Sendo Aline
18 Capítulo 18
Quando as aulas finalmente terminaram já eram meados de dezembro, minha mãe estava praticamente de férias e dando atenção integral a seus planos de viagem. Eu andava me sentindo horrível, por vários motivos que acabavam se esbarrando ao mesmo tempo.
— Mãe — Eu chamei, enquanto ela estava no escritório.
- Sim, querida?
— Você tem um minuto?
— Claro — Ela disse, apoiando o lápis na mesa -, estava agora mesmo terminando de fazer as contas para a viagem e...
— Ta, já sei — Eu disse, impaciente.
— O que houve?
— Nada, é que você casou com essa viagem e não sei quando vocês voltam de lua de mel.
— Acho melhor você me tratar com respeito. — Ela mudou de tom, reivindicando sua autoridade de mãe.
— Tudo bem — Conformei-me -, sinto muito.
— O que você ia dizer?
— Que não quero ir a viagem.
— Claro que quer!
— Não quero!
— Como não?
— Olha, mãe. Eu estou de férias e não queria mesmo brigar com você, mas eu simplesmente não quero.
— Você vai sim. — Ele apoiou os óculos de leitura na mesa.
— Por favor — Pedi -, tenta me entender só dessa vez.
— O que houve, afinal?
— Eu não posso te dizer — Senti que a cachoeira voltaria a percorrer seu fluxo normal, após vários dias bons. — Só confia em mim, por favor.
— Não — Ela continuou -, ainda mais agora que ficarei preocupada.
— Não precisa. — Elas começaram a rolar — Eu vou ficar bem e ligo todos os dias. Mas eu preciso ficar sozinha agora, mãe.
— Tudo bem — Ela disse, meio triste e meio comovida pela lágrimas -, então cancelamos tudo.
— Não mãe! — Exclamei. — Vou ficar bem sozinha. Vai com o papai, vocês vão se divertir e querem isso.
Ela continuou, meio relutante, mas tentei fazer algumas ofertas e ela por fim cedeu. Eu não conseguia não me preocupar. Provavelmente parte disso vinha com o fato de que eu adorava ele.
Semanas longas depois, o Natal e o Ano Novo se passaram, mais chatos do que nunca, mas pelo menos vi meus avó e tios, que eu não via há meses.
Eu me dava muito bem com meu tio Luiz, que diferente do meu pai — que era seu irmão — trabalhava menos e tinha piadas mais engraçadas. Ele foi ótimo para mim nesses feriados, porque quando ele ficava chapado, contava todos os podres que tinha feito por toda sua vida.
De fato, eu andava me divertindo bastante, e até mais do que eu imaginava. Quer dizer, menos quando ele me contou que meu pai tinha saído de casa para casar com a minha mãe, e foi aquele romance bem high school musical que, se você está na situação que eu estou, você vai chorar até a última vírgula. Ah claro, e vai acordar no dia seguinte achando que o amor morreu e que você vai morrer sozinho o que é bem pior, na minha opinião. Se você escuta The Beatles nesse dia então... Buy some vodka and lemons.
Marcelo foi comigo no encontro familiar do natal, e reviu pessoas de nossa família que não apareciam há muito. Ele era praticamente da família, e eu sinceramente não conseguia me lembrar de encontros familiares antigos onde ele não estivesse comigo. Na verdade era irônico, porque a maioria daquelas pessoas acreditava que eu e Marcelo iríamos acabar nos casando no futuro, e hoje estavam descobrindo que ele é gay.
Eu tinha certeza disso. Quer dizer, do fato de que meus pais estavam contando pra todo mundo a recente descoberta deles — E de certa forma, minha recente descoberta também. Pelo menos da parte da minha mãe, eu tinha certeza que a informação soltaria.
Quer dizer, na verdade eu tinha certeza que ela acabaria falando pra algum dos meus familiares, como por exemplo a minha tia avó Gertrudes. Ela é exatamente o que você imagina nos filmes. Aquela senhora gorda, de óculos, com todas as rugas de expressão em todos os lugares que você preferiria não saber e com problemas pra identificar que você já não tinha 7 anos e não rolava mais te dar Barbies de natal.
O fato é que todo mundo naquela grande sala sabia que Marcelo não era o mesmo. Não porque todos eles já tivesse a informação de que ele era gay, mas porque a alma dele estava cinza. Eu sabia disso, meus pais sabiam disso e até a tia Gertrudes devia ter percebido.
No outro dia, quando ele havia chegado lá em casa completamente derrubado, o motivo era bem simples: ele finalmente tinha admitido aos pais que era gay e eles o criticaram mais do que o imaginável. A mãe dele era o elo que o mantinha em pé dentro de casa, já que sempre se mostrou ali por ele.
O problema de verdade era o pai dele. Ele não precisava ter me dito que ele o xingou de várias coisas possíveis, porque isso estava escrito na expressão que ele fazia. Estava mais na cara ainda quando ele dava algum sorriso falso para cada pessoa que o cumprimentava.
Passei a vê-lo todos os dias e a dar uma força para que ele melhorasse. Não adiantava muito, já que ele pediu um tempo ao Igor depois de tudo. Era claro que ele gostava do Igor mais do que muita coisa na vida dele, e se separar dele nesse momento não era nada fácil.
- Não adianta nada você pedir um tempo pra ele — Eu argumentava. — Você está pior e tenho certeza que ele está na merda também, Marcelo! Você quis admitir aos seus pais e vai ter muito o que lutar ainda pela frente, e precisa dele pra fazer isso.
Ele só abaixava a cabeça e passava a mão pelo cabelo. Eu, sem ter muito mais o que fazer, o abraçava.
Foi só quando ele dormiu na minha casa, naquele dia de natal, é que fui perceber algumas marcas nas costas e nas pernas dele. Aquilo fez meu sangue subir de tal forma que não era possível explicar com poucas palavras.
- Por que você não me contou? — Eu brigava com ele.
- Porque simplesmente não tem o que falar...
- Claro que tem! — Eu ficava cada vez mais enfurecida — Eu vou lá agora dizer umas coisas pra ele!
- Não vai não — Ele continuava falando, sua cabeça continuava baixa, mas agora ele segurava a minha mão de forma leve. Como se não sentisse mais nada.
Não adiantava discutir com ele naquele momento. Da mesma forma que ele era uma pessoa completamente amorosa todos os dias que estava contente, ele se tornava uma pessoa só feita de emoções ruins em dias mais tristes. Tudo que eu podia fazer era cuidar dele, conversar, tentar animá-lo e o abraçar sempre que podia. Na verdade, abraçá-lo era o que eu mais andava fazendo naqueles dias que estávamos mais próximos.
Eu sabia que o Igor estava procurando ele. Eu sabia que o Igor mandava mensagens pra ele e procurava saber, e Marcelo não estava respondendo.
Ele não respondia porque não sabia o que fazer.
Eu me sentia incapaz, apesar de não demonstrar pra ele. Eu sentia dor por tudo e sentia mais dor por o amar tanto a ponto de querer que fosse diferente. O meu problema é que eu queria que as coisas mudassem pro meu ponto de vista, pra que o meu coração finalmente me deixasse em paz.
Mas o meu coração não era mais meu.
Ele — Que sempre sabia de tudo — não sabia o que fazer e isso me dava medo. E dava mais porque eu também não sabia.
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