Sendo Aline
9 Capítulo 9
– Aline! — Ouvi alguém gritando no corredor, enquanto ajeitava algo na minha mochila.
– Oi? — Virei, sem saber o que era.
– Oi! — Bruno disse, abrindo aquele sorriso que deixava qualquer garota querendo se jogar pela janela. Com ele, claro.
– Oi Bruno! — Eu disse, tentando soar normal.
– Senti sua falta ontem — Ele disse.
– Que mentira! Você nem fala tanto assim comigo!
– Ah, falo sim! — Ele continuou — É que eu queria te pedir uma coisa ontem.
– Sim? — Fiquei ansiosa.
– Bom, na verdade, eu queria te convidar pra sair comigo — Ele disse, e abaixou a cabeça para olhar nos meus olhos. — O que você acha?
– Claro que vou — Eu disse, ainda tentando parecer normal. — Com seus amigos?
– Não, eu estava pensando em sermos só nós dois — Ele chegou mais perto, e segurou minha cintura -, o que você acha?
– Ótimo — Eu disse, quase sem conseguir respirar.
– Legal — Ele sorriu. — Sábado, 18 horas, no shopping?
– Perfeito — Sorri.
– Tudo bem, te vejo lá! — Ele sorriu de novo, beijou minha bochecha e saiu.
Parei para respirar por um segundo, fechei a mochila e desencostei da parede. Depois, olhei pelo corredor quase vazio e entrei numa das primeiras salas que vi. Encostei a porta. Comecei a fazer uma dancinha e gritei algumas vezes.
Depois disso, fui pra casa e os dias passaram voando. Fiquei levemente empolgada — Confesso que acreditei que ficaria bem mais — e contei para minha mãe.
Minha mãe me deu dicas e até quis ter “a conversa” comigo, mas parei ela e disse que aquilo não era necessário novamente. Ainda tinha calafrios à noite quando pensava em tudo que meu pai tinha dito.
Ah, papai. Que bom que você não gosta de shopping. Se você gostasse me pegasse lá com outro menino...
Me lembro até hoje na primeira vez que ele me viu beijando um menino. Foi na sétima série, quando eu tinha um namorado, o Yuri. De longe um dos meninos mais fofos com quem eu já fiquei. Eu estava saindo de uma festa na casa da Brenda — uma menina que se tornou nojenta ao longo dos anos, como eu estava acostumada — e ele me deu um beijo de despedida. Infelizmente, papai viu, e saiu do carro só para conversar com o menino.
Quer dizer, isso sem contar que ele deixou o carro aberto e ligado, só esperando para que algum cara passasse na rua para roubá-lo — E olha que o nosso carro é a segunda mulher do meu pai.
Para resumir, depois desse evento e de outros chiliques quando comecei a ser melhor amiga do Marcelo — Conversas sérias com ele, entradas periódicas no meu quarto para ver se não estávamos transando feito coelhos, coisas do tipo -, eu comecei a ter um certo receio de chegar com garotos perto do meu pai. Nothing personal.
Sábado chegou e assim que acordei — Tipo, 14 horas da tarde — comecei a revirar meu guarda-roupa atrás de algo que realçasse meus seios sem parecer vulgar. E claro, algo que realçasse ele sem dizer “catch me, baby”, mas que dissesse “vamos ter um encontro número 2 porque eu não sou só legal. Eu sou legal e sexy”.
Como só íamos ao shopping, separei minha calça jeans escura e uma sandália, e uma blusa listrada. Eu pediria a opinião de Marcelo via webcam, mas como ainda estávamos brigados, fui pela minha intuição feminina.
Almocei rápido e fui logo tomar banho para que desse tempo para que eu me preparasse adequadamente. Me vesti, passei maquiagem e pedi uma carona à minha mãe, porque estava um calor escaldante do lado de fora. Graças a Deus meu pai não quis me levar.
Cheguei ao shopping com 5 minutos de atraso — Não quis parecer desesperada — e fui para o cinema, porque imaginei que ele estivesse me esperando lá.
Andei pacientemente pelo shopping e cheguei na entrada do cinema, e ele estava lá sentado num dos bancos de madeira. Meio desleixado, e aquilo incrivelmente o deixava mais bonito. Andei até ele e ele ajeitou o cabelo enquanto eu me aproximava.
– Nossa! — Ele exclamou, com um sorriso — Você está linda.
– De vez em quando faz bem, não é? — Eu sorri de volta.
– Ah, que isso. Você é muito bonita.
E com isso, fomos para a fila do cinema discutir qual filme veríamos. Eu acho que nesse momento eu nem ligava mais pro que iríamos ver, contanto que eu pudesse recostar sobre a blusa preta que ele estava usando e fazer coisas que meu pai não aprovaria.
Ele escolheu um filme de ficção científica — cof cof, BORING — e enquanto não dava a hora do filme passeamos pelo shopping enquanto conversávamos. Ele não falava muito, mas perguntou bastante coisa sobre mim.
Contei a ele que tocava bateria e alguns instrumentos de cordas — Apesar de não me dar muito com eles -, falei sobre meus pais, sobre minhas séries de televisão favoritas — Já que eu não gostava de outras coisas tipo novelas ou talk shows -, e outras coisas mais. Ele me contou sobre os amigos, o que gostava de fazer e tudo o mais. Falou pouco, basicamente, mas achei que ele era só reservado.
Quando deu a hora, fomos para o cinema. O filme era incrivelmente chato como eu imaginei que seria, mas ele parecia bem vidrado naquilo. Tentei parecer interessada, já que eu não era o tipo de pessoa desagradável que iria pedir pra sair da sala do cinema. Ainda mais tendo em vista a possibilidade de beijar o cara gato do colégio.
Num determinado ponto do filme — Que eu não me lembro exatamente qual era -, ele passou o braço em volta de mim e me abraçou, até que nossas cabeças se encostassem. Pousei meu braço sobre o dele e ele me deu uma das mãos.
Alguns minutos depois ele tirou o braço e virou meu rosto para o dele, até que nos beijamos. Levantei o braço da poltrona do cinema e ficamos mais perto. O beijo foi ficando mais rápido e ele me puxava para perto cada vez mais.
Ficamos daquele jeito até que o filme terminasse e depois demos mais algumas voltas até ficarmos com fome. Conversávamos. Tudo parecia perfeito.
– ...Então eu e Marcelo ficamos fingindo e... — Ele me cortou, enquanto eu contava uma história.
– Espera... Marcelo? — Ele perguntou.
– Sim — Continuei -, então nós...
– Tá tá, espera. Marcelo Belarmino?
– Sim — Prossegui -, então...
– Você é amiga daquele idiota? — Ele perguntou, seco.
– Ele não é um idiota — Falei, calma. — Mas sim, ele é meu amigo. Ou era, porque brigamos outro dia.
– Ah, entendi — Ele disse, meio perturbado.
– Qual é o problema com ele?
– Ah, não é nada — Ele voltou a comer. — É que nós éramos amigos.
– Eram? — As palavras entraram e me senti um nojo por ter duvidado do meu melhor amigo.
– Sim — Ele continuou.
– E por que não são mais? — Perguntei, curiosa.
– Ah gata, não quero esquentar sua cabeça com isso.
– Não está esquentando. Você é meu amigo, certo?
– Ah, claro — Ele continuou -, a gente ficou hoje e tal. Nos conhecemos há um tempo.
– Então pode me contar — Eu disse, sendo gentil.
– Bom, a gente era amigo antes e ele namorava uma menina, a Amanda.
– Sim, eu a conheço.
– Então, teve um dia que eles ficaram juntos e tal, e depois ela parou pra conversar comigo. Claramente me dando mole. Então nós passamos a noite juntos.
– Foi com você? — Lembranças começaram a me deixar irritada.
– Ei, eu não tenho culpa se ela era piranha.
– Tem culpa porque o Marcelo era seu melhor amigo na época!
– Eu não consegui resistir, ela é muito bonita.
– Então quer dizer que toda vez que aparecer uma garota bonita tentando ficar com você, você vai simplesmente correr pra cima dela?
– Por que você está me julgando? — Ele começou a me atacar — Não é como se ele fosse marido dela.
– Não, mas melhores amigos não fazem esse tipo de coisa!
– Foi ela que se atirou pra cima de mim! — Ele se defendeu.
– E como amigo dele você devia ter saído e contado a ele o que ela fez!
– O problema era deles, eles é que eram o casal.
– Eles eram o casal até você ter se metido no meio, LITERALMENTE!
– Não fui só eu que gostei, eu garanto isso a você — Ele riu.
– Pare de rir, seu estúpido! — Gritei.
– Qual o seu problema, hein? — Ele começou a se irritar — Você é que nem ele. Vai começar a me julgar agora.
– Te julgar? — Eu tive vontade de dar um tapa nele na mesma hora — Você não percebe que péssimo amigo você é?
– Ah, quer saber? — Ele se levantou, irritado — Eu não preciso ficar aqui ouvindo isso. Você é gostosa e tudo o mais, mas querer só agarrar você não vale ter que ficar aqui tendo essa conversa chata.
– Ah, então era só isso que você queria de mim?
– Eu teria tentado há muito mais tempo, mas com ele no seu pé, tenho certeza que ele me impediria.
– Ele tentou, e eu te defendi — Me levantei também -, mas claramente eu estava errada.
– Você achou que esse seria o primeiro encontro de muitos até que eu pedisse pra namorar com você? Eu não tenho porque perder tempo namorando se eu posso ficar com quem eu quiser, no dia que eu quiser — Ele disse, como se eu fosse louca. — E você também devia fazer isso. Ninguém fica muito tempo sem trair.
– Achei que você quisesse alguma coisa comigo — Eu senti lágrimas querendo sair do meu rosto. — E o que você disse não é verdade.
– Eu quero, mas que tal a gente só ficar toda vez que tivermos vontade? Quase como uma troca de favores. Eu sei que você gosta de mim — Ele disse, chegando perto — E eu te acho bonita. Ainda vai poder falar para as suas amigas que ficou com o cara gato do terceiro ano.
– Não chegue perto de mim — Eu disse, irritada, quando as lágrimas começaram a rolar.
– Eu te ofendi, gata? — Ele me agarrou — Vamos lá, quem sabe você não começa a pensar que nem eu? Muitas garotas iam querer estar no seu lugar.
– Me solta, agora — Eu falei, séria.
Ele me agarrou e tentou me beijar a força, enquanto eu tentava me soltar, em vão. Alguns minutos depois, eu senti alguém se aproximando.
– Ela mandou você soltar ela, seu imbecil.
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