Senhor dos Dragões
10 Capítulo 9 - Reunião
Capítulo 9 – Reunião
Agradeceu aos deuses quando percebeu que eram seus irmãos. Os três se entreolharam, surpresos, indicando que eles não haviam exatamente combinado de surgirem ali todos ao mesmo tempo, e Klodike não demorou a perceber Nasi, Heidi – que logo gritou “Dante!” e lhe estendeu os braços para carrega-la -, Maya além de suas irmãs mais novas, Nemeria e Niasit. A última vez que as vira, as gêmeas possuíam apenas quatro anos, agora, tinham quinze.
Ambas eram relativamente altas e esguias, e eram idênticas, tirando que os cabelos ruivos escuríssimos de Niasit eram presos em duas tranças extremamente grossas que lhe caíam além dos quadris, e tinha um olhar afiado nos olhos azuis muito diferente dos dourados calmos de Nemeria, cujos cabelos prateados caíam em ondas ligeiras até o mesmo comprimento que os de sua irmã.
Seu olhar normalmente seguiria para sua mãe, porém acabou olhando para Maya. Ela já havia ganhado um peso considerável, ao ponto de poder ser considerada saudável, contrariando o modo que Naphees havia a encontrado no ano anterior. Seus cabelos, um rosa queimado calmo e claro, eram mais ondulados que os de Nemeria e já lhe caíam até a cintura. Antes já considerara que ela possuía um rosto bonito, apesar de parecer meio estranho – já que ela era careca e esquelética -, mas agora realmente parecia que sua beleza saltava aos olhos. Mas não foi isso que saltou aos olhos de Klodike. Na realidade foi a grande e redonda barriga, expondo uma gravidez avançada.
– Klodike?! – A exclamação de sua mãe acordou-o para o mundo. Mesmo consciente de suas presas, o Dragonês lhe sorriu, confirmando que era realmente ele. Viu o alívio passando pelo rosto de Nasi antes que ela praticamente corresse em sua direção, abraçando-o fortemente.
– É bom revê-la mãe. – disse com um pouco de dificuldade dado o modo que ela apertava seu pescoço, abraçando-a também o mais fortemente que podia — tomando cuidado com suas garras.
– Pelas visões de Taesose, quantas vezes você vai me fazer pensar que está morto?!
– É exatamente sobre isso que eu ia falar. – Vannes se aproximou. – Quando aquele dragão te pegou, pelos deuses, pensamos que era certo que você estava morto. E que nós iriamos morrer se continuássemos lá...
– Eu passei alguns péssimos momentos aquele dia. – admitiu. – Bem, mas estou vivo.
– E bizarro. – Esben complementou.
– É...
– Continuando, — Naphees falou de onde estava, ainda próximo de Maya. Admitiu para si mesmo que sentira muita falta do irmão de cabelos prateados, desde a estranheza de quando logo se reencontraram até a confiança praticamente cega que tinha nele. – o que aconteceu Klodike? Você não está se parecendo com nada que eu tenha visto.
– Ah é. Vou explicar tudo pra vocês...
– Só que antes... De onde veio aquele bebê? – Naphees interrompeu, apontando para o cercado feito por Ahmes.
–... Vou explicar sobre ele também...
– Ele é idêntico a vocês quando eram bebês... – Nasi comentou, o que fez Klodike soltar uma risada sem graça. – Não precisa dizer que ele é seu filho. Mas continua precisando explicar de onde ele veio.
– Pois bem, eu vou, já disse que ia... – respirou fundo. – Mas vamos ver algum bom lugar para sentar, porque além da história ser longa, eu também percebi que Maya está grávida. Parabéns, aliás.
Como Amren e Ahmes haviam saído atrás de frutos, teve de ir atrás de alguma coisa para que Maya se sentasse e que não fosse muito desconfortável. Acabou tendo de esperar Ahmes retornar – arrastando Jalila, que ainda estava emburrada, consigo — para ajudá-lo a fazer algo, junto com Amren que trazia ramos de amoras. Depois de apresentar todos devidamente e terem feito um espécie de poltrona para a garota grávida, tirou Stephan do cercado, já que ele estava ficando visivelmente impaciente, levando-o a uma distância considerável das armas ainda dispostas no chão.
Chegava a ser surpreendente o modo como o bebê não parecia estranhar nada ou não sentir falta da mãe. Os outros com que havia entrado em contato se assustavam e começavam a chorar rapidamente, o que não fora o caso de Stephan até então, já que ele só chorara com o susto que Caleb dera neles.
– Você disse algo sobre uma cidade na montanha e dragões. Finalmente irá explicar? – Naphees questionou.
Assentiu, então sentou na grama. Ia explicar o que acontecera consigo depois de Illuria tê-lo pego, os dragões, a cidade e os dragoneses em bastante detalhes, considerando que seus irmãos estavam presentes e que devia explicações para sua mãe. As gêmeas não diziam nada, apenas sentaram-se perto de Nasi enquanto contava o ocorrido, fazendo Klodike questionar quando as irmãs haviam ido morar com a mãe, já que estavam desde pequenas na casa dos avós.
Contou sobre Saadi e a situação da cidade quando entrara no lugar, os corpos intactos após milhares de anos, e que depois de meses tentando se dar bem com os dragões, finalmente o conseguiu, o que levou a velha dragoa a manda-lo para o topo da montanha, para o Templo. Lá contatara com os líderes mortos – excluiu o fato quanto às suas aparências –, além do ritual e que quando dera por si, estava descendo a montanha do modo que se encontrava agora. Ainda houve a morte de Saadi e a utilização de sua voz, além de emendar em como os outros três haviam chegado ali e como havia descoberto quanto ao seu filho.
– Isso é.... Muita informação. – Vannes disse quando finalmente terminou. Àquela altura, Klodike encontrava-se com os lábios e a garganta secos, e Stephan caíra no sono em seu colo.
– Eu sei. Mas foi exatamente o que ocorreu. – esfregou os olhos, sem perceber que praticamente os olhares de ambos grudavam em suas garras. – Desde que Saadi morreu os dragões estão um tanto estranhos, e só vi Desiderius uma vez desde então. Creio que é a forma deles de se enlutar, acho.
– Desiderius? – sua mãe questionou.
– É o meu dragão, por assim dizer. – respondeu. – Naphees me disse sobre a guerra, assim achei uma prioridade chama-los aqui e convencer os dragões a nos ajudar.
– Convencer? – Esben questionou.
– Eles não são bichos que simplesmente podemos montar e comandar. Eles tem habilidade de pensar, raciocinar e falar. Além de serem orgulhosos, como todos já ouviram falar. Mesmo que anteontem eu tenha tido uma discussão com o dragão que fez com que... Não sei. Zan mencionou que me respeitava como Dragão devido à como eu lidei com o fato, agora os outros, não sei dizer. Eles não me importunam mais, porém pelas expressões deles não sei se eles adquiriram algo próximo do medo ou do respeito. Assim, eu quero ver o que farei com eles também.
– E quanto a nós?
– Primeiro precisamos identificar qual é o dragão de suas marcas. Já vi as de Amren e Ahmes, embora ainda não tenha ido atrás deles... – admitiu. Puxou o poder dentro de si e chamou: — Desiderius!
Não viu a todos pulando pegos de surpresa diante a mudança súbita de sua voz. Apenas procurou com olhar até ver a figura negra dando a volta sobre uma das montanhas mais baixas e vindo na velocidade usual em sua direção. Estranhou, já que o dragão negro não costumava se afastar tanto, sempre dormindo em algum lugar próximo à Nidhi. Ele pousou suavemente próximo a si, mas não demonstrou seu mau humor usual nem fez comentários diante ao número de “duas pernas” presentes ali, o que fez com que Klodike estranhasse mais uma vez.
– Você está bem?
– Qual o seu problema? Está questionando isso desde que me viu ontem!
É, agora parecia Desiderius.
– Ok... Estes aqui são meus irmãos, além de minha mãe, minhas irmãs, Maya e Heidi. Ainda há Ahmes, Amren e Jalila.
– Sim, e?
– Meus irmãos e eles três são Dragões. Preciso de ajuda para identificar todos, já que você os conhece melhor do que eu.
O dragão negro emitiu um som nasal.
– Devo considerar isso um sim, não, ou um “você me acordou para isso?”.
– Um “sim, mas você me acordou para isso?”. – Desiderius retrucou, antes de se deitar pesadamente na grama. Às vezes invejava a capacidade do dragão de se manter elegante até quando era mal educado. – E agora?
– Bem... – virou-se para os irmãos e para os dois que estavam sentados próximos. – Vocês vão ter que mostrar as suas marcas.
Embora tenham parecido desconfortáveis, ninguém fez alguma objeção contra. Curiosamente, todos os seus irmãos, assim como ele, possuíam suas marcas em suas costas, embora os dragões fossem unicamente diferentes. Ficou surpreso ao ver o dragão branco – ou, melhor dizendo, dragoa, já que só havia Sanguine ali — nas costas de Naphees, pois a informação de sua cabeça quanto à Dragões Negros e Brancos era que nunca se existira um Negro e um Branco na mesma geração, porém ali estava a marca, gravada na pele de seu irmão, além de uma longa cicatriz que ia até a metade da extensão de suas costas, subindo e dando a volta por seu ombro. Algo lhe dizia que aquela cicatriz tinha haver com o fato de ter ganhado a marca.
A das costas de Esben era um dragão vermelho sangue e musculoso, porém não era Carleon. Havia visto o dragão – solitário – algumas vezes, mas ele sempre deixava Klodike em paz e nunca o vira falando nem com outros dragões. O das costas de Vannes era azul gelo – ironicamente sendo um dragão de fogo -, que também reconheceu. Era o dragão que acasalara com Illuria, ou seja, o pai de seus filhotes. Ele era um dos dragões que considerara mais próximos a ser simpáticos. O dragão de Jalila ficava na lateral de seu abdômen, um dragão verde enegrecido.
–... A branca você reconhece. É Sanguine. – Desiderius começou, sua cauda movendo-se de um lado para o outro no chão. – O vermelho é Galzra. Nunca realmente falei com ele ou o vi com outros dragões.
– Nem eu. – Klodike respondeu.
– O azul é o pai dos filhotes de Illuria, Beynrel. – um rastro de fumaça saiu das narinas do dragão. – Esse duas pernas deu sorte, ele é de longe um dos mais bonzinhos daqui. – virou-se para Ahmes. – Essa é Avrae, uma das dragoas sem filhotes, o verde é Kelleth, e o roxo desse garoto é Honllah.
–... Honllah?
– Ele vive dormindo nas partes mais altas. É difícil vê-lo.
– Certo, e agora, o que faço?
– Vem perguntar isso para mim?
– Você me entendeu: Devemos ir atrás deles, ou os chamo aqui?
– Tanto faz, se você chama-los eles irão lhe escutar mesmo não querendo. E depois do que você fez com Carleon, todos estão repensando os julgamentos que já tinham prontos quanto você.
Assentiu, então acabou por chamar os seis nomes. Um grupo de pássaros saiu voando, e não demorou muito até visualizar as figuras saindo de onde estavam para ir até onde estavam. Sanguine era tão rápida quanto Desiderius, então logo a viu sobrevoando o local.
Bem, as coisas iriam começar.
Desiderius lhe dissera que os dragões andavam respeitando-o mais desde o incidente com Carleon, assim os dragões não realmente reclamaram. Na realidade, Honllah estava sonolento, Avrae era uma dragoa consideravelmente educada – como Ahmes -, Galzra simplesmente era apático, Sanguine era demasiadamente animada, como um cachorrinho, Beynrel sempre fora amigável – na realidade, se ele fosse um humano, conseguia imaginá-lo como um homem barbudo de risada grave que tomava cerveja com os amigos. – e Kelleth era bem mais amigável que Jalila.
Depois de conseguir convencer alguma interação entre eles – novamente, fora mais fácil com uns do que com outros -, carregou Maya para Nidhi afim de que ela não se esforçasse demais, já que trazia uma gravidez de nove meses, e acabou levando um susto quando ela falou consigo. Sua mãe, que levava Stephan que ficara ligeiramente fascinado com seus cabelos prateados e as gêmeas o seguiam logo atrás.
Mais uma vez fora para as construções próximas à Chede, e com a disponibilidade de casas e quartos disse para que elas escolhessem qualquer um que quisessem. Também teve que ir atrás de dois berços, já que Maya iria precisar de um para o bebê à caminho e Stephan também. No fim encontrou dois cestos estofados – de tamanhos diferentes – que serviriam. Sentiu certos calafrios ao lembrar que os bebês que os usaram poderiam ter morrido naqueles cestos.
E teve de arrastar Caleb para longe da vista de Maya afim de não assustá-la. O esqueleto estava extremamente absorto em encontrar coisas – não entendeu direito o que eram – para fazer as ditas armaduras.
Ao cair da noite, quando nem tentara convencer sua mãe a pegar algo já pronto para que jantassem e ninguém havia retornado – esperava que ninguém houvesse caído dos dragões, aliás -, Nemeria viera correndo: Maya entrara em trabalho de parto.
Sua mãe saíra correndo com a menina, largando Klodike com Stephan, que apenas pegou seu filho – já que não o deixaria sozinho — e correu afim de encontrar Naphees em algum lugar. Quase na boca da caverna praticamente foi atropelado pelo mesmo que passou como um raio ignorando completamente a presença de Sanguine – que poderia ter tornado a viagem milhares de vezes mais fácil. E o fato de o moreno lembrar que o irmão possuía clarividência poderia ter poupado demais seu trabalho.
– O que aconteceu? – Vannes surgiu alguns minutos após Klodike haver parado para respirar, Stephan mexendo impacientemente em seu rosto. – Vi Naphees praticamente se jogando de cima da dragoa...
– O bebê está nascendo. – respondeu ainda ofegante.
– Oh...
–... É um assunto difícil para você?
– É. – respondeu simplesmente antes de continuar seu caminho para a cidade. – Memórias ruins.
Recuperado o suficiente, retornou num passo bem mais lento, meditando o quão grande era a distância entre a cidade e o vale, mas que estava tão acostumado a passar por ela todos os dias – várias vezes ao dia – que a maioria das vezes não percebia. Aquela era uma metrópole abandonada, era obviamente imensa.
O trabalho de parto de Maya em si durou horas. O suficiente para que deixasse Stephan com Amren – o bebê parecia, aliás, extremamente interessado nas asas do parte Arel -, aceitasse a ajuda de Esben para caçar – foi um tanto surpreendente ver que assim como ele, o ruivo caçava com as mãos, quebrando o pescoço da caça. -, e ele era bem silencioso se fosse considerar seu tamanho, porém fora um tanto constrangedor manter-se com ele, já que ambos, mesmo que irmãos gêmeos, não eram exatamente próximos.
Dois antílopes depois, ambos retornaram à Nidhi mais uma vez. E o silêncio desconfortável se mantinha, assim como a inabilidade de Klodike de iniciar uma conversa. Era irônico: era capaz de lidar com dragões, mas suas habilidades sociais com pessoas continuava horrível.
Chegaram a tempo de ouvir o silêncio ser quebrado pelos choros de um recém-nascido.
– E então? – Esben questionou quase no exato momento em que se aproximaram o suficiente de Vannes, que vinha saindo da casa onde a garota dera à luz.
– É uma menina.
– Isso eu já sabia, Naphees disse isso no momento em que ele disse que Maya estava grávida. – ele retirou a carcaça do animal dos ombros.
– Por que eu não estou surpreso? – Klodike murmurou.
– Bom, respondendo à sua pergunta, Esben, a mamãe disse que foi um parto relativamente fácil. Agora se isso foi um parto fácil, não quero ver um difícil. – Ele pôs as mãos nos quadris e emitiu um longo suspiro. – Agora outro bebê, e só eu e você nãos somos pais agora.
– Eu não posso ter filhos. – o mais novo disse simplesmente.
– Sério? – Vannes questionou e o ruivo relegou-se a apenas assentir.
– Depois eu explico. Primeiro temos de cuidar disso aqui, não é mesmo?
Klodike teve de concordar que era realmente melhor facilitar o trabalho de quem fosse cozinhar – ele era horrível, então imediatamente se excluiu na tarefa. Sem contar que no último ano, praticamente toda a carne que ingerira fora crua. -, e retirou uma das Peregrinas de seu amuleto, logo retirando facilmente as peles e os couros dos antílopes mortos.
Quem foi assar as carnes fora justamente Esben, e ele era consideravelmente bom cozinheiro. Comeram todos juntos – tirando Naphees e Maya, para quem Nasi levou comida depois -, e Klodike teve de ir atrás de algo que Stephan pudesse comer com seus poucos dentes, apesar do olhar de reprovação de sua mãe ao pegar algo já pronto na cidade.
E assim, todos foram indo dormir, e o Dragonês não se encontrava exatamente sonolento. Na verdade, tinha outra coisa em mente. Seu filho dormira relativamente fácil – ainda achava assustador o fato de ele não sentir falta da mãe -, assim deixou-o em seu cesto, saindo rapidamente do quarto em que se instalara.
Quantas vezes já fora à torre de Chede? Duas? Mais uma vez foi em direção à bacia, e percebeu a água já rarefeita. Assim, encheu-a novamente com a jarra.
Parou, as garras pressionando as laterais de pedra. Deveria ter pensado naquilo antes, muito antes. Mas por algum motivo – burrice? – não pensara. Quando se dera conta do que deixara escapar, fora óbvio que quisera se dar um soco ou algo do tipo.
Mas estava nervoso. Admitia ter medo do que poderia lhe ser mostrado. Assim, apenas
– Mostre-me Far.
Mordeu os lábios em apreensão quando as águas se turvaram, porém o suspiro de alívio lhe foi inevitável quando a imagem surgiu. Ela estava sentada à beira de uma janela. Estava escuro, mas conseguia discernir os cabelos loiros caindo-lhe até a cintura, e o vestido cuja cor lhe parecia indistinta no momento.
Assentiu, pronto para se afastar e ir até lá, quando percebeu que ela virara a cabeça, olhando para algo fora da imagem que Klodike conseguia ver.
Mas viu claramente quando um homem em armadura Bergal simplesmente a agarrou pelo braço e a empurrou contra a parede, não demorando à prensá-la com seu próprio corpo.
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