Eu continuava com raiva. Pra ser sincera, com muita raiva. Na verdade é bom que eu não conheça donos de morro ou mesmo qualquer imbecil portador de arma de fogo, ou eu já estaria no noticiário e na primeira página do jornal de 50 centavos da banca de jornal.

Eu sempre achei o pai do Marcelo, tio Carlos, uma pessoa bem reservada e simpática, mas depois do natal, acho melhor ele não cruzar comigo na rua. E também acho melhor o Marcelo não me contar o nome todo dele, pra que eu não tenha como jogar uma praga.

Filha da puta.

Ele não merece o meu respeito. Ele não merece nada. NADA!

E o pior é que a mãe dele, por mais que não fosse contra o que aconteceu, não tinha falado nada. Não tinha argumentado e defendido o filho, pra que não sobrasse nada pra ela. Que merda de mãe, também!

- Não fala assim dela, Aline... — Marcelo dizia, desanimado — Ela só não queria que mais nada desse errado.

- Deu errado o bastante pra mim — Eu batia o pé. — Enough is enough.

- Não faz assim... Por favor...

Eu sentia ele se definhando. Eu sentia poucas forças.

Eu acho que só não me expressei um pouco mais quanto à situação pra não deixá-lo pior.

Essa situação foi mil vezes pior que aquela onde eu achei que Igor o estivesse traindo. Tudo bem que aquela situação foi meio estúpida, já que caras que se passam por gays não tomam atitudes como beijar outro cara. Mas isso já foi longe demais.

Marcelo, apesar de sua mania terrível de achar que sabe de tudo, ainda é uma das melhores pessoas do mundo pra mim. E pra várias outras pessoas também, tipo o Igor e os outros amigos dele.

Agora eu estava sentada em um degrau da escada da casa dos meus avós, e provavelmente já era quase meia-noite da noite de ano novo. Eu sabia que esse próximo ano seria difícil. Ele já estava começando difícil.

Mas que droga, eu não sabia o que fazer...

Aquele dia Marcelo não estava comigo, então minhas emoções estavam um pouco mais afloradas que o normal, já que não pude colocá-las para fora com a única pessoa que consigo: ele. Insisti para que ele fosse comigo à casa dos meus avós, mas ele me disse que precisava ver o Igor.

Na verdade, dei cobertura a ele. Ele estava em algum lugar perto de onde eu estava — E até pegaria carona comigo e meus pais na volta pra casa -, mas os pais dele não sabiam que ele não ficaria exatamente comigo durante a noite.

Os pais dele eram extremamente caseiros e normalmente insistiam que ele ficasse em casa assistindo à programação da TV enquanto esperam pela contagem regressiva, mas tendo em vista a última descoberta e seus devidos resultados... Bom, ele estava onde estava.

Simplesmente não pude dizer não. Eu sabia que o reencontro dos dois seria ótimo e que Marcelo voltaria bem mais alegre para casa, apesar de tudo. Problemas nunca são resolvidos quando você foge deles, mas com certeza estar com a pessoa que você gosta faz tudo se amenizar. Eu me sentia assim quando estava com o Marcelo. E mais do que isso: tinha certeza que ele e o Igor estariam sorrindo no exato momento em que eu pensava sobre toda essa situação. Como eu não fazia ideia. Eu simplesmente sabia.

E eu estava ali, sentada, olhando para o nada e vendo tudo por trás das minhas pálpebras.

Um tempo depois, resolvi ser minimamente sociável depois que minha mãe cerrou os olhos de forma maligna em minha direção, como quem diz "se você não levantar essa bunda e conversar com as pessoas, nos veremos em casa".

Tendo isso em mente e tentando evitar estresse, terminei o meu guaraná de marca ruim e comecei a conversar com algumas pessoas, principalmente meus avós.

Ah sim, meu tio também me introduziu devidamente à bebida — E esse provavelmente foi meu ponto alto da noite. Não que minha mãe tenha gostado muito de me ver tropeçando 10 vezes antes de chegar na mesa, mas devo admitir que me fez esquecer dos meus problemas depois de algum tempo. Principalmente quando eu botei tudo pra fora. Aí realmente, eu só achava — E queria — que ia morrer.
Conversei bastante também com um primo que descobri que tinha — Isso, claro, após enxágue e escovação de dentes para que eu ficasse parecendo gente de novo. Daqueles que é filho do primo de terceiro grau da sua mãe e que você só deu sorte de conhecer porque os planos de alguém não deram certo. Não que eu esteja reclamando, porque ele era muito legal, e tínhamos muito em comum. Só achei que era cedo demais para termos ficado bêbados juntos e que eu contasse meus problemas pra ele.

Fora ele ter ouvido e dito que eu ia amar de novo e achar um cara legal, achei realmente que fossemos nos beijar. Acho que o álcool reforçou todas as minha ações e vontades, mas pelo menos não matou o bom senso — O que é ótimo por um lado, já que papai não gostaria de me ver beijando alguém do sexo oposto; e péssimo por outro, porque pelo menos eu poderia ter beijado alguém depois do fiasco do meu encontro com o Bruno.

Por enquanto o bom senso é uma merda, se quer saber. Ainda mais porque é melhor estar apaixonada por um fofo qualquer que beije todo mundo do que seu melhor amigo gay. Quer dizer, pelo menos não é difícil você reencontrá-lo e você ainda pode agarrá-lo mais algumas vezes.

Eu sinceramente não acredito que pensei nisso.

I’m turning into a whore just because I have a broken heart.