- Está pronta pra fazer isso? – Eu perguntei, meio nervosa.

- Claro que sim – Ela me respondeu, agitada como sempre.

- Tudo bem, então – Continuei. – Olha, não precisa fazer se não quiser. Eu sei que prometeu, já que te ajudei a estudar, mas eu sinto que...

- Aline, cala a boca – Débora disse, já sabendo como fico quando não quero atrapalhar.

- Tudo bem.

Débora se esgueirou por entre os corredores, seguindo-o. Não, eu não poderia fazer sozinha ou coisa parecida, já que ele já me conhece como amiga do Marcelo. Se ele estivesse fazendo algo de errado, com certeza não ia mostrar na minha frente.

O mais estranho é que normalmente nesse horário, ele e Marcelo ficam juntos no intervalo. Mas sei que Marcelo está lá embaixo, já que ele me contou que andava sozinho esses dias, enquanto o Igor trabalhava num projeto de ciências ou coisa do gênero – Vulgo “não prestei muita atenção e sorri”.

Não sei se ele de fato percebeu que ela o estava seguindo, ou se realmente achou que fosse só uma dessas alunas por aí, que ficam vagando durante o intervalo, por não ter amigos, ou coisas assim.

Percebi que ele olhava para trás, meio desconfiado de Débora depois de um tempo. Nessa hora, eu simplesmente sentei no corredor e comecei a escutar música, basicamente desacreditada na situação.

Alguns minutos depois, Débora voltou um tanto quanto chocada. Na verdade, ela voltou com sua cara de “tenho um babado fortíssimo pra te contar, mas ele não é nada bonito”.

- Então? – Perguntei.

- Você não vai querer saber... – Ela disse, meio perdida, como se não entendesse.

- Isso eu deduzi pela sua cara – Eu disse — , mas preciso saber.

- Ele... – Ela vacilou – Ele estava com outra garota? – Ela disse como se perguntasse a si mesma.

- O QUE? – Gritei.

- Não acho que seja uma namorada... – Ela justificou – Mas ele estava um tanto quanto carinhoso demais com ela e... ESPERA! Onde você está indo?

- O que você acha? – Bufei – Vou usar o lança chamas nele e jogar o que sobrar no rio!

- Não tire qualquer conclusão assim!

- Como assim? – Eu perguntava, meio revoltada – Você está do lado de quem agora?

- Do seu, Aline – Ela falava, tentando ficar calma e ME deixar calma -, mas precisamos de mais informações.

- Eu preciso de uma arma, já que não nasci com superforça! – Eu continuava – Eu não preciso de mais informações enquanto esse babaca está enganando o meu amigo!

- God bless your future boyfriends...

- Como é? – Meus olhos vermelhos a encaravam.

- Desculpa – Ela dizia, tentando me puxar, em vão -, mas por favor, não faça nada precipitado.

- Eu estou fazendo algo bem pensado, que já deveria ter feito desde que descobri que tem alguém com quem eu deveria estar – Eu dizia com pesar, enquanto arrastava Débora junto comigo. – Agora me solta.

Ela me soltou, não porque achasse que eu estivesse certa – Porque eu estava sendo de certa forma irracional -, mas porque podia compreender e sentir toda frustração que eu exalava.

Eu fui até lá, pisando fundo no chão. Até olhei as horas para saber se eu não poderia ser pega por algum funcionário.

Eu o vi conversando na porta com a tal menina e assim que ela me viu, correu para dentro da sala, como se não quisesse ser pega. Eu não poderia estar mais certa.

- SEU IMBECIL! – Eu berrei, enquanto agarrava sua camisa e o empurrava – VOCÊ ACHA QUE PODE SIMPLESMENTE...

- Surpresa! – Uma voz familiar gritou atrás da porta onde estávamos encostados (só nesse momento percebi que era uma porta). Ou melhor, da porta onde eu estava empurrando o Igor.

Quando olhei para dentro, reparei em alguns rostos familiares da minha sala e Marcelo, parado, sem acreditar na minha atitude.

Fiquei mais envergonhada ao ver as bexigas e um bolo em cima da mesa. E um pouco mais por ter feito aquilo na frente de todos. E um pouco preocupada com o Igor. E comigo, por ter esquecido que meu aniversário era na semana que vem.

- A boa notícia – Débora começou a falar, enquanto chegava atrás de mim – é que agora eu já sei quem chamar quando quiser meter o pau em alguém? – Ela tentou sorrir de modo forçado, do tipo “me perdoa por não ter dito a verdade antes que você fizesse merda?”.

- É – Eu disse, prendendo o riso por causa da cara dela -, e agora vou meter o pau em você, sua idiota!