Lá estava eu: tentando comer bolo com uma mão só enquanto segurava um saquinho de gelo na parte de trás da cabeça do Igor (graças ao meu empurrão contra a porta). Isso, claro, depois de ter pedido um milhão de desculpas pra ele.

-Tá tudo bem, Aline – Ele dizia -, eu juro. Fico feliz que o Marcelo tenha uma amiga tão legal assim.

Ele repetia, de um jeito meigo e carinhoso, que Marcelo já havia comentado antes (mas que tinha me escapado momentaneamente).

Agora todos já haviam voltado para suas respectivas salas enquanto nós cuidávamos do Igor.

- Eu realmente cuido de um projeto durante o intervalo – Ele se explicava, sem que eu pedisse -, mas aquela é a minha irmã, e só a vi agora porque ela não estava se sentindo muito bem hoje de manhã e minha mãe pediu. Não imaginei que fosse soar tão mal.

- Foi só coincidência isso ter batido – Marcelo o complementava, como se eles tivessem treinado o discurso em casa antes de vir falar comigo -, mas a Débora disse que tinha um plano para te trazer aqui sem que você desconfiasse.

“Filha da puta”, pensei. Deu tudo certo.

- Realmente não desconfiei... – Eu disse, com um sorriso meio triste, de cabeça baixa.

- Não precisa se desculpar – Igor disse, abrindo um sorriso acolhedor -, eu acho que teria feito o mesmo.

- Eu teria feito melhor! – Marcelo começou a dizer, em tom animado. – Primeiro, eu teria pedido ajuda a mais pessoas e depois eu...

- Ah, cala a boca – Eu disse, fazendo uma careta para o senhor perfeição. E ele olhou para o Igor, como quem dizia “Você não vai me defender não?”.

- O que foi? – O Igor perguntou – Estou com ela nessa, senhor perfeição.

Eu ri. Naquele momento finalmente vi no Igor uma pessoa inteiramente doce, com quem eu gostaria de ter uma amizade.

Não que antes fosse diferente. Só que antes eu estava mais preocupada em descobrir como o Marcelo havia se tornado gay e mais do que isso: como EU, a pessoa que se intitula melhor amiga dele, não tinha notado isso. Talvez eu estivesse tão obcecada pelo Bruno que nem pude notar. Talvez eu simplesmente não fosse tão boa amiga quanto eu achei que fosse.

Agora só o que eu pensava era em como aqueles dois eram felizes e estavam em sintonia, e em como eu queria aquilo pra mim um dia. Não que eu tivesse a ilusão de que eles vão ficar juntos pra sempre e casar. Ou mesmo que eles fazem coisinhas.

O que me incomodava de fato é que eu, no auge dos meus 16 anos, ainda não havia me apaixonado. Ou melhor, ainda não havia sentido o que eles ousam chamar de amor correspondido, porque com o meu melhor amigo, eu tinha descoberto o que é se apaixonar. Aquilo me assustava. O fato de não ter um amor correspondido. Não só por ter medo, mas por pensar em sofrer de novo.

Não que eu tivesse parado de sofrer por amar o Marcelo ou parado de pensar nele dessa forma, mas alguns muitos aviões haviam se chocado na minha cabeça.

Meu Deus, por que agora eu só consigo pensar neles fazendo coisinhas?