Senhor dos Dragões

9 Capítulo 8 - Stephan


Notas iniciais
Olá pessoas! Hoje fiz o Enem, espero ter tirado uma nota boa pq essa semana foi o tudo ou nada pra mim, já que tô no terceiro ano... Nada a declarar sobre as lágrimas de emoção que me caíram quando vi o tema da redação, e as risadas quando lembrei de todos os meninos da minha sala que se recusavam a fazer debates e redações sobre temas voltados às mulheres kkkkkkkkkk Bom, tirando isso, espero que gostem do capítulo!

Capítulo 8 — Stephan

Só percebeu que havia acordado quando já estava subindo a torre do poço da Visão. Piscou por um momento, voltando a si, e olhou para a escadaria escura atrás de si, olhando então para a sua frente. Já conseguia ver a porta, os entalhes de sol por ela. Estava suando frio, então acabou passando a mão por seu rosto. Elas estavam trêmulas. Sabia que fora um sonho, que aquela visão lhe fora proposta por seu subconsciente, porém havia algo ali que lhe dizia que devia dar ouvidos àquela estranha Dragoa e verificar a veracidade dos fatos.

Outra coisa que sabia era que havia aquela possibilidade. Havia saído com – muitas — outras garotas antes, mas a questão de ir para a cama com alguma só ocorrera três ou no máximo quatro vezes, e com quem fora, só ocorrera uma. Haydée fora a mais recorrente, com o sexo descompromissado de ambos.

Bem, se ela engravidara... Como ninguém percebera? A última vez em que haviam deitado juntos fora exatamente um mês antes de tudo acontecer e sua vida dar aquela reviravolta. Ela fora embora um mês antes do sequestro de Far e Klodike retornar à Aurtrai, e se não fosse realmente seu subconsciente lhe fazendo gracinhas, sabia que era tempo o suficiente para que pelo menos um pouco da barriga se despontasse.

Abriu a porta, indo diretamente até a pia de pedra. Nem passou por sua cabeça a possibilidade daquele artefato ser incapaz de mostra-la, uma vez que ele estava em Aurtrai e ela na Terra, porém ainda assim, simplesmente disse:

– Mostre-me Haydée.

As águas se turvaram, e por um instante pensou que não daria certou, porém a imagem se abriu e permitiu-se prender a respiração. Era um quarto escuro e amplo, iluminado apenas pela claridade de uma porta aberta, disposta para uma varanda. Percebeu que o local era praticamente vazio, se não fosse por uma lareira que encontrava-se acesa, uma cama de casal e.... Um berço.

–... Certo. – murmurou. – Certo, certo... Se acalme...

Demorou um tempo para que conseguisse perceber Haydée no recinto. Via-a andando lentamente pelo espaço vazio, os longos cabelos negros como Klodike se recordava, batendo-lhe pouco além da cintura. Ela embalava um pequeno pacote de panos que não precisou de ninguém para vir lhe dizer o que era. Apenas se afastou da pia com um suspiro, fazendo com que a imagem se dissipasse.

Apenas estendeu a mão, fazendo com que a superfície da água do poço se incendiasse.

Não soube como fez aquilo, apenas recordou-se de cobrir seu corpo com uma fina camada de chamas uniformes, formando a ilusão de que seus olhos, orelhas e mãos continuavam normais. Assim, subiu na borda de pedra e adentrou nas chamas.

Soube que saíra no lugar certo quando escutou o ofego. O espaço era exatamente como havia visto com a água: amplo e vazio, tirando pelos móveis espaçados pelo local, dando-lhe uma aparência quase desesperançada. Estranhou imediatamente o local: O antigo quarto de Haydée certamente era tão grande quanto, porém possuía uma escrivaninha e era abarrotado de livros e os cadernos que tanto escrevia.

–... Jake? – era uma sensação estranha. Era como se houvesse ouvido aquela voz e aquele nome em outra vida. Há quanto tempo não era chamado de Jake? Há quanto tempo não era mais Jake? Olhou ela, sentada na beirada da cama como se houvesse acabado de fazer o mesmo. Haydée era semelhante à ele – pelo menos, ele antes de voltar a ser Klodike -, raramente demonstrava suas emoções, sempre possuindo suas máscaras. Mas via agora claramente a surpresa, tanto em seus olhos quanto no rosto bonito.

– Quanto tempo, não é? – disse por fim, voltando-se para ela. Embora não fosse o esperado, pareceu-lhe que ela voltou ao normal.

– Por onde você esteve? Pegou um tapete voador e acabou indo dar uma volta na Arábia à lá Mil e Uma Noites? – questionou e o fez rir de leve. Sabia que aquele comentário era devido às suas roupas. – E esse cabelo?

– Queimou. – respondeu. – Está mais apresentável agora. Cheguei a ficar até sem sobrancelhas.

Ela lhe ergueu uma sobrancelha, porém emitiu um suspiro, abaixando as mãos e as pousando sobre seu colo. Parecia que agora a jovem encontrava-se pesarosa.

– Não acho que você tenha vindo até aqui porque queria me visitar. – começou. – E algo me diz que você descobriu sobre o nosso pequeno acidente que está naquele berço bem ali.

Apenas retribuiu o olhar que ela o dava. Era intenso mas não era exatamente como se ela o culpasse por algo, já que ambos haviam sido responsáveis, mas... Era como se ela estivesse no limite com algo, mesmo que não fosse exatamente o bebê.

– Algo me diz que a sua saída da escola foi por causa disso.

– Eu tive um dos casos clássicos, ainda que não conhecidos, de pessoas que engravidam mas a barriga não cresce. – respondeu. – Eu estava com uns três ou quatro meses quando descobri... E os meus pais também. Eles enlouqueceram. Ainda mais quando descobriram que você era o pai.

– Imagino. No auge da confusão “Eu matei minha família e estou foragido”. Mas onde estamos agora?

– Paris, França. – informou. – Meus pais nunca foram o tipo de pessoa que realmente se importam com os filhos deles, mas sim com a imagem deles. – Klodike a encarou com um olhar de dúvida. – Assim, além de eu ser uma filha naturalmente “problemática”, eu engravidei, não sou casada e o pai do bebê é um suposto assassino foragido. Acho que não preciso dizer que eles enlouqueceram.

– É... – finalmente saiu de perto da lareira, adentrando no quarto. De onde estava não conseguia ver completamente o bebê, mas conseguia ver o peito da criança subindo e descendo, adormecido. – Apesar de eu não ter matado a minha família, digamos que passei por algumas situação que me ensinaram como matar.

– Nossa, que medo. – ela ironizou.

– Sabe Haydée, as vezes o seu jeito me dá calafrios.

– Estou com calafrios é quanto ao que meus pais estão pensando em fazer. – Haydée disse. – Desde que nos mudamos, eles me jogaram neste quarto e não me deixam sair. Os empregados que vem trazer comida e arrumar aqui tem ordens de não falar comigo e me trancar ali – ela apontou para uma porta que não havia visto ainda. – para que eu não saia enquanto fazem o trabalho.

– Está brincando... – Klodike começou.

– Não estou. Para você ter uma ideia – ela apontou para a porta que era claramente que dava acesso ao corredor. Jurava que havia uma mancha escura no chão. – eu tive o bebê encostada contra aquela porta. Uma empregada acabou não resistindo quando eu gritei e veio me ajudar. – abaixou a mão. – Ela foi demitida por isso. Na minha frente. Segundo meu pai: “Eu fui a responsável por engravidar, então eu deveria ter que lidar com todas as consequências”, então ele saiu praticamente arrastando a mulher pelo cabelo.

Olhou-a chocado. O Sr. e a Sra. Niévre sempre aparentavam ser aqueles pais amorosos que tentavam entender suas filhas à todo custo e as cobriam de mimos até desnecessários. Não conseguia casar a imagem deles fazendo o que Haydée estava relatando.

– Veja a sua cara. Parece que você não mudou tanto quanto aparenta.

– Mudei mais do que você imagina. – retrucou. – Mas não vem ao caso. O que houve depois?

– Jogaram um berço aqui no quarto. Só. – respondeu num tom cansado. – Não estava sequer montado e nem havia colchão. E eu havia acabado de sair de um trabalho de parto, nem havia conseguido levantar ainda do chão. À noite Desiré e o meu irmão mais velho – não sabia que Haydée tinha outros irmãos – deram um jeito de escalar a varanda para montar para mim, além de me trazer algumas coisas. Não me pergunte como eles trouxeram o colchão e tudo mais. Se não fosse por eles o bebê não teria nem uma fralda, já que de novo os meus pais pareceram esquecer da minha existência depois que ele nasceu.

– Sinceramente... Não consigo pensar nos seus pais fazendo esse tipo de coisa.

Ela deu uma risada irônica.

– Não consegue? Saiba que é de família. Sempre dão um jeito de dar sumiço nos “problemáticos”. Minha prima minha engravidou há cinco anos e apareceu morta duas semanas depois de dar à luz. A menina que ela teve desapareceu. Ninguém derramou uma lágrima ou moveu um dedo para ir atrás dela nem dos culpados. Na verdade, só diziam que era culpa dela mesma. – ergueu as mãos num gesto de dúvida enquanto mais uma vez Klodike a encarava num estado de choque. Certo, agora a família dela era parte da máfia ou coisa do tipo?! – Eu estou surpresa por ainda não ter sido arrancada desse quarto e ter aparecido morta em uma vala, já que eu tive esse bebê já há um ano e pouco. Antes que você pergunte, ele nasceu no dia 24 de agosto.

– Sua família é da máfia ou coisa do tipo?

– Eu não deveria falar esse tipo de coisa, mas já que você saiu da minha lareira o que me dá pelo menos 99,5% de certeza de que você não é um ser humano, eu posso responder: Bruxos.

– Você está...

– Brincando? Não. – ela ergueu a mão, fazendo um movimento como se estivesse sacudindo água delas. Antes que Klodike percebesse ele já estava literalmente batendo na parede como se houvesse sido acertado por um touro furioso. Ou melhor, deveria estar batendo na parede, porque a sensação que teve foi de estar batendo realmente no concreto, mas não emitiu barulho e nem sentiu sua superfície. – Não precisamos fazer barulho, ok?

– Você é uma bruxa, certo, agora eu acredito. – murmurou num ofego de dor, passando as mãos nas costas como um velho. – Haviam me dito sobre magia na Terra, mas sinceramente... Ver é outra história.

– “Magia na Terra?”. Você não é daqui, então?

– Não.

– Legal, transei com um alien.

Se segurou para não dar uma risada alta.

– Certo, não sei se posso ser caracterizado como um alienígena, mas como não sei explicar exatamente o que sou, pense como quiser. – finalmente reunindo coragem, foi até o berço. – Qual é o nome dele?

– Stephan.

O bebê estava adormecido, como já havia reparado. Haydée mencionara que o tivera há um ano, portanto, ele já não parecia mais um joelho como era comum aos recém-nascidos. Estava escuro, porém a sua visão permitia vê-lo com bastante clareza: Stephan não era um bebê acima do peso, como as pessoas costumavam achar bebês gordinhos fofos, sua pele era bem clarinha com um rubor saudável no rosto, os cabelos finos característicos de crianças pequenas eram escuros, agora não conseguiam dizer se eram negros como os de Haydée ou se eram do seu ruivo escuríssimo de anteriormente – já que depois de ter se tornado Dragonês, misteriosamente seus cabelos também se tornaram pretos.

– Mesmo que ele seja um projeto de gente – Haydée disse, indo para o seu lado. – eu o achei a sua cara.

– Projeto de gente? – deu uma risada baixa. – Você está indo bem para quem está numa situação como a sua. – virou-se então para ela. – Mas o que pretende fazer?

Haydée inclinou ligeiramente a cabeça, encarando o bebê.

– Eu estava planejando fugir de casa. Eles deixam que eu use a varanda, e eu sei que eles fazem isso como um desafio, algo como “Tente”. Eu não podia simplesmente escalá-la estando grávida, e muito menos com um bebê. Não posso pô-lo numa sacola nem nada do tipo, e o pior é que eles puseram algumas proteções mágicas nos muros da propriedade.

– Tudo funcionaria como um alarme.

– Exato. Eu conseguiria neutralizá-lo somente em mim, mas... Novamente, há Stephan aqui. Por mais horrível que possa parecer, não duvido muito que meus pais seriam capazes de deixa-lo chorando aqui até ele morrer de fome, já que é a existência dele que destrói a tão adorada reputação deles, tanto no mundo bruxo quanto no normal, por assim dizer.

Klodike virou-se ligeiramente para ela. A situação deveria estar mesmo sendo desesperadora, considerando-se o que ela revelara sobre a própria família, com a incerteza do amanhã e ainda havendo a presença do bebê. Ergueu uma mão e a pousou delicadamente no tórax da criança, começando a diminuir sua temperatura. Stephan abriu os olhos de maneira sonolenta, antes de seus cabelos lentamente começarem a adquirirem um tom verde glacial.

–... O que você está fazendo?

– Não sei. – admitiu. – Foi um impulso... Sabe, você pode achar idiotice, mas... Eu tive um sonho, era uma mulher questionando se eu não ia reunir “o meu próprio sangue” no local onde estou. Eu havia chamado meus irmãos, mas ela...

– Questionou se não iria levar seu filho?

Haydée encarava o bebê, que ainda de maneira sonolenta agarrou um dos dedos de Klodike, encarando-o da maneira mais curiosa que seu sono permitia. Não sabia o que estava se passando por sua cabeça, porém ela apenas também estendeu uma mão, ajeitando os cabelos negros antes de dizer:

– Se for por isso, leve-o.

– Haydée...?

– Tenho certeza de que será muito melhor para ele ficar onde quer que você esteja do que comigo. Aqui nessa casa há essas criaturas que sou obrigada a chamar de família. Se eu conseguir fugir, não sei qual poderá ser a minha situação. Não sei se serei atacada na rua, não sei se passarei fome ou frio. Um bebê não deve passar por isso. – continuou. – Claro que, antes de tudo tenho que saber se você ao menos sabe carregar um bebê.

– Não sou tão imprestável quanto aparento. – respondeu. – Eu sei cuidar de bebês, carregar, trocar fraudas, alimentar, pôr para arrotar e tudo mais. Se você não se lembra, Eu tive de ajudar com Pearl, já que ela era recém nascida quando fomos adotados e Debrah era uma mimadinha imprestável. Mas eu perguntei foi quanto a você. Está tudo bem para você?

– Acabei de dar todos os motivos para...

A luz do corredor foi ligada, fazendo com que Haydée parasse abruptamente de falar. Klodike escutou claramente os passos rápidos – e por sua intensidade -, raivosos ainda distantes no corredor, assim como o coração da garota começando a se desestabilizar. Ela simplesmente correu para a porta que demonstrara anteriormente e voltou com uma sacola de pano, branca e simples, que simplesmente jogou nos braços do rapaz antes de pegar Stephan e passa-lo para ele.

– Ele tem ouvidos de cachorro, não é possível...

– Eu estou ouvindo alguém aí com você?! – a porta começou a ser batida violentamente, e Klodike ouviu um Sr. Niévre que mais parecia um animal raivoso do que o homem simpático que havia visto por toda sua vida em Nova York. Repentinamente acreditou em tudo o que Haydée dissera quanto aos próprios pais. – Você conseguiu chamar alguém, sua...

– Saia daqui! – Haydée sibilou, então tudo o que Klodike fez foi girar aos calcanhares e praticamente deslizar para dentro da lareira. A última coisa que viu foi ela correndo para a varanda com o som de chaves girando ao fundo antes de sair de volta na sala do poço.

Piscou por um segundo, antes de olhar para a criança em seus braços. Stephan o encarava com uma mão em sua boca, o olho direito era completamente negro como os de Haydée, tão negro que não era possível discernir a íris da pupila. Já o direito era do mesmo tom que o seu azul gelo. Seu cabelo retornara ao normal, e com a iluminação via que ele era realmente ruivo, não moreno.

–... Meu filho, huh... – murmurou. – Acho que as coisas estão indo rápido demais...

– Você tem um filho?

Teve de arranjar forças de outro mundo para se lembrar de não deixar o bebê cair. Ahmes estava sentada no mesmo banco em que Amren se sentara no dia anterior, já havendo trocado suas roupas de dançarina por outras mais práticas. Quando ela chegara ali?

– Ahmes?

– Sinto muito, vi você saindo e acabei o seguindo. – justificou-se, levantando. – Esse bebê é seu?

– Bem, sim... – respondeu. Largou a sacola que Haydée havia o entregue, que caiu de forma macia no chão, ajeitando o menino já muito bem acordado em seus braços e começava a se mover de forma impaciente. – Digamos que só fiquei sabendo dele hoje.

– Posso vê-lo? – acabou o passando para a moça, e Stephan aceitou-a de bom grado. – Mas se só descobriu hoje, como já o trouxe?

– Digamos que... A mãe dele está numa situação complicada e pediu para que eu o trouxesse. Seu nome é Stephan. — abaixou-se, verificando o que havia na sacola que Haydée o entregara. Eram fraudas de pano, algumas roupas e mantas. Parecia bem do feitio dela, organizar tudo para alguma emergência.

– Bem, é um belo menino. – elogiou. – Mesmo que seja pequeno, ele se parece bastante com você... Aquilo ali é uma ossada?

Seguiu a direção em que ela olhava, vendo entre as sombras escuras de duas estantes o que lhe pareceu ser um crânio. Aproximou-se, percebendo que era realmente uma ossada. Via as costelas caídas sobre uma pilha de ossos e sobre ela estava o dito crânio. Estranhou, já que os corpos não se decompunham, como fora comprovado pelos outros cadáveres. Tocou o crânio, afim de verificar se era mesmo osso ou qualquer outra material, sendo ao fim uma escultura ou algo do tipo.

Tanto ele quanto Ahmes gritaram quando o esqueleto simplesmente começou a tremer e como se possuindo seu próprio redemoinho, girou, se montando. Assustado, Stephan começou a chorar, fazendo com que ambos voltassem por um segundo para ele.

– Senhor Naoaki, finalmente posso... – Klodike sentiu o sangue lhe fugindo quando o esqueleto simplesmente começou a falar. – Epa. Espera. Quem são vocês? Onde está o senhor Naoaki?

– ...Um esqueleto falante? – murmurou, recuando discretamente. Tirou o bebê dos braços de Ahmes, que ainda tentava acalmá-lo, e conseguiu fazê-lo parar de chorar. O menino virou a cabeça como pôde, olhando a pilha de ossos com grandes olhos marejados.

– Não qualquer esqueleto, Caleb é como me chamo! – exclamou, então virou-se para o rapaz com sua versão de um olhar esperançoso – apesar das órbitas vazias – e cruzando os ossos que formavam os dedos de suas mãos. – Agora, onde está o senhor Naoaki? Ele que havia me mandado ficar quieto por alguns dias!

Ahmes olhou para Klodike pedindo ajuda. Este umedeceu ligeiramente os lábios.

– Ahm, pois bem... Caleb, é.... Naoaki morreu. – Jurou que viu o esqueleto adquirir uma espécie de expressão chocada. Como ele fazia isso lhe era um mistério.

– Quê?! Quando? Por que ninguém me avisou?! O senhor Shirong com certeza está com problemas, principalmente porque Munir sumiu e ele era o único aprendiz de....

– Não Caleb, explicando melhor... Todos morreram. Há trinta mil anos.

O esqueleto congelou na mesma posição.

– Como você disse?

– Todos os dragoneses morreram há trinta mil anos. – repetiu. Stephan começou a se mover impacientemente, o que fez com que Klodike mudasse o modo com que o segurava, e ele estendeu uma das mãozinhas para Caleb. Aparentemente o esqueleto havia despertado sua curiosidade.

– Mas você é claramente um Dragonês, então como todos morreram? – ele olhou para Stephan e lhe estendeu um dedo ossudo. – Ah, oi pequenino!

– Digamos que fiquei assim depois um incidente no Templo dos Antigos. – respondeu. – Hum... Algo me diz que eu deveria saber sobre você...

– Espera, você foi para o Templo dos Antigos?! – ele simplesmente saltou à frente, pegando as bochechas de Klodike e as esticando como se faria como uma criança. Seus dedos eram particularmente dolorosos. – Então você é um Dragão Negro ou um Branco, certo?!

– Negro. – respondeu, sentindo os olhos marejarem com a dor. O bebê encarava os ossos de Caleb como se fossem coisas de outro mundo. E, bem, eram coisas de outro mundo. – Por favor, está machucando...

– Ah sim, sim! Então nem tudo está perdido! – Ele bateu palmas, que soou mais como duas pedras se batendo. – Bem, mas quantos Dragoneses há agora?!

– Se você está se referindo à esta aparência... Só eu. Se está se referindo à pessoas capazes de controlar água e fogo, alguns milhares...

– Se não foram reduzidos à centenas, graças à guerra. – Ahmes disse, o que o fez concordar.

– Guerra?

– Er, longa história.

– Ah, não importa! – abriu a boca para retrucar, mas no último segundo achou melhor não fazê-lo. – Já falou com os dragões? Todos os dragões?

– Os de fogo sim, mas eu tenho ou...

– Prioridades sempre serão os dragões!

– Não quando se está ocorrendo um genocídio. – retrucou. – Acabei lançando um chamado para reunir os Dragões existentes sob Nidhi novamente. Três além de mim já chegaram. Pretendo apresenta-los a seus dragões o mais rápido possível e lhes dar meios de o lado Dragonês deles despertarem, antes de retornar à guerra.

– Se o senhor diz... O que um pobre esqueleto como eu pode fazer? – Klodike ia dizer algo: quer que fosse sobre não ser “apenas algo que ele disse”, ou o fato de ter sido chamado de senhor, mas Caleb continuou. – Mas se vocês forem retornar à guerra, precisarão de armaduras à altura de Dragões!

– Olhe, Caleb, seriamente não acho que tenhamos tempo.

– Bobagem! Este esqueleto consegue fazer as coisas num piscar de olhos! Se houver vinte Dragões sou capaz de fazer armaduras para todos antes de vocês pensarem de montar os seus dragões e irem para a guerra!

Ele saiu com passos decididos e barulhentos, fazendo com que Klodike olhasse para Ahmes.

– O que acabou de acontecer aqui? – ela questionou.

– Aparentemente, um esqueleto falante que serve os Dragões.

– Algo me diz que até você foi pego de surpresa.

– Eu gritei. Acho que isso diz tudo. – Se assustou quando sentiu Stephan pondo a mão em sua boca, bem sobre suas presas. Aparentemente o pequeno havia as avistado. Tirou-a delicadamente e continuou. – Acho que passamos tempo o suficiente aqui para que tenham dado nossa falta. E temos que explicar o motivo de haver um bebê aqui, além de um esqueleto andando por aí.

Ahmes assentiu com um suspiro cansado, então ambos acabaram descendo as escadarias e fazendo todo o caminho para fora de Chede. O local parecia mais assustador para si sem todos aqueles corpos, incrivelmente, e Stephan não parava quieto. Apesar de seu pouco tempo de vida, aparentemente ele estava maravilhado em ver alguma coisa além do quarto em que vivera preso até então, a cabecinha girando de um lado para o outro, olhando tudo o que conseguia captar.

– Ei, eu vi um esqueleto correndo por aqui ou... Certo, de onde brotou esse bebê? – Jalila os recebeu assim que entraram na rua das construções que haviam se utilizado para dormir. Ela e Amren estavam do lado de fora, algo lhe dizendo que ela acordara o menino quando dera a falta deles, visto a cara amassada dele, que piscou diversas vezes ao ver Stephan.

– Você viu um esqueleto correndo. – Ahmes confirmou.

– E quanto a esse bebê...

– Posso vê-lo? – Amren questionou, interrompendo ao mais velho.

– Você já está vendo com os olhos. – Jalila disse de maneira abrupta para ele, fazendo com que o garoto a olhasse feio.

– Jalila, por favor...

– Aqui. – passou Stephan para Amren. Ia ensiná-lo como pegar o bebê, mas como ele o pegou corretamente, acabou continuando o que ia dizer. – Ele é meu filho. – Recebeu os olhares surpresos dos dois. – É uma longa história, a mãe dele é da Terra e a família dela não aceita muito o bem o fato. Ela o me entregou para que conseguisse fugir, já que poderiam fazer algo a ela e ao bebê.

– Agora além de Dragões e um bando de crianças, agora temos um bebê que sequer sabe andar. Ótimo. – Jalila bufou. – Espero que tenha alguma ideia de como vai alimentá-lo, porque eu não...

– Jalila, minha mãe era meio Bergal, meio Nellac. – Ahmes interveio. – Usando-se da terra, conseguir algo para alimentar este bebê será fácil. E pare de reclamar, porque não é você que vai cuidar dele, e sim o pai dele, e caso ele precise de ajuda, eu estou aqui. – Klodike olhou-a agradecido enquanto Jalila revirava os olhos.

– Você é boazinha demais, sinceramente...

– Eu não sou boazinha demais, eu tenho empatia, algo que você precisa sinceramente aprender.

Talvez tanto Amren quanto Klodike tenham feito a mesma expressão ao ouvirem a resposta afiada de Ahmes, porém quando Jalila pareceu começar a inflar como um baiacu, o Dragonês rapidamente interveio:

– Acho melhor ficarmos do lado de fora, no vale. Lá há comida e água fresca, além de que seremos capazes de ver se outros Galrdais vão acabar chegando aqui.

– Ah, certo, ficaremos mofando como lagartos ao sol?!

– Caso alguém queira, eu achei naquela casa – Amren segurou o bebê com um braço apenas para apontar. – uma série de espadas sem ponta, claramente para prática.

– E você sabe usar uma espada, bebezão?

– Meu pai me ensinou. – ele retrucou. Parecia finalmente estar ficando irritado com ela.

– Oh nossa, e onde ele está agora? Numa mina de escravos dos Bergais ou está...

– Na guerra em Agnata, pare de ficar dizendo coisas que você não sabe, está só se passando por uma idiota insuportável!

– Do que você me chamou, seu...

– Calem-se, os dois! – Klodike exclamou, porém sem perceber trocou de língua, e os trovões abalaram a montanha. Ambos se calaram e o olharam, até Stephan o encarando com seus grandes olhos. – Não estamos aqui para brigar, mas sinceramente, Jalila, estou me mantendo calado com seu jeito desde ontem, mas você está arranjando briga comigo e com Amren desde ontem! Não fizemos nada para você, mas já está enchendo a porcaria da paciência! O que você pensa que nós somos?! Ninguém aqui é melhor do que ninguém, então sinceramente, pare de querer se mostrar “a durona” e cale a porcaria da sua boca!

Sabia que ela havia entendido que ele já estava irritado com ela – talvez os trovões e o chão tremendo houvessem lhe feito compreender. -, e mesmo que não houvesse compreendido tudo, sabia que ele não havia sido educado. Ela pareceu inchar novamente, mas a ignorou.

– Agora, vamos pegar aquelas espadas que Amren disse, e vamos ficar do lado de fora. Se você tem algo contra e acha que nós não sabemos lutar e por isso não queira participar, que fique assando no sol como um lagarto. Apenas fique calada e pare de ser antipática, antes que eu ignore o fato de você ter uma marca de dragão e te ofereça como comida para os filhotes!

Ela abriu a boca pronta para brigar, mas seus olhos acabaram descendo para Zafrina que surgira sabe-se de onde, e estava se esfregando nas pernas de Klodike como um gatinho. Assumindo que ele falava sério, Jalila ficara calada, embora parecesse ainda inchar e houvesse uma veia pulsando visivelmente em sua testa.

– Amren – Ahmes chamou o menino alado. – passe-me Stephan, e ajude Klodike com as coisas.

Ele assentiu, entregando o bebê, e mostrou onde encontrara as ditas armas. A grande maioria eram espadas e adagas, mas também havia ali maças, machados de guerra, machadinhas e mais uma variedade de armas. Como dito pelo garoto, todas possuíam lâminas cegas, então aquele local deveria funcionar como um centro de treinamento quando ainda funcionava. Apenas por precaução, pegaram armas para Jalila também.

– Você usa adagas? – Amren questionou.

– Normalmente. Sou ambidestro, então uso duas. Mas sei usar espadas também, e alguma coisa de arquearia. Embora o meu irmão mais velho seja bem melhor do que eu.

– Sério?

– É. Sou do Esben. – Jurou que viu os olhos do menino quase saltando fora da cara. – Não se preocupe, não saio cortando gargantas por prazer. Mas presamos o silêncio, velocidade e agilidade, assim usamos armas mais leves. – deu de ombros. – Bem, estou há quase um ano e meio sem treinar. Devo ter enferrujado um pouco.

Saíram e perceberam que as duas já haviam se direcionado para o vale, assim apenas foram atrás. Amren contou que seu pai ensinava a ele e a sua irmã à como se defenderem quando descia de Agnata por qualquer motivo, então ele sabia como se aproveitar também de seu controle de ar.

Do lado de fora, Jalila havia sumido e Ahmes estava sentada no chão, havendo posto Stephan deitado de bruços lá. Ele parecia impressionado com a grama, e Klodike se questionou se em algum momento ele não sentiria falta da mãe, coisa que o bebê ainda não havia demonstrado. Parecia que a garota estava trançando – ou controlando? – as folhagens para fazer brinquedos para ele.

– Onde está Jalila? – questionou assim que se aproximaram.

– Foi bufar em algum lugar. – ela olhou para cima no momento em que Illuria, a dragoa cor de mostarda que havia capturado Klodike meses antes passou voando com um grande antílope preso às patas – Só espero que ela não se meta em problemas com dragões. Embora talvez se ela se meter, vá finalmente tomar jeito.

– Ela sempre é assim?

– Sempre, e você é o primeiro que consegue pô-la no lugar dela. Parece que isso a abalou um pouco. – ela ergueu o que parecia ser uma lhama feita pelas folhas da grama. Teve que admitir que era um trabalho impressionante. – Mas tenho que admitir que isso é bom, ela tem que perceber que não pode tratar todo mundo como ela bem entender. Jalila sempre tenta conseguir tudo à base da força, e pela primeira vez ela está diante de alguém que ela não vai conseguir nem encostar.

– Espero que isso não acabe fazendo com que ela faça alguma besteira.

Amren pôs as coisas no chão, o que atraiu a atenção de Stephan, que se pôs de pé, tentando se aproximar das armas com passinhos desajeitados. Klodike estava indo afastá-lo, mas também percebendo o fato, Ahmes fez com que ramos brotassem do chão, formando grades verdes e floridas num grande espaço para o bebê ainda conseguir se mover. Aquilo desviou a atenção de Stephan, que se pôs sentado e ficou mexendo nas flores de um dos ramos.

Ao invés de treinarem ou fazerem qualquer coisa do tipo, Klodike preferiu que fossem atrás de comida. Após mostrar o que – por experiência própria – era ou não era comestível, subiu no local que costumava dormir, ainda encontrando Rarac inerte lá. Ele havia aparentemente mudado para sua forma de cachorro.

– Ok... – respirou fundo. Já fazia um dia inteiro desde que retornara, e mais algumas horas, formando quase o segundo dia. Assim, simplesmente sentou pesadamente encima do Denor.

Não contou nem até dez, com um rugido furioso Rarac acordou.

– Saia de cima de mim! – acabou rindo com o tom irritado. – O que há de errado com você?! Sentar sobre os outros não é divertido!

– Eu sei. – se levantou e viu o Denor travando ao vê-lo. – Mas você está dormindo há quase dois dias. Achei que era melhor acordá-lo, já que você perdeu muita coisa.

– Aos sete juízes dos Sthanom, o que aconteceu com você?!

– Digamos que acabei falando com os mortos e me tornei um Dragonês. – respondeu. – Agora temos outras quatro pessoas aqui, sendo que uma delas é um bebê. E ele é meu filho.

– O quê?! – simplesmente saltou quando o Denor exclamou, vendo a água do rio borbulhando, indicando que mais alguém chegava ali.

Notas finais
c: