Senhor dos Dragões

8 Capítulo 7 - Surpresa Inesperada


Notas iniciais
Adivinhem quem teve uma prova em pleno domingo? :'D Bom, ENEM chegando, esse é o ano da verdade pra mim! Espero que gostem do capítulo!

Capítulo 7 – Surpresa Inesperada

Depois de encontrar roupas que coubessem em Amren – e ter de cortá-las afim de que suas asas entrassem – foi à passos largos até Chede, o palácio que capturava a visão acima da cidade. Sabia que deveria fazer algo com os corpos, porém era um tanto desanimador perceber sua quantidade. Levaria muito tempo para...

Ou não. Havia esquecido de um detalhe. Bem, tentaria depois.

O garoto ainda o seguia, talvez com medo. Na verdade, sabia que ele estava com medo, já que ele estava seguro na barra de sua camisa, mas decidiu ficar quieto. Olhando para cima, via alguns dragões posicionados em diversas construções que pareciam ser semelhantes à poleiros para eles. Aparentemente alguns dragões apenas ousaram entrar na cidade após a morte de Saadi.

– Aonde você está indo? – O menino questionou em voz baixa.

– Chede. – apontou para o palácio. – Preciso usar algo de lá.

– Mas... Você não tem medo dos dragões?

– Eu tinha antes. – Admitiu. – Principalmente porque só cheguei aqui devido ao fato de uma dragoa ter me capturado para dar de comida aos filhotes dela. – quase o ouviu arregalando os olhos.

– E por que não te comeram?

– Porque eu fugi, o que fez com que os dragões cuspissem fogo em mim. – respondeu. – E eu não queimei.

– Não queimou?! Mas os dragões...

– Exatamente por isso. Me levaram à uma dragoa muito velha e ela me explicou sobre essa cidade e essa raça. – Ele olhou para alguns dos corpos. – Eu me tornei deste modo como você vê ontem, assim como ela também morreu ontem.

– Mas foi só porque você não queimou? Quer dizer... Eles ainda podem morder...

– Há isso também. – puxou o tecido de sua roupa pela gola, fazendo que Amren soltasse a barra, até expor suas costas.

– Uma marca que nem a minha!

– Sim. – respondeu simplesmente, ajeitando suas roupas. – Diferente, também. Para cada marca que há dessas em alguém, há um dragão vivo idêntico a ela. Tecnicamente falando, podemos montá-los. – olhou para o menino que o encarava intensamente. – Mas você tem que se entender com o dragão primeiro. As personalidades deles são como as das pessoas: Alguns são mais amigáveis que outros, há uns mais agressivos, outros são simplesmente calmos, mas não querem muita conversa.

Sentiu-o olhando-o com pelo menos uma mínima desconfiança, e não o repreendeu pelo fato. Sabia muito bem sobre as histórias contadas sobre dragões, sobre como eram orgulhosos, violentos e sanguinolentos. Agora que os conhecia melhor, via que os casos normalmente citavam apenas alguns tipos de dragões. Obviamente havia diferenças, assim como haviam homens honestos e serial killers.

Subiram as escadarias e entraram no local, e ouviu o menino alado prendendo a respiração. No caminho explicara o que era a cidade e o que eram aqueles mortos, e acabara bombardeado de perguntas. Respondera como pudera, somente deixando de lado aquelas que não sabia realmente o que era.

Havia uma rede de torres no palácio, e uma série delas eram dispostas aos Dragão e Dragoa que fossem os profetas. Havia alguns artefatos ali que não era necessário ser um profeta, entretanto, para se poder utilizá-los. E era justamente atrás de um deles que Klodike estava atrás.

Foram para uma série de corredores à direita, e estes não pareciam ser extremamente movimentados, já que era apenas hora ou outra que um corpo aparecia. Subiram uma longa escadaria, que dava voltas e mais voltas. O som atrás de si indicava que Amren já desistira de subi-las com as próprias pernas e seguia voando baixo. Admitiu que sentiu uma pontada de inveja enquanto suas coxas protestavam com o esforço.

Quando finalmente chegou, não soube dizer se ficou surpreso ou não ao ver o corpo de Naoaki caído sobre uma mesa baixa. Só então percebeu que ele tinha garras, e elas eram de um tom de verde tão morto quanto seus cabelos.

– Nossa... É impressão minha ou ele caiu de cara num prato de sopa? – Amren questionou.

Moveu-se ligeiramente para ver melhor.

– É verdade. – constatou. -... Deixemos ele aí. Não vai se mexer mesmo.

– É...

Klodike olhou envolta, atrás do que procurava. A sala era apinhada de estantes, pergaminhos, livros e bugigangas que fazia uma ideia do que eram, mas não estava exatamente animado para verificar. Ao fundo havia o que era algo semelhante à um poço, mas dele emanava uma clara luz azulada, além de exalar um vapor que não descreveria como glacial, mas sim místico.

Havia uma bacia de pedra não muito distante, com um jarro de prata incrustado de esmeraldas ao seu lado. Sua alça era uma serpente, e o pegou enquanto Amren sentava numa almofada o mais distante o possível do corpo de Naoaki. Foi até o poço, a água parecia oscilar entre um azul quase branco, lilás e rosa bebê, e mergulhou a jarra lá dentro. Quando a encheu, retornou à pia de pedra, vertendo o líquido ali.

– Mostre-me Naphees. – Disse simplesmente quando a água se tornou uniforme.

A superfície escureceu por um milésimo de segundo, antes de começar a brilhar intensamente ao ponto de fazer Klodike cerrar os olhos, formando a imagem à sua frente. Viu seu irmão com uma expressão concentrada, mexendo num alambico sobre uma mesa. Um homem barbudo de aparência simpática apareceu na imagem, dizendo algo à ele, que apenas assentiu, antes de sumir.

Ótimo. Naphees não estava no meio de uma missão ou de alguma situação em que desviar a atenção poderia lhe causar a morte. Esperou-o apagar o fogo do instrumento apenas por precaução antes de tocar em seu amuleto de Dekhi e simplesmente dizer:

– Naphees.

Foi como se a sala em que estivesse simplesmente houvesse sumido, e estava em outra. O espaço, entretanto, não era tão diferente, porém era bem iluminado e suas paredes eram claras, além de não ter o formato circular.

Viu as costas de Naphees se enrijecendo por um instante antes de virar para ele. Viu os olhos amarelos imediatamente se arregalando e por um tempo, ele pareceu sem fala, olhando-o de cima à baixo.

... Klodike?!

– Sentiu a minha falta?

Não sabia dizer se o mais novo estava chocado ou surpreso, mas o encarou como se tentando formular uma resposta coerente.

– Mas pelos deuses, o que aconteceu com você? Depois que aquele dragão te pegou, eu pensei que...

– É, eu sei. Eu também pensei que eu ia morrer, e sinceramente não é uma experiência muito boa. – suspirou. – E quanto ao que aconteceu comigo... É complicado.

– Eu escutei sua voz ontem. – disse, fazendo com que Klodike engolisse o seco. Ele também? Bem, ao menos aquilo confirmava sua suspeita de que pelo menos um de seus irmãos era um dragão. – Mas pensei que finalmente estava ficando louco como os Clearwater sempre disseram que fui. – deu uma risada seca. – Mas, realmente, o que aconteceu?

– É por isso que vim atrás de você... Ou tecnicamente falando, estou contatando você, porque não sei onde você está.

– Ha’qin.

– Você está aí? Ótimo, é perto. Lembra-se de que quando aquele dragão me capturou? Estávamos próximos de Amardad, não estávamos? – ele assentiu. – Pois bem, há um vale próximo à encosta. Eu preciso que você venha até aqui.

Naphees piscou, então abaixou o olhar, antes de franzir o cenho.

– Klodike, mas o que...

– É sério. Você deve ter ouvido minha voz, então sabe que eu falei isso, mesmo que não tenha entendido. – mais uma vez ele pareceu surpreso. – Tanto você quanto Vannes e Esben.

– Eu não sei... Quer dizer, estou com a mamãe, Heidi e Maya aqui e as gêmeas, e os dois estão ainda na guerra... Com tudo o que vem acontecendo, não sei se eles poderão...

– A guerra está tão ruim assim?

Ele fez uma expressão pesarosa e assentiu.

– Praticamente invadiram todo o litoral do continente. – respondeu. – E estão avançando terra adentro.

Soltou a respiração.

– Certo, me escute. O que eu preciso que vocês venham ver aqui pode ser capaz de mudar o rumo da guerra. – Naphees mais uma vez franziu o cenho. – Você acha que os Bergais podem ir contra dragões?

O outro encarou-o em silêncio durante um tempo, a expressão incrédula. Sabia que o que dera a entender soara absurdo, mas não era muito além da realidade.

– Você não está dizendo que...

– Sim, eu estou dizendo. E se for tão sério assim, pode trazer as cinco com você, há onde elas ficarem. Há uma cidade dentro da montanha.

O quê?!

– Isso é só uma pequena parte do que você tem que saber.

– E como você vai lidar com os corpos? – Pulou ao ouvir a voz de Amren em algum lugar. Olhou envolta mas só se via na sala onde o irmão estava. Ele, aliás, também o escutou.

– Corpos?

– Não, não foram os dragões que comeram, e.... Amren, você consegue ver ele? – apontou para Naphees e olhou para o nada.

– Não, estou vendo você falando com o vento, e não sei se devo me questionar a sua sanidade mental ou se é uma dessas coisas mágicas desse lugar funcionando. – a voz do menino veio de novo.

– Certo. – suspirou. – Vou dar um jeito nas coisas aqui, e você pode trazer elas. Há como se manter confortável aqui.

– Bem, a viagem... – Naphees coçou a cabeça. – Certo. Estão vou voltar para casa e avisar à elas. Vou tentar ir o mais rápido possível. Pelo fogo ou pela água, talvez.

– Obrigado. Nos vemos daqui a algum tempo, então.

A imagem do de cabelos prateados se dissipou, e estava de volta à torre, onde encontrou Amren olhando-o de modo questionador. Ergueu seu amuleto.

– Posso contatar com meus irmãos usando isso.

– Ah.

Repetiu o processo da água com Esben e com Vannes, além de entrar em contato com eles para convencê-los a ir até Amardad. Aparentemente, ambos também haviam o escutado. Esben estava bem ao sul, num dos pontos de resistência contra a invasão Bergal, assim acabaria arranjando problemas se sumisse, mas daria seu jeito. Vannes estava de volta à Cleethorpes e estava à caminho de Ha’qin, assim era outro que chegaria rápido.

Quando terminou, deu um suspiro cansado e quando viu, Amren estava flutuando a pelo menos um metro e meio do chão, sentado de pernas cruzadas. Constatou que deveria ser divertido fazer aquilo quando se podia controlar vento, flutuar e voar pelos lugares, ainda mais sendo uma criança. Olhou-o com uma sobrancelha erguida e ele desceu a uma altura onde apenas bastou esticar as pernas para poder se levantar.

– E agora?

– Agora? Vou ter que lidar com os corpos da cidade.

Amren manteve-se em silêncio por um instante.

– Mas são...

– Muitos, eu sei. Mas acho que o que tenho em mente dará certo.

Fizeram todo o caminho de volta. Não deixou de reparar também como o garoto era quieto. Se fossem Celinne ou Pearl, elas estariam o enchendo de perguntas. Aquilo lhe deu uma pontada de dor, mas respirou fundo. Seguiram até o lado de fora e parou sobre a escadaria central, vendo as centenas de corpos já visíveis ali.

– Se aqui já há muitos... O que vai fazer?

Não respondeu, apenas se concentrou, invocando o poder dentro de si. Ele subia como uma onda de adrenalina, deixando-o indiferente a qualquer outra sensação à sua volta. Ou, pelo menos era assim, já que ainda não havia se utilizado daquela língua estando sob pressão. Simplesmente ordenou para que todos se movessem, e seguindo os costumes dragoneses, indo para os túmulos de suas famílias. Se como tudo mais daquela raça fora esquecido, então aqueles locais deveriam estar intocados.

Inicialmente nada aconteceu, porém à medida que os trovões se esvaíam, parecia que um brilho tomara conta da cidade. Diante de seus olhos, como se feitos por partículas de luz, os corpos começaram a se desintegrar, a poeira brilhante erguendo-se num véu de sonhos em direção ao topo da montanha, à abertura para o mundo. Observou o fato surpreso por um momento, até ter a sensação de que seus ossos haviam começado a chocalhar por dentro. Piscou por um momento, sua visão parecendo sair de foco por alguns segundos, até que passou. Quando percebeu, a cidade estava literalmente vazia.

– Nossa! O que você fez?!

– Pedi para todos irem para os túmulos de suas famílias. – respondeu. Aquilo... Fora uma fraqueza por ter se esforçado demais? Se fosse... Admitia estar assustado não porque ela ocorrera, mas sim porque fora algo extremamente rápido e leve considerando-se os milhares de corpos que movera. Decidiu manter-se neutro. – Não esperava que desse certo.

– Bem, isso foi fantástico! Estava pensando como iríamos tirar tantos corpo... Onde você vai?

– Pegar comida. – respondeu. Era um tanto quanto engraçado ver Amren sendo a criança maravilhada que estava sendo, porém quando a tontura voltou, decidiu que era melhor se alimentar, já que ainda não havia comido nada. Havia um cesto no chão com alguns pacotes, e quando pegou, viu ser um doce folheado mais ou menos do tamanho de sua mão.

– Eca! Vai pegar comida dos mortos?! Isso tá aí há milênios!

– Mas não está estragado e ainda está quente. – Abriu o pacote e deu uma mordida. Agradecia por tudo que pegava normalmente era feito por bons cozinheiros. – E está gostoso. Para mim, é de bom tamanho.

Ouviu o ruflar de asas bem mais pesado do que os de Amren, e erguendo o olhar, viu Desiderius voando aparentemente em sua direção. Havia um pontinho dourado em sua boca, guinchando de tal maneira que conseguia escutá-la à distância. Bem, parece que Kayerith estava indignada com sua própria situação. Ouviu o menino prender a respiração atrás de si quando o dragão pousou bem à sua frente, largando a filhote que vou cair bem nos braços de Klodike. Ela finalmente se calou.

– Eu estava começando a me perguntar onde você estava.... – olhou para o dragão negro. – Você está bem?

– Estou, por que não estaria?

Ia responder algo quanto à morte de Saadi, porém decidiu se manter quieto. Sabia que não era a melhor das ideias insinuar algo e acabar por deixar Desiderius irritado. Mesmo que suas personalidades fossem um tanto parecidas, o dragão se controlava muito menos do que o Dragonês.

– Vejo que há outro duas pernas aqui. – disse, olhando para Amren. – Há outros dois no vale.

Klodike piscou.

– Mais gente?!

– E se quer um conselho, acho melhor você ir antes dos outros verem elas. Ele podem achar que é comida. – dito isso, ele simplesmente alçou voo.

Virou-se para Amren, e literalmente enfiou Kayerith em seus braços, assustando ao garoto. Ela deu o início de um guincho, porém pareceu se conformar e fechou os olhos. Quase conseguia vê-la como um gato ronronando.

– Segure-a por enquanto. Ela vai tentar roubar a minha comida. – Deu uma mordida. – E vamos indo.

– E-ei, é uma boa ideia? Quer dizer, é um filhote, a mãe dele....

– Dela. – corrigiu. – E ela não tem mãe. Pelo menos não que eu saiba. E infelizmente eu acho que ela me vê como algo mais próximo de uma mãe. – fez uma careta. – Não se preocupe, ela nasceu ontem. Ainda não tem dentes.

O menino olhou cuidadosamente para o dragãozinho, que parecia estar prestes a cair no sono, antes de seguir ao mais velho. Saíram do lugar bem mais rapidamente do que entraram, já que agora Amren estava curado, mas ainda assim demoraram um pouco até chegar ao vale.

Aparentemente, as dois mencionados por Desiderius haviam se utilizado da água, e ambos eram mulheres, fazendo-o se questionar se o dragão não sabia diferenciar homens de mulheres.

Uma estava de pé, sua estatura era algo de baixa para média. Seu cabelo era tão curto que parecia ser mais um brilho vermelho sangue em seu crânio, a pele bronzeada com diversas cicatrizes mais claras por ela, que o encarou com impenetráveis olhos azuis. Ela era bem musculosa e suas roupas rasgadas eram claramente roupas masculinas que ela adaptara para o seu corpo, além de haver uma cimitarra em seu cinto. Ainda assim, apesar da aparência visivelmente masculina, seus olhos eram delineados com khol e ostentava grandes brincos de ouro em suas orelhas.

A outra estava sentada no chão, mas se levantou quando o viu. Ela era exatamente o oposto da ruiva. Ela era alta e delicada, a pele bastante escura, cor de café, coberta por intricados desenhos de flores, folhas e ramos, sendo que no meio de sua testa havia o desenho de uma lua. Seu cabelo era cacheado e frondoso, além de aparentemente macio até a cintura, a cor recordando à Klodike da coloração clara de margaridas e seus olhos eram de um violeta profundo. Suas roupas eram trajes de dançarina, semitransparentes e sendo opacos somente nas regiões em que realmente deveriam cobrir, o que deixava bem visível o dragão cor de cerejeira por toda a extensão de sua perna esquerda.

E pelo estado das duas, parecia que ambas haviam acabado de escapar de um completo caos.

– Mas pelos sete infernos, o que é.... – a ruiva praguejou ao vê-lo. Novamente, não se surpreendeu.

– Klodike. – respondeu simplesmente. – Acho que de maneira acidental acabei as atraindo aqui, não?

A ruiva abriu a boca para dizer algo com uma expressão não muito boa, porém a outra garota se adiantou.

– Ouvindo som de sua voz, posso afirmar com certeza que foi justamente um dos motivos que nos trouxe aqui. – Sua voz era suave e melodiosa. – Além do fato do exército Bergal haver invadido Naif Na’il, onde vivíamos. Para escaparmos da retaliação, acabamos vindo nos refugiar aqui.

Sentiu uma ponta de choque ao ouvir aquelas palavras. Naif Na’il caíra?! As coisas estavam ainda piores do que imaginara! A cidade era um importante centro comercial, além de ser um dos braços mais fortes do exército. Mesmo que as tropas houvessem se movido, ainda havia um número massivo de soldados no lugar.

– Essa notícia me pegou de surpresa. – admitiu. – Estou isolado aqui há meses, então temia sobre como o estado da guerra poderia estar.

– Isolado aqui?! Com tantos morrendo do lado de fora você... – a ruiva começou.

– Jalila, por favor. – a outra moça suspirou. – Você sequer o conhece para já dirigir-se assim à ele. – voltou-se ao Dragonês. – Escutei sua voz, e embora não houvesse compreendido todas suas palavras, sei que mencionava dragões e esta montanha. Estou certa?

– Completamente. Acabei vocalizando um desejo ontem e bem, estou vendo que acabou tendo resultados inesperados.

– Vocalizando? – Jalila ergueu uma sobrancelha. Sua voz transparecia desdém. – Gostaria que toda vez em que eu dissesse um desejo em voz alta ele se realizasse.

Por um momento Klodike questionou a possibilidade do dragão de Jalila ser Carleon. Tinha de admitir que eles eram perfeitos um para o outro só pelo que estava vendo.

– Você não viu o que ele pode fazer só falando uma língua estranha. – Amren disse e só então as duas pareceram reparar no menino, apesar de ele ter asas douradas e estar com um dragãozinho no colo. – Ele conseguiu limpar a cidade inteira!

Por Jaya moleque, isso aí é um dragão?! – Jalila exclamou.

– É.

– Cidade? – a outra questionou.

– Há uma cidade dentro da montanha. – explicou. – E esse é um dos motivos que acabei ficando aqui... – olhou para a boca da caverna que dava à Nidhi. – Como se chama?

– Ahmes. – respondeu. – E minha companheira se chama Jalila.

– Certo, Ahmes e Jalila, há uma cidade dentro da montanha, e este lugar é o lar dos dragões do fogo de todo o continente... – Ia continuar mas Jalila o interrompeu.

– Ah, certo. Você nos atrai pra cova dos...

– Continuando, eles não vão nos fazer mal. A menos que alguém os irrite.

Ahmes olhou para Jalila como se estivesse direcionando sua parte do aviso para ela, que apenas rolou os olhos. Ao fim, acabaram indo novamente para a cidade, e mais uma vez naquele dia Klodike teve de explicar toda a situação, a cidade, o que havia ocorrido ali, os dragoneses, o que havia ocorrido consigo. Não havia mais os corpos, mas as construções majestosas eram ainda assim provas o suficiente para qualquer um. Ficou ainda mais surpreso ao constatar que ao contrário do que faziam consigo, os dragões que estavam pelo caminho apenas se mantinham fazendo o que quer que estivessem fazendo.

Ahmes era calma e educada, Jalila era esquentada e cabeça dura. Não demorou muito para perceber que ambas dividiam uma amizade um tanto quanto explosiva e turbulenta, mas que a ruiva respeitava a parte Nellac.

Como não podia simplesmente obrigar ninguém a ficar do lado de fora e escalar lugares para dormir, simplesmente se mantiveram nas construções próximas à Chede. Admitiu que era bom ter alguém além dos dragões para conversar, que não precisasse explicar aspectos da vida dos “duas pernas”, porém as notícias da guerra o deixaram nervoso. Cidades dizimadas, populações inteiras se tornando escravas e sendo levadas para serem vendidas. As coisas teriam de ser mais rápidas do que imaginava.

Quando adormeceu, sonhou novamente com o deserto de areia branca. A montanha estava novamente à vista, e embora distante, parecia mais próxima. Estava em meio a um mar daquelas estelas, todas de pedra cor de gravite, todas entalhadas de maneira tão intricada que não sabia dizer se havia algo escrito nelas ou se eram apenas desenhos à primeira vista ininteligíveis. Eram menores do que pareciam à distância, as maiores chegavam à metade de seu tronco.

Olhou para cima, vendo o céu completamente azul e sem nuvens. Não havia sol nenhum à vista, porém ele era claro como se houvesse um. A brisa soprou, quase como uma brisa marítima, e com ela veio uma risada. Uma risada feminina, ao mesmo tempo adulta e infantil, uma risada divertida e ao mesmo tempo tímida.

Mesmo quando seus olhos percorreram todo o ambiente, não viu ninguém. A risada soou novamente, desta vez atrás de si e só viu o rastro de longos cabelos brancos e de tecido transparente.

– Tem alguém aí? – questionou.

– E você precisa ver para saber se há? – a voz brincalhona questionou.

Quando pensou em responder, ela surgiu à sua frente. A pele era rosada, os cabelos brancos e compridos que tremulavam num vento próprio. Seus olhos lhe deram a certeza de que era uma dragonesa, as íris prateadas parecendo brilhar contra o negro de sua esclera. Suas vestes curtas eram transparentes ao ponto de Klodike ser capaz de ver todos os detalhes de seu corpo nu sob o tecido, vendo com clareza o dragão branco que iniciava em seu ombro direito, rodeando todo seu tronco e terminando no tornozelo esquerdo. Ela era pequena, embora fosse incapaz de afirmar sua idade. O corpo era magro e firme, porém já possuía as curvas de uma mulher.

– Agora você vê, não vê? – questionou, divertida.

– Quem é você?

– E isso importa? – ela questionou, pondo-se atrás de uma estela. – Eu estava morta, porém agora me libertei... – com um sopro do vento, os cabelos sumiram, e quando Klodike percebeu, ela estava apoiada já na estela atrás de si. – Mas sei que consigo ver muitas coisas sobre você... Inclusive coisas que deverão acontecer e coisas que nem você sabe. Achei que deveria lhe alertar sobre uma.

– Como é?

– Ora, o novo Dragão Negro em milênios está certo em reunir todos os Dragões nesses tempos sombrios... – disse numa voz fanhosa. – Mas você pretende deixar seu próprio sangue de fora?

Franziu o cenho. Não fazia a mínima ideia de quem era aquela Dragoa, e ela já vinha lhe afirmar coisas daquele modo, falando com ele daquele jeito.

– Claro que não. – respondeu. – Chamei meus irmãos aqui, eles...

– Sim, sim! Seus irmãos! Como sempre, os quatro primeiros! – surpreendeu-se de novo ao perceber os braços dela se passando por seu pescoço, apoiando-se neles. Sentiu todos seus pelos se eriçando ao sentir a respiração dela contra seu ouvido. – Mas e o seu filho?

Jurou que quase sentiu o próprio coração parando.

– Eu não tenho fi...

– Ah.... – ela riu. – Tem sim! Um menininho saudável que infelizmente não está trazendo tanta alegria como deveria.... – Ela pôs um dedo sobre seus lábios quando tentou responder. – Bem, mas com toda essa loucura que se tornou a sua vida é compreensível que não tenha tido tempo de descobrir! Mas agora... Como era o nome da mãe dele mesmo...?

Estava sonhando, não estava? Então por que sentia seu coração tão acelerado, o nervosismo ali disposto como se estivesse acordado? Filho? Ter um filho? Era sua mente lhe pregando peças ou...

– Como é que se pronuncia isto mesmo...? Ah sim! – A Dragoa continuou. -... Haydée, não é?

Notas finais
:D É crianças, isso acontece, por isso... Usem sempre camisinha!