Senhor dos Dragões
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Capítulo 10 – Aparições
Fora um misto de ódio com algo indescritível e avassalador. Klodike nem pensara direito, simplesmente saltara no poço e já emergia onde quer que Far estivesse, surgindo praticamente às costas do soldado que sequer o notou, já que tentava imobilizar a garota que reagia à todo custo.
O golpe atingiu certeiramente a nuca do homem, que imediatamente amoleceu e caiu pesadamente no chão, ajudado por Klodike que acabou por empurrá-lo para o lado. Por um momento sentiu uma vontade absurda de mata-lo, porém antes de fazer qualquer outra coisa, olhou para a garota.
Far mantivera-se paralisada, os olhos pregados no soldado inconsciente. Quando ergueu o olhar, Klodike não soube dizer se ela o reconhecera ou se assustara ainda mais, fazendo-o morder a própria língua sem sequer se recordar de suas presas.
Abriu a boca para dizer algo, qualquer coisa, porém escutou passos no corredor fora do aposento em que se encontravam.
— Segure-se em mim. – disse apenas, passando as mãos por sua cintura, suspendendo a Far com facilidade. Não soube dizer se era devido ao fato por sua força reforçada ou se Far estava realmente assustadoramente leve. Quando ela envolveu seus ombros fortemente, dando-lhe a certeza, procurou ver por onde entrara no lugar, logo avistando uma espécie de poço semelhante com o qual entrara, porém menor.
O turbilhão foi rápido. Quem quer depois tenha entrado no quarto nunca soube quem havia atacado ao soldado nem como Far fugira. Os pés de Klodike logo tocaram o chão de pedra da torre, ainda suspendendo a garota e ela fortemente segura nele.
Foi como se só então a realidade lhe abatesse. Far estava lá... Estava mesmo lá? Em seus braços? Sentia e escutava o som de seu coração acelerado tão próximo a si, mas era como se não conseguisse acreditar.
— Far...? – a sua voz quase não saiu, porém sentiu claramente quando ela começou a tremer, os soluços começando a soar do fundo de seu peito. Não conseguia exatamente pensar em nada para dizer, pondo-a no chão. Tomou seu rosto entre suas mãos, erguendo-o ligeiramente a fim de ver sua face.
Era ela. Era realmente ela. Far estava chorando, e a sentiu apertando seus ombros com força entre suas mãos. Sentia-se quase entorpecido, limpou as lágrimas que escorriam por sua pele com seu polegar. Sua cabeça parecia insuportavelmente cheia e ao mesmo tempo absurdamente vazia. Abriu a boca para tentar falar qualquer coisa, mas não conseguiu vocalizar realmente nada. Literalmente, o que conseguiu fazer foi passar seus braços envolta dela e abraça-la com o máximo de força que poderia fazê-lo sem machuca-la.
E foi o que Far fez também, abraçando-o forte e enterrando seu rosto em seu peito, manchando sua camisa com as lágrimas que não conseguia segurar. Beijou o topo de sua cabeça, sem conseguir dizer nada enquanto ela se acalmava.
Não recordava de ser tão maior que Far, ou se ela estava encolhida contra ele. Ela parecia tão frágil que doía. A conhecia há tanto tempo, e ela sempre fora alguém com personalidade consideravelmente forte, tanto quanto a de seu irmão. Ela era o tipo que só chorava quando estava em seu limite, e contando as poucas vezes em que a vira chorar, nenhuma era um choro tão profundo quanto o daquele momento.
— Está tudo bem... – finalmente conseguiu encontrar sua voz para dizer algo, e em resposta, Far o pressionou com mais força. – Me desculpe Far, me desculpe por demorar tanto, por te envolver nisso tudo. Eu...
Far finalmente se afastou, mesmo que ligeiramente, um rio de lágrimas manchando seu rosto, apesar de estar já mais calma. Desta vez, foi ela que o pegou pelo rosto, fazendo-o se calar, e ela estava claramente vendo-o melhor. Não deixou de perceber o quão geladas e trêmulas estavam suas mãos.
— Você está vivo... – ela murmurou com um fio de voz. – Eles disseram... Ah, eles disseram...
— Shh... – Klodike nem sabia se era o certo a se fazer, porém apenas se curvou, quebrando a distância que ainda existia entre os dois e selando seus lábios com os dela. – Está tudo bem, eu estou aqui... – sussurrou quando se separaram brevemente, voltando a beijá-la.
Seus braços desceram para a sua cintura, enquanto Far lhe abraçava os ombros, e Klodike deixou-se absorver. Escutou-a e sentiu – devido à forma que seus corpos estavam colados – soltar um gemido tímido quando aprofundou o ósculo, e nisso deixou com que sua mente se aprofundasse no pandemônio revolto de sensações e sentimentos confusos que há muito parecia querer mergulhar.
Era quase como se sua mente não conseguisse captar a realidade, não conseguindo acreditar que estava realmente a beijando depois de tanto tempo. Havia a mistura de uma saudade absurda, um alívio profundo e aquela paixão louca que havia sido uma constante em sua adolescência. Sentia e ouvia a sua pulsação correndo forte contra seus ouvidos, e havia ainda um subconsciente seu que parecia querer memorizar cada parte de Far, clamando o tempo em que ela passara presa.
Presa...
— Jake? – Far o chamou em dúvida quando ele se afastou subitamente. Ela se encontrava ligeiramente zonza após o beijo apaixonado e profundo que o rapaz lhe dera.
— Eu... É sério, me perdoe... Isso tudo só aconteceu por minha causa. – Klodike soltou um suspiro pesaroso. – Eu demorei tanto, eu me desviei tanto...
— Ei. – ela tocou em seu rosto novamente, fazendo-o olhar diretamente para os olhos castanhos. – Jake, eu não sei o que aconteceu com você, porque você está assim, mas... Faz um bom tempo, perdi a noção do tempo... Eles simplesmente disseram que não havia mais sentido me manterem presa, porque você estava morto. Que havia sido devorado por um dragão.
Abriu a boca, mas Far continuou.
— Eu... Eu não sei exatamente como descrever, mas você tem uma ideia de como eu me senti? Além de nos conhecermos a tanto tempo, além do que havíamos nos tornado um para o outro... É estranho dizer que já havia aceitado o fato de que não iria mais ver a minha família, mas... Você morto... Foi como se eu estivesse sem chão.
— Eu... – Começou a dizer, mas a porta se abriu com um estrondo, assustando a ambos. Por um momento lhe passou que seria Caleb, porém ao olhar para trás, viu Naphees.
Havia algo absurdamente errado.
Sua pele estava totalmente branca, seus cabelos também. Os olhos estavam revirados, deixando apenas a esclera aparente, e lágrimas de sangue escorriam por seu rosto. Seus dedos estavam tão cravados na madeira da porta que havia sangue escorrendo, saindo debaixo de suas unhas.
— Naphees?!— a voz de Klodike saiu num tom incrédulo e assustado. Sentiu Far lhe agarrando o braço com força.
Ele abriu a boca, e conseguiu ver claramente que até sua língua estava branca. A voz que saiu certamente não parecia dele:
Perizad.
Klodike sentiu seu amuleto esquentando, o que o alarmou. Se ele chegara ao ponto de não sentir mais o fogo de dragão, então aquele era um calor considerável e perigoso. Uma vibração começou a passar pela pedra, e o canto celestial tomou conta do recinto antes de, com uma explosão de luz, a fênix literalmente saísse do pendente.
Ouviu Far prendendo a respiração ao seu lado, e viu claramente quando Naphees começou a cair. Dois ou três passos para frente e o pegou antes de bater no chão, vendo a cor prateada retornando vagarosamente na ponta de seus cabelos.
A ave deu a volta na sala, sua cauda e penas flutuando graciosamente como se fossem vestes etéreas, indo pousar sobre o poço. Os olhos de Far estavam grudados na criatura enquanto mantinha-se atrás de Klodike.
— Naphees? – chamou, e os olhos do irmão giraram, voltando ao normal, e então ele o olhou confuso.
— Klodike...? Onde eu...
Perizad abriu suas asas, erguendo suas penas e começou a gorjear, alarmando ainda mais Klodike ao perceber a temperatura aumentando no ambiente. Olhou imediatamente para Far, a sua pele estava começando a ficar vermelha.
Ela era humana.
— Far! – exclamou, a agarrando pela cintura e saltando pela porta literalmente segundos antes da sala ser tomada por um mar de chamas.
Não teve tempo de parar, pois o fogo fora tanto que ele seguiu descendo pelo corredor como um perseguidor enquanto Klodike praticamente voava escadaria abaixo, sem nem perceber Naphees logo atrás de si. Escutou Far gritando alguma coisa, e saltou para a esquerda assim que saíram pela porta, o seu irmão para a direita, e o fogo literalmente desceu como uma avalanche, atingindo a parede à frente.
— Jake! – Far gritou, batendo em seu ombro. – A minha saia e o meu cabelo!
Arregalou os olhos ao abaixar o olhar e ver a bainha da saia de Far – que chegava em seus tornozelos — em chamas, subindo rapidamente, assim como o cabelo que havia se soltado e batia em sua cintura. Naphees atravessou as chamas correndo com uma careta, sua pele imediatamente se avermelhando e algumas queimaduras surgindo em sua superfície.
Sem pensar suas vezes, Klodike arrancou a saia de Far, praticamente a rasgando, deixando-a apenas com o blusão que usava por baixo, e só viu que Naphees agarrara o cabelo da garota, o cortando na altura de seus ombros – já que o fogo se alastrava rapidamente – quando se levantou e o de cabelos prateados jogava os fios em chamas longe, suas mãos ainda mais queimadas.
Olhou para baixo, preocupado com a situação das pernas de Far, mas contrariando todas as suas expectativas, elas não se encontravam com uma ligeira vermelhidão sequer, o que contrastava imediatamente com Naphees, que jazia com queimaduras.
— O que deu nessa fênix?! – o seu irmão gritou por cima do rugido do fogo.
— Não sei! – gritou de volta, voltando-se para a garota. – Você está bem?
Ela olhava para baixo, olhando para os membros avermelhados com incredulidade, porém ao perceber que ele falava com ela, ergueu a cabeça e assentiu, apesar dos grandes olhos assustados. Far se agarrou com um pouco mais de força a ele enquanto se distanciavam ainda mais das chamas, porém estavam num corredor sem saída, não lhes dando outra alternativa a não ser esperar para as chamas se apagarem e torcerem para Perizad não decidir mudar seu curso.
Franziu o cenho quando viu uma silhueta se formando entre o fogo, e Caleb simplesmente saiu do meio, os ossos brancos tinindo. Ele pôs os dedos ossudos sobre seus ossos da pélvis e disse:
— Certo, que bagunça é essa que está acontecendo aqui?
— Bagunça?! – Klodike exclamou. Uma fênix começar a por fogo em tudo era bagunça?!
Ia dizer mais alguma coisa, porém mais uma vez seus olhos saltaram das órbitas quando Dekhi saiu dentre as chamas, acompanhado de mais um homem a quem não reconheceu, porém imediatamente soube que havia algo errado.
Ele possuía pele escura, cor de canela. Cabelos longos e impecavelmente lisos, negros como tinta que se derramavam até seus quadris, sem, porém cobrir nenhum centímetro de sua face de tão perfeitamente arrumados. Seu rosto era bem desenhado e no mínimo exótico, como provavelmente não era mais visto em Aurtrai. Maçãs do rosto altas, queixo bem marcado, lábios grossos e um nariz perfeitamente reto e orgulhoso, mas seu maior diferencial eram os olhos. Olhos amendoados, com escleras negras e íris de um verde tão profundo que quase parecia negro. Olhos com uma profundidade agonizante, e que tal profundidade poderia afogar os desavisados.
Mas aqueles eram os olhos de um dragonês!
— Perizad. – Dekhi chamou num suspiro cansado, e imediatamente as chamas pararam.
Cantando alegremente, a fênix desceu o corredor, indo pousar no ombro do deus, e soltou um guincho animado – ainda assim melodioso – ao ver o dragonês ao lado dele.
— Que situação... – Caleb comentou, voltando-se aos três que ainda se encontravam meio encolhidos contra o fim do corredor. – Essas coisinhas sempre foram meio instáveis.
Perizad soltou um pio indignado.
— Enfim, vocês estão bem?
— Bem?! – Klodike exclamou. – Ela explodiu a torre da Visão!
Dekhi e o desconhecido voltaram-se para a fênix com uma expressão cética, porém a criatura sequer pareceu se importar, e começou a ajeitar as suas penas com o bico. Caleb chocalhou os braços, e então apontou com um dedo ossudo para Far, que se encolheu contra Klodike, sem acreditar que estava realmente vendo um esqueleto falante.
— Essa garota não é daqui.
—... Não. – Os gêmeos acabaram respondendo simultaneamente. Klodike sentiu perfeitamente quando os dedos de Far se enroscaram contra o tecido de sua camisa, o que o fez envolve-la de maneira a tentar tranquiliza-la.
— Perizad não quis machuca-la, entretanto. – Dekhi proferiu. – Ela está intacta... – seus olhos desceram para os cabelos queimados ao chão. – Ou quase.
— Bom, me desculpe, mas ela assustou a todos nós, e ainda queimou Naphees! O que deu nela?!
O deus ergueu seus olhos verdes para Klodike. Ele não parecia irritado com o tom que fora usado, na realidade... Havia um quê de diversão em seus olhos, apesar de ele não ter sorrido.
— Então... – O homem que se mantivera calado até então falou, e qualquer coisa que Klodike poderia dizer pareceu fugir de sua mente. Sua voz era profunda, grave e poderosa, mas ao mesmo tempo suave. Entretanto, ele falava de uma maneira que o impelia a ficar calado.
Ele também era um deus. Isso era óbvio. Ele não trazia um brilho diferenciado como Dekhi, na realidade, ele não brilhava, mas ainda havia o poder absurdo que emanava dele, porém.
— Um novo Dragão Negro aparece. E um Branco também. Faz muito tempo desde a última vez que isso aconteceu.
Klodike ergueu as sobrancelhas, e Caleb falou antes que dissesse algo.
— Desde você e Lila.
— Me desculpe, mas... – finalmente arranjou voz para dizer algo. – Quem é você?
O Dragonês apenas cruzou os braços sobre o peito musculoso coberto por sua túnica verde musgo e pendeu um pouco a cabeça para o lado.
— Amdis.
— Ah... – Começou e Naphees olhou para Klodike em tom de dúvida. – O deus da Vida.
— Você está confundindo... – Dekhi disse num tom ausente, erguendo a braço, fazendo com que Perizad saltasse de seu ombro para ele.
— Eu não sou o “deus da Vida”, esse é cargo do garoto aqui ao lado. – era isso mesmo? Ele havia chamado Dekhi de “garoto”?! — Acho que a maneira mais correta de dizer é que eu seria a vida em si.
— Não continue explicando – Caleb interveio, fazendo Amdis revirar os olhos -, porque a situação é confusa demais para se entender de primeira. E vocês, podem sair daí do canto? Está se tornando meio constrangedor.
Naphees acatou o pedindo, e Klodike antes olhou para Far, que claramente pedia ajuda com seus olhos, só então recordando que ela literalmente não entendia nada: do que estava acontecendo, do que estavam conversando, tanto porque ela sequer falava a língua deles.
— Certo... – pensou inicialmente que fosse Dekhi falando, entretanto percebeu que a voz vinha de trás dos outros três. Seus lábios se comprimiram quando uma quarta figura apareceu, completamente idêntica a Dekhi, Ele era completamente branco com exceção dos olhos cor de fogo. Seu cabelo era ondulado e caía-lhe pelos ombros, em sua testa havia uma coroa em forma de asas, com uma única pedra em seu centro, gravada com um símbolo que não conseguia enxergar à distância. Usava um manto comprido e branco como tudo mais e em sua mão esquerda levava um grande cetro dourado, quase de seu tamanho, a ponta esculpida na forma de uma garra que servia claramente de poleiro para uma fênix, também branca, que se encontrava em sua ponta. – Pensei que íamos discutir outra coisa além de assustar três crianças.
— Você me toca, irmão. – o loiro murmurou, enquanto Perizad soltava outro grito alegre ao ver a outra fênix, que apenas balançou sua cabeça para ela, batendo as suas asas.
— Você está certo Akhir, porém a fênix do seu irmão decidiu destruir a torre. – Caleb virou-se para o deus que acabara que chegar.
— Nós podemos ir...? – Naphees murmurou.
— Ninguém nunca os prendeu aqui. – Dekhi disse. – Mas não os culpo por terem se assustado.
Pelo menos isso... Klodike olhou confuso para as figuras. Um esqueleto, duas fênix, e três deuses. Três deuses. A única vez que tivera contato direto com um, fora por meio de sua mente. Mas ali estavam, em carne e osso para qualquer um ver. A primeira coisa que pensava era o que estavam fazendo ali, mas também vinha a certeza de que não deveria se meter nos assuntos deles.
E havia também Caleb... Ele falava com tanta naturalidade com eles, era como se os conhecesse desde sempre.
— Perizad? – Olhou alarmado quando ouviu o tom de dúvida na voz do deus no momento em que finalmente decidiu se mover com Far.
A fênix abrira as asas, as chamas surgindo ao seu redor de tal forma que era possível literalmente ver o ar vibrando. A outra ave que se encontrava com o deus da Morte apenas se moveu, resignada, cobrindo a cabeça com ambas as asas, antes que Perizad literalmente disparasse em sua direção.
Não teve tempo de se mover, ela literalmente lhe bicou na junção do pescoço e o ombro, fazendo-o exclamar de dor quando o sangue literalmente espirrou, tão quente ao ponto de ser fumegante, indo cair principalmente no rosto de Far.
Levou a mão ao pescoço, virando-se imediatamente para a loira, alarmado devido a sua proximidade e a temperatura de seu sangue, e viu quando a fênix girou no ar, passando direto no Naphees e indo se chocar na humana, antes da explosão de chamas ocorrer.
Fale com o autor