Sendo Aline
10 Capítulo 10
– Eu não acredito que você fez aquilo — Eu disse, ainda segurando a latinha de Coca-Cola gelada contra o meu braço, que tinha ficado vermelho, de tanto eu relutar contra a agarração do Bruno.
– Acredita que eu também não? — Marcelo respondeu, ainda sorrindo, como sempre.
– Sinto muito por não ter acreditado em você — Suspirei. — Eu prometo que daqui em diante nunca mais vou desconfiar de você.
– Tudo bem, não tem problema — Ele disse. — Como vai o braço?
– Não se preocupe com ele. Eu me preocuparia mais com o que o Bruno possa fazer.
– Ele não vai fazer nada, Aline.
– Quem nos garante? Ele já foi um completo imbecil até então... — Eu olhei para o chão.
– Não se preocupe — Ele olhou para frente -, não creio que ele vá fazer algo.
– Depois de você ter estragado aquele rostinho tão perfeito? — Fui o mais sarcástica possível — Acho que ele deve estar correndo atrás de nós nesse momento. Melhor nos escondermos atrás do carro do senhor João.
– Eu acho que a passagem secreta do Perry, o ornitorrinco, está mais próxima.
Não pude conter o riso.
– Vê se não arruma mais nenhum traste, está bem? — Ele levantou as sobrancelhas.
– Pode deixar. Consultarei o senhor primeiro.
– Acho bom mesmo. Meus amigos do FBI podem ser bem úteis...
Incrível como alguém conseguia rir o tempo todo, mesmo em estresses na escola, ter um segredo gigante como o que ele tem e não ter medo que alguém saia contando para todos — E pior: medo que isso chegue nos ouvidos de seus pais.
Eu não conseguia ter aquela felicidade, mesmo que eu tentasse muito. Eu percebi que o admirava em diversos sentidos, mas só agora isso tinha feito sentido.
Havia muita ironia no fato de que ele teria que socar alguém com tanta vontade e se tornar uma pessoa protetora — E com muita raiva e sede de ajudar alguém que ele gostava (pelo menos um pouco) — para que eu tivesse percebido tanta coisa ao mesmo tempo.
Eu sempre gostei de muitas emoções, disso eu nunca tive dúvida. O problema é que as minhas emoções sempre foram bem abertas a todos. O jeito dele era ser feliz do jeito dele, de estar de bem com a vida e de divertir os outros, enquanto o meu propósito era... Qual?
– Você não se cansa, não é? — Perguntei.
– De que?
– De ser perfeito e engraçado o tempo todo.
– Não sou isso.
– É sim.
– Não sou.
– É sim.
– Não sou mil vezes.
– É sim. E ponto final.
– Droga — Ele balançou a cabeça.
– É sério — Dei um soquinho no braço dele, rindo.
– Eu não acho que seja.
– Eu estou dizendo que é, bobão.
– Tudo bem, então — Ele disse, parecendo meio triste.
– Não se preocupe — Eu disse. — Eu te amo assim mesmo.
Foi aí que ele sorriu e de repente, tudo fazia um mínimo de sentido. E ao mesmo tempo dava medo e, de certa forma, um desespero dentro de mim.
Foi aí que fez sentido o fato de eu ter ficado irritada, e de não ter conseguido lidar com algumas partes dessa situação. E de eu agora, estar chateada pelo fato de Bruno ser um imbecil — E até ter chorado -, mas não da mesma forma que eu tinha me sentido antes, quando descobri a verdade. E lembrar a verdade me fazia lembrar do meu primeiro beijo, o que era ainda mais assustador.
O problema é que agora tudo aquilo tinha vindo de forma intrínseca, e era como se tudo aquilo estivesse bem na minha e eu simplesmente precisasse que um trem viesse na minha direção e me atropelasse para que eu de fato percebesse o que ocorrera.
Fui com ele até a casa dele, chequei se a mão dele estava direita e agradeci por tudo que ele tinha feito por mim — Antes, mas principalmente naquela noite -, mas não consegui conversar inteiramente com ele, já que estava absorta em meus pensamentos.
Saí da casa dele o mais rápido que consegui, e peguei um ônibus até em casa. Dei o dinheiro ao trocador e desabei no banco mais fundo do veículo, para que ninguém pudesse ver que eu estava chorando.
Naquele momento eu percebi que eu estava apaixonada por quem eu menos imaginei que fosse ficar um dia. Pelo Marcelo. Meu melhor amigo.
Meu melhor amigo gay.
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