Sendo Aline
20 Capítulo 20
Dor de cabeça.
Dor de cabeça.
Mais dor de cabeça.
Era tudo que eu conseguia pensar naquele dia.
Marcelo acabou dormindo na minha casa e ficou tomando conta de mim. Enquanto gargalhava da minha situação, nada mais que o óbvio. Não dá pra reclamar muito: pelo menos ele estava bem mais feliz do que nos últimos dias.
O melhor de tudo é porque não era só pelo fato de eu estar naquela situação. Era porque ele e o Igor tinham se acertado e ele agora via mais esperança quanto à situação dele. E eu não preciso nem dizer que o sorriso dele me fazia feliz.
Ele não precisava ter me contado que os dois se acertaram. Na verdade, ele não precisaria dizer absolutamente nada. Eu sentia aquilo. Estávamos conectados como os dois melhores amigos que somos desde sempre.
- Não corta o cabelo — Eu disse, irritada, empurrando o travesseiro contra minha própria cara.
- O quêêêê?
- Não corta.
- Como éééé?
- Não corta essa bosta desse cabelo!
- Não estou entendeeeeendo — Ele brincava, aumentando sílabas pra me irritar.
Ele chegou ontem dizendo que iria cortar o cabelo, e eu chorei por causa disso. Na verdade, eu estou impressionada que ele não tenha ouvido coisas piores. Eu só me lembro de ter chorado bastante. E de ter rido também. E de ter chorado enquanto ria. E por aí vai.
Eu acho que não beijei meu primo, apesar de querer bastante ao ter acordado e ter lembrado do rosto dele. Ainda não acredito como ele pode ter sido tão legal comigo. Parecia que eu o conhecia há muito tempo.
- Aline? — Minha mãe disse, ao chegar no quarto. Sem bater, como sempre.
- Sim, mãe?
- Você está bem?
- Estou cuidando dela — Marcelo disse, e sorriu de leve.
- Então está bem — Ela continuou. — Vocês não querem vir almoçar?
- Que horas são? — Perguntei.
- Mais ou menos três horas, se não me engano — Marcelo respondeu por ela.
- Já são três horas? — Perguntei, ainda sem tirar o travesseiro de cima do rosto, já que alguém tinha aberto a janela.
- Vocês vem? — Minha mãe perguntou.
- Daqui a pouco, mãe.
Depois disso, ela voltou para a cozinha, já que hora, no primeiro dia do ano, meus familiares estariam aqui para o almoço. Na verdade, por serem três horas, seria muito provável que a maioria deles já tivesse até comido.
Resolvi tomar um banho, e quando levantei, percebi que tinha sido atropelada por um bonde. Quer dizer, pelo menos por dentro. Por fora a única coisa que parecia ter sofrido tinha sido o meu cabelo, o que é relativamente normal devido à umidade.
Enquanto tomava um demorado banho, torcia para que meu tio não tivesse ido, ou que pelo menos ele não me sacaneasse na frente de todos os outros familiares que não sabiam da minha situação. Enquanto isso, Marcelo cantarolava lá fora, completamente descontraído. Me peguei sorrindo enquanto secava meu cabelo.
Saí do banheiro tentando agir da forma mais normal possível enquanto caminhava para fora do quarto com o Marcelo. Por mais que tentasse, eu sempre tinha aquela sensação de que todos estavam olhando para mim como se eu fosse horrivelmente culpada de alguma coisa.
Quando cheguei na parte de fora da casa, então, eu o vi. Meu primo estava lá, sentado numa das cadeiras, parecendo um estranho no paraíso usando uma blusa dos Beatles, completamente entediado. Incrivelmente ele pareceu se animar minimamente quando me viu chegar junto de Marcelo.
- Vim te salvar — Abaixei para cochichar no ouvido dele, enquanto passava.
- Por favor — Ele respondeu, com um riso no final.
Fui fazer o meu prato e fiquei me perguntando se ele me observava. Quando fiz o meu prato, Marcelo estava atrás de mim fazendo o mesmo, e começou a cochichar no meu ouvido.
- Ele é hetero — Ele disse.
- Mas é claro que é! — Eu disse, como se fosse óbvio.
- Não foi uma pergunta — Ele continuou -, foi uma afirmação.
- Eu não tinha dúvidas.
- Eu teria.
- Por que?
- Porque segundo rumores que eu ouvi, ele não tentou te pegar apesar de você estar completamente dada na noite anterior. Isso me daria dúvidas alarmantes no seu lugar.
- Eu não estava! — Levantei a voz, e quando percebi, voltei ao normal esperando os olhares se dispersarem — Eu não estava, Marcelo.
- Estava sim — Ele continuou. — Eu sei que você ficou choramingando. Seu tio me contou enquanto tomávamos café.
- E-e-ele te contou? — Gelei e meu sangue parou de circular por alguns segundos.
- Ele contou — Ele continuou — e me pediu pra tomar conta de você.
- Como assim? — Algo não batia. Como Marcelo poderia me proteger dele mesmo?
- Ele me disse que um garoto estava te fazendo sofrer, imaginei que fosse o imbecil do Bruno — Ele ficou um pouco tenso enquanto eu voltava a respirar de alívio. — E eu disse que ia fazer de tudo pra você ficar feliz.
- Marcelo, você me faz feliz — Eu soltei.
- Você também me faz — Ele deu um daqueles sorrisos encantadoramente simpáticos, seguido de um beijo na minha testa.
Continuei pegando as coisas enquanto me notei que tinha deixado algo pra trás.
- Espera um pouco — Falei.
- O que foi?
- Como você sabe que ele não é gay?
- O que? Ele está te encarando feito um idiota desde que você passou e fez charminho pra ele.
- Eu não fiz charminho.
- Fez sim.
- Não fiz não!
- Fez.
- Não fiz, Marcelo, caramba!
- Fez sim!
Paramos de discutir ao sentar à mesa perto dele, mas tive tempo de dar o meu olhar "this is not over" pro Marcelo, que só sorria e fazia aquela cara de melhor amigo que está pensando sobre você e o cara que você quer ficar juntos.
- Gabriel — Chamei meu primo.
- Oi? — Ele balançou a cabeça, desviando-se de sua própria distração.
- Gostaria de ir no meu quarto ver a minha bateria?
- Claro! — Ele disse, parecendo empolgado.
Engoli o resto da comida, freneticamente mais rápida que Marcelo — O que era incrível — e o chamei. Marcelo percebeu minha jogada e ficou por ali terminando de comer. Ele sabia que aquilo significava "Fique aí, recolha os pratos e distraia todos para que ninguém nos atrapalhe".
Fui na frente do Gabriel, que permanecia com as mãos nos bolsos constantemente. Não dissemos uma palavra até o caminho para o quarto, que não era lá tão grande.
- Então, essa é a minha bateria — Eu entrei no quarto pequeno, mas relativamente arrumado, e apontei para ela.
Ele olhou o quarto inteiro e a bateria também, obviamente, mas pareceu querer prestar atenção ao novo ambiente. Depois disso, ele simplesmente apontou para as baquetas que estavam na escrivaninha onde ficava o computador, e assim que eu fiz sinal positivo com a cabeça, ele se moveu até o banquinho.
Dali em diante, o vi tocando um ritmo muito familiar. Na verdade, o vi fazendo facilmente algo que demorei algumas semanas para pegar o ritmo, e vi a empolgação no rosto dele.
Eu não sabia o que falar.
- E aí, o que achou? — Ele me perguntou, sorrindo.
- Nossa.
- Foi tão ruim assim?
- Na verdade, me surpreendeu bastante — Eu disse, ainda olhando para ele.
- De um modo bom ou ruim? — Ele perguntou, enquanto mexia no cabelo castanho claro perfeitamente bagunçado.
- De um modo perfeito — Fui simpática, e sentei na cama.
- Sabe essa? — Ele perguntou, enquanto sentava do meu lado.
- Sim, sim — Me peguei rindo depois de responder.
- O que foi? — Ele ficou sem entender.
- Quebrei uma janela quando consegui! — Contei.
- Sério? — Ele riu.
- Com certeza, fiquei em êxtase!
- Pode crer, demorei semanas na aula pra pegar o ritmo! — Ele exclamou, enquanto apoiava o corpo reclinado sobre seus braços — Claro que tinha poucas aulas e não tinha muito tempo, mas ainda assim...
- Eu também! — Continuei, me empolgando — Sabe tocar mais alguma coisa?
- Como qualquer um hoje em dia, sei tocar um pouco de violão e gosto bastante de teclado também — Ele riu sozinho. — Só falta ficar mais underground e começar a fumar.
- Ei, não ria! Você ficaria irresistível assim! — Brinquei.
- Meu estilo é muito dark para uma patricinha como você? — Ele fez uma cara irônica.
- Ei, meu quarto é rosa, mas é culpa da minha mãe! — Justifiquei.
- É sempre desculpa da mãe!
- Mas é mesmo! — Abri o armário e mostrei minhas roupas a ele.
- Tudo bem, está menos rosa do que o seu quarto indica — Ele continuou rindo de mim.
- Nossa — Balancei a cabeça de lado.
- O que foi?
- É que normalmente demora um pouco mais pra que eu abra meu armário pra um garoto — Cobri o rosto depois do comentário. Ele gargalhou. Logo a seguir, olhou minha lata de fichas de pôquer.
- E essa lata aí de pôquer? — Ele perguntou — É só estilo ou você sabe jogar mesmo?
- Eu sempre ganhava os pedaços de macarrão quando apostava antes de ter a lata, tá bom? — Cruzei os braços.
- Essa eu quero ver! — Ele continuou — Vamos lá, pega o baralho aí e pega o macarrão!
- Você joga?
- Claro!
- Há anos que não encontro alguém pra jogar comigo e fico escrava da internet — Bufei.
- Então é hoje que você vai conhecer seu perfeito rival — Ele disse, enquanto sentava no chão e embaralhava.
Eu sentei no chão de frente para ele e o observei atentamente.
Davam-se as cartas. Todas elas.
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