Sensorial
3 Esclerosado
Notas iniciais
– Quer que eu ligue a televisão?
– Não...Minha cabeça realmente tá me matando...-
Não que a comida do hospital fosse inaceitável, mas o cheiro de tudo aquilo deixava ele enjoado, e qualquer vestígio de fome deixava seu corpo, mas ele forçou a si mesmo e derrubou a xícara no chão. Tóia levou um susto e agradeceu pela peça ser de plástico.
– Deixa eu colocar aqui pra você....
A morena estava tremendo, e ele segurou sua mão quando ela a pousou sobre a garrafa de café.
– Tóia, tá tudo bem agora...Foi um susto, só isso...
– Eu sei Romero, mas é que- é que eu fico preocupada contigo, tu aí nessa maca sem poder fazer absolutamente nada, logo você que é sempre tão ocupado. Eu não gosto de te ver assim, só isso...
– Mas no momento é desse jeito que eu tô, e eu não to aleijado, eu posso continuar a fazer as minhas coisas, os trabalhos lá da ONG, álias, quando você me conheceu eu já tinha sido diagnosticado com-
– Nossa, calma Romero! E só tava querendo te dizer que eu tenh-
Ele segurou sua mão mais firme; a culpa não era dela. Nunca houvera sido. Quem não estava habituada a essa situação deprimente era ela.
Ele sempre fora super independente de quaisquer sentimentos básicos do ser humano: Nunca precisara de extremas doses de carinho e afeto, pois quaisquer demonstrações de tal sentimento causavam nele uma espécie de asco. Talvez por isso ele nunca entendesse as crianças que choravam quando ralavam os joelhos, e nunca realmente entendeu por que sua mãe não o deixava chorar quando ele ralava os joelhos.
E essa dose gigantesca de amor, desses melosos, dada à ele pela morena o deixavam extremamente arisco, e Romero estava aprendendo a retribuir tudo isso, seria comum ele agir da maneira pura e simplesmente ogra, pois era essa a carcaça que ele carregara nas costas desde o dia que saiu com aquela mochila surrada da casa de Djanira, rumo à lugar nenhum.
Ele não sabia receber amor, não sabia dar amor; Não do jeito que as pessoas faziam nas ruas, com aqueles sorrisos tremendos, como se a qualquer momento um dos dois fosse explodir. Mas calma, ele também não era nenhum desalmado, não. O amor que ele dava era mais...Cético.
Talvez ceticismo fosse considerado por ele, e apenas por ele, um sentimento- Era aquele fogo no peito, aquela vontade de gritar aos quatro ventos que sim, ele amava!
Mas ao mesmo tempo ele não se sentia no direito de amar: Como uma pessoa tão humanamente desumana poderia ter nascido com esse gene de sobra dentro de si? Romero sempre fora uma pessoa de negócios, ele negociava o amor- Quantidade, forma de pagamento e parcelamento.
Era uma coisa muito escassa dentro de si esse tal de amor, e custava à ele dar assim, à vontade, sem medo do amanhã, e o amor na vida dele sempre machucou. Machucou amar a própria mãe, machucou amar a Atena, machucou amar o Ascânio...E mesmo depois de tudo ele continuou amando, pois controverso como só ele conseguia ser, Romero se achava indigno de amor, mas se sentia no direito de ser amado por alguém cujo amor fosse digno.
– Tóia...-
Era realmente difícil de escolher as palavras quando o assunto era se desculpar com ela- Ou com qualquer outra pessoa.
– Me desculpa. Eu não sou bom com toda essa preocupação em cima de mim... Você sabe bem que eu sou meio cavalo com as pessoas, e eu não quero te magoar, mas eu tô exausto, e bem dopado...Me desculpa?
Ela sorriu meiga pra ele, e como não querer uma mulher como ela? Como ele sofrera indagando a si próprio o fato de talvez até repudiar a pessoa que ela era. Ela era incrível, era tão doce e cheia de vida, era quente e cativa, e ele se sentia mal a cada segundo que passava ao lado dela.
Esse amor que ela dava, merecia ser recebido por alguém que o quisesse- Que o retribuísse.
– Claro que desculpo, eu inclusive te peço desculpa por ser assim...Tão melosa...-
Ela sorriu mais abertamente, empurrando a bandeja móvel da maca, e o Romero achou até engraçado que os momentos mais “românticos” dos dois só existissem dentro de hospitais.
Tóia passou a mão por seus cabelos, os olhos sempre muito focados nas linhas de expressão da testa dele, ela não queria estar ali, ela queria fugir e sair correndo; Mas essa fora uma escolha dela, e agora ela arcaria com a responsabilidade de cuidar dele, de ser dele e de amá-lo.
Custasse o que fosse.
Mas doía, demais. Doía nela, olhar pra ele e ver o rosto da mulher que ela amou a vida toda, que a deixou apenas com o peso na consciência de não ser merecedora do amor dela. Ela cuidava do Romero como pagamento da dívida deixada por Djanira nessa Terra. Ela cuidaria do Romero, em nome da Mãe de ambos.
O toque dele, calmo e sincero, lembrava o da mãe, o jeito como ele segurava o rosto dela, com as mãos cheias e as palmas quentes e trêmulas, e aquela coisa linda que brilhava nos olhos dele, aquela vontade imensa de viver e de ser vivido- Ele era o pedaço de Djanira que ficara com ela, pra ela amar e preservar.
Mesmo não amando, mesmo se sentindo obrigada a amar, e sentindo todos os dias o peso de se cuidar de alguém que não se quer cuidar; Nos últimos meses ela havia até indagado se Djanira pensara o mesmo dela, se ela cuidara de Tóia por que sentira a obrigação de fazer feliz alguém cuja vida havia sido destruída pelo namorado.Tóia se sentia uma sombra, não tinha passado, não tinha verdades, não tinha nada nem ninguém...Além de Romero.
Ela encostou a testa na de Romero e fechou os olhos, talvez a partir de algum momento dali pra frente ela aprendesse a gostar dele como homem, como alguém com quem ela queira compartilhar os momentos turbulentos, os cafunés de madrugada, e com quem ela queira ser acordada pelos três filhos (todos meninos) no futuro. Talvez dali uns cinco, seis anos, ela entendesse que amor não é uma forma de expressão e sim um agradecimento.
Você paga com amor aos que te acolhem quando você se sente despida de defesas, talvez fosse assim, talvez paixão a gente sentisse com o carnal e amor fosse aquele ‘obrigado” mais íntimo, nunca dito em voz alta, porém sempre presente entre os dois. Talvez o amor não fosse dado à quem se quer, e sim a quem se merece.
– Opa, atrapalho!? Se sim, coloquem a roupa rápido que eu to entrando! Brincadeirinha, desculpa-
O cheiro dela, agora misturado a café. Ela tinha cheiro de casa, cheiro de abraço quente e aquela coisa que a gente faz quando ninguém tá olhando.
– Não! Que isso, pode entrar Atena, entra aí!-
Tóia sorriu sem graça e enjoada da presença da loira ali. Não que Atena desse a mínima pra qualquer coisa que viesse da Tóia. A loira caminhou até o Romero, largando a porta aberta para a barulheira desconfortável que vinha de fora, o hospital estava cheio e as pessoas passavam por aquele um metro de porta correndo, outras falando no celular, algumas macas e crianças chorando de fundo, uma típica manhã de qualquer hospital.
– Tá bombando lá fora, vocês nem imaginam- Eu desci pra tomar um café e parei umas cinco vezes pra entrar maca, sair maca, meu deus!
Atena sentou na maca de Romero e não esperou por uma repreensão da parte de ninguém.
– Como você tá? Fala pra mim, você já comeu? Quer que eu busque algo pra tu comer, que tu goste?
A mão dela foi involuntariamente aos cabelos dele, o rosto pedia para ser acariciado e ela acatou, como negar um pedido daqueles olhos cansados? Como ela seria apta para cogitar abandonar esse homem por mais que alguns minutos.
Ela não conseguia, não estava nela a vontade de partir, pelo menos, não mais.
– Não, Atena! Ele tá de dieta, não pode comer qualquer coisa.
– Mas tu também não pode deixar ele morrer aqui de fome né f-Tóia! Essa comida de hospital é uma porcaria, tudo sem sal!
– Mas é disso que ele precisa.
Atena riu com a ambivalência do processamento da informação captada por ela: Ele sempre precisa da (comida) sem sal. Mas ele nunca quer ela (a comida, também) sem sal. A loira levantou para fitar a outra, que estava parada não mais que cinco centímetros longe do outro lado da maca de Romero, ela apoiou o corpo sob as mãos, espalmadas no colchão fino, e Romero precisou tocá-la, ele tinha que manter uma das duas sã e sob controle, e a mão da Atena estava mais perto, também...
– E se eles chegarem aqui e disserem que ele precisa tomar choque, tu vai deixar? Para né Tóia, não é assim que se cuida de alguém, não! Nem sempre o necessário é o que te mantém vivo hein garota-
– DEU! AS DUAS! DE-
Romero gemeu de dor, e prontamente ambas esqueceram por que motivo estavam discutindo, Atena soltou da mão dele e ajeitou seus travesseiros, sem deixar espaço para que Tóia fizesse qualquer outra coisa, então a morena fingiu arrumar seu cobertor.
Era insuportável ficar ao lado de Tóia? Era. Mas isso era irrelevante quando ela olhava para Romero, e lembrava que ele era o real motivo dela estar ali- Aquele imprestável pedia coisas dela, que ela não teria dado a mais ninguém; Tolerância. Era pedir demais, sinceramente.
Ela houvera suportado as mentirinhas de “cobertura do meu amigo”, “não é meu, não”- Aguentou suco na cara, tapa na cara, chantagem emocional, risco de morte, uma arma apontada pra sua testa, e até aí, tudo bem...Nada que não tivesse acontecido antes.
Mas pedir que ela fosse tolerante era mais do que ela podia suportar, e ao olhar nos olhos dele, e perceber que eles olhavam para alguém que estava naquele quarto, e não era ela, machucou.
Mais uma vez, e ela ainda se surpreendia por ficar triste toda vez que isso acontecia.
Atena então decidiu que acabava ali, a frouxa apaixonada ficaria naquele quarto, com ele, e ela iria embora. Mesmo que ela voltasse correndo cinco minutos depois, mesmo que ela esperasse de tocaia do lado de fora a lambisgóia sair pra ela ir correndo deitar ao lado dele e passar a tarde toda fazendo nada, nesse momento ela iria embora.
Por ela.
Então tirou os dedos que tremiam dos cabelos dele, pegou sua bolsa e jaqueta e caminhou até a porta. Três passos antes de sair, ela virou e encarou os dois, que a olhavam com tristeza e desdém.
Obviamente ela não sairia como perdedora.
– Quando você morrer, me liga- Tô louca pra fazer uma quizumba no seu velório.
Fale com o autor