Sensorial
1 Dependência mútua
Notas iniciais
Já passava das quatro da madrugada e Ascânio...Bem, o Ascânio estava desmaiado agarrado numa garrafa de Jack Daniels na cama da suíte.
E aquele barulho ensurdecedor na porta, quem quer que fosse do outro lado estava muito impaciente, ou com muita vontade de entrar.
- CALMA PÔ! JÁ VAI! JÁ TÔ INDO- VOCÊ DEMOROU NOVE MESES PRA NASCER!
Atena ainda teve que colocar um roupão -o do Romero- antes de levantar do sofá e se alongar; isso faria mal pra coluna dela com certeza.
Mas esse assunto ela trataria amanhã com o safado do Ascânio.
As batidas na porta estavam ritmadas, ela ouviu o velho resmungando lá no quarto e sussurrou um "cala a boca velho" antes de puxar a maçaneta e abrir a boca pra derramar sua desaprovação sob quem quer que estivesse ali batucando, mas ela ficou sem ar antes de verbalizar a primeira sílaba.
- Dante...
O garoto estava sem uniforme, o que ela ainda — por incrível que pareça- não havia tido o prazer de ver, e o olhos azuis dele estavam vermelhos, ou seja, ele fumou muita maconha, ou levou um pé na bunda.
- Dante...Entra-Entra aqui, o que é que houve?
- Atena, é...veste alguma coisa-
- Ai Dante o que houve eu tô ficando preocupada, é com o seu pai?
- É sim, Atena ele passou mal lá em casa... e a gente levou ele pro hospital e ele não tava consciente... Ficou chamando por você todo o tempo, eu te levo lá, vamos?
Ela sinceramente, não sabia se chorava e mudava de roupa, ou sorria e cantarolava por ele ter chamado por ela. Ele tinha juntado a escova de dentes com a faveladinha já faziam mais de seis meses e ele ainda não tinha dado com a linguinha nos dentes, mas agora....Agora que precisou da Ateninha ele lembra que tem a número um lá em cima esperando por ele, ela deu passagem pro Dante entrar, acendeu as luzes e ofereceu algo pro garoto que parecia visivelmente exausto.
Sim, era extremamente perigoso ele estar no mesmo lugar que o velho, mas ela tinha que contornar isso pelo menos pra poder se vestir. E qual a melhor forma de tirar a atenção de um homem se não apelar pra melodramaturgia?!
Ela caminhou nervosa e sentou ao lado dele, os olhos enchendo de lágrimas.
- Por que você não veio antes? Meu Deus Dante você sabe que eu preciso ficar do lado dele nessas horas, seu pai é muito destrambelhado, e ninguém consegue controlar ele além de mim...
- Mas foi tão rápido que a gente nem teve muito tempo de reagir, ele foi jantar lá em casa eram umas nove horas e tudo tinha corrido bem, até que ele sentou pra conversar e ficou tonto...Não demorou muito e ele desmaiou. A gente entrou em pânico, a Tóia disse que nunca tinha visto ele ter um ataque-
Ela engoliu o riso sarcástico que se embolou na garganta dela....A namoradinha do heróizinho nunca presenciou um ataquezinho dele.
- No hospital, eles fizeram a tomografia e ele tá piorando, Atena... E logo que recobrou a consciência, há nem uma hora atrás, ele pediu por você...Eu demorei por que eu deixei todo mundo em casa e achei melhor passar aqui por último...
- Mas seu pai tá estável agora?
- Tá sim, o médico dele falou que com a piora da doença as crises podem ficar mais frequentes e que a gente tem sempre que ficar de olho e eu realmente não sei de ninguém que cuide melhor dele do que você...
Eles sorriram um para o outro e se Atena não tivesse todos os segredos que têm, ela adoraria ter no Dante aquele filho que ela sempre quis... Mas não...
Como seu pai mesmo disse em uma das poucas vezes em que estava em casa, provavelmente depois de uma daquelas surras que ela levava por nenhum motivo aparente...
" Você só é uma vagabundinha...Vai botar filho no mundo pra tirar dinheiro dos trouxas"
Mas isso era passado, e o passado nesse momento não valia absolutamente nada.
- Espera aqui Dante, eu já volto.
- Ta ok.
Ela andou a passos curtos e rápidos pro quarto, o velho em um estado vegetativo na cama, parecia nem respirar, e que deus o levasse de uma vez por todas, ela nem reclamaria.
Ela abriu o closet e pegou a primeira coisa que pareceu ser uma peça de roupa- Não era. Era uma camisola.
Com um pouquinho mais de afinco ela achou um jeans e uma jaqueta só pra não passar frio no hospital- Depois de totalmente pronta ela pegou uma mala e arrumou as coisas do Romero.
Pijamas, meias, cuecas e uma roupa pra quando ele tivesse alta do hospital.
Ela não se daria ao trabalho de dizer ao Ascânio onde estaria...Se bem que o estrago poderia ser maior se ele não tivesse conhecimento do retorno dela.
" Fui buscar o Romero, volto pra cá com ele amanhã. Quero essa casa brilhando."
E foi impaciente encontrar com o Dante que também tinha pouca da paciência que lhe fora dado...
O jeito como o Dante levantou do sofá fez ela lembrar do Romero, aquele jeito meio largado, os braços soltos...
Romero, Romero...Eu te falei que tu ia precisar de mim... que eu era a mulher da tua vida...
- Vamos?
Ela concordou com a cabeça e eles deixaram o apartamento, nervosos e trêmulos com o que poderia acontecer dali pra frente. Não que ela pensasse em qualquer coisa de ruim, mas o fato dele ter piorado e ela não ter estado ao lado dele já doía bastante.
Por que ele era um cretino, cachorro, safado,mentiroso cafajeste- Mas era esse cara que ela amava.
Era esse ridículo, esse traste nojento que fazia dela a mulher mais feliz do mundo,mesmo que houvessem sido poucas vezes -bem poucas-. Mas ela amava o safado, e ela não se sentia no poder de negar o amor dela pra ele, mesmo que doesse.
Mesmo que fosse pra ele recobrar as forças e meter a boca nela, ela aceitaria, como ela aceitou todas as outras palhaçadas que ele fez.
Mas hoje, ele precisou dela, ele admitiu em voz alta que quem cuida dele é ela, que quando ele passa mal, quando ele leva uma surra do Tio- É ela quem estanca o sangue, ela quem faz sopa e dá dipirona pra passar a febre.
E isso, pra ela, era amor- Afinal, bandido não ama do mesmo jeito que gente comum.
Bandido ama diferente.
E nesses devaneios de auto-consolação ela se perdeu os quarenta minutos que demoraram pra chegar no hospital, alguma imprensa acampada ali na frente, e ela não estava no clima de ser descoberta pela pf hoje não... Mas como bom filho, o Dante deu a volta e eles entraram pela emergência.
Demorou bem mais pra ela chegar ao quarto dele do que ela considerava normal, aqueles corredores largos e brancos, as macas encostadas nas paredes e aquele burburinho de gente. De barulho diferente, só os saltos dela.
Quarto 404- Era aquele. E instantaneamente fizeram-se os nós da angústia na garganta e estômago dela, e aí ela teve vontade de arrombar a porta e ninar ele no colo dela, mas ele podia não ter suportado e ela abriria a porta pra uma cena que ela não queria nunca presenciar.
E então, ela ficou nesse embate: Entro e descubro, fico e espero, entro e choro, sai corren-
- Vamo Atena?
O Dante pegou no braço dela pra passar confiança, ela encarava o numero do quarto atônita.
Os segundos demoravam um minuto pra passar, e ela viu aquela maldita porta abrir em câmera lenta, primeiro ela viu os pés, cobertos por uma manta grossinha xadrez azul e preta, as pernas,o abdômen, e o rosto dele. Meio dormindo, meio acordado- E silenciosamente ela agradeceu por aquela máquina mostrar que existia um pulso, e que ele era estável por fim.
Atena empurrou a mala pra qualquer canto e caminhou trôpega na direção do leito dele, ele nem se mexia não fossem os pulmões inflando e esvaziando, mas ele estava corado e os lábios estavam vermelhos, e ele parecia bem. Chegando perto, sob nada mais que a luz do abajur ao seu lado ela teve que respirar bem, mas bem fundo antes de tocar nele, com medo dele desmontar ali mesmo.
Ela sorriu e puxou junto com o ar toda a força de mulher que ela tinha deixado no chão por ele, e os olhos fecharam quando os dedos deslizaram nos cabelos dele, pela testa e aquela barba por fazer que ela tinha uma fascinação.
Foi quando ele teve uma primeira resposta sensorial à ela, ele virou o rosto, querendo mais daquilo, do toque dela. E ele soube que era ela, ele sentiu seu cheiro, e de olhos fechados, e sem força nenhuma ele arrastou o braço pesado até o rosto dela, desceu a mão pelos cabelos loiros e a puxou pra perto dele pela nuca, a envolveu num abraço tão quente, tão cheio de "ainda bem que você tá aqui" que ela só pôde afundar o rosto na curva do pescoço dele e engolir o choro.
Ela não podia ser fraca agora, ele precisava dela ali pra cuidar dele.
Foram uns dois minutos daquele abraço do qual ela não tinha vontade nenhuma de sair, mas a Senhorita Rômulo tinha um maridinho à cuidar, e o filhinho adotivo dos dois estava dormindo sentado ao lado deles.
O Romero até tentou falar qualquer coisa, mas eles o deixaram bem grogue dessa vez. Atena se desvencilhou muito a contra gosto daquele abraço e assim que conseguiu, o Romero agarrou forte na mão dela.
E ele não parecia ter nenhuma intenção de largar.
- Dante...Dante...-
Ele cochilara no sofá enquanto ela tentava conversar com o Romero.
- Ahm..Oi-Desculpa Atena eu vou lá tomar um caf-
- Vai pra casa, eu tô aqui. Pode ir- Amanhã assim que ele acordar eu te ligo, vai descansar...você tem seu emprego e ele não vai acordar tão cedo...Eu to aqui Dante, não precisa se preocupar, vai pra tua casa, descansa e amanhã você dá uma passada aqui...
- Atena-
O menino veio até os dois e ele ia dizer algo, mas o pai chamou sua atenção,o garoto sorriu e ficou admirando o homem deitado, e então o beijou na testa.
- Muito. Obrigada.-
E repetiu o mesmo com ela, coisa que filho faz com os pais.
E ele saiu, o barulho de fora invadiu o quarto por nada mais que dois segundos antes dela ser fechada.
Noite longa número um: aí vamos nós.
- Pode ficar tranqüilo Romero- Eu tô aqui.
Notas finais
E aguardem...
Afinidade - Capítulo 2 vem pra vocês na quarta-feira!!7534y5.
Lela.
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