Sensorial

2 Afinidade


Notas iniciais
Gostaria de agradecer à @fcksantonelli por indiretamente me apresentar à este site e possibilitar a minha pessoa de postar essa fic e deixar de sofrer sozinha. Aproveitem ♥

O sol o cegava e a brisa leve balançava as cortinas das janelas. Ela dormiu ali, ao seu lado, sentada numa cadeira de plástico, agarrada à mão dele e seu queixo apoiado no antebraço. Como ela tinha chego ali? Quem contou a ela que ele havia desmaiado? Ele teria de agradecer a pessoa mais tarde.

Romero não ousou mover a mão que ela segurava, pelo contrário, fechou os olhos e tentou dormir mais um pouco, ele podia sentir os efeitos da medicação ainda. As mãos e pernas trêmulas, o frio desconfortável e o formigamento do corpo... Sem contar a tontura.

Que loucura...” Ele pensou, enquanto as pálpebras pesavam e ele lutava por admirar Atena dormindo mais um pouco; Ele estava morrendo de saudades daquele cheiro forte dela, de âmbar, e musk e cerejas pretas, e aquele fundinho de whiskey. Ele sentia falta dessa safada, e ela realmente havia saído da vida dele logo após aquela última briguinha desnecessária deles.

Até por que, desde o primeiro momento em que soube quem ela realmente era, nenhuma das brigas foi realmente necessária; ele era um bandido, ser chantageado foi burrice dele, ele deveria ter tomado o devido cuidado, afinal, quem era Atena? Um puro mistério.

E mistério reconhece mistério de longe.

Mas ele não- Ele estava muito hipnotizado no par de coxas nuas dela, aquele cabelo caindo perfeito, o cheiro dela....ah, o cheiro era o que deixava ele bem cego. Ele não via maldade, bondade, ira ou nenhum dos outros pecados. Ela parecia imaculada, intocável e ele se perguntara após aquelas curtas quatro horas e meia, quando ela adormeceu agarradinha nele, se ele merecia tudo o que ela era.

E a resposta era sempre a mesma: Não.

Nem depois dela ter se revelado a trambiqueira sem vergonha que era, nem quando deu aquela festa pra mendigagem do Rio inteiro; Ela esteve lá. Ela nunca partiu.

De fato, quem teve de sair foi ele, após entrarem em acordo: Ela manteria a cobertura com o salário da facção (que em pouco tempo teve um aumento brusco) e prometeria sair da vida dele, pelo menos fisicamente. E ela saiu; ela continuou morando na cobertura, ela continuou atendendo aos encontros da facção junto dele, indo e voltando, e trabalhando com ele quando necessário.

Mas Atena tinha virado uma pessoa completamente diferente da Atena que estremecia o corpo todo quando ele a tocava- Ela realmente o tinha abandonado. Ele se sentia sozinho. Ela não batia na porta do apartamento dele aleatoriamente, a Jhéssica nunca mais apareceu, e as chantagens acabaram.

Inclusive, quando ele subiu perto do vencimento da parcela da cobertura, ela abriu a porta o suficiente pra expulsar ele de lá.

Não precisa se preocupar com o seu brinquedinho Romero, eu pago- Mas some daqui que eu tô ocupada.

Foi a primeira vez que ele levou um coice dela. E foi só piorando à medida que ela foi se tornando imune à ele. Acabaram-se os beijos, os cheiros e os desejos. Mas ela sempre esteve ali.

Quando ele voltou todo estourado daquela briga com o Zé Maria em Paraty, e que a Tóia afirmou que precisava de um “tempo”- Ela cuidou dele, ela brigou e xingou e gritou sua raiva na cara dele, mas ela quem deu banho, trocou as ataduras todos os dias e não deixou um horário de medicamento passar batido.

E ela tinha todos os motivos pra abandonar ele ali sozinho.

Mas a importância dela na vida dele não foi explícita até a madrugada passada, quando ele começou a sentir as tonturas e a falta de ar, e naquele momento em que ele olhou ao seu redor e ficou com medo de morrer sozinho! Por que ele estava rodeado de gente, mas ele sentiu um medo imenso de morrer sem ter conhecimento de que ela tentou salvá-lo, por que ninguém naquela sala sabia do que ele precisava, todo mundo era leigo nesse negócio de cuidar dele.

O medo tomou conta do corpo de Romero e ele não temia morrer sozinho, temia morrer sem a Atena; Então o pavor palpitou seu coração e devido à arritmia cardíaca e ao stress emocional ele desmaiou. Era preferível morrer ali a lutar sem ela- Mas não matava lutar por ela.

E no meio da muvuca e de várias mãos tentando levantar o corpo caído dele, ele sussurrou uma, duas vezes, e a palavra foi sendo articulada cada vez mais alto, até ela estar sendo gritada e ter feito a Tóia se afastar dele, talvez por raiva, talvez por complacência.

Ela sabia que não era a mulher que ele precisava, mas era a mulher que ele achava que queria e ela achava que ele era o homem do qual ela precisaria no futuro. O resto é coisa da cabeça dele, por que a partir daí ele se lembra de tudo em pequenos e agonizantes flashes. A dor na cabeça, aquela sensação de estar deixando o próprio corpo, graças à morfina, a tomografia, e aquele barulho infeliz ecoando enquanto ele meio dormia, e uma sucessão imensa de pessoas...Ele fechava os olhos para o Dante e abria os olhos para a Belisa, o Orlando; talvez fosse fantasia.

Mas nesse momento, nesse pequeno momento divino de lucidez, perceptível pela enxaqueca horrenda que o fazia apertar os olhos pra focar o que via, e que maravilha de visão. Se ele pudesse falar várias coisas ao mesmo tempo, daria todos os elogios a ela nesse exato segundo.

Se ele pudesse ao menos mover uma parte do corpo sem cambalear todas as outras, ele a despertaria daquele cochilo desconfortável aos beijinhos na testa, e com direito a um café da manhã digno. Mas neste triste momento, ele só podia admirar o rosto tranquilo dela, dormindo tão mal colocada que chegava a dar um nó em sua garganta...Por que ele deixara essa mulher sofrer desse jeito?

E por ele?

Por um fanfarrão medroso, fraco e interesseiro; Logo ela, um mulherão desses, uma pessoa que merecia alguém umas dez vezes melhor que ele. Por que ele fizera ela se sentir tão machucada, por que ele a enfraqueceu tanto? Ele chacoalhou a cabeça e espantou todas as dúvidas, já não era mais tempo de se duvidar, ele precisa de exatas na vida dele, pelo menos no que restava dela.

Atena se moveu, rapidamente e ele usou todas as forças pra prestar atenção ao que ela faria. Queria mostrar que havia melhorado pra tirar a preocupação maior dos ombros dela...Queria acordá-la e pedi-la que fosse embora, que voltasse depois e que dormisse direito, e ao voltar a si, ela sorria com os olhos, quente e cativante e qualquer doença encontrara seu anti-corpo ali, naquele par de olhos brilhando à luz do sol.

– Bom dia...Tá se sentindo melhor? A enfermeira passou aqui há nem cinco min-

– Sentia tua falta, Atena.

Ela ficara surpresa, e ele pôde notar, Atena não havia percebido, mas a mão que acariciava os dedos de Romero houvera apertado ele forte quando a palavra “falta” ecoou no quarto. Ela estava nervosa e surpresa com o que ele dissera e aqueles dois segundos eram necessários pra que ela bolasse uma defesa – emocional e verbal -. Ele sorriu anestesiado e encostou a cabeça em seu travesseiro.

– Eu vou chamar a enfermeira, você só pode tá bem louco-

Mas não...Com aquele último espasmo de força Romero agarrou a mão dela forte e seu próprio jogo de corpo a fez quicar nos saltos e cair no peito dele, ele não pensava direito, mas ele sabia que aquela boca agora a centímetros da dele, o pertenciam. E ele queria reclamar o que era seu de direito.

Ela olhava fixamente nos olhos dele, na tentativa de uma explicação plausível pra isso tudo, uma busca incansável de uma gota restante de morfina no organismo dele pra que ela recobrasse os sentidos e focasse na desculpa do “ele não está no melhor de si”.

Ela não queria mais se machucar, ela estava cheia de sofrer de Romerite Aguda crônica, mas as pupilas dele estavam lutando por se ajustar a toda aquela luz e a proximidade do rosto dela. Ele olhava pra cada pedacinho dela que podia ser captado por seus olhos; sua boca, suas orelhas, a mecha de cabelo no olho dela, e por mais que ele tentasse levantar a mão e puxá-la para o tão esperado e sofrido beijo, ele não conseguia.

As mãos de Romero estavam atadas nesse nó imaginário da esclerose múltipla chamado medo de estar. Mas esse nó era facilmente desatado pela coragem de estar, e por mais que ele quisesse os lábios dela, molhados e colados aos seus, ele pensava na cura, e pela primeira vez a cura não foi considerada assunto único. Ele queria a cura por que queria ter ela.

Queria envelhecer com ela, ter filhos com ela, ensinar valores aos quais ele nunca fora apresentado e fazer dos dois, três, quatro ou quantos quisessem ser, ele queria almoços de domingo com seu filho mais velho e discutir coisas banais como a economia do país, a pobreza da Nigéria; ele queria que a cura fosse ela.

Então Atena mandou o juízo ir dar uma voltinha e de olhos fechados, coração pulsando nas mãos que suavam e sustentavam seu peso na maca de Romero, ela arrastou a pontinha de seu nariz no nariz dele, e deslizou-a, respirando o Romero na falsa ilusão de conseguir enfiá-lo dentro de si e fazê-lo única e exclusivamente dela. Seu nariz passeou pela bochecha, orelha e testa, seu lábios beijaram ali e ela inalou o cheiro do shampoo dele.

E dopados um do outro, ela abaixou o corpo e abriu os lábios para que Romero pudesse acabar de vez com a agonia mortal de ambas as línguas, que pediam por encontrar-se, que queriam tocar uma a outra novamente, e explorar cada parte da boca, cada átomo vivo daquele espaço que encaixa tão perfeitamente, parecendo um.

Mas uma batida na porta os trouxe de volta ao mundo real, onde Atena era a ex, Romero era o bom, e Tóia esperava do lado de fora, impaciente e preocupada por obrigação. Atena o fitou, e ele virou os olhos, exausto daquele teatrinho com um fundo velho de verdade.

– Pode entrar Tóia, fica a vontade, precisa bater não...-

Atena saiu da maca o mais rápido que conseguiu e mesmo assim a morena conseguiu entender o que estava prestes a acontecer.

– Eu só vim pra te ver amor, como você tá? Como ele tá, Atena? Eu fiquei tão preocupada...

– Ele tá bem, a enfermeira passou aqui e medicou ele já, já tá tudo certo...Hm, licença eu vou deixar vocês aqui namorandinho, quem sabe você faz uma oração aí pra ele.

E ali estava ela, como num passe de mágica a Atena dos últimos meses estava de volta, mas antes de deixar o quarto em busca de qualquer tipo de bebida forte e amarga, ela sorriu pra ele.

E aquilo foi o bastante. Mas ela bateu a porta, como recado.

– Me diz, como você tá? Eu não quis ficar ontem por que eu tive medo, Romero...De te perder sabe lá o que houve contigo-

– Eu tô bem, Tóia...Tá tudo bem e-

– Ela te estressou? Quer que eu fique aqui com voc-

– Não precisa, você tem suas coisas, seu trabalho, a Atena ela...Ela não faz nada, gente rica é assim...

– Romero-

A menina tinha aquele semblante de “eu me importo com você”, ela realmente queria saber de seu estado. Mas ela estava ali pela metade, e a outra parte dela ele não tinha ideia de onde ela teria deixado- Ou não queria ter.

Talvez ele olhasse pra ela e lembrasse que ela têm direito de saber de onde ela vem, o que ela tem e o que ela oferece à ele: A chance de viver. Por mais tempo, e com mais qualidade. E ele tinha se esforçado demasiadamente nas duas semanas que passaram pra não confessar de joelhos no chão que era um vilão.

Que estava com ela por dinheiro e pela cura sintética da doença dele, ou contar que ele precisava da ajuda financeira dela, e quem sabe até se tornar um mártir.

– Eu só quero te ajudar amor. Eu não me importo de tirar uns dias de folga, eu tenho um monte de hora extra pra tirar eu posso muito bem ficar aqui contigo...Ou você não quer que eu fique é isso?

– Tóia, não vamo começar eu acabei de acor-

– Café da manhã! Como você está se sentindo Senhor...

– Romero! O nome dele é Romero...

– Eu to bem, só to morrendo de dor de cabeça, vai ficar assim por muito tempo?

– Por causa dos medicamentos fortes pra sua dor de ontem, você pode sentir os efeitos colaterais hoje, mas uma dose bem chata de repouso passa isso.

A enfermeira era doce e lembrava uma senhora que cuidou dele num abrigo para menores infratores uma vez; Sem obrigação nenhuma, ela era o tipo de mulher simplesmente esbanjava amor à quem quer que atravessasse seu caminho. A mesma expressão séria e exausta de uma típica mulher nos seus 48 anos que lutava todos os dias num emprego praticamente escravo por uma aposentadoria justa.

Ela tinha os cabelos preto carvão, a pele branca na medida do aceitável para quem passa 48 horas num prédio de luzes fluorescentes, e um sorriso doce e astuto, mãos ágeis e firmes na entrega de sua bandeja repleta de coisinhas sem graça e duas garrafas térmicas em cores condizentes com os líquidos armazenados por elas.

– Se precisarem de mim-

Ela ajeitou seus travesseiros e segurou a cordinha com o interruptor de emergência.

– É só apertar.

Notas finais
Eu realmente espero que isso seja um conforto pra essa tristeza que a gente tem passado, prometo que a fic vai ficar mais doce com o tempo. Sintam-se livre pra brigar comigo no twi itter hahaha E aguardem... Esclerosado - Capítulo 3 Será postado, sem mudanças por favor, na segunda-feira. Lela.