Sendo Aline
24 Capítulo 24
Alguns dias depois do ocorrido, Marcelo foi na minha casa — Até antes do que eu imaginei que ele apareceria, se é que ele ia mesmo aparecer — para me contar como tinha sido a reação do Igor e como ele estava se sentindo de fato.
No dia seguinte ao dia em que contei pra ele, resolvi contar tudo pra ter uma outra opinião pro assunto. Eu nunca contava coisas do tipo pra Débora, mas ela tinha se mostrado ser muito minha amiga há algum tempo. Eu acho que contar isso pra ela ia me fazer sentir um alívio e ela até poderia me ajudar, fora que ela poderia até me aconselhar de alguma forma.
Ela se sentiu super feliz de me ouvir — Apesar de ter falado muito entre cada linha que eu dizia — e tentou me falar que o melhor mesmo era ele morar com a mãe. A menos que ele tivesse algum parente por aqui ou que quisesse morar comigo. O que eu adoraria que acontecesse de uns certos ângulos — Ou até eu lembrar que a orientação sexual dele é diferente da minha.
Quando Marcelo chegou, tentei parar de queimar neurônios para ouvir tudo que ele tinha pra me dizer.
Levei-o para o lado de fora de casa, já que meus pais estavam por perto. Sentamos ali na beira da calçada da minha rua e olhávamos os carros passarem. Lembrei-me de que quando éramos crianças, costumávamos comparar a frente dos carros a rostos felizes ou tristes. Ou formatos de cabeças de animais.
- Eu contei tudo para o Igor — Ele disse e olhou para frente, fixando o olhar em tudo que estava à volta dele.
- E como ele reagiu?
- O que eu já esperava. Ele ficou calmo e tentou me ouvir o tempo todo, mas ficou claramente abatido — Ele suspirou. — Eu acho que se eu for, não levamos isso à frente.
- Marcelo! — Exclamei — Vocês não podem fazer isso!
- O que eu vou fazer, Aline? — Ele olhou pra mim, finalmente. Os olhos de novo. — O que mais eu posso pedir a ele? Já basta fazer ele sofrer...
- Marcelo, você o fez feliz por meses!
- De que adianta se vou fazer ele triste por mais tempo?
- Adianta do ponto de vista que você não vai, Marcelo!
- Aline, se eu morar com a minha mãe, até vamos conseguir manter um mínimo contato apesar da distância — Ele continuou -, mas se eu continuar com meu pai, ele vai apertar o cerco. Não vou conseguir nem chegar perto de outros garotos sequer. Eu não sei o que seria pior.
- Nem que vocês tenham que se encontrar aqui em casa, Marcelo. Eu vou te ajudar nisso, você sabe!
- Sei, mas não é nada simples.
- Você escolheu contar esse segredo, Marcelo — Eu disse. — Eu não te critico por isso, mas você sabia que ia ser a coisa mais difícil da sua vida.
- Eu sei, Aline! Mas...
- Mas nada! — Eu disse — Cadê seu otimismo? Seu modo perfeito de fazer todas as coisas?
- Eu não sei...
- Eu sei, Marcelo.
Eu o abracei, como nunca tinha abraçado antes. Durou tanto tempo que eu parecia não ter mais tempo.
Nisso, a minha cabeça estalou. Como se Thomas Edison tivesse viajado no tempo só para colocar uma lâmpada bem na minha cabeça, só pra eu não errar. E eu não errei.
- MARCELO! — Gritei, levantando de onde estava.
- O que foi? — Ele olhou pra cima, assustado.
- EU SEI! — Gritei de novo.
- O que você sabe?
- Você pode conversar com o seu primo — Eu disse. — Não estou dizendo pra viver às custas dele, mas você poderia trabalhar na mercearia da mamãe enquanto vivia com ele. Ou até mesmo trabalhar na loja com ele.
- Não é uma má ideia — Ele disse, mas não parecia tão empolgado.
- Então o que falta?
- Eu não sei... O André é muito maneiro, mas eu não falo com ele como falava antigamente.
- Marcelo, pelos velhos tempos, eu tenho quase certeza de que ele aceitaria te ajudar — O incentivei.
- Vou falar com ele, não custa nada tentar — Ele levantou um pouco — Obrigado — E me abraçou de novo.
Nesse momento, ouço o barulho de um carro chegando e parando a alguns metros de nós, na rua. Era o pai dele, que tinha vindo buscá-lo.
- Vamos embora — Disse o pai dele, tio Carlos.
- Por que? — Marcelo disse, meio agressivo.
- Você me respeita — Ele continuou. — E vamos embora porque eu disse que estamos indo.
- Não vamos não — Ele continuou. — Eu avisei que vinha pra cá e vou ficar aqui até mais tarde.
- Não vai não — O pai dele saiu do carro. — Eu acabei de discutir com a sua mãe e você vem pra casa agora.
- Eu não tenho nada a ver com a discussão de vocês.
- Não importa, já basta ela ter te tornado nesse viadinho que você é agora.
- Se você quer meu respeito — Marcelo levantou a voz -, me dê um pouco de respeito também.
- Você é a decepção pra mim, não tem o direito de me exigir respeito. — Tio Carlos continuou — E não levante esse tom pra mim!
- Tenho sim, eu sou sua decepção, mas fui criado por você.
- Você quer apanhar aqui na frente de todo mundo e da sua amiguinha também?
- Eu não tenho mais dez anos, papai — Marcelo entrou na minha frente para encará-lo. Os olhos dele pareciam que iam saltar. — E respeite ela também. Ela tem um nome.
- Não tem mas está agindo como se tivesse! — Ele agarrou o braço de Marcelo.
- Me solta! — Marcelo o enfrentou.
Nesse momento, eu senti que o pai dele iria bater nele de novo e o empurrei para o lado. O pai dele me deu um soco no estômago, e comecei a sentir a dor me invadindo. Fechei os olhos e sentei, para conseguir não chorar.
- Ninguém mandou você se meter — Ele olhou com desprezo pra mim.
- "Ninguém mandou você se meter"? É tudo que tem pra dizer a ela?
- Ela não devia ter se metido numa briga que não é dela — Ele disse -, se bem que deve ter merecido por estar te apoiando nessa vergonha que você se tornou.
- Peça desculpas — Marcelo disse.
- Como é, viadinho?
- Peça desculpas pra ela agora — O rosto dele inchava.
- Eu não tenho porque fazer isso, estou no meu direito.
- Não está não, exatamente por ela não ter nada a ver com a nossa briga.
- Então vamos pra casa.
- Eu já disse que não, pai. Estou conversando com ela.
- Então aja como um homem de verdade e namore ela, ou outra garota!
- Eu não sou menos homem por gostar de outra coisa. É simplesmente quem eu sou, será que não dá pra entender isso de uma vez? ME ACEITA POR QUEM EU SOU, MAS QUE MERDA, PAI!
- Que gritaria é essa aqui na porta, Ali... — Minha mãe finalmente chegou na porta — Aline, você está bem? O que aconteceu aqui?
- Me perdoe, dona Laura — Marcelo disse. — Me perdoe mesmo, eu vou explicar tudo.
- A ela você respeita, não é? — Meu pai continuou, ignorando todo o resto.
- Ela me trata bem, diferente de você.
- Agora já chega, Marcelo. Eu tenho que te tratar e te colocar num psicólogo — Tio Carlos continuava — Essa palhaçada tem que acabar!
- Eu já entendi, pai — Marcelo manteve a calma, pensando em mim. — Mas eu preciso contar à dona Laura o que houve. Eu vou pra casa em menos de meia hora, eu prometo, agora o senhor por favor pode me dar um momento?
Depois de alguma insistência no mesmo âmbito, o pai do Marcelo foi para casa. Irritado, frustrado, e mais uma porção de sentimentos que ele não compreendia e não deixava ninguém compreender.
Marcelo me dava atenção e se desculpava a cada segundo pelas atitudes do pai e por ele ter ficado discutindo ao invés de me dar a devida atenção, depois do pai dele ter me acertado.
Incrivelmente, não chorei. Consegui não chorar na hora. Minha mãe é que ficou extremamente irritada com tudo depois disse e jurou "fazer o diabo" — Citando as palavras da mesma — com o cara que fez aquilo. Eu não sabia se gostava por ela estar preocupada comigo ou se ria pela expressão.
Depois que minha mãe foi para o quarto gritar pelo telefone com meu pai, ficamos à sós na cozinha.
- Aline... — Marcelo começou.
- Se você me pedir de novo, eu juro que eu te... — Ele me cortou.
- Não era isso — Ele sorriu, meio sem graça. Depois, chegou a cadeira bem perto de mim, e ficamos com os rostos muito próximos.
- O que foi então?
- É que... — Ele fez uma pausa — Eu queria muito sentir o mesmo por você.
- Como assim?
- Seria muito mais fácil em todos os campos possíveis. E eu saberia exatamente como você se sentia, porque simplesmente nos entendemos. Ia ser muito fácil te mar, porque eu já te amo.
- Mas? — Aquela frase doeu mais do que o soco no estômago, mas escolhi ignorar.
- Como você sabia que tinha um "mas"?
- Sua voz deu a entender — Agora eu sorri de leve.
- Mas ia ser muito difícil não ter uma melhor amiga.
- Eu não podia ser sua melhor amiga e namorada?
- Podia, mas e se eu tivesse puto com as merdas que você fez?
- Eu ia fazer merda?
- Você SÓ ia fazer merda! — Ele enfatizou, brincando.
- Marcelo! — Dei um soco de leve no braço dele.
Eu me inclinei em direção a beijá-lo. Quando o clima nos envolveu, algo me dizia que o ímpeto dele não seria de desviar, apesar de não sentir absolutamente nada. Não sei porque, e ao mesmo tempo acho que não sinto.
Meus lábios tocaram levemente os dele, até eu perceber a merda que estava fazendo. Isso deve ter durado menos de um minuto, mas realmente não sei porque o que procedeu esse momento foi uma angústia certamente nostálgica que me fez querer parar de pensar. Ou de viver aquela vida, de certo modo.
- Eu... eu... eu... — Eu tentava dizer.
- Tudo bem — Ele tentava me confortar.
- Meu Deus, me perdoa. Que merda de amiga eu sou? — Eu refletia minha atitude — O que o Igor vai pensar?
- Aline, tá tudo bem — Marcelo ainda tentava.
- É claro que não está, Marcelo.
- Aline.
- O que foi?
- Eu não te impedi.
- Você provavelmente não queria me magoar ou coisa assim. Eu que fui imbecil de ter tomado essa atitude.
- Você está longe de ser imbecil — Ele persistia a me consolar.
- Mas Marcelo, eu...
- Eu não te impedi — Ele voltava a falar. — Eu queria sentir tanto quanto você.
- Mas não sente — Completei.
- Sinto muito — Ele olhou para baixo, enquanto brincava com o próprio cabelo. Tinha um anel no dedo que eu não tinha notado até então. — Eu queria, seria muito mais fácil.
- Marcelo — Eu parei, finalmente.
- Sim?
- Se você gostasse de mim... — Fiz uma pausa, como numa "autorreflexão".
- Sim?
- Você não seria você — Sorri de leve, agradecendo pelo melhor amigo do mundo.
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