parece uma anaconda-
Atena ria com Dante enquanto Romero revirava os olhos, ela espreguiçou e alongou os braços antes de fitar o garoto, o queixo apoiado na mão sob o peito de Romero.
– Ele tem que dar graças a deus que eu não ligo de ser feita de travesseiro king size, se fosse outra já expulsava ele da maca a coice, que eu sei bem!
– Viu pai!? Eu digo que a Atena é a mulher pra você! Deixa ele, quando ele tiver que comprar um travesseiro king size, Atena- Daí ele vai lembrar de você...
Atena levantara da maca, e antes de ir ao encontro do “enteado” para um abraço em meio às risadas debochadas, ela olhou rapidamente para as máquinas ligadas a Romero. Pulso normal, batimentos estavam apenas acelerados por conta das piadas consideradas pelo Romero “sem graça nenhuma”. Dante a encontrara no meio do caminho, nos pés da maca, e ele sorria ao abraçá-la e quase sumir com ela. Ela se sentia segura, e ela sentia dor.
De mentir pra ele, de ter de esconder quem era, e de saber que nunca poderia ser cem por cento ela ao redor dele, por que ela queria- Ela queria que o Dante nunca tivesse que sofrer a decepção de amar alguém que não era sincero. Atena admirava a honestidade do Dante, e as vezes se perguntava se conseguiria ser assim.
– É...Ahm, fica aí com seu pai que eu vou resolver a papelada pra liberação do Romero, pode ser!?
– Sim, sim- Claro,Atena, eu vou ligar pro meu avô pra mandar um motorista aqui-
– Não.
– Não?-Não?
A negativa de ambos os homens à sua frente foi uníssona, a fazendo sorrir.
– O Romero vai pra minha casa, eu não vou deixar ele sozinho.
E assim Atena saiu do quarto. Não, não era uma escolha, não era uma opção dada a ele por ela. Ele iria, e depois de todo esse tempo ao lado dela, ele soube que suas picuinhas não adiantariam nada. Que ele iria e não haveria outra saída.
E no fundo, ele queria.
Os dois não tiveram muito tempo pra conversar sobre nada além de ajustes nos horários de trabalho do Dante, ou como o Romero faria para trabalhar enquanto ficasse hospedado na cobertura da ex-namorada, e logo o especialista responsável apareceu para fazer as últimas checagens e uma última ressonância.
Romero sabia que estava piorando, ele era o doente ali, ele sentia tudo acontecendo, ele sentia o cérebro dele e ele sabia que não estava nada bem. Mesmo.
Deitar naquela máquina gigantesca não mudaria o fato de que era pouco o tempo que lhe restava ao lado daquela gente que ele amava. Sim, ele amava.
– Então Romero, a sua situação é a seguinte- Sua doença está evoluindo mais rápido que o normal, e eu sei que você não toma nenhum dos remédios que eu receitei-
– Doutor..-
– Eu não terminei, Romero. Você quer viver? Você quer virar o ano? Você vai ter que despertar pra essa tua nova realidade, Romero. Você vai entrar numa dieta a partir de amanhã-
Atena e Dante observavam atentos à todas as prescrições do médico, enquanto Romero tentava bloquear qualquer informação.
– Nós vamos recomeçar o seu tratamento, a partir de hoje, você vai fazer fisioterapia. Qualquer tipo, pode ser pilates, uma academia mais leve, ioga, o que você preferir- Não se bebe mais nada alcoólico pois os remédios são perigosos por si só. Você precisa lutar contra isso, não adianta você simplesmente aceitar, a esclerose mata? Mata sim, claro que mata- Mas ser atropelado ali fora por um caminhão também mata, e você não tem como prever quando a esclerose, ou o caminhão, vão matar você. Mas isso daqui, Romero-
O médico apontou na direção dos acompanhantes dele, e pela primeira vez em duas noites, o Romero sentiu peso na consciência, de não entender, ou não querer entender que o que ele tinha era sério, mas não era instantâneo. Era possível de se dizer, lá na frente, para os netos e bisnetos, que ele viveu sim, viveu aos trancos e barrancos- Mas que ele, Romero Rômulo, viveu uma vida completa.
– Isso é mais importante do que essa sua birra de negação. Todos os pacientes que descobrem uma doença dessas agem assim, eu já to acostumado- Mas todos, cedo ou tarde, entendem que não existe previsão...Você pode ter esclerose e ao sair daqui eu posso levar um tiro e morrer antes de você. A morte, ela não tem data marcada, e se ela tem, não é pra tão cedo, Romero- Se você não pensa em fazer isso por você, faz por quem tá do seu lado.
– O senhor tá fazendo tortura psicológica é isso, é?
– Sim. É só assim que pacientes egoístas entendem que o mundo não gira ao redor deles, e que se abandonar não é tão fácil assim- Enquanto houver alguém do seu lado, cuidando de você, Romero- Você tem 70% de chance garantida. Os outros trinta a gente deixa por conta das surpresas da vida.
Ninguém riu, e não era algo para se rir sobre.
– A partir de hoje, você vai cuidar de você, Romero- Esquece que é esclerose, esquece que é perigosa, esquece. Aqui-
Ele entregou a receita de medicamentos e todo o resto à Atena, que assentiu em silêncio e não ousou encarar Romero.
– Agora você vai pra sua casa, e descansa. Eu preciso que você agende as consultas pro seu..-
– Ex- marido, ele é meu-Meu ex-marido.
– Eu preciso que você agende estas consultas o mais rápido possível, ok!?
– Pode deixar, agendo hoje mesmo-
– Certo, muito obrigada, a ambos, por estarem aqui- É a primeira vez que o Romero vem acompanhado à uma consulta, isso é importante.
A volta para a cobertura foi silenciosa, Atena teve que despistar o Dante para ir buscar o carro de Romero no estacionamento, e Romero quis começar uma discussão sobre a saída do carro dele da garagem, logo após o rombo na traseira, feito por ela.
Mas eles não tinham forças, o que o médico dissera à todos foi considerada uma bronca coletiva, faltava sim apoio- Amor todo mundo tinha, mas comprometimento era uma coisa falha em todos os elos ligados ao Romero. Atena tinha suas fases de saco-cheio, Dante vivia realmente muito ocupado, e todas as outras pessoas ligadas à ele eram tecnicamente descartáveis.
Todas viviam com o peito cheio de falsa importância e no fundo ninguém realmente compreendia que nem tudo estava perdido- Ele demorou todo esse tempo pra entender. Não era de se duvidar que todas as outras pessoas, que o mantinham ali, sempre por perto, por tolerância ou necessidade, demorassem o dobro.
Atena arfava com receio de Ascânio ter deixado a cobertura inabitável, mas se surpreendeu ao encontrar o apartamento cheiroso e com cara de limpo, mesmo com as escadas pichadas e aquela rede horrorosa pendurada- Mas ela percebeu o bilhete colado na porta da geladeira e caminhou com curiosidade até lá para descobrir o que dizia.
“Ateninha, usei do dinheiro do patrãozinho pra pagar umas faxineira pra limpar o ninho dos pombinhos. Ascânio-”
Romero não estava cansado, se sentia meio dopado mas não queria dormir mais um segundo seu corpo formigava diante o pensamento de deitar outra vez- Ele arrastou a si mesmo até o sofá e sentou, encarando o nada.
– Tá com fome?
Atena chamou de longe, fechando a geladeira após tirar dela duas garrafas de água.
– Não...Ainda não tô conseguindo comer, tô com o estômago embolado.
Ela caminhou até ele, sentou ao seu lado e abriu sua garrafa d’água, alcançando-a à ele. Eles se olharam por um curto espaço de tempo, suficiente apenas para Atena aninhar-se no colo dele, tirando os braços dele de suas coxas e sentando ali, o nariz automaticamente cheirou o pescoço dele e ele nunca tinha visto Atena tão vulnerável.
Ela parecia assustada e com medo do que pudesse acontecer, ele a segurou forte no abraço que ela dera em si mesma, ele não podia perdê-la agora.
– Eu tô aqui, Atena- Eu não vou embora.
– É bom que você não vá mesmo.
Fale com o autor