Sendo Aline
21 Capítulo 21
Aparentemente ele devia ser gay mesmo, porque definitivamente eu não tinha mandado os sinais errados. Eu mandei TODOS os sinais e mais alguns que eu não sabia que podia mandar.
Só faltava eu jogar ele no chão e beijá-lo até que alguém chegasse para me interromper e eu colocasse a culpa nele.
Eu podia ter feito. Ele agora vai voltar pra vida dele e eu pra minha, e não teremos uma mísera história pra contar sobre a virada do ano. Quer dizer, fora eu ter tomado vodka, meu tio saber que eu amo o Marcelo e Marcelo ter resolvido abrir a boca pros pais. Fora isso, absolutamente nada pra contar.
O que eu quero dizer é que nós temos tudo a ver, quer dizer, ele joga pôquer e toca bateria. O que mais eu poderia querer numa pessoa? Que ele não fosse da minha família? Isso não me incomoda tanto assim, ainda mais porque ser primo de terceiro grau de outra pessoa da sua família não é bem ter um parentesco com você. É quase como um simples motivo pra vocês se conhecerem no meio de 6 bilhões de pessoas, and god knows how grateful I am for that.
Quando ele teve que ir embora com os pais, eu não queria deixá-lo ir. Não é como se eu quisesse chorar ou algo assim. Eu simplesmente gostaria que aquele momento durasse mais ou que pelo menos eu tivesse um pouco mais de tempo para conhecê-lo melhor.
Claro que as evidências mais recentes apontariam para uma quedinha por ele, mas na verdade não era. E eu não estava simplesmente negando, como fazia com o Marcelo. Era simplesmente a pura excitação por conhecer pela primeira vez alguém que compartilhava os mesmos interesses que os meus. E eu de certa forma queria mais disso.
E o fato de querer beijá-lo é só mais uma dessas coisas que quero descobrir enquanto esqueço a outra pessoa que eu gosto. É perfeitamente normal e compreensivo. Fora que ele ser bonitinho ajuda bastante.
E agora não vou mais vê-lo, simplesmente porque não há mais nenhuma desculpa para tal. Ele não tem mais motivos pra me procurar ou me ligar e eu também não. O máximo era tentar fazer um ponto entre familiares, até conseguir o telefone da casa dele e dos pais, mas ainda assim não teria cara alguma para fazer isso. O que eu ia dizer? Ia convidá-lo pra sair? Nem sob meu cadáver frio e sem vida a sete palmos do chão.
Enquanto estava jogada no sofá, olhando para a aranha no canto de uma das paredes, o telefone toca.
- Alô? — Atendi, apreensiva.
- Aline?
- ANDRÉ? — Berrei.
- Ahn... Sim — Ele disse, meio assustado. — É uma hora ruim?
- Não, imagina! — Eu disse, ainda sem acreditar — Tudo bem com você?
- Tudo sim! E com você?
- Tudo também! Que surpresa você ter ligado!
- Andava meio enrolado por causa dos feriados, e imaginei que não fosse te achar em casa.
- Ah, mais ou menos. Ontem e hoje por exemplo ficamos em casa mesmo.
- Entendo; Nós por aqui não fizemos quase nada — Ele continuou. — Peguei seu telefone com o Marcelo uns dias depois que saímos.
- Ele não chegou a comentar nada, acho que não esperava que você ligasse logo.
- E por que não? Eu adorei te ver de novo!
- Eu também, André! Fazia um tempão!
- Você se lembra daquela vez que você estava na casa do Marcelo e a gente ficou jogando videogame? — Ele perguntou.
- Hm... — Forcei um pouco a memória — Não, desculpa. Não lembro quase nada da minha infância.
- Já faz bastante tempo. A gente brincava sempre naquelas reuniões familiares que você ia com ele. E eu sempre te ganhava no videogame e outros jogos também, claro.
- Eu não devia ser tão ruim assim! — Já vi que o convencimento quanto a determinadas áreas vem de família... — Eu não lembro! Não vale!
- Só dá pra saber se tiver revanche — Ele disse. — Gostaria de sair comigo um dia desses de novo? Não pra jogar de fato se você não quiser. Quer dizer, pra jogar se você quiser, mas não precisa. Talvez pra gente fazer alguma coisa legal, se você tiver gostado de ficar comigo. Quer dizer, acho que você gostou e...
- André.
- Bom, você parece ter gostado, mas não sei. Não consigo ler mentes. Quer dizer, seria legal ler, mas de qualquer forma eu...
- André.
- Então acho que a gente podia tentar sair de novo e você pode escolher! Eu pago, se isso não te ofender nem nada assim. Quer dizer, eu...
- André! — Gritei.
- Desculpa, você não gostou de mim. Eu sabia disso. Eu falei pro Marcelo que era uma má ideia, porque eu sou um idiota mesmo. Eu não sei nem conversar direito e nem sou tão bonito assim. Ah, que ideia idiota, eu sinto muito, eu...
- André, eu vou com você.
- Desculpa tomar seu tempo, eu... — Ele parou — Espera, você disse que vai?
- Claro, eu ia adorar sair com você de novo. Eu me diverti muito aquele dia.
- Sério? Eu achei que tinha sido um completo idiota.
- Não... Foi divertido — Eu disse, e ri depois. — Mas foi mais divertido agora, quando você ficou nervoso e foi falando vinte mil coisas ao mesmo tempo.
- É, já me disseram que eu devia largar a loja e participar de um Showclow — Ele riu, sem graça.
- Desculpa, só estava brincando com você — Continuei -, não precisa ficar sem graça.
- Não fiquei, só não queria fazer papel de idiota de novo.
— Como assim “de novo”? — Perguntei — Você nunca fez papel de idiota comigo!
— Não é disso que estou falando... — Ele ficou sério de repente — Enfim, deixa pra lá.
— Foi algo que eu disse?
— Não, Aline, claro que não! — Ele continuou — Desculpe, é uma coisa minha. Eu tenho que ir agora, depois te ligo pra marcarmos melhor, ok?
E assim, rapidamente, ele desligou. Sem mais nem menos. E eu queria muito saber o que tinha acontecido, ou se pelo menos eu tinha feito algo de errado. Eu percebi que tinha um carinho enorme por ele desde criança, e que isso ainda era bem real.
Não aguentei. Peguei o telefone.
Marcelo atendeu e o contei mais ou menos o que tinha acontecido. Ele me contou que André tinha tido um rolo com uma garota, e que ele nunca tinha de fato conversado sobre isso com ninguém.
Mas EU não era ninguém.
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